O coronavírus encontra um país devastado

Brasil não produz respiradores suficientes. Faltam máscaras nos hospitais. Mandetta pede poucos recursos ao Congresso. Governo autoriza corte de salários e demissões. Só milagre evita tragédia. Veja também: guia sobre a covid-19 para crianças

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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FALTA PROJETO DE PAÍS

O Brasil corre contra o tempo para enfrentar o pico da epidemia de coronavírus, previsto pelo Ministério da Saúde para daqui a duas semanas. Mas bem que o país poderia ter uma máquina do tempo, voltar algumas décadas, e investir na produção de materiais e equipamentos médicos. Hoje, como em boa parte do mundo, o governo lamenta a falta de projeto de país que deixou o mercado livre para tomar decisões como fechar fábricas em território nacional e levá-las para locais onde as margens de lucro seriam maiores. Ou o arrependimento é pior, pois em muitos casos não há sequer essa história para contar e tudo dependeu da adoção de um papel passivo de importador de insumos. 

“Quando acabar essa epidemia, eu espero que nunca mais o mundo cometa o desatino de fazer 95% da produção de insumos que decidem a vida das pessoas em um único país.” A frase é do ministro Luiz Henrique Mandetta, a quem coube, ontem, expor como o Brasil está sendo passado para trás na geopolítica que comanda silenciosamente a briga por máscaras, luvas,  respiradores, reagentes e outros produtos essenciais na resposta à covid-19. 

“Os Estados Unidos mandaram 23 aviões cargueiros dos maiores para a China, para levar o material que eles adquiriram. As nossas compras, que tínhamos expectativa de concretizar para poder fazer o abastecimento, muitas caíram”, relatou Mandetta, desdizendo aquilo que havia anunciado 48 horas antes: que as encomendas brasileiras chegariam em, no máximo, 30 dias. “Está havendo uma quebra entre o que você assina e o que recebe. Eu só acredito quando estiver dentro do país, na minha mão”, constatou, tentando transmitir um senso de resignação geral à nação:  “Agora é lutar com as armas que a gente tem.” Ou seja, esperar pelo pior.

Porque é de colapso que se trata. Os mesmos EUA que agora dominam as compras de uma China que recomeçou a produzir são, hoje, um bom exemplo da escassez que vamos enfrentar. Em Nova Iorque, onde a situação da epidemia é dramática, falta desde equipamentos de proteção individual a respiradores. Andrew Cuomo ,  governador do estado, que tem sido uma espécie de bússola moral entre os políticos daquele país, admitiu que, ao fim de abril, quando o pico dos casos ocorrer, serão 16 mil mortos. De acordo com projeções apresentadas ontem, os hospitais da cidade precisariam ter entre 25 mil e 37 mil respiradores a mais, e 75 mil e 110 mil leitos para enfrentar o que vem pela frente. 

Para se ter uma ideia e comparar, o Ministério da Saúde divulgou que o Brasil dispõe de 65.411 respiradores – a maior parte (46.663) no SUS. Mandetta disse que estão garantidos apenas oito mil respiradores mecânicos a mais vindos da China. O restante encomendado foi tirado de estoque pelo fornecedor. “Você pode ter o PIB do país e dizer: eu quero comprar. A fábrica não consegue te atender. O mundo inteiro também quer. Temos um problema hoje de demanda hiper aquecida sobre os itens-chave”, constatou ele. De acordo com o Estadão, a indústria brasileira estima que consegue produzir por aqui entre dez e 15 mil aparelhos desses. Ficam prontos entre 60 e 90 dias, para depois do pico projetado pelo governo. Então, na melhor das hipóteses, somadas essas compras à capacidade instalada, para um país de mais de 210 milhões de habitantes teríamos, em junho, cerca de 69,6 mil respiradores no SUS… 

Em relação às máscaras N 95, aquelas mais robustas – que são também as mais seguras –, a recomendação do Ministério não chega nem a sair do senso comum: cada profissional terá de esterilizar e usar diversas vezes.

