A nova história proibida do embaixador Bustani

Anos depois de afastado pelos EUA do braço da ONU contra as armas químicas, diplomata brasileiro foi impedido de falar ao Conselho de Segurança. Motivo: ele poderia desmontar a narrativa norte-americana sobre a guerra química na Síria

Por Bernardo Jurema, no Le Monde Diplometique Brasil

Em 1954, a Agência Central de Inteligência (CIA), o órgão de arapongagem do governo americano, levou adiante a operação secreta PBSuccess, a campanha de desestabilização do governo de Jacobo Árbenz, que culminaria com a sua derrocada em junho daquele ano. Washington financiou, armou e treinou milícias na Guatemala; liderou uma campanha de demonização da Guatemala liderada pelo pai da propaganda moderna, Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud; isolou a Guatemala no campo diplomático; e levou a cabo uma operação de guerra psicológica por meio de programas de rádio transmitidos de Miami. Foi o primeiro golpe de Estado totalmente organizado e executado pela CIA e que se tornaria paradigmático. A deposição de Árbenz pôs fim abruptamente ao breve experimento democrático iniciado com a revolução democrática de 20 de outubro de 1944, cujas conquistas sociais tornaram a Guatemala um modelo no Terceiro Mundo.

Na Indonésia, nesse período presidida pelo líder anticolonial Sukarno, um pequeno jornal, o People’s Daily (Diário do Povo), cobria diariamente os eventos que se desenrolavam na longínqua Guatemala. Uma manchete de primeira página dizia: “Amerika Menjerang Guatemala” (América ameaça a Guatemala); um longo artigo explicativo intitulado “Esta é a Guatemala” referia-se à “agressão americana”. Enquanto isso, o New York Times caracterizava os golpistas como “rebeldes”, o governo Árbenz como “ameaça comunista” e dizia que o governo americano estaria “ajudando” a mediar as conversações de paz – do conflito que ele próprio estava organizando e insuflando. Essa história é contada pelo jornalista Vincent Bevins em seu novo livro (sobre o qual escrevi aqui), que observa: “A maioria dos historiadores de hoje reconheceria rapidamente que este pequeno jornal comunista indonésio relatou os eventos com mais precisão do que o New York Times.”

Eu me lembrei dessa história por causa da sensação de déjà-vu gerada pela grande controvérsia que nesse momento envolve a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ, OPCW). Em novembro de 2019, cientistas da organização denunciaram anonimamente o fato de que altos funcionários suprimiram provas coletadas no local de um suposto ataque com armas químicas pelo governo sírio na cidade de Douma, em abril de 2018. Eles afirmam que as evidências coletadas contradizem a alegação de que o governo sírio teria realizado o ataque com armas químicas e que o relatório final, por pressão do governo Trump, teria sido “falsificado para favorecer uma conclusão predeterminada”, que justificou o bombardeio aéreo por Estados Unidos, Reino Unido e França em abril de 2018.

Essa história, inclusive, tem um brasileiro envolvido, o embaixador José Bustani, o primeiro diretor-geral da organização. Em 2002, Bustani buscava cumprir a missão do órgão que ajudara a criar, apoiando as inspeções no Iraque para eliminar armas químicas por meios diplomáticos. Por ter se tornado um obstáculo à invasão do Iraque, Bustani foi ameaçado por John Bolton, então subsecretário de Controle de Armas do Departamento de Estado, e retirado da presidência da OPAQ pelo governo Bush de forma irregular.

Há algumas semanas, a Rússia, que ocupa a presidência rotativa do Conselho de Segurança da ONU durante o mês de outubro, convidou Bustani para dar um depoimento sobre a denúncia dos inspetores da OPAQ, mas foi barrado pelos representantes de Washington, Londres, Paris e Berlim. Foi a primeira vez que uma audiência proposta pela presidência do Conselho foi barrada pelos outros membros. Bustani, que terminou por divulgar um vídeo em que lê o depoimento que teria feito no CS, afirma: “Independentemente de haver ou não substância para as preocupações levantadas sobre o comportamento da OPAQ na investigação de Douma, ouvir o que seus próprios inspetores têm a dizer seria um primeiro passo importante para consertar a reputação danificada da Organização. Os inspetores dissidentes não estão afirmando estar certos, mas eles querem ter uma audiência justa”. Outros convidados pela presidência rotativa foram Ted Postol, professor emérito do MIT e ex-conselheiro do Pentágono; Ian Henderson, um inspetor veterano da OPAQ, e Aaron Maté, jornalista independente que vem cobrindo essa história praticamente sozinho. Todos os três foram atacados e ignorados pelos diplomatas americanos, britânicos e franceses.

