À espera do ato final

Mandetta distribui diretas e indiretas a Bolsonaro, Osmar Terra, Olavo de Carvalho. Diz que já ajudou bastante. Recebe apoio político e do público. Mas especialistas avaliam: Brasil se preparou muito mal para a pandemia

Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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A DESPEDIDA DE MANDETTA

“São 60 dias nessa batalha. Isso cansa!”. A frase é de Luiz Henrique Mandetta. O ministro da saúde, prestes a ser exonerado por Jair Bolsonaro, deu ontem uma entrevista exclusiva à Veja expondo o modus operandi do presidente: “Sessenta dias tendo de medir palavras. Você conversa hoje, a pessoa entende, diz que concorda, depois muda de ideia e fala tudo diferente. Você vai, conversa, parece que está tudo acertado e, em seguida, o camarada muda o discurso de novo. Já chega, né? Já ajudamos bastante”.

O desabafo, que repercutiu na imprensa brasileira toda, aconteceu poucas horas depois da coletiva diária de atualização sobre o novo coronavírus – que, na boa definição de Robson Bonin, também da Veja, foi “uma espécie de talk show da própria demissão” comandado por Mandetta um andar abaixo do gabinete em que Bolsonaro despacha. E, na caracterização do colunista Bernardo Mello Franco, foi um “espetáculo” que acrescentou cenas inéditas à crônica política brasileira. De fato, não faltaram nem reviravoltas dramáticas, nem apelo midiático. O ponto alto foi a presença de Wanderson de Oliveira. O secretário de vigilância em saúde tinha pedido demissão de manhã: sua carta de despedida a auxiliares, na qual falava que a saída do chefe estava “programada para as próximas horas ou dias” e poderia ser comunicada até por Twitter, vazou para jornalistas e estampou manchetes de vários sites ao longo do dia. “Chegou lá para mim [o pedido], eu já falei que não aceito, o Wanderson está aqui. Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde. Por isso fiz questão de vir nessa coletiva hoje”, anunciou Mandetta.  

A presença do ministro da saúde não estava prevista e, segundo o Estadão, “pegou de surpresa integrantes do governo e políticos em Brasília”. Mandetta aproveitou a ocasião para mandar recados finais. Para Olavo de Carvalho, o ideólogo da família Bolsonaro: “Vamos conhecendo o vírus dia após dia. Nós não somos astrólogos, nós não fazemos previsões. Nós pegamos as informações e olhamos”. Para o deputado federal e ex-ministro dos governos Temer e Bolsonaro, que pleiteia seu cargo e, segundo o site Aos Fatos, é a maior fonte de desinformação durante a epidemia: “É uma coisa que acontece: existe claramente uma posição. Não é o presidente, existem outras pessoas, tenho ex-secretários de saúde que verbalizam diariamente que acham que o caminho é outro, [como] o tal do Osmar Terra, todo dia ele fala”. E, claro, para o próprio Bolsonaro que sempre foi contrário às quarentenas decretadas por estados e municípios com o objetivo de achatar a curva de contágios: “O Brasil fez uma boa redução da dinâmica social. O que acontece é que esses países [como Itália e Espanha] demoraram para fazer e a curva subiu muito. Alguns acham que foi exagero, mas, por vias de decisões, principalmente de decisões de governadores e prefeitos, nós passamos duas semanas com redução muito grande da dinâmica social. Houve uma adesão muito grande da sociedade”, exagerou. 

Ao contrário da semana passada, quando a notícia da demissão de Mandetta provocou panelaços em várias cidades brasileiras, desta vez não houve manifestação popular. Mas uma pesquisa do Atlas Político, feita entre domingo e terça-feira com duas mil pessoas recrutadas na internet, aponta que 76% dos brasileiros são contra a demissão do ministro. Mas se as panelas não soaram, Mandetta recebeu apoios políticos ontem. O vice-líder do governo no Senado, Lucas Barreto (PSD-AP), anunciou que vai deixar o posto em solidariedade a ele. Cotado para assumir a pasta provisoriamente, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, reforçou que fica apenas o tempo necessário para fazer a transição. “Tenho um compromisso com o ministro Mandetta”, disse ontem na coletiva.

