Covid: como o governo prepara o Natal Tenebroso

Todos os dados indicam aceleração veloz da pandemia. Mas além da protelar ou sabotar adoção das vacinas, ministério da Saúde continua sonegando testes que ele próprio comprou. E mais: estudos mostram eficácia da Sputnik V russa

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OS SINAIS NÃO PARAM DE CHEGAR

Segundo o Imperial College de Londres, a taxa de transmissão do novo coronavírus (Rt) no Brasil é a maior desde maio: chegou a 1,3 esta semana, depois de estar em 1,1 no último dia 16. O número atual significa que cada cem pessoas transmitem o vírus  em média a mais outras 30. A ferramenta Info Tracker, desenvolvida por pesquisadores da USP e da Unesp, aponta um número ainda pior: 1,54. Esse levantamento também dá as taxas regionais. No Sul, que tem a pior situação, é 1,88. No Sudeste e no Nordeste, 1,53. Depois vem o Norte (1,1) e o Centro-Oeste (1,08). Segundo o Info Tracker, a média nacional passou de 1 no dia 6 de novembro. “A matemática não resolve mais, são necessárias medidas de contenção, mais do que nunca. Não só utilização de máscaras e álcool em gel, mas medidas mais efetivas do poder público. É muito provável que tenha que reavaliar os planos de retomamada da economia”, avalia Wallace Casaca, um dos desenvolvedores da plataforma, n’O Globo. 

Não costumamos tratar muito do Rt aqui na newsletter por três motivos. O primeiro é que o Brasil é um país enorme onde médias nacionais acabam dando pouca dimensão das realidades locais (nesse ponto, as taxas regionais do Info Tracker são bem interessantes). O segundo é que para o cálculo dessa taxa são necessários os dados da pandemia no país, e sabemos que, no Brasil, eles deixam a desejar – se já eram ruins antes, o apagão estatístico no Ministério da Saúde no início do mês piorou ainda mais as coisas e provavelmente ainda gera impacto nos dados. Há duas semanas, quando várias mortes e casos pararam de ser computados, o Rt medido pelo Imperial College chegou a 0,68, mas justo pela precariedade dos dados era óbvio que se tratava de um número nada confiável. Por fim, está cada vez mais evidente que questões mais importantes do que o Rt podem definir os rumos da pandemia, com o notável papel dos eventos de superespalhamento: diversos estudos têm demonstrado que 20% dos infectados são responsáveis por mais de 80% das contaminações, enquanto a maioria das pessoas não passa muito o vírus adiante.

Mesmo assim, a alta taxa deve indicar que, na média, algo vai muito mal no país. Sobretudo se a observamos junto com os dados alarmantes de internações que chegam de vários estados, e que temos relatado por aqui. O Infogripe, que monitora casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) notificados, publicou ontem seu boletim com dados de 15 a 21 de novembro. Há 12 capitais com sinais de alta na tendência de longo prazo – as piores são Belo Horizonte, Campo Grande, Maceió e Salvador. Em 21 estados há pelo menos uma macrorregião de saúde com tendência de alta no longo ou curto prazo. Ontem foram confirmadas mais 638 mortes no país; a média dos sete dias anteriores ficou em 491. 

Faltando 30 dias para o Natal, a preocupação é grande.

QUASE 7,5 MILHÕES

Pelo menos 605,5 mil testes estocados nos estados perdem a validade entre dezembro e janeiro. Apenas São Paulo responde por 220 mil deles, com vencimento no próximo mês. Com isso, o número total de exames que podem, em breve, ir parar na lata do lixo chega a quase 7,5 milhões – contando com os 6,86 milhões sob a guarda do Ministério da Saúde. O levantamento é de Mateus Vargas, do Estadão, e foi feito a partir de informações de 17 estados e do Distrito Federal. Mas esse número pode ser maior, já que nove estados se recusaram a fornecer os dados. São eles: Acre, Alagoas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Santa Catarina.

Sergipe é apontado na reportagem como um exemplo do problema de o governo federal repassar o teste sem os insumos necessários para sua realização. De acordo com o governo sergipano, 400 mil exames PCR chegaram ao estado em outubro acompanhados de apenas 110 mil reagentes de extração. Há também uma flagrante desorganização interna, já que o estado sequer soube informar quantos desses testes vencem nos próximos meses. 

Segundo a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial, que defende os interesses de 48 empresas, cerca de 15 milhões de testes no país podem vencer sem terem sido usados.  

COMO A ANVISA TEM SE POSICIONADO

O Ministério da Saúde conta com o aval da Anvisa para conseguir se livrar do esqueleto no armário da vez: 6,86 milhões de testes PCR com vencimento entre dezembro e janeiro do ano que vem. Mas o Valor conta que pleitos semelhantes foram negados pela agência recentemente. Autorizar a extensão do prazo de validade de um produto a Anvisa até autoriza…

“O problema é que a decisão só vale para novas importações, ou seja, produtos que já estejam em estoque não podem ser utilizados”, resume o repórter Murillo Camarotto, que apurou que na última reunião da diretoria colegiada, realizada no dia 12, foram rejeitados três pedidos do gênero feitos pelas empresas Oltramed,1000Medic Distribuidora e VR Medical.

