O avanço do capitalismo no campo, em sete filmes

Dos golpes de Estado incentivados pelas corporações às populações que se deslocam pelo mundo em busca de uma vida melhor. Por meio de sete documentários, economista explica drama de camponeses atingidos pelo fundamentalismo do mercado

“Os Despossuídos”, de Mathieu Roy

Por Henri Acselrad, na Ecofalante

“As crianças que morrem afogadas no mar Mediterrâneo são filhas dos produtores rurais arruinados pela concorrência dos produtos agrícolas europeus subsidiados”.

O diagnóstico de Bokah, animador de uma cooperativa leiteira do Senegal, não aponta, por certo, a causa única da crise migratória que assola o norte da África desdeo início dos anos 2000. Sabemos que ela é movida também pelos conflitos pós-coloniais alimentados pelos interesses das grandes potências nas terras e nas riquezas minerais daquele continente. Mas essa explicação mostra-se muito pertinente, se considerarmos as imagens e os depoimentos do conjunto de documentários da sessão Economia da Ecofalante.

A Indústria do Leite mostra como as grandes corporações leiteiras se apropriam dos ganhos de produtividade da pecuária familiar europeia, maximizando seus próprios lucros na comercialização dos excedentes. Recorrendo à estocagem em massa de leite em pó, por exemplo, ao mesmo tempo que estressam o trabalho dos agricultores europeus, estimulam, nos países periféricos, o consumo de laticínios industrializados, eliminando qualquer possibilidade de concorrência por parte da produção camponesa da África, Ásia e América Latina. O fato de a agricultura europeia ser fortemente subsidiada para atingir ganhos de escala e produtividade crescentes não resulta em ganhos para os produtores familiares europeus, mas, sim, em maiores lucros para as grandes corporações. Em nome do “imperativo de combater a fome e assegurar direitos humanos à alimentação no mundo”, executivos das grandes corporações agroquímicas pressionam por desregulações que permitam reduzir seus custos e elevar suas margens de lucro, ao mesmo tempo em que desestruturam os padrões alimentares tradicionais baseados no leite in natura nos países importadores. Em uma cena antológica, uma promotora de produtos lácteos pretende explicar os benfeitos das corporações agroalimentares pelo fato “de o leite in natura conter ingredientes que podem ser úteis para o crescimento de chifres em bezerros, mas não para os seres humanos, enquanto outros ingredientes nutritivos faltam e são agregados pela indústria”.

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Em crítica a essa estratégia discursiva empresarial, Os Despossuídos mostra como a dita “ineficiência” da agricultura camponesa não é mais do que o resultado da aplicação – etnocêntrica, diriam alguns – de um cálculo simplório que compara insumo e produto em termos exclusivamente monetários, não considerando a produção social da fertilidade do solo, da biodiversidade, da água limpa e dos demais recursos ambientais de que necessita a produção de alimentos, como sempre ensinaram os saberes tradicionais do mundo rural. “A agrologia foi esquecida”, declara Paul Ecoffay, camponês suíço: “o solo é composto de 50 milhões de bactérias e 50 milhões de fungos”. Ao não se considerar sua complexidade, décadas depois da chegada da agricultura químico-mecanizada trazida dos EUA para a Europa, “vemos os sintomas do estrago”. Segundo Jadeep Hardika, jornalista indiano, “os subsídios dos EUA ao algodão lançam no desespero os produtores da África e Ásia. Dizem que os camponeses são ineficientes, mas são as grandes corporações que recebem terras e isenções fiscais do Estado.” “O fundamentalismo de mercado”, completa ele, “é o mais perigoso de todos, pois é o meio pelo qual serão recrutadas pessoas para os demais fundamentalismos. As milhões de famílias de produtores rurais que são desestruturadas alimentam as ondas de outros fundamentalismos.” E, também, os fluxos migratórios.

Eldorado, que documenta o resgate de refugiados no Mediterrâneo, se constrói pelo contraponto entre o sofrimento coletivo dos imigrantes clandestinos provenientes das antigas colônias europeias na África e o sentimento individual de perda que marcou a vida do diretor suíço Markus  Imhoff. A proximidade com a experiência dramática desses “condenados da terra” ativou a memória do diretor a respeito da morte de sua companheira de infância, Giovanna, uma refugiada italiana acolhida por sua família no imediato pós-guerra. Poderia o adoecimento de Giovanna ter sido evitado se ela tivesse podido permanecer na Suíça em lugar de ser enviada de volta à Itália? Os laços afetivos que o ligavam à menina não parecem, a Imhoff, em nada se manifestar hoje no modo como os refugiados são acolhidos na Europa do liberalismo econômico. É simples para um europeu ir da Europa para a África, pensa o diretor, mas não há caminho legal dos imigrantes da África para a Europa. As imagens que sua câmera registra deixam claro que, para os refugiados chegarem à Europa, “têm que pagar caro e arriscar a vida”. E, quando sobrevivem a travessias incertas e perigosas, têm de enfrentar as políticas restritivas, os acampamentos insalubres e as dificuldades de legalizar suas situações de vida e trabalho. Ao buscarem um lugar melhor, tentando deslocar-se no interior do continente, são parados por guarda-fronteiras que lhes mostram pedagogicamente os marcos da fronteira entre Estados que não os querem acolher: os refugiados percebem-se destinados a um não-lugar, a um lugar nenhum. Sem documentos, resta-lhes o trabalho ilegal na agricultura, sob o controle de máfias, e a prostituição. Os tomates plantados na Itália com seu trabalho semi-escravo irão para o norte da Europa, mas também para a África, onde certamente concorrerão com a produção local. Por vezes, poderão mesmo ser comprados por consumidores africanos com o próprio dinheiro que os imigrantes enviam para suas famílias.

