Bolsonaro X Coronavac: história de uma sabotagem

Diretor do Butantan expõe, na CPI da Covid, todos os atos do governo que atrasaram e tentaram impedir a imunização dos brasileiros. E mais: Cresce apoio ao impeachment. No Uruguai, CoronaVac deu proteção de 97% contra morte

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RESPONSÁVEL DIRETO

Se o governo Bolsonaro tivesse aceitado de pronto a oferta de vacinas feita pelo Instituto Butantan em outubro do ano passado, o país poderia ter até agora 100 milhões de doses da CoronaVac; mas, como o acordo só foi assinado em janeiro deste ano, foram entregues 47,2 milhões. A informação foi dada pelo diretor do Butantan, Dimas Covas, à CPI: “Em janeiro, os parceiros internacionais, a Sinovac, já tinham outros compromissos. O ambiente internacional era outro, de falta de vacinas. Portanto, ainda era possível o fornecimento de 100 milhões de doses, mas num outro cronograma, não mais até maio. Nós já estávamos falando em agosto e setembro deste ano”, disse ele.

As consequências disso foram rapidamente calculadas pela imprensa: com quase 53 milhões de doses a mais, o país poderia ter ao menos dobrado o número de pessoas com o esquema vacinal completo hoje. Em vez de 21 milhões de pessoas totalmente vacinadas, seriam cerca de 50 milhões. Até 89,7 mil idosos poderiam ter deixado de morrer, segundo uma estimativa do Estadão com base no  Sivep-Gripe, sistema federal que traz registros de internações e óbitos por covid-19 e outras doenças respiratórias. O número é próximo ao calculado pelo epidemiologista Pedro Hallal, da UFPel.

O depoimento de Dimas Covas liga explicitamente o nome de Jair Bolsonaro à falta de vacinas no Brasil e às mortes que resultam disso. De acordo com ele, as ações e declarações do presidente contrárias à CoronaVac inviabilizaram as negociações. Outubro foi o mês em que o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello anunciou a intenção de compra, no que foi imediatamente desautorizado pelo chefe. À Comissão, Pazuello declarou que o episódio do “um manda, outro obedece” não teve efeito nenhum no andamento das tratativas. Mas Dimas afirmou o contrário: embora ele não tenha de fato recebido nenhum ofício cancelando a intenção de compra, na prática, a negociação ficou parada por quase três meses. 

Ele acrescentou ainda que só houve movimentação do governo federal, em janeiro, porque outras iniciativas não deram certo: “Houve a tentativa de buscar vacinas na Índia, que não foi bem sucedida, e houve a dificuldade da própria AstraZeneca em fornecer as vacinas e, portanto, naquele momento, a única vacina disponível era a vacina do Butantan”. Se o governo federal não retomasse a conversa, São Paulo e outros estados pretendiam se virar por conta própria: 17 estados já haviam feito termos de intenção de compra.  Com os números de  Covas, fica claro que os efeitos da obstinação política de Bolsonaro em negar a CoronaVac anda vão se estender durante meses.

Por conta da omissão do governo federal apontada ontem, o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), apresentou um requerimento para que o Ministério da Saúde e a Casa Civil prestem informações sobre o depoimento.

A propósito: Bolsonaro entrou com mais uma ação no STF contra medidas restritivas impostas por estados para controlar a pandemia. Quer derrubar decretos de Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Norte.

CRESCE A INSATISFAÇÃO

Pode ser efeito da CPI, dos quase 460 mil mortos por covid-19, da pobreza, da fome, ou o conjunto de tudo isso, mas o fato é que a rejeição ao governo Bolsonaro está em 59%, segundo a última pesquisa PoderData. Subiu para 57% a proporção dos que são a favor do impeachment, uma taxa que cresceu 11 pontos percentuais nos últimos três meses. 

Se o auxílio emergencial salvaguardou a popularidade do presidente no ano passado, o mesmo não parece estar acontecendo agora, quando o valor foi reduzido e há menos gente recebendo. Segundo a mesma pesquisa, 64% dos que receberam o benefício desaprovam o governo. O número cresceu seis pontos percentuais em apenas um mês, e mostra uma reprovação neste grupo ainda maior do que a média da população.

Amanhã vai haver manifestações contra Bolsonaro em pelo menos 85 cidades. O último ano teve as ruas esvaziadas de protestos por conta da pandemia e, com internações, óbitos e novos casos em patamares elevados, a situação exige cautela. Porém, com temos dito reiteradas vezes por aqui, o coronavírus se transmite pelo ar, e o risco em locais abertos é bem menor. Com máscaras bem ajustadas (preferencialmente PFF2) e distanciamento, ele é de fato muito pequeno. A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares fez um guia de segurança sanitária para manifestantes. Vários coletivos estão se organizando para distribuir máscaras PFF2 durante os atos.. 

NÃO FOI NADA…

Para salvar Eduardo Pazuello de uma punição, sua defesa decidiu alegar que ele não fez o que todos vimos que fez: participar de um ato político. O general afirmou ter sido convidado por Bolsonaro para um passeio de moto, quando foi surpreendido com um pedido para subir no carro de som…

Em transmissão ao vivo nas redes sociais, Bolsonaro também negou a natureza política da manifestação: “É um encontro que não teve nenhum viés político, até porque eu não estou filiado a partido político nenhum ainda. Foi um movimento pela liberdade, pela democracia e apoio ao presidente”.

