Um governo que destrói florestas e ignora dados

Desmatamento na Amazônia, em junho, foi de 951 km² — um crescimento de 15%. Governo, em manobra costumeira, finge não acreditar nas pesquisas. Leia também: a importância do pós-parto na saúde da mãe, e muito mais

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O DESMATAMENTO E O GOVERNO

O desmatamento na Amazônia em junho foi o pior desde 2016 e, em comparação com o mesmo período do ano passado, cresceu 88%. Os dados foram divulgadas ontem pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e saíram do sistema Terra Brasillis, que fiscaliza, por imagens aéreas, alertas de focos de desmatamento no país. Foram desmatados 951 km2 no mês passado, sem contar fatores como incêndios florestais e a exploração comercial de florestas plantadas. Pegando o acumulado entre agosto de 2018 e junho deste ano, o desmatamento cresceu 15% em relação aos 12 meses anteriores. 

As informações precisam ainda ser analisadas junto com outras fontes: o Terra Brasilis não consolida o desmatamento como o MapBiomas,que reúne informações coletadas ao longo do ano e ‘limpa’ interferências possíveis, como nuvens, para apresentar o dado consolidado. 

De todo modo, são muito preocupantes. Mas o governo federal, como de praxe, desconfia de dados. Pouco antes da divulgação, o ministro do GSI Augusto Heleno havia dito à BBC que os “índices de desmatamento na Amazônia são forjados“. Já titular da Agricultura, Tereza Cristina, disse que “se houver preocupação, o Brasil vai agir, sim. Se não houver preocupação, nós vamos esclarecer os dados para todos, para maior transparência”. Falou ainda que o Brasil não agride o meio ambiente e que é preciso “tirar um pouco desse ‘ideologismo’ ” que cria tal imagem. Foi em uma coletiva sobre o acordo Mercosul-UE. 

Até o fechamento desta newsletter, não encontramos nenhuma declaração de Jair Bolsonaro. Nem no Twitter.

UMA CHANCE

Ao mesmo tempo, um estudo publicado ontem na Science Advances indica que o Brasil é o país com maior área adequada para recuperação de florestas, com 100 milhões de hectares onde essa recuperação é viável.

BRANDING

No El País, Eliane Brum parte do caso Holiday-aborto para falar de um “reposicionamento de marca” do MBL, ao afastar-se figura de Bolsonaro (cujo futuro é imprevisível), justificando constantemente as mudanças pelo termo “amadurecimento”, mas buscando manter seus apoiadores.  Exemplifica com Kim Kataguiri e Fernando Holiday – ambos filiados ao DEM, e não ao PSL. Enquanto o primeiro, em Brasília, se concentra nas bandeiras liberais, como a Reforma da Previdência, o segundo “age nos temas morais”, como o aborto: “Fernando Holiday, sabe que o projeto pode ser contestado na Justiça porque extrapola a competência do município. A constitucionalidade, porém, não importa. Não importa se o projeto vá adiante ou não, importa ser relacionado por eleitores à ‘defesa da vida’, mesmo que isso comprovadamente signifique a morte de mulheres. Importa manter seguidores que começam a se afastar e importa também conquistar seguidores novos, especialmente entre evangélicos neopentecostais”.

PORTA DE ENTRADA

O Ministério da Saúde anunciou o credenciamento de  mais 9.987 equipes e serviços de atenção primária em 1.208 municípios, o que, segundo estimativas da pasta, deve atingir 10 milhões de pessoas. O investimento vai ser de R$ 233,7 milhões neste ano e de quase R$ 400 milhões a partir de 2020 – o objetivo é conseguir, até o ano que vem, cobertura de 70% da população pela Estratégia Saúde da Família (hoje, são 63%). Quem anunciou foi o ministro Mandetta durante o Congresso do Conasems, que está acontecendo em Brasília e vai até amanhã. 

PREVIDÊNCIA

O relatório final do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) deve ser votado hoje pela Comissão Especial da Reforma da Previdência. A leitura começou ontem à noite, avançou madrugada adentro e a votação chegou a começar – e isso deve impedir que novas mudanças sejam feitas no texto. A comissão se reúne de novo hoje de manhã para retomá-la. 

Se for aprovado, o texto segue para o plenário. Onde, garantiu Rodrigo Maia, “tem mais voto do que esperava“. 