Apesar das dificuldades admitidas a nível de governo federal, Mandetta fez uma recomendação um tanto fora da realidade aos estados: “A compra que o Ministério da Saúde está tentando fazer centralizada é um esforço. Façam vocês também, localmente internacionalmente. Os recurso que a gente repassa podem ser usados.” Como nota O Globo, o ministro da saúde volta atrás mais uma vez, já que até ontem a orientação aos governadores e prefeitos era que as compras fossem centralizadas na Pasta.

FALTA OUSADIA

Um estudo, ainda em revisão, assinado pelo secretário de Vigilância em Saúde do Ministério, Wanderson Oliveira, junto com pesquisadores de Harvard  constata que o Brasil terá falta de leitos de UTI e de internação, além de respiradores. O problema começa agora, no início de abril. Para lidar com a escassez, o artigo propõe a regulação única de leitos – que vem sendo defendida também por diversos especialistas e suscitou até a criação de um movimento de pressão, o Leitos para Todos. 

Isso quer dizer que o governo federal deveria assumir, durante a crise, a responsabilidade pela ocupação dos leitos disponíveis na rede privada. Essa decisão foi tomada na Espanha e na Irlanda. Há um óbvio imperativo ético como pano de fundo, que foi resumido pelo ministro da saúde irlandês: “Na resposta à crise de covid-19 não pode haver espaço para público versus privado”, disse Simon Harris. 

No Brasil, a medida está prevista em casos de “iminente perigo público” tanto na Constituição quanto na principal lei do SUS, a 8.080. Mas para o Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento na Saúde, da UFRJ, o decreto federal de estado de calamidade pública de 20 de março perdeu a chance de utilizar essa brecha. Há um erro (proposital, quem sabe) no diagnóstico e, para os pesquisadores, o documento não reconhece a insuficiência, a desigualdade e a fragmentação da oferta de leitos no país.

Como sabemos, o Sistema Único de Saúde conta com hospitais públicos, administrados pelos municípios, estados e pelo governo federal, mas, historicamente, contrata leitos de hospitais filantrópicos e particulares – que, por sua vez, também vendem sua capacidade instalada para o mercado. “A segmentação da oferta de leitos é peculiar porque, na rede SUS, 21,5% dos leitos são de natureza privada e 64% são filantrópicos. Ou seja, um mesmo hospital pode, no Brasil, vincular-se simultaneamente ao SUS e aos planos privados”, diz o estudo da UFRJ. De modo que esse imbricamento entre o público e o privado já é a realidade do Sistema, predado pelo mercado, como demonstra a diferença entre o número de internações a cada mil habitantes. Para clientes de planos de saúde, foram 171 internações a cada mil deles em 2018. Para usuários do SUS, o número baixa para 73.

FALTA DINHEIRO

O Conselho Nacional de Saúde estima que, para dar conta da epidemia de coronavírus, seriam necessários mais R$ 42,5 bilhões no orçamento do Ministério. Muito abaixo disso, Mandetta costurou junto ao Congresso um incremento de apenas R$ 5 bilhões. 

Mas há um problema pior: de acordo com o Conselho, ainda não houve repasse desses recursos novos, que virão de emendas parlamentares, e o Ministério da Saúde ainda trabalha com o orçamento normal, apenas remanejado. 

O Conselho vai encaminhar uma nota pública à Pasta com recomendações. E o mesmo cálculo será enviado à ministra Rosa Weber, do STF, que solicitou informações para decidir sobre três ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs) que tramitam na Corte contra a Emenda do Teto dos Gastos que já retirou bilhões do SUS. Aliás, outra ADI – a 5595 –, que contesta outra mudança prejudicial ao orçamento do Sistema Único, tem votação prevista para amanhã no Supremo.

NOSSO GUIA PARA CRIANÇAS

O que é um vírus? Qual a sua cor? Comer pizza ajuda a combatê-lo? Quando poderemos visitar os avós e brincar na rua? A vacina chegará? Quem convive com crianças já deve estar acostumado a ouvir perguntas sobre a pandemia de covid-19 o tempo inteiro. Não é para menos, já que o novo coronavírus mudou a vida de todo mundo e o tema ocupa boa parte do noticiário e das conversas dos adultos. No episódio desta semana do podcast Tibungo, produzido por Outras Palavras, as editoras do Outra Saúde conversam com Luiz Gustavo Dubois, professor de biologia celular e neuroquímica da UFRJ. Ele respondeu às perguntas – surpreendentes e sagazes – enviadas pelos pequenos. Está imperdível.

