O compromisso do ministro com a Saúde privada

Agora está claro: para salvar milhares de vidas, será preciso requisitar hospitais particulares, sempre subsidiados pelo Estado. Mas Nelson Teich hesita e expõe seus laços com a mercantilização. Leia também: a interminável novela dos testes

Nelson Teich dá a impressão de ter todo o tempo do mundo para o enfrentamento à covid-19. Ouvir o ministro da Saúde, por vezes, é ter a impressão de que voltamos a janeiro, quando a encrenca provocada pelo coronavírus já era evidente, mas ainda não havia casos confirmados no Brasil. Ontem, ele foi instado pela imprensa a se posicionar num debate fundamental no momento: a criação de uma fila única de leitos. A proposta, pautada desde março por sanitaristas e juristas,  ganhou de vez o noticiário depois que estados como Amazonas, Ceará e Pernambuco e capitais como Rio de Janeiro chegaram ao limite da capacidade de internação, especialmente nas UTIs. Em resumo, consiste em requisitar a infraestrutura existente do setor privado – leitos, equipamentos, profissionais – para dar conta da demanda urgente por atendimento no SUS. Assim, o país evitaria passar pela bárbara situação de permitir que pessoas morram esperando por uma vaga no setor público enquanto os hospitais particulares têm leitos vazios. Diante da pandemia, países como Espanha, Irlanda e Austrália tomaram essa decisão, presente no rol de ações possíveis durante calamidades públicas – e prevista também no Brasil. 

Pois bem: Teich, que assumiu confessando preocupação com o prejuízo financeiro que o cancelamento de cirurgias eletivas traria ao setor privado, acha o assunto “bastante delicado”. O ministro preferiu ignorar o fato de que o colapso do SUS já aconteceu ou é iminente em vários cantos do país e declarou que a “conversa” com o setor privado deve acontecer quando a situação “chegar no limite”. Ele disse que “precisa estudar o assunto com muito mais cuidado” porque a criação de uma fila única de leitos traz “implicações muito grandes no que vai acontecer depois” e pode “gerar insegurança para aqueles que trabalham na iniciativa privada”. Além disso, o ministro se confessou preocupado com “como as pessoas de fora vão olhar” para o país. “Seria irresponsável dar uma posição definitiva”, afirmou.

É elucidativo que justamente esse assunto desperte a preocupação de Teich com a opinião pública mundial que, a essa altura, já constatou que a condução que o governo federal faz da crise do coronavírus é a pior do mundono limite da barbárie, etc.  por termos um presidente que incentiva a livre circulação de vírus e pessoas – a quem o ministro não pestanejou em jurar fidelidade logo que tomou posse. Teich também se esquece que, durante a pandemia, o status “sagrado” da propriedade privada foi flexibilizado até mesmo nos Estados Unidos, que lançou mão de uma lei da Guerra da Coreia para conseguir intervir nas empresas e reorientar sua produção. 

É interessante constatar como Teich, que passou a vida profissional toda no setor privado, coincide em opinião com Claudio Lottenberg, o outro nome cogitado para assumir o Ministério da Saúde e um dos maiores vocalizadores da agenda empresarial no Brasil. Hoje, n´O Globo, Lottenberg defende que a fila única é “um debate precipitado” ao mesmo tempo que finge preocupação social, ao afirmar que retirar “as pessoas mais vulneráveis” das suas casas e alocá-las em hotéis vazios teria um “custo muito inferior a um leito de UTI”. No cerne do artigo, está a defesa de que as autoridades sanitárias se baseiem em “critérios de triagem” e “sobrevida” para decidir quem recebe cuidados intensivos – e quem não. “Assim, pacientes com fragilidade intensa (com dependência total para atividades básicas de vida) seriam preteridos em situações de carência extrema de recursos. Isso não significaria, no entanto, abandonar o paciente, mas sim propor cuidados paliativos dentro do respeito à dignidade humana”. Mais claro, só desenhando.

