A história dos insurgentes Médicos para o Povo
Expondo falhas do sistema belga, esta notável organização mostra um caminho para a luta pelo direito à saúde em nosso tempo. Oferece consultas gratuitas – mas também mobiliza por farmacêuticas públicas, abordagem preventiva e locais de trabalho seguros
Publicado 04/04/2025 às 06:00 - Atualizado 04/04/2025 às 19:02

Como defender – e ampliar – o direito à saúde no século XXI? Em meio a uma nova onda global de precarização e privatização nos sistemas de saúde, essa é uma pergunta a que muitos buscam resposta. Uma das mais instigantes iniciativas de nosso tempo é a da organização belga Médicos para o Povo (MPLP, na sigla em francês), com quem é possível retomar a lição sobre a indissociabilidade entre a mobilização social e popular e a garantia da saúde para todos – um aprendizado histórico que, no Brasil, esteve no centro da conquista do Sistema Único de Saúde (SUS).
Surgido em 1971 oferecendo consultas de graça aos moradores dos bairros operários e fabris da cidade de Antuérpia, o MPLP está longe de se resumir à garantia imediata de cuidados aos que mais precisam. Por incrível que pareça, a Bélgica não possui um sistema público e gratuito de saúde – mas um sistema misto, onde a Previdência ressarce apenas parte dos gastos dos cidadãos com consultas e remédios, o que dificulta o acesso de milhares de pessoas pobres à saúde. “Para combater as doenças, acreditamos que é preciso sair dos consultórios médicos e nos debruçar sobre as condições sociais que deixam as pessoas doentes”, define o portal da organização.
É de autoria do MPLP, por exemplo, a ideia do Instituto Salk da Europa, uma proposta de empresa farmacêutica pública que concentre o desenvolvimento de pesquisas para baratear os preços e ampliar o acesso a medicamentos, orientando-se pelas necessidades da população e não pelo lucro. Além disso, seus 11 centros comunitários de saúde que atendem 25 mil pessoas são operados por equipes multiprofissionais, que integram saúde, ciência e mobilização. “O que queremos mostrar é que é possível organizar a saúde de uma forma acessível, barata, empoderadora e de alta qualidade. Queremos mostrar que existe outro caminho”, defende a médica de família Sofie Blancke, que atua em uma das clínicas dos Médicos para o Povo.
Em entrevista a Outra Saúde, Blancke conta detalhes sobre a história e as ações da organização. Como ela explica, as atividades do MPLP também se estendem à realização de campanhas em defesa da saúde do trabalhador e da redução do preço dos medicamentos, à promoção de uma abordagem preventiva na saúde belga e à condução de pesquisas científicas. Assim, suas clínicas também se tornam “centros de ação pelo direito à saúde”, diz a médica.
Com iniciativas como o Colóquio Saúde e Trabalho e pesquisas sobre as doenças profissionais dos trabalhadores da limpeza, o trabalho do MPLP se integra à investigação científica. Jovens profissionais se especializam em Medicina de Família nas clínicas do MPLP, e são estimulados “a estudar um assunto socialmente relevante que impulsione ações pelo direito à saúde” em suas teses, conta Sofie Blancke.
Mais que tudo, os Médicos para o Povo não são um movimento apolítico ou de caridade. Definindo-se em um de seus portais como “uma iniciativa do Partido do Trabalho da Bélgica (PTB)”, o MPLP foi fundado por quadros históricos dessa organização (definida em seu estatuto como “um partido comunista de nosso tempo”, que “se baseia no marxismo como fundamento teórico”, “tem como objetivo uma sociedade socialista” e defende “o centralismo democrático como princípio”), a exemplo de Kris Merckx e Michel Leyers. Como fruto do prestígio de sua atuação entre os trabalhadores, médicas do MPLP como Sofie Merckx e Lise Vandecasteele ocupam cadeiras no parlamento belga pela sigla do PTB, onde levam adiante a luta contra a crise da saúde naquele país.
Não menos importante, o MPLP também desenvolve uma importante atividade internacionalista. Neste momento, dois médicos da organização estão em uma missão de solidariedade à Palestina, onde testemunharam os ataques contra equipamentos e trabalhadores da saúde perpetrados por Israel.