POR FALAR EM PERGUNTAS…

O colunista da revista Época, Guilherme Amado, denuncia que o Ministério da Saúde tem sonegado dados sobre a resposta à epidemia. De acordo com ele, quatro solicitações, embasadas na Lei de Acesso à Informação (LAI), foram enviadas à Pasta. Pediam atas do Centro de Operações de Emergência, primeira iniciativa lançada pelo Ministério; queriam acesso a processos administrativos relacionais à covid-19; queriam números sobre gastos e investimentos para combater a doença; e, finalmente, se há funcionários com suspeita de infecção. Para todos os casos, a resposta (cretina) foi a mesma: “Os dados são de grande relevância para a adoção de medidas estratégicas para a condução de ações frente à covid-19 e devem ser salvaguardados.”

Especialista na LAI, Joara Marchezini, fez a seguinte reflexão: “Numa pandemia, vai haver dificuldades, mas é quando mais precisamos de transparência. A emergência da calamidade faz com que mecanismos de fiscalização e controle social sejam fortalecidos e não enfraquecidos, para diminuir as chances de corrupção e mau uso do dinheiro público, e estarem bem informadas para conseguir se proteger.”

E, pelo visto, as dificuldades em obter informações do governo federal ultrapassam a imprensa. Ontem, o ministro Alexandre de Moraes determinou um prazo de 48 horas para que o presidente Jair Bolsonaro explique as medidas adotadas para combater a epidemia. A decisão foi tomada no âmbito de uma ação movida pela OAB. A Ordem quer que a Corte proíba o governante de contrariar orientações técnicas nacionais e internacionais. 

CONFIRMADA A MP

Ontem à noite o Ministério da Economia anunciou oficialmente a nova medida provisória do governo federal, que vai permitir suspensão de contratos e redução de salários para trabalhadores celetistas durante a epidemia. Falamos longamente sobre isso aqui, quando ela ainda estava no forno.

Para quem não viuou não lembra, o esquema é o seguinte: empresas vão poder suspender os contratos de trabalho de todos os funcionários por dois meses, e os trabalhadores vão receber seguro-desemprego durante o período. Se a empresa faturar menos de R$ 4,8 milhões, o governo arca com o seguro; se faturar mais que isso, o Estado vai pagar 70% dele.

Fora isso, durante três meses a jornada de trabalho e os salários vão poder ser diminuídos por em três faixas (25%, 50% e 70%), e o governo vai completar o valor para os empregados – mas não com base nos seus salários reais, e sim no seguro-desemprego, que é mais baixo. Se o corte for de até 25%, ele vai ser estabelecido sem a mediação de sindicatos, por acordos individuais.

O que o trabalhador ganha? Além de um rendimento reduzido, a promessa de que não vai ser demitido, mas só pelo período equivalente ao da suspensão do contrato ou da redução do salário. Se a suspensão/redução for de um mês, depois ele não pode ser mandado embora durante um mês, por exemplo. Resta saber se os boletos vão parar de chegar…

Mas os tributos federais para empresas vão ser aliviados. O governo também anunciou que vai zerar alíquota do IOF por três meses, e vai ser adiado o pagamento das contribuições ao PIS, Pasep, Cofins e a contribuição previdenciária patronal.

Em tempo: sabe Junior Durski, o empresário que disse que o Brasil “não pode parar por cinco ou sete mil mortes“? Parece determinado a ensinar aos seus funcionários, na prática, o ‘cada um por si’. Sua rede de restaurantes, a Madero, demitiu ontem mais de 600 pessoas. O detalhe é que, segundo suas próprias declarações anteriores, a rede tinha caixa para passar até seis meses de portas fechadas.

VAI DAR TRABALHO

Enquanto isso, ontem finalmente Bolsonaro sancionou a lei que garante o benefício de R$ 600 a trabalhadores informais. Só que 11 milhões deles (quase 20% do total) não têm inscrição no Cadastro Único, banco de dados que identifica famílias de baixa renda e que vai ser utilizado para mapear beneficiários. Segundo uma nota técnica do Ipea publicada ontem, cadastrá-los vai ser uma tarefa “complexa” porque não pode haver aglomerações. Segundo o governo, vai ser possível participar por uma “autodeclaração”, mas a forma como ela será feita ainda está sendo avaliada. Provavelmente haverá uma solução tecnológica.