Quem passou muito tempo navegando nesses mares da elite empresarial e tem uma leitura perspicaz das prioridades desse pessoal é Gonzalo Vecina, professor da USP e da FGV, ex-superintendente do Sírio Libanês. “Eu esperava que houvesse um comportamento do setor privado de oferecer essas vagas, mas existem grupos resistindo. Para eles, esse leito é de quem paga. Se vier aqui um paciente que paga e um paciente que o SUS está mandando, vai ser atendido o que paga primeiro, independentemente do lugar na fila. Isso é uma desnaturação sem tamanho. É inacreditável que não consigamos enxergar o quão evidentes são essas questões éticas no meio de uma crise sanitária desse porte”, disse na Folha. E completou: “O fato é que nós, no Brasil, temos uma dificuldade grande para trabalhar com o que é frágil. Não tem política adequada para os velhos, para os portadores de deficiência, para os pobres, os negros, os índios. Isso tudo aflora num momento de crise. Você chega à Brasilândia e é aquele desastre. E as pessoas ficam surpresas. Não há razão para surpresas. É assim que a sociedade trata os frágeis, esperando que eles se escafedam.”

Enquanto Teich planeja começar uma conversa com a ANS, Roraima chegou à taxa de 100% dos leitos estaduais de UTI ocupados. E Rio de Janeiro está com 97%. Enquanto Teich denota que o SUS não está se organizando “com o máximo de eficiência” no meio de uma pandemia, só 46% dos 1.064 leitos criados especialmente para covid-19 em Recife conseguem funcionar. Os entraves não podem ser resolvidos no nível local, nem por canetada: faltam ventiladores mecânicos e médicos. Em Pernambuco, a fila de espera por vaga em UTI já chega a mais de uma semana

Segundo Leonardo Mattos, da campanha Leitos para Todos, o gestor público municipal ou estadual pode lançar mão da requisição da infraestrutura privada de saúde – e isso não significa que o empresário vai ficar sem receber pelo uso do leito, por exemplo, mas que o processo pode se dar sem necessidade de negociação e que o pagamento pode ser feito depois do uso. Em alguns lugares, como São Paulo, a ‘negociação’ parece estar andando, sem necessidade de requisição. Pudera: a capital mais rica do país tem dinheiro em caixa para pagar R$ 2,1 mil por diária de UTI quando, segundo a tabela do SUS, esse valor deve ser R$ 1,6 mil. Por tudo o que sabemos do poder do lobby privado, seria muito mais fácil se o Ministério da Saúde tivesse liderado essa discussão desde o início da epidemia no Brasil. Não aconteceu com Luiz Henrique Mandetta e sabe se lá quando (e se) vai acontecer sob Teich. O fato é que quem não consegue respirar, definitivamente, não pode esperar.

PELA PRIMEIRA VEZ

Nelson Teich admitiu ontem, pela primeira vez, a pertinência da adoção do bloqueio total da circulação de pessoas em locais com alta incidência de transmissão do vírus e baixa capacidade de atendimento dos doentes. É claro que o comentário veio depois que a realidade se impôs ao ministro, com a adoção do lockdown em cidades do Maranhão e do Pará. Como de costume, Teich não parece ter nenhuma pressa em publicar a diretriz federal sobre o assunto que, segundo ele, sairá “no momento oportuno”. Também evitou se comprometer: “O importante é colocar que quando a gente fala em isolamento e distanciamento existem vários níveis. É importante que a gente entenda que não existe uma defesa do isolamento ou não isolamento. Vai ter sempre medidas simples até o lockdown. O que é importante é que cada lugar vai ter sua necessidade”.

Ontem, a Justiça do Amazonas negou o pedido de lockdown feito pelo Ministério Público. Embora o estado esteja com as UTIs lotadas há semanas, o juiz afirmou que a tendência é de “decréscimo” das mortes. Segundo Ronnie Frank Stone, “não há nada que indique uma tendência crescente a justificar medidas mais drásticas de isolamento social”.  O magistrado se baseou nos números de óbitos por covid-19 registrados pela secretaria estadual de saúde – e ignorou solenemente o número total de óbitos que não receberam essa confirmação. 

No Rio de Janeiro, o Ministério Público estadual encaminhou ao governo um relatório técnico feito pela Fiocruz. A instituição defende ser “urgente” a adoção de ações de lockdown no estado, em particular na região metropolitana. Isso porque, segundo projeções, entre os dias 13 de maio e 22 de julho o Rio não vai ter mais leitos de UTI nem nos hospitais privados. Os pesquisadores antecipam que o vírus vai se espalhar por praticamente todo o estado e se tornar um problema mesmo nas cidades que registram, hoje, poucos casos. Por isso, o bloqueio total deveria ser acionado. O horizonte é que a circulação seja restrita, depois flexibilizada, em seguida bloqueada de novo, num ciclo que pode durar de 18 meses a dois anos.