A pedido do Nexo, os pesquisadores Mario Scheffer, da USP, e Sonia Fleury, da Fiocruz, fizeram um balanço da gestão de Luiz Henrique Mandetta. Para Scheffer, o tumulto causado pela oposição de Bolsonaro às recomendações do Ministério da Saúde atrapalhou, mas houve falhas com as digitais da equipe ministerial: “Só ontem [terça-feira, 14] o Ministério anunciou que vai fazer um censo hospitalar da capacidade e da disponibilidade real de leitos. Isso, para mim, é uma deficiência”. De acordo com ele, o bônus que o Brasil teve de dois meses em relação ao início do surto na China não foi aproveitado, especialmente no que diz respeito ao fortalecimento da capacidade de testagem e da produção de insumos essenciais para o tratamento do doentes. “Só culpar o não fornecimento internacional é muito simplório”. 

Mas a principal crítica do pesquisador da USP é à falta de regulação dos planos de saúde e hospitais particulares neste momento. “Um outro ponto que o Ministério não fez foi uma adequada articulação com o setor privado. Talvez até pela proximidade do Mandetta com o setor privado, o que a gente está percebendo é uma total desobrigação dos planos de saúde e dos hospitais privados em relação à pandemia. Eles não se apresentaram. Isso exigiria uma gestão unificada. Vários países, como a Espanha e a Irlanda, excepcionalmente neste momento, unificaram os esforços público e privado. Por outro lado, numa ação direta do Mandetta com a ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar], eles praticamente editaram um pacote de benefícios para o setor dos planos de saúde, de flexibilidade, de desregulação, de acesso a fundos excepcionais sem contrapartida”, disse, em referência a medidas da agência reguladora, divulgadas no dia 9 de abril, que flexibilizaram obrigações que as operadoras têm de manter uma espécie de poupança de ressarcimento ao SUS que deu liquidez de R$ 15 bilhões às empresas.

Sonia Fleury também analisa que o Ministério da Saúde não se antecipou em termos de infraestrutura, recursos humanos e equipamentos antes de a epidemia chegar ao Brasil. Para ela, as principais falhas foram na coordenação do nível federal com secretários estaduais e municipais de saúde – já que o SUS é um sistema baseado na pactuação contínua dos três níveis de governo (“O Ministério tomou para si toda a projeção, quando isso é uma pactuação que deveria estar constantemente sendo negociada para que cada um não fizesse o que bem entende”); na falta de coordenação com outras instâncias de governo para investir na reconversão de indústrias, por exemplo; e, principalmente, na falta de foco nas periferias e favelas. “Ou seja, todas as recomendações iniciais desconheciam para que Brasil você estava falando. Era um Brasil de classe média. Ficar em casa, fazer home office, lavar a mão não sei quantas vezes, usar álcool em gel. E as pessoas apinhadas nos trens, nos ônibus, tendo que trabalhar para tal classe média fazendo o home office? As empregadas domésticas foram as primeiras que pegaram o vírus e levaram para casa, sem um projeto, um plano de contingência emergencial para as periferias”, sublinhou.

Em tempo: as três ações que Mandetta pretende entregar antes de sair da pasta dialogam bem com as críticas dos especialistas. São elas: um plano de manejo ao combate do novo coronavírus em favelas, um painel nacional de leitos hospitalares disponíveis e a finalização de processos em curso de compras de equipamentos e insumos hospitalares. 