NAS ALDEIAS

Ontem foi confirmado o primeiro caso de covid-19 entre indígenas no Brasil. A paciente, que não tem nenhum sintoma, é uma jovem Kokama de 20 anos que trabalha como agente de saúde indígena na região do Alto Rio Solimões, no Amazonas, numa aldeia onde vivem mais de mil pessoas. Ela estava isolada desde a semana passada, quando surgiu a suspeita de contato com um médico que atua na região e teve diagnóstico positivo.

Um problema: vários outros indígenas, além de integrantes da equipe de saúde, tiveram contato com o médico também. Todas essas pessoas estão em isolamento preventivo, assim como todos os contatos da paciente indígena, que foram testados. Além disso, duas aldeias inteiras foram isoladas. Segundo O Globo, foram coletadas 70 amostras na região, e só a da moça deu resultado positivo.

Nas últimas semanas, a Secretaria de Saúde Indígena do Ministério e a Funai têm emitido informes técnicos, publicado portarias e disparado ofícios com medidas para aumentar a proteção nas aldeias, mas as lideranças indígenas consideram a resposta lenta. Um comitê de crise na Sesai só foi instituído duas semanas depois de a OMS declarar pandemia global, e dez dias depois que começou a transmissão comunitária no Brasil. Só uma semana atrás começou a circular um ofício sobre o abastecimento de insumos como álcool em gel e máscaras. E até agora não há um plano de contingência para indígenas. 

Já alertamos aqui que o novo coronavírus provavelmente é uma ameaça bem maior a povos indígenas do que para o resto da população. Historicamente, tem sido assim em todas as epidemias. “São agrupamentos menores, em geral com centenas de pessoas, com modo de vida muito próximo. Então, questões sociais e históricas colocam essa população em situação de risco. Tem a ver também com a desigualdade da saúde no Brasil, com acesso a saneamento. As taxas de desnutrição, anemia, tuberculose e malária são mais acirradas em populações indígenas. A gente não sabe como vai ser o comportamento desse vírus”, diz, na Época, a pesquisadora da Fiocruz Ana Lúcia Pontes. “Se o vírus entrar na aldeia, é genocídio“, completa o médico sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp, que trabalha com essas populações. Segundo a mesma revista, até a segunda-feira havia 13 casos suspeitos entre indígenas nas cinco regiões do país.

MAIS VULNERABILIDADES

Em Magé, na Baixada Fluminense, famílias se equilibram entre dois perigos. Por conta das chuvas de março, várias tiveram suas casas interditadas por risco de desabamento – mas o aluguel social, necessário para que saiam dali, custa a chegar. O resultado é que ou elas ficam nas casas que podem desabar, ou se aglomeram com outras famílias em casas de conhecidos. Isso numa cidade onde a densidade demográfica já é alta: há quase sete mil casas com quatro ou mais moradores por quarto.

E em Recife, como nas capitas do Rio e de São Paulo, a quarentena nas favelas é uma preocupação. Mais de 4,7 mil famílias moram em casas precárias, como as palafitas, onde a sensação térmica é insuportavelmente quente, não há ventilação e quase nunca há água encanada e saneamento básico.

ESCÁRNIO

Quem não lembra da frase “ninguém solta a mão de ninguém”, que circulou loucamente nas redes sociais depois que Bolsonaro foi eleito? Pois a Secretaria de Comunicação Social da Presidência resolveu se apropriar de parte dessa ideia para substituir sua desastrosa campanha de incentivo à livre circulação de vírus e pessoas. Sai “O Brasil não pode parar” e entra “Ninguém fica para trás”. Em uma das imagens divulgadas pela Secom, a frase é acompanhada de uma foto em que duas pessoas com luvas e roupas de proteção dão as mãos.  

AS BRAVATAS CONTINUAM

O presidente brasileiro parece adorar o cheiro de napalm pela manhã. Ontem, Bolsonaro compartilhou um vídeo falso em seu Twitter, segundo o qual a Ceasa que abastece a região metropolitana de Belo Horizonte estaria vazia. E escreveu que “os fatos e realidades” deveriam “ser mostrados” para reforçar sua acusação de que estados tomam medidas exageradas de distanciamento social: “não é um desentendimento entre o presidente e alguns governadores e prefeitos”, argumentou.