Essa última história tem detalhes que ajudam a colocar em perspectiva o caso envolvendo a gestão Eduardo Pazuello. A empresa VR Medical importou da China lotes de um teste sorológico, aquele que detecta anticorpos de quem já ficou doente. O registro foi concedido pela Anvisa em março, com data de validade definida em seis meses. 

Com base em novos estudos feitos pelo fabricante que atestavam a durabilidade do teste, em junho a empresa pediu que a agência estendesse o vencimento do produto para 12 meses. A Anvisa concordou. 

Mas negou o pedido de que os lotes que já estavam no Brasil fossem manuseados, a fim de atualização das datas. A agência argumentou que há a “possibilidade de complicações advindas da inadequada execução do retrabalho, por empresa que não faz parte do sistema de qualidade do fabricante”.

Diante disso, a VR Medical solicitou que a mudança fosse aprovada sem a necessidade de adequação de todos os rótulos. O pedido também foi rejeitado. Um parecer da Procuradoria-Geral junto à Anvisa, datado de 9 de novembro, afirma que para além dos riscos de manuseio, a legislação brasileira proíbe a remarcação. 

A empresa foi aos tribunais, alegando que a posição da agência era ilegal, equivocada e tinha “efeito desastro para o cenário atual de combate à pandemia”. Teve seu pleito negado pela 13ª Vara Federal de Brasília. 

Agora é esperar para ver o posicionamento da Anvisa no caso que tem potencial para derrubar do comando do ministério o general especializado em logística. 

Falando em Pazuello, ontem o ministro desviou de perguntas sobre os testes que mofam no depósito em Guarulhos. Ele estava de saída de um evento no Conselho Nacional de Justiça e deixou o local sem falar com a imprensa. O silêncio de Pazuello, em breve, pode ficar ainda mais ensurdecedor. Isso porque a comissão do Congresso encarregada de acompanhar as ações do governo para combater a pandemia aprovou uma audiência pública com o ministro sobre o caso, ainda sem data marcada. Mas, como se trata de um convite, o general não é obrigado a ir.

TEM, MAS NÃO GASTA

Da Justiça à Cidadania, passando pela Saúde, o governo Bolsonaro não consegue gastar o dinheiro destinado para lidar com a pandemia. A praticamente um mês do fim do ano – ou seja, com os dias de orçamento de guerra contados –, relatórios da Câmara dos Deputados dão conta de milhões paralisados no Tesouro. Uma reportagem da Folha aponta os casos mais chocantes da paralisia federal.   

Todo mundo concorda que acesso à água potável é fundamental para a prevenção da covid-19 – e uma medida provisória de setembro autorizou que o governo gastasse R$ 86 milhões com a construção de cisternas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. Adivinha quanto foi gasto? Nada. Procurado pela reportagem, o Ministério da Cidadania deu a confusa justificativa de que o dinheiro deveria ir para escolas no Norte e que faltam projetos, convênios e licitações. 

Ainda no rol dos gastos inexistentes ou ínfimos, temos outro exemplo incompreensível. Há R$ 17,2 milhões autorizados desde maio para a assistência à saúde nos presídios brasileiros, mas apenas R$ 2,4 mil foram gastos pelo Ministério da Justiça. O departamento responsável pelo sistema penitenciário também dá uma resposta evasiva de que a MP “foi baseada em planejamento inicial abrangente, considerando o cenário não conhecido sobre o avanço da doença no sistema prisional”.

Chegando ao Ministério da Saúde, a tática é a mesma usada para justificar os 6,8 milhões de testes PCR encalhados: empurrar a culpa para os outros. Em maio, uma MP destinou R$ 338 milhões para a contratação de cinco mil profissionais de saúde. Até o dia 20 de novembro, apenas 4,6% do montante tinha sido gasto. A desculpa da pasta é que as contratações foram feitas a partir de demandas de estados e municípios, que precisavam atender critérios para acessar os recursos.

A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares gastou só R$ 17 milhões dos R$ 70 milhões autorizados desde abril para abertura de leitos e compra de equipamentos nos hospitais universitários. A estatal também justifica que a execução orçamentária ocorre de acordo com a demanda dos HUs…

AGORA ESTÁ MELHOR

Mais uma candidata a vacina teve uma alta eficácia divulgada ontem: a Sputnik V. É verdade que o governo russo já tinha dito duas semanas atrás que havia uma eficácia de 92%, mas na época a informação partia apenas dos dados de 20 infecções encontradas ao longo da fase 3 dos ensaios. Agora, esse número subiu para 39 casos, oito no grupo que recebeu a vacina e 31 no que tomou o placebo (nesse ensaio, só 25% dos voluntários receberam o placebo). O imunizante foi aplicado em duas doses e a eficácia foi calculada em 91,4% sete dias após a segunda dose. Quando observados 21 dias após a segunda dose, os dados indicam uma proteção ainda maior, de 95%. A próxima análise preliminar vai ser feita quando foram identificados 78 casos de infecção.