O governador Wilson Witzel (PSC) está bem reticente em decretar o bloqueio e chegou a afirmar que, hoje, o que existe no estado é próximo de um lockdown. Já o prefeito da capital, Marcelo Crivella (Republicanos), anunciou que a partir de hoje haverá um “lockdown parcial” em Campo Grande, bairro da zona oeste do Rio que concentra os maiores registros de mortes (40) e denúncias de aglomeração. Por lá, a Prefeitura irá colocar grades nos acessos a vias públicas onde se concentram os comércios. Mas fora desse corredor, não haverá restrição. A medida vale por uma semana. 

Em Belém, o prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB) resolveu que empregadas domésticas desempenham uma atividade essencial durante a pandemia e, por isso, devem continuar trabalhando durante o lockdown. “Uma médica ou médico, por exemplo, precisa de alguém que ajude em casa”, tentou justificar a injustificável exceção. 

SERÁ?

Já ouvimos essa história antes. Um mês atrás, o Ministério da Saúde prometeu a ampliação do número de testes diários para covid-19, chegando a fazer entre 30 e 50 mil por dia. Na época, o secretário de vigilância em saúde, Wanderson Oliveira, anunciou que a Pasta iniciaria “em breve” a testagem de casos leves em cidades maiores.

Nada disso aconteceu. Ontem o filme se repetiu, mas com números mais vultosos: o mesmo Oliveira anunciou a intenção de aumentar de 2,7 mil para 70 mil a análise diária de testes. Não agora… Só entre junho e agosto. A ideia é que no mês que vem sejam processados 16 mil testes por dia na Fiocruz, cinco mil no Instituto de Biologia Molecular, no Paraná, e mais 50 mil na rede privada. Mais uma vez, há a previsão de ampliar a oferta para casos leves, em modelo de drive-thru em capitais e cidades com mais de 500 mil habitantes. E, de acordo com o secretário, nas 222 unidades-sentinela do SUS todos os casos (leves e graves) vão ser testados. Cá entre nós, nas unidades-sentinela isso deveria estar acontecendo desde sempre; esse foi o argumento do ex-ministro Mandetta para sustentar que a testagem massiva da população não era necessária em termos de planejamento de políticas públicas, já que os resultados dessas unidades forneciam boas estimativas por amostragem.

O programa de testagem foi batizado de ‘Diagnosticar para cuidar’ e pretende começar zerando a fila de mais de 90 mil amostras que estão aguardando análise atualmente. Para novas coletas, vai haver duas estratégias: ‘Confirma Covid-19’ e ‘Testa Brasil’. A primeira se baseia em testes PCR (os que verificam a presença do vírus nos primeiros dias de infecção), e a segunda com os testes sorológicos (os testes rápidos, menos precisos, e que só devem ser usados a partir do oitavo dia de sintomas). Segundo Oliveira, a intenção é priorizar os PCR por serem mais precisos.

Tudo isso depende, óbvio, da entrega da totalidade daqueles 46 milhões de testes anunciados lá atrás. Como dissemos ontem, até agora só 5,1 milhões chegaram. Oliveira estima um cronograma de entrega dos exames PCR (4 milhões em julho, 4 milhões em julho, 3,2 milhões em agosto), mas admite que não garante nada. “Essa oferta está condicionada à oferta de insumos no mercado”, disse.

OCUPAÇÃO MILITAR

Ontem, saiu uma edição extra do Diário Oficial da União com cinco nomeações para o Ministério da Saúde – quatro delas contemplaram militares. A ocupação militar da Pasta já havia sido sinalizada com a indicação do general Eduardo Pazzuelo para o segundo cargo mais importante, a Secretaria Executiva. E essa movimentação não estaria perto do fim: nos próximos dias, mais oito cargos devem ir para militares, de acordo com o Valor. Detalhe: de um total de 13 majores, coronéis e subtenentes, todos são homens.  

A investida militar consolida de vez a suspeita de tutela do Palácio do Planalto sobre o Ministério da Saúde, embora Nelson Teich não tenha vocação para Mandetta. O ministro, é claro, negou que esteja acontecendo qualquer coisa estranha e se descreveu como “o líder de um grupo” composto por vários secretários. Para ele, é preciso “evitar essa polarização se é um governo de militar ou não”. “Os militares têm competências que são muito importantes, o planejamento do trabalho em equipe, uma coisa organizada, isso é importantíssimo”, desconversou. 

