A aniquilação da vida – e dos que dançam o seu ciclo

Na cultura ancestral, a morte não é um lamento, mas a celebração da experiência radical de beleza e liberdade. Não é isso que Bolsonaro cultua. O que sua necropolítica promove é a interrupção prematura, a aniquilação da completude

Por Luiz Antonio Simas, no IREE

O presidente Jair Bolsonaro não é, como li dia desses, um sujeito que cultua a morte. Parece-me que o governo dele cultiva outra coisa: a aniquilação da vida. Ao propor a distinção, desloco a questão da morte para as percepções que dela têm as culturas que defino como “do encanto”. Para estas, a morte é a conclusão de um ciclo que celebra o que foi vivido e garante a sua permanência. A vida, por sua vez, é um fenômeno que transcende a fisiologia. Está vivo tudo que ainda canta.

O culto aos antepassados entre os povos originários da América e entre diversos povos africanos, por exemplo, aponta para a procura da boa morte, aquela que, advinda do ciclo natural da vida longa, sedimenta a permanência daquele que está fisicamente morto como um elemento ativo da comunidade.

Para o povo do candomblé, a morte não é um conceito, mas uma espiritualidade que precisa ser sistematicamente enfrentada, driblada, combatida, enganada, para que não nos acometa antes do fechamento do ciclo. Quando o tempo do ciclo é respeitado, a espiritualidade da morte – Iku – deve ser saudada, sentida e cantada com beleza e reverência no ritual do axexê. É a celebração serena da grande aventura do retorno em boa hora, aquela que Krishna, no Gita, ensina a Arjuna que não deve ser lamentada.

O que o governo brasileiro faz é outra coisa: aposta na desvida, em uma amarração colonial de aniquilação dos seres, no desencanto e na interrupção violenta da trajetória daqueles que prematuramente partem. Ao genocídio – uma política de aniquilação dos corpos e interrupção do ciclo da vida – junta-se o encantocídio, um projeto cotidiano de destruição do encanto fundado no rancor, na obtusidade, no combate à pluralidade e na propagação da violência física e simbólica como prática de uma política não poética.

Contra esse horror, lembro que as culturas fundamentadas em princípios de ancestralidade são, sobretudo, afirmativas da vida. Por isso celebram a morte. Para alguns pode parecer um paradoxo, mas elas são dinâmicas porque são tradicionais, são ancestrais porque são contemporâneas, e são vivas porque cultuam a boa morte.

Recordo aqui, e coloco na encruzilhada a referência para fechar a prosa, a bela reflexão que Guimarães Rosa faz em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias. Mas – o que é um pormenor de ausência. Faz diferença? “Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta” – Krishna instrui Arjuna, no Bhágavad Gita (…). As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Para os povos que bailam na encantação do mundo, o governo brasileiro, o presidente e todos os que compactuam com seu projeto, não cultua a morte, já que nega a vida. O que temos é um projeto medonho de aniquilação de tudo que podemos ser como experiência radical de beleza e liberdade, desviando-nos do caminho da completude que só se manifesta como afirmação da vida no momento em que ela se completa.

Ao atentar contra a vida, os desencantadores atentam também contra a morte e tudo aquilo que ela guarda como sentido da poética do ser na belezura da mata do mundo. Não é só o direito de viver que está nos sendo tirado; mas também o direito de morrer e permanecer dançando.

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