Assim como a vacina de Oxford, a Sputnik V usa um adenovírus como vetor. Para evitar que a resposta imunológica ao vetor atrapalhasse o impacto da injeção de reforço (como parece acontecer com o imunizante de Oxford), foram usados adenovírus diferentes em cada dose.

Kirill Dmitriev, presiente do Fundo Russo de Investimentos Diretos (que financia a pesquisa) disse que os desenvolvedores planejam publicar os resultados em um periódico científico, com revisão de pares. Ele afirmou ainda que cada dose deve ser vendida por cerca de US$ 10, um preço semelhante ao da CoronaVac no contrato com o Instituto Butantan (US$ 10,40).  Seria então muito mais cara que a de Oxford (US$ 3 a US$ 4), mas bem mais em conta do que as opções da Pfizer (US$ 19,50), e da Moderna (US$ 25). Importante dizer que a Sputnik V só exige resfriamento padrão, o que facilita a logística de distribuição.

NENHUMA DIFERENÇA

O tratamento com plasma de pacientes curados já foi uma das grandes apostas contra o novo coronavírus, e a FDA (a Anvisa dos EUA) chegou a conceder uma autorização emergencial para o seu uso. Mas, assim como outras curas milagrosas, ele não parece funcionar, ao menos para pessoas hospitalizadas. É o que mostra um ensaio clínico com 333 pacientes feito na Argentina e publicado no New England Journal of Medicine.

O estudo seguiu o padrão-ouro da medicina baseada em evidências: foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Todos os pacientes receberam o tratamento-padrão e 93% deles receberam esteroides como a dexametasona (o único tipo de remédio que já demonstrou redução nas taxas de mortalidade); 228 foram também tratados com plasma, enquanto 105 receberam um placebo. Um mês depois, 68,6% e 61,8% dos pacientes que receberam placebo e plasma convalescente, respectivamente, receberam alta em boas condições. A taxa de mortalidade também foi quase a mesma: 11% no grupo de plasma convalescente e 11,4% no grupo de placebo. As diferenças não foram consideradas estatisticamente significativas. 

Os autores ressaltam, porém, que as conclusões se restringem aos pacientes hospitalizados em estado grave. Há outros estudos em curso para investigar a ação do plasma em pessoas recém-diagnosticadas que apresentam fatores de risco para a covid-19. 

O PIOR LUGAR DO MUNDO

Nas últimas semanas o coronavírus tem se espalhado sistematicamente nas regiões rurais dos Estados Unidos, onde, além de leitos hospitalares, faltam profissionais para manejá-los. No Meio Oeste, a proporção de casos é mais que o dobro de qualquer outra região do país. Entre junho e novembro, aumentaram 20 vezes. Dakota do Norte tem, segundo uma pesquisa da Universidade de Harvard, o pior índice de mortalidade do mundo: uma morte para cada mil habitantes. Por lá, a semana passada teve 1,7 mil novos casos diários por milhão de habitantes, enquanto, na Dakota do Sul, foram 1,5 mil. Nova Iorque, que já foi epicentro mundial da pandemia, nunca passou de 500.

Ajudando a impulsionar os números está o fato de que, nas cidades e estados dessa região, há relutância em impor medidas como uso de máscaras e distanciamento social. Segundo a Reuters, uma influência direta de Donald Trump sobre governantes e sobre a população, visível a olho nu. 

SUBIU E DESCEU

O Brasil teve até agora 973 mil casos de dengue registrados este ano, segundo dados do Ministério da Saúde. O total representa uma redução de 35,5% em relação ao mesmo período de 2019, mas isso pode ser fruto de subnotificação. Até a semana em que foi declarada a pandemia, a curva de casos da doença era maior que a do ano passado, e passou a cair desde então. 

A matéria da Folha nota que a hipótese da subnotificação é levantada em documento da própria pasta, mas foi ignorada no evento em que, ontem, representantes do Minsitério divulgaram os dados. “Esta redução pode ser atribuída à mobilização que as equipes de vigilância epidemiológica estaduais estão realizando diante do enfrentamento da emergência da pandemia do coronavírus, o que pode estar ocasionando atraso ou subnotificação das arboviroses (…) Outro fator importante que pode estar associado ao contexto da pandemia é o receio da população de procurar atendimento em uma unidade de saúde”, diz o documento

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