Mas, mesmo quando alguns aceitam receber dinheiro para voltar a seus países de origem, o cerco parece se fechar. No mesmo momento em que o camponês Ba Yero era reencaminhado ao Senegal com a intenção de aplicar na compra de duas vacas o dinheiro que lhe foi entregue pelo governo suíço em troca de seu retorno ao país de origem, um novo acordo comercial estava sendo assinado entre a Europa e a África Ocidental. Os impostos de importação sobre o leite europeu foram então eliminados para facilitar o escoamento do excedente leiteiro da Europa e o leite importado ficou mais barato do que aquele que seria obtido das vacas do camponês retornado. É assim que as conexões locais das políticas globais em favor das grandes corporações ameaçam dramaticamente a sobrevivência do campesinato das economias periféricas.

Como explicita Golpe Corporativo, para o caso dos EUA, as transformações na esfera política que se seguiram à implantação das reformas neoliberais configuraram aquilo que o escritor canadense John Ralston Saul chamou de um “golpe de Estado em câmara lenta”, fazendo com que elites não-democráticas passem a ocupar a máquina pública. Como sustentara este autor, em 1995, em seu livro The Unconscious Civilization, ao longo de poucas décadas cresceu o poder das grandes corporações, levando a que a sociedade fosse sendo cada vez mais governada segundo as prioridades do mundo empresarial. Seguindo a linha do escritor George Orwell, Ralston sustenta que a linguagem é o campo de ação do crescente poder das corporações, dado o emprego de uma sintaxe e de expressões que ocultam e afastam as pessoas de uma percepção mais aguda da realidade. A retórica e a propaganda “normalizam a inverdade”, podendo fazer coexistir o poder das corporações com regimes não-democráticos. As coalizões de poder esforçam-se em convencer as pessoas de que o sistema democrático seria um simples subproduto do livre mercado. Enquanto isso, parques industriais são destruídos, tornando-se “zonas de sacrifício”, atravessadas por enormes viadutos do alto dos quais as áreas e as pessoas abandonadas não são mais visíveis. O projeto democrático, na perspectiva dos mais despossuídos, beneficiou até aqui apenas as elites, ainda que a globalização tenha sido apresentada como boa também para os trabalhadores. Firmas transnacionais tornaram-se, assim, as verdadeiras nações de hoje. Em se falando de cinema, uma tal substituição da nação pela corporação nos faz lembrar a cena do filme Forrest Gump, de enorme difusão, em que o personagem central, portador de “deficiência”, carregava, em marcha acelerada, as marcas-símbolo das grandes corporações norte-americanas em uma competição metafórica pela superioridade daquelas empresas e em testemunho de um “patriotismo empresarial” implicitamente enaltecido pelos próprios promotores do filme.

Um momento marcante dessa “virada empresarial” foi, nos EUA, a formulação do Memorando Powell, em 1971. Segundo esse antigo advogado da indústria do tabaco, conhecido por enfrentar as crescentes evidências científicas sobre os males à saúde causados pelo fumo, não se deveria ter “a menor hesitação em pressionar vigorosamente as arenas políticas para apoiar o sistema empresarial”. O estímulo à difusão de uma filantropia conservadora levou, assim, à criação de think tanks de direita que buscaram alcançar crescente influência no discurso político, na mídia e nas universidades.

Um mundo político tornado “burlesco” se instala com Trump: corte de impostos requerido pelas firmas, aumento do orçamento militar, esvaziamento das agências ambientais, judiciário crescentemente amistoso com relação às corporações. Ou seja, um sistema em que os cidadãos não são mais a fonte de legitimidade, mas, sim, os interesses de grandes grupos econômicos privados que configuram uma democracia representativa das corporações.

Sintoma da crise democrática é o fato de que um governante autoritário como Trump pôde receber apoio das próprias vítimas da globalização, que se sentiram traídas pelas promessas incumpridas do sonho americano. Ao lado da euforia das elites, jazem as áreas abandonadas, com sem-tetos, bens públicos degradados e devastação ambiental, num encontro entre coisas fora do lugar e homens fora do lugar. Menos fábricas e mais prisões. Em nome da primazia do mercado, reduziram-se os impostos, enquanto os acordos de livre comércio favoreceram a saída de indústrias para países com menores salários. Corporações se beneficiaram com o livre-comércio, mas o povo ficou sem trabalho, aumentando a distância entre ricos e pobres. Enquanto parte do eleitorado de baixa renda de áreas economicamente deprimidas transferiu seu apoio para a direita, em nome da criação de empregos, governantes diminuíram os direitos e a proteção do bem público. Tanto Trump como seus seguidores em outros países repetem a mesma ameaça: “a proteção ao meio ambiente destrói empregos”. Os agentes fortes no mercado conseguiram, assim, um poder suplementar para dividir os despossuídos: as ameaças de fechamento de fábricas tornaram-se uma tática eficaz nas estratégias empresariais de dividir os trabalhadores.