UM PAPEL NACIONAL

O Democratas, partido de Luiz Henrique Mandetta, planeja um futuro com projeção nacional para o político. Por isso, ele não deve aceitar nem o convite feito pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, nem o aceno do governador de São Paulo, João Doria, para integrar suas equipes. Na entrevista exclusiva à Veja, Mandetta desconversou a pretensão de ser candidato ao governo de Mato Grosso do Sul em 2022 e disse que precisa ganhar seu pão pois ‘tem filhos na faculdade e uma netinha’.

ENCONTRO MARCADO

Hoje, Jair Bolsonaro recebe no Planalto o principal cotado para assumir o Ministério da Saúde. Não é um nome que tenha aparecido na bolsa de apostas antes: trata-se de Nelson Teich, oncologista e empresário. Ele é apoiado pela Associação Médica Brasileira (AMB), pelo secretário especial de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, e por outro bolsonarista, Meyer Nigri, dono da construtora Tecnisa. Teich atuou como consultor para a área da saúde na campanha presidencial de Bolsonaro (o que, francamente, deveria ser motivo de frustração já que o programa do então candidato é de dar vergonha). Essa atuação foi intermediada por Paulo Guedes. Teich fundou o grupo Clínicas Oncológicas Integradas, vendido para o conglomerado United Health, mesmo que comprou a Amil. 

Quem defende sua indicação argumenta que Teich vai destravar debates hoje “politizados” sobre a epidemia, segundo apuraram repórteres do Estadão. Lauro Jardim, do Globo, foi atrás do que ele pensa. Em textos, tem criticado a polarização (“A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”) e se isentou de posições (“Não me coloco aqui como alguém que defende um lado ou outro, na verdade é o oposto, não pode existir lado”). Parece mesmo um funcionário perfeito para Jair Bolsonaro.

Amanhã, é a vez da entrevista com Claudio Lottenberg que, afinal, não foi descartado – mas perdeu muitos pontos com o presidente por comandar o braço de saúde do LIDE, grupo empresarial de João Doria. Como já dissemos aqui ontem, ele é presidente do Instituto Coalizão Saúde, outra estratégia do empresariado de emplacar suas agendas na gestão pública, e foi presidente da United Health no Brasil (demitido no ano passado por não alcançar os resultados esperados pela matriz). Durante muito tempo, foi diretor-presidente do Hospital Albert Einstein, onde hoje é presidente do conselho. Em entrevista a O Globo, ele se vendeu como um técnico que se preparou “a vida inteira” e tem condições de “desenhar um plano de saúde para o país”. Achamos curiosa a escolha de palavras…

UM RETRATO E O FUTURO

Saiŕam ontem os primeiros resultados do grande levantamento que a Universidade Federal de Pelotas está fazendo no Rio Grande do Sul, e a conclusão é que, dos 4.189 testes realizados na população, dois deram positivo. Parece pouco, mas significa que 0,05% dos gaúchos já devem ter sido contaminados – ou 5.660 pessoas no total, 15 vezes mais do que o número oficial contado pelo estado na época dos testes.

Já falamos sobre essa pesquisa antes, quando ela teve início. Mas é bom lembrar como funciona: é um monitoramento que vai ser feito ao longo de semanas. Com testes rápidos, que medem a presença de anticorpos contra o novo coronavírus em pessoas aleatórias (sintomáticas e assintomáticas), a ideia é conseguir estimar de verdade qual a prevalência de infecções na população.

Isso é importante não só para conhecer o cenário atual e mensurar a subnotificação, mas também para tentar prever quando e como vamos poder relaxar ou acabar com o isolamento. Num episódio recente do podcast Luz no fim da quarentena, da Piauí, Fernando Reinarch (que faz parte do conselho administrativo do Instituto Serrapilheira, financiador da pesquisa) explica em detalhes.

Como sabemos, até que haja uma vacina, o novo coronavírus vai seguir se espalhando, a uma velocidade que depende basicamente do grau de distanciamento social de cada população, até que seja atingida a famosa imunidade de rebanho. Ou seja, com cerca de 80% da população infectada. Só dá para atingir isso de forma segura se o sistema de saúde tiver condição de tratar adequadamente todos os pacientes, por isso as quarentenas são tão necessárias.