REDUÇÕES NO URUGUAI

O governo do Uruguai divulgou ontem os resultados preliminares de seu estudo sobre a efetividade das vacinas. Os números se baseiam nos dados de 862 mil pessoas com o esquema vacinal completo, 14 semanas após a segunda dose. E mostram uma proteção muito alta contra mortes: 80% para a Pfizer e impressionantes 97% para a CoronaVac.

Uma limitação para comparar os dois imunizantes nesse aspecto, segundo o governo, é que os resultados não levam em conta fatores como a idade de quem recebeu cada um, o que influencia o desfecho. Por lá, a vacina da Pfizer foi oferecida apenas para profissionais de saúde e pessoas com mais de 70 anos, com maior exposição ou maior risco de morrer, enquanto os uruguaios abaixo dessa idade receberam a CoronaVac (e, em algumas regiões, a vacina de Oxford/AstraZeneca). O relatório diz que todas as mortes com Pfizer foram de idosos com mais de 80 anos, mas a idade dos que vieram a óbito com a CoronaVac não foi divulgada ainda. Os ajustes estatísticos em função dessa diferença devem ser publicados em breve.

De todo modo, o estudo deixa clara a importância das vacinas na redução da mortalidade. Para infecções sintomáticas e hospitalizações os dados também são muito bons: a redução de casos confirmados de covid-19 foi de 57% com a CoronaVac e 75% com a Pfizer; a redução das internações em UTI foi de 95% para a CoronaVac e 99% para a Pfizer. 

DE VOLTA AO COMEÇO

A teoria de que o novo coronavírus surgiu em um acidente de laboratório em Wuhan, na China, voltou a ganhar repercussão. Dessa vez, não mais pelas falas exageradas de ilustres conspiracionistas, como Donald Trump, e sim porque Joe Biden pediu à inteligência de seu país uma investigação sobre a hipótese.

Na verdade, havia um burburinho crescente a esse respeito desde o fim de março, quando a OMS divulgou o relatório de uma investigação realizada por pesquisadores independentes sobre o começo da pandemia. A teoria do vazamento não foi completamente descartada, mas considerada extremamente improvável. O problema era que não parecia haver evidências suficientes para tanto, e a documentação dos laboratórios chineses visitados pelos especialistas estava incompleta. Isso fez com que o diretor da OMS, Tedros Ghebreyesus, declarasse dias depois que “nenhuma hipótese está descartada“; de acordo com ele, a investigação não fora extensa o suficiente.

De lá para cá, seguiu-se uma série de discussões entre cientistas, como narra a matéria da revista New Yorker. Vários passaram a apoiar publicamente a dúvida. No início deste mês, uma carta conjunta escrita por 18 especialistas, a maioria de prestígio, foi publicada na Science. Eles sugeriram que a equipe da OMS havia rejeitado muito rapidamente a teoria do vazamento e afirmaram que “as teorias de liberação acidental de um laboratório e transbordamento zoonótico permanecem viáveis”. Na mesma época, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, foi questionado sobre se ainda tinha certeza de que o vírus havia se desenvolvido naturalmente, e respondeu que não.

Finalmente, no último domingo, uma reportagem no Wall Street Journal afirmou que, segundo um relatório da inteligência dos EUA, três pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan adoeceram com sintomas semelhantes aos da covid-19 no final do outono de 2019. Mesmo se confirmada, é claro que essa informação não garante que o vírus tenha saído de lá. Ao mesmo tempo, funcionários dos EUA dizem que têm também outras evidências, que precisam ser analisadas por computadores — mas se recusaram a dizer do que se trata. 

Biden quer que as agências de inteligência dos EUA deem uma resposta em até 90 dias — o que, pelo que se sabe até agora, parece impossível. “As origens da maioria dos surtos de ebola, por exemplo, permanecem misteriosas, e os pesquisadores passaram 14 anos coletando evidências de que a epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS) de 2002-2004 foi causada por um vírus transmitido de morcegos a civetas para humanos”, compara a matéria da Nature. Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que, além de as investigações provavelmente não levarem a lugar nenhum (em relação a novas descobertas), podem dificultar a condução da pandemia num momento em que diplomacia e busca por consenso se fazem necessários.

De Igor Gielow, na Folha: “A agressividade de Biden ante o colosso chinês reflete, de todo modo, um fato inescapável no século 21. Os EUA são a potência estabelecida, e a China, o rival emergente. Washington está longe de ver o jogo virar em favor dos chineses, dado o tamanho de sua economia e de seu poderio militar, mas manter o status quo requer alerta e alarmismo na mesma medida. E é aí que entram as suspeitas, comprováveis ou não, sobre descuido de algum técnico de Wuhan ao estudar os insidiosos coronavírus que pululam entre nossos primos quirópteros. Embora o tema seja vital para a compreensão da pandemia que já matou mais de 3,5 milhões de pessoas, é o embate geopolítico central do nosso tempo que pauta a assertividade de Biden”.

DA MAIS ALTA PATENTE

“Silêncio, o sambista está dormindo, ele foi mas foi sorrindo”… Os versos de Geraldo Filme estão aqui hoje para homenagear Nelson Sargento. A covid-19 levou ontem um dos maiores nomes da música brasileira, internado desde o dia 20.

Sua morte levantou, mais uma vez, confusões sobre a possibilidade de uma pessoa vacinada se infectar e morrer. Ressaltamos o que temos dito sempre por aqui: vacinas não são uma blindagem completa, nenhuma oferece 100% de eficácia e, quanto menos gente imunizada, menor a proteção coletiva a cada um dos vacinados.

Precisamos de doses para todos. Aqui e em todo o mundo.

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