O lance apagou qualquer fagulha de boa vontade que seu pronunciamento em cadeia nacional pudesse ter gerado. Na véspera, Bolsonaro tinha defendido “um grande pacto” entre governadores, prefeitos, Parlamento e Judiciário. Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, classificou o vídeo falso como “vergonhoso”: “Resta-nos a esperança de que o seu isolamento seja tamanho que ele seja objetivamente forçado a pactos, mesmo que não queira”, disse. João Doria (PSDB), de São Paulo, criticou de forma mais sonsa: “Eu, ontem, como cidadão, como brasileiro e como governador, fiquei feliz de assistir um presidente da República mais moderado e com bom-senso, colocando uma mensagem equilibrada à população brasileira. Mas amanheci preocupado, vendo o mesmo presidente da República numa postagem agredindo os governadores. Em qual presidente da República nós devemos confiar?”
Bolsonaro teve que pedir desculpas por publicar o vídeo falso. Mas, de noite, depois de tomar conhecimento das críticas públicas e privadas direcionadas a ele, voltou à carga: “Se todos colaborarem, inclusive aqueles que trabalham mais interessados em poder no que na vida das pessoas, na manutenção de seus empregos e no bem estar do país, os problemas serão enfrentados de forma mais eficiente e o Brasil sairá ainda mais forte dessa tempestade.” 

E não deixa de ser engraçado que Donald Trump tenha divulgado a seguinte leitura sobre um telefonema que deu a Bolsonaro na manhã de ontem, justamente quando os EUA deslocavam os tais 23 aviões cargueiros que escancararam a desigualdade entre os países em fazer valer contratos de compra de materiais chineses: “O Brasil está parando, ele teve que parar.”

Aliás, Luiz Henrique Mandetta reforçou exatamente as medidas de distanciamento social como única solução para evitar o desabastecimento: “Se nós não fizermos retenção de dinâmica social, se nós nos aglomerarmos, se nós fizermos movimentos bruscos e relaxarmos nesse grau de contágio, sim, você pode ficar com uma série de problemas de equipamentos de proteção individual, porque nós não estamos conseguindo adquirir de forma regular o nosso estoque.”

Ainda a propósito do caráter incorrigível do presidente brasileiro: ontem,  Mandetta recebeu ligações de médicos que haviam sido convocados pelo Planalto para participar de reunião sobre o uso da cloroquina como “cura” para a covid-19. E, assim, o ministro da saúde ficou sabendo que Bolsonaro organizava um encontro para o qual não tinha sido convidado.

MELHOROU

Apesar disso tudo, o Brasil subiu no ranking feito pela Universidade de Oxford sobre medidas adotadas por países que reduzem riscos de colapso por conta do coronavírus. Na semana passada, tínhamos 36 pontos em uma escala que vai até 100. Agora, estamos com 76. Adivinha onde vamos pior? Na comunicação sobre a crise.

EXPLOSÃO DE CONFIRMAÇÕES MAIS PRÓXIMA

Ontem, passamos de 5.717 casos confirmados para 6.836. E de 201 óbitos para 241. Mas como ontem começaram a ser distribuídos 500 mil testes para confirmar a infecção, a expectativa é que o número de casos exploda nos próximos dias.

CHEGANDO OS HOSPITAIS DE CAMPANHA

O hospital de campanha construído no estádio do Pacaembu, em São Paulo, começa a receber pacientes de covid-19 na próxima segunda. São 200 leitos divididos em duas tendas com dez ḿódulos cada. O hospital do Anhembi, que está em fase final de construção, vai ter mais 1,8 mil leitos.

No caso do Pacaembu, a prefeitura de SP vai arcar com a infraestrutura e o Albert Einstein vai fazer a gestão. No Rio, o setor privado vai financiar pelo menos um hospital de campanha para pacientes do SUS. É no Leblon, zona nobre da capital. Ao todo, o governador Wilson Witzel anunciou a criação de oito unidades, que devem ser entregues até o fim do mês. Juntos, eles vão somar 1,8 mil leitos.