AUTOINFECÇÃO

Em Roraima, onde há quase mil casos confirmados de covid-19, mais de um quarto dos infectados são militares, segundo o Intercept. O problema é que parece haver uma intencionalidade na contaminação deles: os que trabalham na operação Acolhida – força-tarefa de amparo a refugiados venezuelanos – estão sendo incentivados a se expor ao vírus. Pois é. A reportagem descreve como o comandante da operação, o general Antônio Manoel de Barros, aparece em vídeo do dia 18 de abril afirmando que está infectado e comemorando o fato. “É como eu digo, vale para mim, vale para vocês. Nós não estamos infectados, nós estamos sendo imunizados para ações futuras. Essa é a visão que nós temos que ter“. Ele diz ainda que 55 dos 567 militares envolvidos na operação estariam infectados também; na última segunda-feira, já eram 98. É claro que a ‘estratégia’ leva risco não só para eles e para o precário sistema de saúde do estado, mas também para os venezuelanos, população vulnerável que a operação deveria proteger. Mas isso não é um problema para Barros.

Em tempo: ele chegou para substituir o general Pazuello, que comandava a operação Acolhida até assumir a secretaria-geral do Ministério da Saúde. No ano passado, Barros esteve à frente de uma outra operação, a Muquiço, responsável pela morte o músico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo no Rio.

SÓ PIORA

Ontem, registramos um novo recorde de mortes: mais 615 pessoas perderam a vida por infecção do coronavírus. O Brasil chegou a um total de 8.536 óbitos registrados e ultrapassou a Bélgica nessa contabilidade mórbida. Ocupamos, agora, o sexto lugar no ranking mundial. São Paulo chegou à triste marca de três mil óbitos por covid-19. Segundo o governador do estado, João Doria (PSDB), nunca o estado perdeu tantas vidas em tão pouco tempo

Entre terça e quarta-feira, o Ministério da Saúde confirmou mais 10.503 casos, num total de 125.218. Numa comparação com 40 países, estamos no grupo em que a contaminação avança mais rápido, a uma taxa diária de 6,67%.

MUDANDO A MENSAGEM

Desdenhar do novo coronavírus a partir da ideia de que ele mata mais os idosos e quem tem outras doenças (não causando problemas a quem tem ‘histórico de atleta’, como propagandeia certo presidente) é ruim por diferentes motivos. De cara, a ideia implícita é a de que essas pessoas não importam muito. Mas, além disso, o próprio argumento não se prova verdadeiro: jovens e pessoas sem doenças pré-existentes também estão desenvolvendo sintomas graves, precisando de internação e morrendo. Um estudo divulgado pelo Centro de Controle e Doenças dos EUA vai nessa direção. Foram analisados 305 pacientes em oito hospitais da Geórgia; entre os internados, 25% não tinham fatores de risco e, desses, 5% morreram. Jeremy Gold, coordenador da pesquisa, disse à Folha que é preciso reformular a mensagem para que as pessoas – todas – entendam que estão em risco.

O estudo também corrobora o fato de que a população negra é muito mais atingida, algo que tem ficado evidente nas estatísticas de mortes. O estudo mostrou que, dos pacientes observados, nada menos do que 80% eram negros. Mas, após a internação, suas chances de morrer eram as mesmas que a dos brancos. Isso sugere que a maior mortalidade detectada nessa população se deve ao fato de que ela está se infectando mais, muito provavelmente por desigualdades econômicas e sociais.

Por aqui, a desigualdade caminha a passos largos: as mortes de negros no país quintuplicaram em apenas duas semanas, calculou a Agência Pública. No mesmo período, que vai de 11 a 26 de abril, as mortes de brancos cresceram, mas num ritmo menor, chegando ao triplo.

SÓ AUMENTA

Cerca de 50 milhões de pessoas já receberam o auxílio emergencial, mas o número deve chegar a 80 milhões em breve. Se a crise continuar gerando perda de renda, no fim das contas mais de metade da população pode se tornar elegível para receber os R$ 600 mensais. Seriam 112 milhões de pessoas. A estimativa é do Instituto Fiscal Independente, do Senado, que fez simulações a partir dos dados da Caixa e do Dataprev. O cenário mais provável é o intermediário (o dos 80 milhões de beneficiários), que vai demandar uma despesa de R$ 154,4 bilhões. É o equivalente a cinco anos dos gastos do Bolsa Família.