O tipo de monitoramento feito pela UFPel é o termômetro que pode ir medindo qual o percentual da população que já foi afetado e estimando a velocidade com que esse espalhamento acontece. Quanto mais gente infectada, mais perto estaremos do fim da quarentena (caso uma vacina não chegue antes, é claro). Quanto menos óbitos houver pelo caminho, melhor. A necessidade de reaberturas muito bem planejadas é justo para que grandes ondas de contaminação não joguem o número de mortes lá para cima. Estão previstas outras três etapas iguais da testagem, com um intervalo de duas semanas entre cada um.

Na semana que vem, começa o levantamento nacional, também coordenado pela UFPel. Vão ser testadas cem mil pessoas, em três rodadas.

NOVAS PROJEÇÕES

Agora, saindo do campo das estimativas de subnotificação e entrando nas projeções de números oficiais: saiu mais um estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, com uma previsão para o dia 24 de abril. Com base nos registros do Ministério da Saúde, o número de casos confirmados pode chegar a 40 mil, no cenário mais pessimista. É um aumento até relativamente modesto. Nisso, não dá para saber ao certo qual o papel das medidas de isolamento e qual o papel da subnotificação.

Os números divulgados ontem pelo Ministério indicam 28.320 casos e 1.736 mortes por covid-19 no país. Agora já há mortes em todos os estados, com a confirmação de um óbito no Tocantins.

CONTA QUE NÃO FECHA

Há quase cem mil amostras de pacientes na fila para serem analisadas, mas nada de essa fila andar. Há duas semanas o Ministério da Agricultura informou que havia colocado os laboratórios da Embrapa à disposição, multiplicando a capacidade nacional de análises. Só que, até agora, os laboratórios estão ociosos. A Pasta disse à Reuters que as instalações não estão recebendo os reagentes necessários. Mas uma fonte anônima ofereceu outra resposta: “Não vejo ação planejada, coordenada entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Agricultura”. De acordo com essa pessoa, a falta de reagentes pode ser superada com novos protocolos usando bioquímicos alternativos. O próprio Ministério da Agricultura já confirmou que novos protocolos podem ser adotados para aumentar a testagem em seus laboratórios. O Ministério da Saúde, porém, nada disse sobre isso.

DEMORA NA BUSCA PELO SUS

Ontem, o governo do Ceará anunciou uma projeção assustadora: o total de leitos de UTI pode atingir ocupação total no dia 21 de abril. Isso porque os gestores levam em conta que nessa data, o estado terá 3,1 mil pessoas infectados – então, seguindo a média internacional, se 10% dos casos precisam de internação em unidades de tratamento intensivo, a capacidade total de 310 leitos será atingida. O governo também divulgou que as internações em UTIs e a necessidade de ventilação mecânica praticamente dobraram entre segunda e terça-feira passando, respectivamente, de 38 para 73; e 31 para 61 casos.

Na terça, o secretário estadual de saúde Carlos Roberto Sobrinho, mais conhecido como “Dr. Cabeto”, tinha lançado uma hipótese bastante crível para o boom de internações em UTI no SUS cearense. Segundo ele, “os doentes estão chegando muito graves”, pois há demora em buscar atendimento, de modo que as pessoas chegam aos serviços já necessitando de internação urgente. “É preciso que os pacientes cheguem um pouco antes para que a gente possa reconhecer o que está acontecendo. Esses pacientes estão chegando já em insuficiência respiratória, vocês têm visto notificação de mortes domiciliares, isso tem aumentado, isso é um sinal. O tempo entre o início dos sintomas e a procura pelo sistema de saúde, quando a gente compara [setor] público [e setor] privado, as pessoas estão chegando três dias depois. A gente sabe que tem um momento entre o 5º e 8º dia onde define se cura ou aumenta a gravidade”, expôs.