NÃO É MERAMENTE ILUSTRATIVO

Ninguém está trabalhando mais do que os cientistas para tentar frear a pandemia. Desde o começo já foram publicados mais de 600 trabalhos especificamente sobre o novo coronavírus, e um novo estudo é publicado a cada três horas – a maioria, da China. O Brasil está bem, em 16o lugar entre os países que mais publicam. Mas com dificuldades, como sabemos…

Uma reportagem da BBC nos apresenta ao biomédico Ikaro de Andrade, que trabalha na UnB com o sequenciamento genético do novo coronavírus no Distrito Federal. Não sabe se vai poder continuar. Na semana passada, a bolsa da Capes de R$ 2,2 mil reais que ele recebia para a pesquisa de doutorado foi cortada.

DOIS LADOS

A evolução da covid-19 no Irã é uma das mais graves no mundo e, em grande grande parte, isso se deve à resposta equivocada do país ao coronavírus. Para se ter uma ideia, quando aconteceu a primeira morte ainda não havia nem mesmo um único caso confirmado de infecção no país, o que mostra uma falha completa na identificação da doença. Isso foi em fevereiro. Mas mesmo assim, só agora, mais de um mês depois e já com os casos e mortes explodindo, começaram a ser tomadas ações para reforçar o isolamento social.

Mas à péssima resposta soma-se o problema das sanções comerciais impostas pelos EUA, e cada vez mais outros países pedem que o governo Trump as suspenda enquanto durar a  pandemia. Mesmo que medicamentos e dispositivos médicos estejam isentos, sanções secundárias a instituições financeiras e empresas que fazem negócios com o Irã tornaram quase impossível para o país comprar itens como respiradores, por exemplo, como nota a matéria do New York Times

As autoridades americanas, por sua vez, se recusam a encarar dessa forma, e ainda arrumaram novas sanções duas semanas atrás – suas autoridades acusam o governo iraniano de quererem ganhar dinheiro com a pandemia.

E VEM A MÁFIA

Há quase dez dias o governo italiano prometeu produzir diariamente 200 mil máscaras de proteção em um consórcio com a indústria têxtil. Até agora, nenhuma unidade foi produzida. Então alguém preencheu esse vazio: a máfia. O temor é o de que ela se aproprie de parte da cadeia de produção dos equipamentos de proteção individual, comprando da China em dinheiro vivo e liberando as mercadorias nas alfândegas.

Outro receio se refere à qualidade desses produtos: “Na semana passada, autoridades holandesas encontraram defeitos em um lote de um milhão de máscaras do tipo N 95, que não cobriam de maneira correta e  boca nem filtravam todo o ar. Cerca de 600 mil delas já haviam sido distribuídas aos hospitais do País e foram recolhidas. Caso semelhante aconteceu em Madri, na Espanha, onde foram verificados problemas nos testes para coronavírus. O governo recolheu 8 mil hastes usadas para colher amostras nos pacientes e as devolveu à China com outras 50 mil que não haviam sido ainda distribuídas. Os testes teriam demonstrado uma precisão apenas de 30% ante 80% prometido pela empresa chinesa, a Shenzhen Bioeasy Biotechnology”, enumera o texto.

VAI FALTAR COMIDA?

Um comunicado conjunto assinado pela FAO, pela OMS e pela OMC alerta para o risco de escassez de alimentos durante a pandemia. O documento, destinado à ONU, adverte que pode haver uma “onda de restrições à exportação”. Uma das preocupações é que, com os atrasos na circulação de mercadorias entre as fronteiras, alimentos acabem desperdiçados. Seria importante uma cooperação internacional, dizem eles. 

Aqui no Brasil, o funcionamento perfeito do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional poderia ajudar o país a passar por essa situação com menos problemas. Mas, ao contrário, várias políticas voltadas a isso estão sendo desmontadas num processo que começou no segundo governo Dilma, se acelerou no governo Temer, e parece ter batido o fundo do poço com Bolsonaro. No Prato Cheio, podcast d’O Joio e o Trigo, tem essa semana uma discussão sobre as medidas tomadas pelo presidente em direção a esse desmonte, algo que começou no primeiro dia – literalmente – de seu governo.

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