Confira a íntegra da entrevista com Sofie Blancke, médica de família e membro da organização belga Médicos para o Povo.
Outra Saúde: Sofie, conte um pouco sobre a história do MPLP e as ideias que estiveram por trás de sua fundação. Como foi esse processo até chegarem ao atual momento, em que organizam 11 centros de saúde gratuitos em toda a Bélgica?
Sofie Blancke: O MPLP foi fundado por estudantes de Medicina pouco depois da Primavera de 1968, quando muitos estudantes se engajaram politicamente para mudar o mundo. Esses estudantes também queriam fazer alguma coisa — eles sentiam que a revolução estava próxima e queriam oferecer seu trabalho, expertise e conhecimento para a classe trabalhadora. Assim, eles fundaram um primeiro centro de saúde no bairro de Hoboken, em Antuérpia, próximo de uma fábrica da Umicore, uma empresa do setor químico. Esses estudantes disseram: “Não somos médicos por dinheiro, somos médicos para o povo”. Disso, surgiu nosso nome. Recentemente, lançamos um documentário que explica isso muito bem.
No começo era tudo muito difícil, porque a elite da Medicina não aceitava que houvesse médicos que trabalhassem sem pedir nenhum dinheiro em troca. Disseram que deviam ser loucos – e até tentaram acusar um de nossos fundadores, Kris Merckx [médico e dirigente histórico do PTB], de “insanidade mental”, dizendo que ele deveria ser internado por querer trabalhar de graça para os pacientes. Foi realmente muito duro.
Os fundadores do MPLP também se recusavam a pagar a anuidade da Ordem dos Médicos. Na Bélgica, por lei, você precisa pagar uma taxa para essa organização todos os anos. E todos os anos a ordem enviava um oficial de justiça para a clínica dos Médicos para o Povo. Eles tentavam tomar os pertences da nossa clínica, mas os próprios pacientes defendiam o prédio. Algumas dessas cenas também estão no documentário.
Hoje, 50 anos depois, temos uma relação bem diferente. Eles viram como nós trabalhamos, fazemos as coisas bem, realizamos pesquisas científicas, mudamos as coisas para melhor. Hoje, somos respeitados por nosso trabalho e por nosso engajamento.
O primeiro centro foi em Hoboken, um distrito de Antuérpia. Depois, surgiu um em Deurne, outro em Zelzate e posteriormente nos expandimos para o Sul da Bélgica. Fomos crescendo até chegar a 11 centros comunitários de saúde, que são uma iniciativa do Partido do Trabalho da Bélgica.
O que queremos mostrar é que é possível organizar a saúde de uma forma acessível, barata, empoderadora e de alta qualidade. Queremos mostrar que existe um outro caminho. Somos, ao mesmo tempo, centros de saúde de alta qualidade e centros de ação pelo direito à saúde.

Por que o trabalho de vocês é necessário? A Bélgica não possui um sistema público e gratuito de saúde? Como funciona a saúde belga?
Na Bélgica, não temos um sistema público de saúde. O que temos é um sistema misto, em que há um sistema público de seguridade social e ele paga o sistema privado de saúde, seja o setor privado “puro” ou o setor privado sem fins lucrativos. Você pode ler um pouco mais sobre isso em nosso texto de visão, “Porque a saúde é um direito”.
Por exemplo, se o paciente vai ao médico de família, ele paga cerca de 6 euros de coparticipação por cada consulta [A coparticipação é o valor pago depois de realizar um procedimento, como consultas e exames]. A justificativa oficial para que uma parte do valor da consulta tenha que sair do bolso do paciente é “desestimular as pessoas de irem demais ao médico”. Foi assim que chegamos à situação de 900 mil pessoas que adiam a busca de tratamento médico porque não têm condições de pagar essa parte do valor. Ainda por cima, há um problema de filas, que são muito mal estruturadas. Muitas vezes, é difícil ir ao especialista que você precisa.