Toda essa história, com suas graves implicações para a diplomacia internacional, vem sendo estranhamente ignorada pela imprensa ocidental. Embora envolva um dos mais respeitados diplomatas brasileiros, a imprensa brasileira também tem se mantido calada sobre o assunto. O próprio Bustani criticou a falta de atenção da mídia. Os principais jornalistas brasileiros que cobrem política internacional têm se mantido totalmente alheios ao tema. Numa busca no Twitter, eu fiz o levantamento de quantas menções à OPAQ fizeram alguns deles:

João Paulo Charleaux, Repórter de política externa brasileira e de temas internacionais do Nexo: Zero.

Gustavo Chacra, comentarista da GloboNews, da TV Globo e da Rádio CBN em NY e colunista do Jornal O Globo: 3 resultados em meados de abril 2018.

Sylvia Colombo, correspondente da Folha de São Paulo para a América Latina e colunista do New York Times: Zero.

Jamil Chade, correspondente em Genebra : 2 tuítes, em 2013 sobre o Nobel da Paz recebido pela OPAQ.

Ariel Palacios, correspondente da GloboNews em Buenos Aires para América Latina: Zero.

Sandro Fernandes, correspondente em Bruxelas: 1 tuíte, novembro 2017

Diogo Bercito, repórter em Washington, ex-correspondente da Folha de S. Paulo: 3 tuítes em 2013.

Outro exemplo do silenciamento da mídia foi a conferência de imprensa do Ministério de Relações Exteriores alemão no dia 12 de outubro último, quando um jornalista (não identificado) indagou a porta-voz: “Na semana passada a Alemanha, juntamente com o P3, ou seja, os EUA, Grã-Bretanha e França, impediu o discurso planejado do primeiro secretário geral da OPAQ, José Bustani, perante o Conselho de Segurança da ONU. O Sr. Bustani deveria fazer um discurso para o Conselho de Segurança da ONU sobre as investigações da OPCW em Douma e sobre o controverso relatório final. Quais foram os motivos da Alemanha para bloquear este discurso?” A pergunta ficou sem resposta: “Nesse caso, eu entraria em contato com você, se necessário”, foi tudo o que a porta-voz pôde oferecer.

No 7 de abril de 2018, pelo menos 25 pessoas teriam morrido e mais de 500 ficado feridas no ataque químico em Douma, na Síria. Dois dias depois, uma equipe de inspetores da OPAQ aceitou um convite do governo sírio para examinar o suposto ataque. Imediatamente, dúvidas sobre a autoria dos ataques vieram à tona. Peter Ford, ex-embaixador do Reino Unido na Síria, indagou: “Por que ele [Assad, presidente sírio] faria uma coisa dessas quando já estava ganhando a batalha por Ghouta Oriental? Por que ele escolheria este momento para fazer a única coisa que lhe garantiria a derrota?”

No dia 17 de abril, o veterano correspondente do diário britânico Independent no Oriente Médio, Robert Fisk, publicou um artigo diretamente de Douma, em que o médico chefe da clínica onde o ataque teria ocorrido diz que os pacientes no vídeo usado para justificar os ataques de EUA/Reino Unido/França sofreram devido à falta de oxigênio, e não por causa de gás. O ex-correspondente internacional do New York Times e autor de livros importantes sobre a política externa americana, Stephen Kinzer, alertou em 27 de abril: “Os ataques convenientemente cronometrados que dão pretextos para a guerra, no entanto, nem sempre são o que parecem. A história sugere que devemos aguardar provas claras antes de cair em armadilhas bem armadas.”