E o governador Camilo Santana anunciou ontem, em uma transmissão pela internet, a compra de um segundo hospital particular. Em março, o estado adquiriu o Hospital Leonardo Da Vinci, que estava fechado e onde foram abertos 230 leitos, sendo 30 de UTI. Agora, é a vez do Hospital Batista que terá, nos planos do governo, 131 leitos, sendo sete de UTI. 

O estado tem 2.157 casos confirmados e 116 óbitos, de acordo com o último balanço do Ministério da Saúde.

UNÂNIMES

Todos os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que estados e municípios podem, sim, baixar as medidas necessárias para enfrentar o coronavírus, independentemente do que diga o governo federal. Isolamentos, quarentenas, fechamento de comércio e restrições de locomoção podem ser decididos por governadores e prefeitos. “Coordenação não é imposição, é respeito à autonomia, é liderança. Essa coordenação compete à União. Não é porque um estado ou município exagerou que nós devemos acabar com o federalismo, a justiça deve anular essas decisões”, declarou Alexandre de Moraes. A decisão se refere a uma ação do PDT contra uma medida provisória de Bolsonaro, que estabelecia que as agências reguladoras federais deveriam editar restrições à locomoção.

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Nem só de sintomas respiratórios se faz a covid-19. A perda de olfato ou paladar é relatada por vários pacientes, e outros sintomas neurológicos, como dor de cabeça, convulsões, formigamentos e dormência também aparecem. Há pouquíssimos dados sobre isso. Mas os casos começam a deixar claro que talvez o novo coronavírus também ataque o sistema nervoso, talvez até diretamente o cérebro.

A longa e interessantíssimareportagem do Wired relata alguma situações que estão deixando os cientistas um tanto desconcertados. Tem paciente sem sintomas pulmonares, só neurológicos, cujas amostras coletadas no nariz dão positivo para covid-19, mas as coletadas no fluido espinhal dão negativo. E tem paciente em condições semelhantes com resultados opostos: negativo no nariz, positivo no fluido espinhal. Ao mesmo tempo, algumas poucas autópsias que examinaram crânios de pacientes na China já mostraram o SARS-Cov-2 nos tecidos cerebrais. E aí: o coronavírus pode atacar os neurônios?

O mais intrigante parece ser o seguinte: a privação olfativa, que muitas vezes é um dos primeiros sintomas a aparecer e ocorre em até 50% das infecções, pode estar travando e danificando neurônios ligados ao cheiro, que ficam no nariz. “Aqui você tem esse vírus arrastando as únicas células do sistema nervoso central expostas ao mundo exterior. Se houvesse doença cerebral por SARS-CoV-2, você pensaria que este seria o grupo que a possui. Mas não há evidências disso. Essas pessoas perdem o olfato e não muito mais. É muito curioso”, diz Stalney Perlman, microbiologista da Universidade de Ohio.

A propósito: o professor Paulo Saldiva, da USP, fala n’O Globo dos primeiros achados de seu grupo de pesquisa a partir de autópsias em pacientes brasileiros. Eles têm investigado a ação do coronavírus não só nos pulmões mas em órgãos como fígado, rins e baço. “Sabemos que o coronavírus se liga às células que revestem o sistema respiratório, esses mesmos receptores presentes nas células epiteliais do pulmão existem em vasos sanguíneos, nos testículos, no cérebro. Ainda precisamos saber como é a ação do vírus em todo o corpo e descobrir se ele se liga também a outros tipos de receptores das células humanas e como ele deixa o sistema imunológico tão fraco”, aponta. E completa: descobrir esses receptores é importante porque a partir disso é possível tentar “fechá-los” para o vírus.