Enquanto isso, no Mato Grosso, o procurador-geral de Justiça José Antônio Borges Pereira decidiu criar uma “ajuda de custo” para procuradores e promotores gastarem com a própria saúde. O ‘bônus covid’ seria de R$ 1 mil. O Conselho Nacional do Ministério Público tenta barrar o benefício, e alertou o procurador-geral da República Augusto Aras. A ver.

O SOCORRO

Ontem o Senado aprovou o auxílio a estados e municípios, chancelando parte das alterações propostas pela Câmara na véspera (veja aqui). Ficou mantida quase integralmente a ampliação da lista dos servidores que vão poder continuar tendo aumento de salários até o próximo ano (o congelamento é uma exigência do governo para o repasse do auxílio). Das profissões blindadas pelos deputados, o presidente do Senado Davi Alcolumbre limou duas: policiais legislativos e trabalhadores da educação pública vão ficar mesmo com salários congelados.

Aliás… A blindagem de servidores, grande bronca de Paulo Guedes, tinha sido injetada no texto por deputados bolsonaristas. O líder do governo na Câmara, deputado Vitor Hugo (PSL), disse textualmente que partiu de Jair Bolsonaro o aval. “Vitor Hugo contou que, em dois telefonemas, o presidente aprovou as alterações na proposta. No fim, deu a dimensão do apreço de seu chefe pela equipe econômica: ‘Eu sou líder do governo e não líder de qualquer ministério‘”, escreve, na Folha, Bruno Boghossian.

Também houve alterações em relação às transferências diretas. O pacote ficou mesmo em R$ 60 bilhões, sendo R$ 10 bi repassados para o enfrentamento do coronavírus e, destes, R$ 7 bilhões para os estados e R$ 3 bilhões para municípios. Mas o presidente do Senado derrubou uma mudança que havia sido feita pela Câmara no critério de distribuição desses R$ 7 bi. Como dissemos ontem, os deputados haviam feito uma alteração que beneficiava estados do Sul e Sudeste, mas o Senado acabou voltando ao texto anterior, que destina mais recursos para o Amapá de Alcolumbre.

O valor total da ajuda, R$ 125 bilhões. ficou no meio do caminho entre a versão inicial do governo (Guedes queria 77,4 bilhões) e aquele aprovada inicialmente pelos deputados (que poderia passar de R$ 200 bilhões). O presidente da Câmara Rodrigo Maia classificou o texto final como “ótimo”.

EXPECTATIVAS

Ontem o TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) decidiu manter a determinação judicial que obriga a Advocacia Geral da União a divulgar os laudos dos exames de Jair Bolsonaro para o coronavírus. Como vimos, a AGU havia enviado um relatório médico, sem laudo nenhum, atestando que o presidente não fora infectado.

A propósito: mais um integrante do primeiro escalão do governo federal está com covid-19. Trata-se do porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros.

E o juiz federal Marcelo Bretas deve ser julgado hoje pelo TRF-2 por ter participado de eventos políticos em fevereiro com Bolsonaro e com o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Ele está atuamente hospitalizado com covid-19.

MORREM MAIS AQUI

Profissonais de enfermagem no Brasil estão morrendo de covid-19 com uma das maiores taxas do mundo. Até agora foram identificados 73 óbitos pelo Cofen, o Conselho Federal de Enfermagem. Para comparação, nos Estados Unidos foram 46 enfermeiros mortos, mesmo que seja o epicentro atual da pandemia, com mais de 70 mil óbitos no total. A Itália, segundo país mais afetado pela doença, perdeu 35 profissonais de enfermagem; a Espanha, apenas quatro.

O presidente do Cofen, Manoel Neri, diz que uma das razões para a alta mortalidade aqui é que os profissionais idosos não foram afastados; no entanto, a maior parte dos óbitos (41) foi de pessoas com menos de 60 anos. Outro problema é a falta de equipamentos de proteção individual. E outra, que acreditamos ser muito importante, é o treinamento inadequado das equipes para o uso, a colocação e a retirada desses equipamentos. Nos gera muita angústia ver fotos e vídeos de profissonais em ação que mostram erros graves nesse sentido. “Muitos leitos de UTI estão sendo abertos sem enfermeiros e médicos especializados em UTIs. Então o profissional acaba sendo colocado nesse serviço extremamente especializado sem o treinamento adequado”, diz Neri.