Em março de 2019, a OPAQ publicou o seu relatório final sobre o ataque em Douma, concluindo que as evidências forneciam “fundamentos razoáveis de que o uso de um produto químico tóxico foi usado como arma” e que esse produto químico era “provavelmente cloro molecular”. No entanto, desde que esse relatório foi publicado, vários denunciantes se apresentaram, e muitos documentos foram vazados sugerindo um encobrimento dentro da OPAQ. Entre novembro e dezembro de 2019, e-mails e documentos internos divulgados por WikiLeaks revelaram que as provas indicando que não havia razões suficientes para concluir que o ataque com gás cloro tenha acontecido foram suprimidas pelos superiores da OPAQ, alegadamente a pedido de funcionários do governo americano. Ou seja, a OPAQ ignorou as conclusões de seus próprios investigadores para preparar um relatório que se encaixasse em uma narrativa específica que justificasse o bombardeio aéreo das potências ocidentais. Max Abrahms, professor de segurança internacional, especialista em terrorismo e fellow do Quincy Institute for Responsible Statecraft, na época escreveu: “O que aconteceu na Síria foi que o establishment político americano decidiu que os fins justificam os meios. A verdade não importava nada. Disseram-nos que Assad deveria ser retirado com base nos relatórios das armas de destruição em massa cujo próprios autores dizem ter sido manipulados para apoiar os ‘rebeldes’ que eram liderados pela Al-Qaeda e ajudavam o Estado Islâmico.”

A imprensa brasileira precisa urgentemente atentar para essa história. A importância de uma instituição multilateral como a OPAQ é seu papel em resolver conflitos de forma pacífica. Para que o multilateralismo funcione, é preciso uma imprensa cética às afirmações de governos e vigilante quanto às suas ações. É preciso, ademais, memória. Se não estamos escutando o que falam os denunciantes, respaldados por gente como o embaixador Bustani, permitiremos que instrumentos multilaterais sejam manipulados e crimes de guerra, perpetrados. Em 2002, Bustani foi retirado da OPAQ por tentar resolver pacificamente o problema das armas químicas no Iraque. O governo Bush o defenestrou do poder e seguiu com seu plano de invadir o Iraque, destruindo a sociedade iraquiana, matando centenas de milhares de pessoas, desestabilizando toda a região, criando as condições para o surgimento do Estado Islâmico e forçando milhões de árabes a se tornarem refugiados mundo afora. Agora, testemunhamos novamente a intervenção americana nesse órgão crucial para a prevenção de guerra química, com o intuito de prolongar outra guerra no Oriente Médio. O professor Postol denunciou a conivência da imprensa em janeiro de 2020: “Responsabilizo a imprensa por não fazer o que deveria para ajudar a proteger estes

[denunciantes]

. Acho que é criminoso”. Maté afirmou que “a autocensura da mídia se tornou um escândalo em si”. Em outro artigo, ele acrescenta: “A possibilidade de que os Estados Unidos tenham bombardeado a Síria com base em falsidades – e pressionado um órgão de investigação global a conceder essa legitimidade de intervenção após o fato – deveria quebrar o bloqueio da mídia.”

Voltando à história do começo desse artigo. Sydney Gruson, um intrépido correspondente do New York Times, tinha a intenção de investigar os “rebeldes” guatemaltecos que se estariam insurgindo contra o governo reformista de Árbenz. Frank Wisner, um dos fundadores da CIA e um dos seus principais líderes durante a década de 1950, pediu que o seu chefe, Allen Dulles, falasse com os superiores do jornal. Arthur Sulzberger, o Publisher do Times, impediu que Gruson levasse adiante a sua investigação, achando que ao fazer isso estaria realizando um ato patriótico. O golpe contra o governo democrático de Árbenz foi consumado, a imprensa ocidental aplaudiu, e o país centro-americano entrou num ciclo de violência e subdesenvolvimento que permanece até hoje. O caso da OPAQ é um exemplo de que o ímpeto intervencionista americano não é coisa do passado, e que a imprensa tem um papel decisivo para impedir – ou permitir – que esses ciclos de destruição e violência sigam adiante. Num outro paralelo com 1954, o único jornal no Brasil que vem noticiando o escândalo da OPAQ é o Hora do Povo, jornal marxista editado e publicado pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8).

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