PARA PENSAR

Duas nações ricas com dois jeitos totalmente diferentes de lidar com os meses  após o parto mostram como a saúde materna está intimamente ligada ao apoio nessa fase. A Suécia foi o foco dos estudos de duas pesquisadores da Universidade de Stanford, que também chamaram a atenção para o caso dos Estados  Unidos. Elas viram os impactos da política sueca de permitir aos pais tirar até 30 dias não-consecutivos de trabalho para estarem ao lado das companheiras no primeiro ano da criança. A medida entrou em vigor em 2012 (antes, havia uma permissão de passar 10 dias corridos em casa, nos três primeiros meses) e, desde então, a probabilidade de serem receitados remédios ansiolíticos nos seis meses após o parto caiu 26%; a necessidade de antibióticos também diminuiu 11%.  E mais: caíram 14% as internações hospitalares ou visitas a especialistas para tratar de complicações das mães relacionadas ao nascimento.

Já nos Estados Unidos a legislação é restritiva quanto à licença parental. Muito restritiva: a licença-maternidade paga não está prevista na Constituição, mulheres só podem se ausentar do trabalho por 12 semanas e, mesmo assim, só as que trabalhem há mais de um ano em empresas com mais de 50 empregados. Quanto aos homens, não há direito a licença. Esse é o único país rico do mundo onde a mortalidade materna está aumentando – e a maioria dos óbitos não acontece durante o parto, mas sim nas semanas anteriores ou posteriores. 

NEM TÃO MARAVILHOSO

Desde sua aprovação, uma substância usada em remédios para acne é controversa por conta de sua possível relação com a depressão. A isotretinoína (presente no popular Roacutan) funciona mesmo quando vários outros tratamentos para a pele falham, e tem sido alvo de pesquisas nesse sentido há mais de uma década, sem que se prove nada. Mas um estudo publicado ontem no JAMA Dermatology e resumido no The Atlantic afirma que os médicos podem estar neglicenciando riscos para a saúde mental dos pacientes que usam o medicamento. Os pesquisadores usaram um banco de dados público para catalogar os eventos adversos reportados à FDA de 1997 a 2017. Tentativa de suicídio, ideação suicida e depressão compunham a maior parte das queixas, mas eles também encontraram uma grande quantidade de relatos de condições como insônia, transtornos de ansiedade, labilidade emocional e autoagressão.

INVENCÍVEIS

Em breve pode se tornar praticamente impossível matar baratas apenas com inseticidas. A conclusão é de pesquisadores da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, que investigaram o efeito de três venenos sobre baratas durante seis meses. Eles viram que, quando uma barata sobrevive a determinado inseticida, ela se torna imune não somente a ele, mas a um rol de outros inseticidas também, mesmo que nunca tenham sido expostas a eles. Como cada barata pode produzir 50 filhotes a cada três meses (passando a resistência adiante), mesmo que poucas sobrevivam aos venenos as chances de ter muitas, muitas baratas resistentes é enorme. 

BEM NO TOPO

Embora o tabagismo ainda seja o maior fator de risco para o câncer, no Reino Unido a obesidade já se tornou o principal fator para tumores no intestino, rins, ovários e fígado, segundo a Cancer Research UK.  

PARCERIA

A USP e o Instituto Pasteur, francês, vão fazer uma parceria para investigar danos neurológicos causados por infecções como as do zika. a Plataforma Científica Pasteur-USP vai contar com 17 laboratórios e vai ocupar 1,7 mil metros quadrados no espaço Inova USP, um complexo da universidade ligado à inovação. Os novos laboratórios vão começar com 100 pesquisadores. O investimento inicial vai ser de R$ 40 milhões. . 

RAPIDINHOS

Pesquisadores da UFMG inventaram um kit portátil que pode ser usado por profissionais de saúde para diagnosticar doenças diversas de forma rápida e barata. De início, o kit vai ser usado para identificar leucemia em gatos, mas a ideia é no futuro focar em kits para testar doenças em humanos. Nesse caso, vão ser priorizados HIV, doença de Chagas e alergias. 

E, no Instituto de Física de São Carlos, da USP, cientistas desenvolveram um dispositivo capaz de detectar o vírus zika antes do aparecimento dos sintomas da doença, e em 90 minutos. 

DENGUE

No primeiro semestre deste ano, as mortes por dengue triplicaram em relação ao mesmo período do ano passado. Já são 414, e mais de um milhão de casos prováveis. O estado mais afetado é Minas Gerais. 

ESPECIAL

A Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, editada pela Fiocruz, publicou um dossiê sobre os 40 anos do Movimento LGBT no Brasil.

16ª CNS: PROGRAMAÇÃO

Saiu a programação da Conferência Nacional de Saúde, que acontece em agosto. Está aqui.

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