RISCO PARALELO

Antes da chegada da covid-19, a doença que mais matava por dia no mundo todo era a tuberculose. A cada ano, morrem 1,5 milhão de pessoas. As coisas vinham melhorando a duras penas. Mas, quando a pandemia finalmente acabar, a doença certamente chegará ao topo de novo. E piorada – a situação pode retroceder até oito anos. O alerta vem de um estudo divulgado ontem pela organização Stop TB, feito em colaboração com o Imperial College de Londres, a Avenir Health e a Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

O culpado é o lockdown, justo a única medida contra o coronavírus capaz de acabar com as mortes em massa quando os sistemas de saúde já colapsaram ou estão quase lá. O trabalho oferece projeções com base em dois cenários: um com dois meses de bloqueio e depois mais dois meses até a volta à normalidade. O outro, com três meses de lockdown e mais dez meses para retomada. No pior cenário, mais de 6,3 milhões de pessoas vão ter  tuberculose nos próximos cinco anos, e pode haver até 1,4 milhão de mortes a mais, com a possível queda nos diagnósticos e tratamentos. Complicado pensar em uma solução.

SOBRE PROMESSAS

A farmacêutica Pfizer, em conjunto com a BioNTech, começou esta semana a testar uma nova vacina em humanos nos Estados Unidos. Os testes já começaram na Alemanha com 12 adultos saudáveis, e as empresas querem expandir o estudo para 200 pessoas no país europeu e 360 nos EUA, na primeira fase. Na etapa seguinte, oito mil pessoas receberiam a vacina. Essa é mais uma dentre muitas vacinas que já estão sendo testadas em humanos, com altas expectativas. Dessa vez, segundo a Folha, a promessa é a de que o imunizante pode já estar disponível em setembro.

Mas as previsões de que possamos ser imunizados contra o novo coronavírus podem ser bem prejudiciais, alertam especialistas. Já falamos aqui que, mesmo quando uma vacina segura e eficaz for descoberta, ainda pode demorar muito para que todo mundo consiga receber uma dose. “A OMS pediu um compartilhamento equitativo das vacinas Covid-19, insistindo que elas devem ser vistas como um recurso global. Mas, desde os primeiros dias desta pandemia, houve preocupações de que os países que abrigam fábricas nacionalizem qualquer produção, para garantir que as necessidades domésticas sejam atendidas antes que a vacina possa ser exportada para uso em outros lugares”, diz a matéria do Stat.  Robin Robinson, ex-diretor da Autoridade Biomédica de Pesquisa e Desenvolvimento Avançado dos EUA, diz que mesmo “se tudo der certo” a população em geral não deve ter uma vacina até a segunda metade do próximo ano. Até porque, primeiro, o certo é imunizar todos os trabalhadores de saúde do mundo inteiro. Depois, idosos, e assim por diante.

Por aqui, o ministro da Saúde Nelson Teich afirmou que o governo federal já está em contato com laboratórios para negociar ‘cotas’ de vacinas, mesmo que ainda não tenham sido produzidas, de modo queo Brasil não fique para trás nessa corrida. O grande mistério é que estratégia exatamente ele está pensando em usar para conseguir esse grande feito… Na campanha global de financiamento para acelerar o desenvolvimento e produção de um imunizante, o país ficou de fora. Teich também não diz nada sobre incentivar laboratórios e universidades públicas brasileiras nesse sentido.

OVOS DE OURO

O único medicamento contra o novo coronavírus aprovado pela FDA (agência reguladora americana) em caráter emergencial é o remdesivir, como sabemos, e os resultados preliminares dos ensaios com a droga são promissores. Mas a matéria do site Politico fala de todo o esquema de preços abusivos que pode emergir desse sucesso. Já aconteceu antes. Quem nos acompanha há mais tempo lembra que falamos muito aqui na newsletter sobre os lucros inexplicáveis da Gilead com um medicamento importante no combate à hepatite C.

No caso da covid-19, não se sabe ainda qual deve ser o preço do remdesivir. Uma ONG que avalia custos de medicamentos diz que custa US$ 9,32 a produção da quantidade necessária para 10 dias de tratamento; juntando aí os custos do desenvolvimento e dos ensaios clńicos, o Instituto de Revisão Clínica e Econômica fala em US$ 390. Mas os analistas de Wall Street, que não se baseiam em nada disso, têm uma estimativa um pouco diferente… Sugerem um preço final que varia  entre US$ 5 mil e US$ 10 mil dólares.

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