O vírus ataca, enfim, quem mais o negou

Por meses, Donald Trump disseminou negligência e descaso em relação à covid-19 — e tentou transformar esta atitude numa pauta da ultra-direita. O fato de estar contaminado é o menor dos imensos males — e mortes — que provocou

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TRUMP ESTÁ COM COVID-19

Via Twitter, o presidente dos Estados Unidos anunciou no início desta madrugada que ele e a primeira-dama Melania Trump estão com covid-19. Na publicação, ele disse que ambos começariam a quarentena (na verdade, o termo correto seria isolamento) “imediatamente”. Um memorando da Casa Branca confirmou a notícia em seguida.

O casal fez exames logo depois que uma assessora próxima a Trump, Hope Hicks, recebeu diagnóstico positivo. Ela viajou com o presidente várias vezes esta semana e estava no debate de terça-feira –  em que o candidato à reeleição zombou de seu oponente, Joe Biden, por ele sempre aparecer publicamente usando máscaras. Aliás, a própria Hicks estava sem proteção no debate, ao menos em parte dele. E também foi fotografada sem máscara dias atrás em um comício na Pensilvânia, batendo palmas ao som de Village People’s.

Nenhuma surpresa quanto a isso, já que a comitiva de Trump não é grande adepta dos equipamentos de proteção. Vários de seus eventos de campanha, em locais fechados e lotados de gente sem máscara, são potenciais fontes de transmissão. Logo após um dos comícios, o ex-candidato republicano à presidência Herman Cain contraiu o coronavírus e morreu. Até demorou para o presidente se infectar, considerando o grande número de pessoas próximas que já foram contaminadas.

O médico de Trump disse que ele passa “bem”. Por sua idade e peso, ele faz parte do grupo de risco. Porém, obviamente terá à sua disposição o melhor atendimento médico que alguém poderia desejar.

O diagnóstico chega a apenas 33 dias da eleição e muda radicalmente os planos da campanha eleitoral. Afinal, mesmo que Trump não tenha sintomas, precisa ficar isolado por 14 dias, segundo as diretrizes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças do país. Se vier a adoecer, ressalta o New York Times, isso pode até mesmo levantar dúvidas sobre se sua candidatura deve ser mantida. Em caso de agravamento, a recuperação pode levar semanas.

Há indagações interessantes sobre a linha do tempo que antecede o diagnóstico positivo de Trump. A suspeita principal é que Hope Hicks tenha lhe passado o vírus. Mas como os diagnósticos vieram com apenas um dia de diferença (e como Hicks precisava ser testada diariamente para viajar com Trump), pode ser que ambos tenham se infectado por outra fonte comum, considerando o que se sabe sobre a transmissão do SARS-CoV-2. Estaria aí uma bela oportunidade para fazer um rastreamento retroativo de contatos.

Em tempo: um estudo da Universidade Cornell aponta que Donald Trump é, em todo o mundo, o maior disseminador de fake news sobre o coronavírus. O levantamento foi feito a partir da análise de 38 milhões de notícias em inglês entre janeiro e maio, e as menções a Trump estão em quase 40% dos conteúdos com informações falsas.

A VERSÃO DO PLANALTO

Falamos ontem sobre uma bela descoberta da Folha: a de que o governo federal repassou ao programa Pátria Voluntária, da primeira-dama Michelle Bolsonaro, R$ 7,5 milhões doados pela Marfrig exclusivamente para a compra de testes rápidos de covid-19. O caso teve uma repercussão imensa. O PSOL e o PCdoB afirmaram que pretendem acionar o TCU (Tribunal de Contas da União), e a bancada do PSOL na Câmara anunciou que pediria ao Ministério Público Federal que apure o caso. O MP deve mesmo entrar em ação: o subprocurador-geral Lucas Furtado já pediu a abertura de uma investigação

Mas o Planalto se defendeu. afirmando que não há nada de errado. Em nota à imprensa, a Secretaria de Comunicação disse que o repasse foi legal. Contrariando a versão da Marfrig, a Secom diz que, em maio, o Ministério da Saúde recusou a doação porque “porque não precisava mais dos equipamentos” para os testes; a empresa teria então procurado o Pátria Voluntária para oferecer a verba para a compra de alimentos e produtos de higiene. A Marfrig nega, dizendo que a mudança na destinação dos recursos só ocorreu em julho, depois do depósito.