DOIS MILHÕES

O mundo chegou ontem à marca de dois milhões de casos confirmados. O número revela a capacidade exponencial do novo coronavírus: foram três meses para que se chegasse a um milhão de infecções, mas demorou apenas 13 dias para essa cifra dobrar. São 128,8 mil mortes – um aumento de 147% em relação aos óbitos registrados quando o planeta bateu o um milhão de casos.

O CASO TRUMP X OMS

Funcionários do governo Trump alertaram, em memorando interno, que a interrupção do financiamento dos Estados Unidos à Organização Mundial da Saúde pode beneficiar a… China. A justificativa usada pelo presidente americano para suspender os pagamentos é justo um suposto favorecimento da OMS ao país asiático. O governo argumenta à imprensa que pode enviar seu dinheiro diretamente a organizações como a Cruz Vermelha (como se isso substituísse o papel de um organismo internacional multilateral). Mas o memorando, obtido pela ProPublica e emitido antes da decisão de Trump, admite que em alguns países com sistemas de saúde frágeis a OMS é o melhor canal para fazer chegar o dinheiro de potências como os EUA. A interrupção do financiamento, diz o memorando, “impactará mais de US$ 50 milhões em assistência planejada dos EUA para ajudar  governos a atender necessidades e riscos urgentes, minando a narrativa americana de ser um líder de longa data em saúde, e cedendo terreno à China”.

Na Câmara, democratas prometem tornar difícil a retirada dos recursos. De acordo com eles, o governo não pode sacar verbas já aprovadas pelo Congresso, e sugerem que pode haver uma briga judicial.

IR COM CALMA

O ministro da Ciência Marcos Pontes, que anda sumido, apareceu ontem para divulgar que dois remédios já comercializados no Brasil teriam eficácia de 94% contra o coronavírus. Ele não disse os nomes. Até agora houve apenas testes em laboratórios, e, segundo Pontes, o Ministério vai começar a testar os medicamentos em 500 pacientes de sete hospitais. “É um momento muito especial. No máximo na metade de maio teremos uma solução de tratamento. Um remédio sem efeitos colaterais, [com estudo] desenvolvido pela pesquisa brasileira com todo o rigor científico”, afirmou.

Pesquisadoresouvidos pela BBC recomendam cautela. Embora a eficácia em testes in vitro – em células isoladas, como foi feito – seja um indício de que o remédio pode funcionar em pessoas, nada garante realmente isso. Aguardemos.

LIMITES AO BC

A proposta de emenda à Constituição que separa os gastos federais relacionados aos efeitos da epidemia de coronavírus do orçamento regular da União foi aprovada ontem em primeiro turno no Senado. O placar foi de 58 votos a favor, 21 contra e uma abstenção. Como os senadores alteraram o texto, depois da votação em segundo turno, marcada para amanhã, a PEC precisa voltar para a Câmara dos Deputados. O Senado limitou a atuação do Banco Central, mas manteve a previsão de que a instituição compre diretamente créditos e títulos privados diretamente do chamado mercado secundário. As instituições financeiras, contudo, não podem usar esse dinheiro liberado pelo BC de qualquer forma: ficou proibida a distribuição de lucros e dividendos.  As operações do BC precisarão ser publicadas diariamente e consolidadas num relatório mensal.

Falando em Banco Central: seu presidente, Roberto Campos, tirou de contexto um gráfico que mostra como o isolamento social distribui o número de infecções ao longo de um período maior. “Mostra que, quando você tem um achatamento maior, você tem uma recessão maior e vice-versa”, disse. A declaração, dada em transmissão ao vivo organizada pela XP Investimentos, aconteceu no dia 4 de abril – mas só ganhou destaque hoje com a publicação de uma análise no Intercept Brasil

“Na ótica do neto de Roberto Campos – ministro do Planejamento da ditadura militar e um dos maiores expoentes do liberalismo econômico no Brasil –, o gráfico serve ‘para ilustrar que existe essa troca [entre salvar vidas ou combater a recessão] e é uma troca que está sendo considerada.’ Na lógica fria de Campos Neto, quanto mais rápido vierem novos casos e mortes por covid-19, melhor para a economia. Mais importante é que a indústria continue produzindo e vendendo. Ainda que isso cause o colapso de hospitais e do sistema de saúde pública, forçando médicos e escolher quem atender e quem deixar morrer, é um preço razoável a pagar em nome do lucro”, escreveu a repórter Amanda Audi.