Dois sistemas legais diferentes estruturam a saúde na Bélgica. Há esse primeiro, que encoraja os médicos a terem muitos pacientes para ganhar mais. E um segundo, chamado forfait ou sistema de taxa fixa, que garante um montante estável. Nas nossas clínicas, portanto, recebemos da mutualidade – um intermediário entre o paciente e a Previdência social – um certo valor todos os meses.
No centro comunitário de saúde do MPLP em que trabalho, temos cerca de 6 mil pacientes. Se eles precisam de mais cuidados – por exemplo, pessoas com deficiência, idosos, portadores de doenças crônicas –, recebemos um pouco mais de recursos. Mas existe também uma quantia fixa mensal, que não muda se houver poucas ou muitas consultas. Tudo vai para um mesmo caixa, a partir do qual pagamos os salários de todos os trabalhadores. Isso significa que não precisamos cobrar nada dos nossos pacientes e podemos nos concentrar em oferecer bons serviços de saúde. Também conseguimos nos concentrar na prevenção.
Na equipe, contamos com médicos e enfermeiras, mas também nutricionistas e psicólogos. Ainda temos um bom time de recepção, que faz a triagem dos pacientes para que possamos nos organizar melhor. Essa equipe multiprofissional nos tornou muito resilientes na pandemia do coronavírus, por exemplo, e permitiu que nós nos organizássemos melhor.
Criamos uma fila para doenças infecciosas e outra para as não-infecciosas. Quanto aos psicólogos e nutricionistas, eles não podiam ver seus pacientes, mas conseguiram falar por ligação com 800 dos mais idosos e vulneráveis. Nós sondamos quais eram suas necessidades – se precisavam de alguém para fazer as compras, por exemplo.
Fizemos tudo isso para continuar sendo um centro de ação em defesa do direito à saúde mesmo frente à covid-19. Denunciamos que a Bélgica não fazia testes o suficiente e convidamos a imprensa para uma de nossas ações de testagem, a fim de denunciar a situação. Também produzimos máscaras e as distribuímos entre organizações de bairro, já que não havia máscaras o suficiente no país. Nos adaptamos bem rapidamente.

Você disse que as clínicas do MPLP têm equipes multiprofissionais, isso é muito interessante. Vocês fazem uma “busca ativa” dos pacientes? Conte um pouco mais sobre como é um dia de trabalho nesses centros comunitários de saúde, inclusive o que você faz.
Eu trabalho como médica de família. Nós atendemos os nossos pacientes principalmente aqui nos centros de saúde, mas também fazemos visitas a domicílio, principalmente para os pacientes idosos. Como também temos enfermeiras, algumas delas vão até os pacientes, para cuidar de seus ferimentos ou ajudá-los a se lavar.
O que não conseguimos é fazer uma “busca ativa” como a que se faz em Cuba, porque não há médicos e enfermeiras o suficiente para isso. Isso não é possível, mas fazemos o máximo para organizar algo parecido no próprio centro de saúde.
Nós temos um centro de dados e reunimos nossas informações em um programa. Assim, podemos fazer uma sondagem estatística, identificar todos os pacientes que fazem parte do grupo de risco da gripe e convidá-los a vir aos centros de saúde para se vacinar contra a doença. Também podemos identificar todas as mulheres que estão na idade para fazer o exame de Papanicolau, por exemplo. Realizamos estudos com os pacientes que estão em risco de lesão por esforço repetitivo por trabalharem como caixas de supermercado. Fazemos nosso melhor para organizar essa abordagem preventiva.

Mas vou voltar à sua pergunta inicial, sobre como é um dia ou uma semana em nossos centros de saúde. Toda manhã, reunimos a equipe e discutimos os casos dos pacientes com que estamos lidando e que é importante saber sobre eles. As clínicas do MPLP também são um centro de estágio para estudantes de Medicina e jovens médicos de família, então, no início da manhã, nos concentramos nesse processo de aprendizado e tentamos aprender uns com os outros. Esse momento dura meia hora.
Depois, começamos nossas consultas, quando a equipe de recepção já preparou a triagem. A depender das necessidades, fazemos consultas de até meia hora. Tentamos usar bem o tempo com paciente. As consultas com os psicólogos, por exemplo, têm a duração de uma hora. Há também alguns tipos de consultas específicas, como as consultas de doenças infecciosas.