DISTOPIA CARIOCA

A taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 na capital do Rio está em quase 80%, considerando as redes municipal, estadual e federal; contando só a do município, chegou a 88,4% ontem. Na rede privada, também há sufoco: segundo a Folha, os hospitais particulares  têm cerca de 90% de suas vagas ocupadas. “Nos últimos 15 dias tivemos uma pressão maior. Começou a internar muito mais paciente grave, e as vagas para covid estão quase cheias na cidade”, diz Graccho Alvim, diretor da Aherj, associação de hospitais do estado.

Mas em vez de tentar reduzir as infecções, o prefeito Marcelo Crivella decidiu liberar casamentos, formaturas, casas de show, apresentações de música ao vivo, circos e outros eventos a partir de ontem. Festas e cermônias podem acontecer inclusive em espaços fechados. As únicas restrições: o público deve ser de no máximo um terço da capacidade total, não pode haver pista de dança, self-service ou compartilhamento de objetos (algo que, convenhamos, não deve ser fácil de controlar). Já as casas de show podem operar com 50% da capacidade. Algumas escolas particulares também retomaram as atividades presenciais ontem, e a expectativa é que todas voltem até o fim da próxima semana. Soa como chacota a declaração do prefeito de que espera “que as pessoas estejam conscientes da necessidade de usar máscara, manter higienização das mãos e evitar aglomeração, até que tenhamos a vacina contra a covid-19″.

Em todo o país, foram confirmadas ontem mais 881 mortes. Parte significativa delas (114) vem de Manaus, mas são casos de abril e maio que haviam sido computados como SRAG não especificada; e só agora a covid-19 foi confirmada. 

BEM DE PERTO

A Fiocruz e o Inmetro conseguiram registrar, em imagens com ampliação de 200 mil vezes, a ação do SARS-CoV-2. As fotos mostram que as células infectadas criam certos prolongamentos de membrana, como fios, que se conectam com outras células. Os pesquisadores acreditam que esses prolongamentos – que promovem comunicação entre as células – podem estar relacionados à transferência de partículas virais de uma célula a outra. “São poucos os vírus que causam esse tipo de alteração em células, como ebola e Marburg. O processo que leva as células a ter esse tipo de alteração na infecção pelo SARS-CoV-2 é uma questão que ainda está em aberto e que queremos investigar”, diz a pesquisadora  Débora Vieira, coordenadora da pesquisa. 

TEVE INÍCIO

A Anvisa anunicou ontem que começou o processo de revisão para registro da vacina de Oxford/AstraZeneca. Os resultados da fase 3 dos testes ainda não saíram, mas como dissemos ontem, a agência decidiu adotar um sistema que simplifica as coisas, analisando os dados na medida em que eles são gerados. Por ora, a área técnica começou a analisar apenas as informações referentes aos ensaios não-clínicos, que não envolvem seres humanos.

O QUE FICA PARA TRÁS

A Vale anunciou em setembro que sua unidade em Simões Filho (na Bahia) seria fechada até o fim do ano, porque não conseguiu se manter “competitiva no mercado”. A ótima matéria da Repórter Brasil mostra o rastro de contaminação que a mineradora deixou para trás: a siderúrgica ficava a apenas dois quilômetros de casas de moradores, e o processamento de manganês cobria tudo de uma fuligem pegajosa. Falta de ar, náusea, pneumonia e problemas neurológicos são alguns dos problemas de saúde aos quais à população esteve submetida. E alguns deles vão persistir, mesmo com o fechamento da fábrica

Há 30 anos, altos níveis de manganês já haviam sido detectados na população no entorno. Acontece que o manganês se deposita no cérebro e, anos depois, pesquisadores da UFBA começaram a investigar seus efeitos: “Fizemos uma bateria de testes psicológicos nas crianças. E comprovamos que essa exposição elevadíssima do composto prejudica o desempenho intelectual delas, especialmente na escala verbal, mas também na capacidade cognitiva, além de estar relacionada a problemas comportamentais, como aumento de agressividade”. Depois, descobriu-se que as as mães tinham o mesmo tipo de problema. 

Ainda em 1999 a Vale assinou um Termo de Ajustamento de Conduta se comprometendo a destinar verbas para compensar os problemas provocados. Mas a promotora de Justiça Hortênsia Gomes Pinho, responsável pelo acordo, considera que ele nunca foi integralmente cumprido: as compensações à comunidade foram insuficientes, e ainda por cima foram feitas por tempo limitado. Elas já foram liquidadas, enquanto os moradores vão continuar sofrendo.