ENQUANTO ISSO…

A Câmara dos Deputados aprovou ontem a medida provisória que prevê um contrato de trabalho com menos direitos para os jovens brasileiros entre 18 e 29 anos. É o famigerado “contrato verde e amarelo”, proposto por Paulo Guedes no ano passado. A MP que instituiu o programa perde vigência no próximo dia 20 se não for aprovada pelo Senado antes.

E o plenário do Congresso se reúne hoje para analisar um projeto de lei do Senado que amplia a lista de trabalhadores que poderão receber o auxílio emergencial de R$ 600. O texto inclui taxistas, manicures, diaristas, pescadores artesanais e catadores de material reciclável. Também estende o benefício para mulheres com menos de 18 anos que sejam mães. 

SUPERFATURAMENTOS

Grandes emergências são a época perfeita para grandes faturamentos. No Rio, o Ministério Público apura a aquisição de 50 respiradores comprados em contratação emergencial por quase R$ 10 milhões – o dobro da média de mercado. Ainda por cima, a empresa contratada não tem nada a ver com saúde: é especializada em informática. No inquérito, o MP aponta que houve liberação antecipada de parte dos recursos para a empresa, apesar do preço elevado.

SOB SUSPEITAS

A rede de hospitais da operadora Prevent Senior, onde já morreram 163 pacientes de covid-19, está há tempos sob uma séria suspeita: a de que vários desses pacientes possam ter se contaminado dentro dos hospitais, e não antes de chegar a eles. A Época conversou com 12 famílias de pessoas que buscaram atendimento para problemas diversos – de dor no joelho a depressão –e acabaram mortos, diagnosticados com o novo coronavírus. Esses óbitos aconteceram em março, ainda no começo da epidemia no país. Todos moravam em bairros distantes do epicentro da doença, e se mantinham mais ou menos reclusos.

Tem mais: o Procon já notificou duas vezes a Prevent Senior pedindo esclarecimento sobre a morte de pacientes. Quer saber detalhes como o tempo de confirmação dos diagnósticos e se foram internados com suspeita ou confirmação de contágio. Mas as respostas foram consideradas insuficientes.

Enquanto isso, a juíza Gabriela Bertoli, do Foro Central Criminal da Barra Funda, considerou que há ‘justa causa’ para manter investigações contra o Hospital Sancta Maggiore, da Prevent Senior, que foi inspecionado pela vigilância sanitária, que constatou casos não notificados do novo coronavírus. Um pedido de arquivamento havia sido feito no início do mês.

ATENÇÃO

Pela primeira vez em mais de três semanas, Pequim voltou a registrar casos de transmissão local do coronavírus. Em toda a China continental, o número de infecções por transmissão comunitária subiu de dez na terça para 12 ontem. Com o controle rigoroso dos viajantes internacionais, por outro lado os casos importados caíram de 36 para 34.

Em Wuhan, pouco mais de uma semana após o fim da quarentena, os moradores ainda estão com medo. “Na última quarta-feira de manhã, os primeiros trens, nem meio cheios, saíram das estações e os primeiros aviões decolaram do aeroporto. Desde então, as barricadas que foram montadas pela cidade foram desaparecendo gradualmente e as lojas estão lentamente reabrindo suas portas. (…) Ninguém sabe se outros podem estar portando o vírus. Todo mundo fica longe dos outros e todo mundo usa máscaras faciais”, descreve a reportagem do Der Spiegel.

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