Mas a força das empresas é também empregada para ganhar mercados, tendo por base estratégias de modernização ecológica. Segundo A Mentira Verde, há uma tendência a que uma maquiagem verde do capitalismo venha a enganar os consumidores. Não basta, segundo seu diretor, agir através das escolhas individuais de consumo para mudar o padrão ambiental do capitalismo. É que alguns produtos ditos ambientalmente benignos, como o óleo de palma, embora apresentados com uma roupagem ambientalizada, são produzidos através do desmatamento e de queimadas em países distantes dos centros consumidores. Além de assumir um distanciamento crítico em relação à grande produção de mercadorias “esverdeadas”, o documentário questiona, junto com o professor Patel, da Universidade do Texas, as razões pelas quais se deveria achar que a solução virá por nossas escolhas individuais: “por que temos que escolher entre um café produzido com trabalho escravo e um café correto?”. É pela organização da sociedade e pela mudança das leis, respondem eles, que serão alcançadas mudanças, que surgirão através de conflitos e da eliminação de privilégios. Isso não exclui, poderíamos acrescentar, que aqueles que decidam politizar seus atos de consumo – notadamente através de uma dinâmica coletiva – também venham a dar sua contribuição, induzindo mudanças.

Ainda no campo da ação pelo consumo, Superalimentos procura investigar como funciona a cadeia produtiva dos superalimentos – aqueles que a mídia difunde como bons para a nutrição humana, como a quinoa e o teff, alimentos típicos da tradição rural da Bolívia e da Etiópia, respectivamente. Qual é o impacto que a difusão de seu consumo gera sobre os produtores familiares que os cultivam há séculos? O documentário mostra que quando se forma um mercado consumidor para esses produtos, as grandes corporações começam a produzi-los, fazendo com que seus preços de mercado caiam. Isso implica em eliminar do mercado a produção em pequena escala de origem tradicional: a vida dos camponeses “vira de cabeça para baixo” – dizem seus representantes – em razão dos preços internacionais, que não são mais capazes de cobrir os custos de produção. Quando não são inviabilizados por preços que não os remuneram, os produtores se verão ameaçados por pressões fundiárias dos grandes proprietários, como no caso do coco na Tailândia, ou da sobrepesca comercial, no caso do salmão canadense.

Para ir além da mera ação pelo consumo, os diretores de Utopia Revisitada sustentam a necessidade de se quebrar o anonimato na relação produção-consumo e encontrar formas de organização do consumo que deem segurança aos pequenos agricultores, liberando-os das incertezas dos preços internacionais. Essa estratégia orientou a experiência de cooperativas da Coreia do Sul, em que produtores e consumidores, em assembleias conjuntas, decidem sobre a produção e a distribuição, de modo a substituir o lucro monetário por um ganho de qualidade compartilhado por todos. A mudança no modelo de desenvolvimento, para ativistas do comércio justo, significa não só economizar recursos naturais, mas promover justiça global, construindo-se novas relações sociais e enfrentando os desafios de combater o consumismo e a obsolescência programada. A experiência de autogestão de uma fábrica ocupada por seus trabalhadores na França é exemplo da possibilidade de se mudar, ao mesmo tempo, a relação entre os trabalhadores e a relação deles com o produto e com as comunidades próximas. Emblema dessa lógica social é a nova imagem da marca da empresa, expressa pelo número de dias que os trabalhadores precisaram lutar para manter a fábrica aberta.

Nos distintos documentários, vários testemunhos sustentam que a crise ambiental é uma crise estrutural do capitalismo, que faz naufragar os mais despossuídos e, ao mesmo tempo, corrói as próprias bases ecológicas de sua reprodução. Fica em suspenso, porém, o modo como se dará a transição para outro modelo de sociedade. Alguns se perguntam sobre como mudar comportamentos e encontrar formas de ação a partir de sua condição de cidadãos e de consumidores. Outros consideram que se trata de uma questão de organização e de ação coletivas sobre o plano das políticas que modelam as leis e a ordem econômica global. O desafio maior que se coloca para todos é o de dar efetividade à ação política, quando a própria forma democrática encontra-se em crise, sob o ataque de coalizões de interesses que se apoiam no poder do dinheiro e em mecanismos de degradação da palavra, através dos quais, nos termos de Ralston Saul, alguns buscam “normalizar inverdades”.

*HENRI ACSELRAD é doutor em economia pela Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne), atualmente é Professor Titular do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ. É também pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e organizador de diversos livros, entre eles Meio Ambiente e Democracia, Conflitos ambientais no Brasil e Políticas territoriais, empresas e comunidades – o neoextrativismo e a gestão empresarial do “social”.

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