E por falar em mineração, a ANM (Agência Nacional de Mineração) informou ontem que 45 barragens estão interditadas no Brasil. O país tem ao todo 436 inseridas na Política Nacional de Segurança de Barragens. Ou seja, uma em cada dez não tem sua estabilidade garantida.

EM DIÁLOGO

Esta semana aconteceu o evento Business Dialogue, da Câmara de Comércio Internacional de Genebra. E, pelo segundo ano consecutivo, o encontro colocou na mesma mesa a indústria do tabaco e as Nações Unidas: num painel para discussão do “papel das multinacionais na recuperação econômica após a pandemia”, estiveram juntas  Teresa Moreira, do UNCTAD – o principal órgão da ONU para questões de comércio, investimento e desenvolvimento – e Gabriela Wurcel, da Philip Morris International. Esse tipo de encontro é considerada um tabu na ONU, diz, no site Health Policy Watch, um funcionário da OMS que não quis se identificar. 

O evento é um exemplo da grande influência política da indústria do tabaco. E, como o tema era a covid-19, tudo se torna ainda mais irônico, já que fumantes têm mais chances de apresentar formas graves da doença… “A indústria do tabaco não pode estar envolvida na recuperação econômica”  diz  Mary Assunta, do Global Center for Good Governance in Tobacco Control, ressaltando: “Seus produtos tradicionais matam oito milhões de pessoas por ano e causam pobreza e sofrimento humano. Seus novos produtos [tabaco sem fumaça e sistemas eletrônicos de entrega de nicotina] resultam no vício dos jovens e causam danos à saúde”. 

MARQUES CONFIRMADO

Jair Bolsonaro confirmou ontem a escolha do desembargador Kassio Nunes Marques para assumir uma vaga no STF. Em transmissão ao vivo, disse que já tomou “muita tubaína” com ele, e que “a questão de amizade é importante” nesse caso. Ele precisou se defender de apoiadores: recebeu críticas de que Marques seria “petista” e “comunista”… Você quer que eu troque o Kassio pelo Sergio Moro?“, reagiu o presidente.

O desembargador não é o nome “terrivelmente evangélico” que havia sido prometido. Mas Bolsonaro refez o compromisso, lembrando que ainda há outra vaga prevista para o Supremo no ano que vem. “Primeiro pré-requisito (para a segunda vaga): tem que ser evangélico, terrivelmente evangélico. Outro: tem que tomar Tubaína comigo”, disse o presidente. 

GRANDE SALTO

Só entre janeiro e agosto de 2020 foram assassinadas mais pessoas trans e travestis do que em todo o ano passado. Segundo a Antra (a Associação Nacional de Transexuais e Travestis), em oito meses foram 129 mortes, contra 124 em 2019.  “Esses dados  nos revelam quem são as pessoas que puderam parar [durante a pandemia]. Podemos afirmar que as mulheres trans e travestis que atuam ou têm a prostituição como fonte primária de renda não pararam em nenhum momento”, nota Bruna Benevides, secretária de articulação política da Antra. Todas as 129 pessoas assassinadas este ano eram travestis ou mulheres trans. 

NOVA VACINA NO SUS

A Conitec decidiu incorporar no SUS a vacina ACWY para a prevenção da meningite. Em até 180 dias, ela passa a fazer parte do calendário de vacinação para adolescentes entre 11 e 12 anos. Até agora, as vacinas disponíveis no sistema público para essa doença eram as meningocócicas C (para crianças de três meses a menores de cinco anos e adolescentes de 11 a 14 anos) e a ACWY apenas para pacientes com hemoglobinúria paroxística noturna, uma doença genética rara.

DIA D x DIA C

Sabemos que o governo federal vai promover amanhã o Dia D contra a covid-19 – depois que as videoaulas sobre hidroxicloroquina foram vetadas pelo ministro Eduardo Pazuello, não se sabe muito bem como ele vai se desenrolar. De todo modo, o Instituto Questão de Ciencia decidiu fazer na mesma data o ‘Dia C de Conscientização da Covid’, com pesquisadores e ex-ministros da Saúde, ara apresentar informações sobre a covid-19 pautadas em ciência.

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