Nosso forte é que atuamos como uma equipe multiprofissional. Reconhecemos todos os profissionais como tendo uma importância igual, inclusive o pessoal administrativo e de atendimento. Esses últimos cumprem um papel muito importante, e às vezes desgastante, com as ligações. Eles são preparados para fazer perguntas especiais que nos trazem informações específicas. Essas perguntas permitem que nós façamos a triagem de forma correta, para saber como encaminhar o paciente.
Especificamente na minha equipe, temos médicos de família mas também fazemos pequenas cirurgias. Oferecemos serviços de ginecologia e visitas a domicílio para pessoas muito doentes e idosos.
Toda semana, nas tardes de quinta-feira, juntamos todo o time de 30 pessoas para discutir o trabalho do nosso centro comunitário de saúde. Nessas reuniões, podemos discutir atualidades, as coisas que estão acontecendo ao nosso redor, como as medidas de austeridade que o governo está planejando e vão afetar os nossos pacientes. Discutimos isso entre nós, ou convidamos alguém para nos fazer uma explicação. Em outras semanas, fazemos uma reunião médica. Discutimos as diretrizes mais recentes para o tratamento de diabetes, por exemplo.
Nós temos alguns pacientes que estão em risco de abandonar a escola. Por isso, recentemente fizemos uma reunião em que convidamos psicólogas escolares para discutir o que podemos fazer para evitar a evasão escolar desses adolescentes. Desde a pandemia e também com o recrudescimento do cenário de guerra na Europa e todas as outras coisas que estão acontecendo, nossos adolescentes estão muito estressados. Os transtornos mentais estão se multiplicando. Devido às medidas de austeridade, a fila para uma consulta está chegando a uma situação em que os jovens precisam esperar um ou dois anos para acessar os cuidados mentais. Por isso, convidamos as psicólogas para pensar o que podemos fazer juntos. Tentamos ser bem abertos à rede de outros trabalhadores da saúde, assistentes sociais, etc., que trabalham em nossos bairros.
Essa é uma semana normal, mas também somos um centro de ação pelo direito à saúde, então fazemos várias ações políticas. Além disso, sempre temos dois estudantes de Medicina de Família e Comunidade ligados aos centros. Isso significa que eles já terminaram sua graduação, mas estão se especializando em MFC e precisam escrever uma tese. Tentamos sempre estimulá-los a estudar um assunto socialmente relevante que impulsione ações pelo direito à saúde.
Como temos 25 mil pacientes em nossos 11 centros de saúde, isso fornece uma amostra muito interessante para estudos estatísticos. Podemos, por exemplo, analisar quantos dos nossos pacientes de 50 a 55 anos convivem com doenças crônicas, quais doenças eles tem, e por aí vai. Com essa informação, podemos depois entrar em contato com os sindicatos e oferecer esses dados para reforçar a luta pela redução da idade de aposentadoria. Tentamos apoiar os sindicatos com nosso trabalho científico.

O MPLP também impulsiona uma campanha em defesa da saúde do trabalhador. Que tipo de atividades são promovidas por essa campanha?
Neste ano, pela segunda vez, estamos organizando um colóquio sobre esse tema no dia 25 de abril, que é o Dia Internacional da Saúde do Trabalhador. Será um dia inteiro de atividades, com vinte palestrantes, entre os quais há professores e pesquisadores de Saúde do Trabalhador, mas também sindicalistas, assistentes sociais, trabalhadores da saúde, etc. As mesas se dividirão entre seis temas – acidentes de trabalho, burnout, câncer… queremos juntar o mundo do trabalho e os especialistas.
Na ManiFiesta, um festival anual de cuja organização o MPLP faz parte, combinamos tudo isso. Um dia na praia com nossos pacientes e familiares, shows, feira de livros, comida, atrações infantis e debates sobre diferentes assuntos, como saúde mental, condições de trabalho, acesso a medicamentos… Vocês estão convidados!
Recentemente, promovemos um estudo chamado Travailler dans la nettoyage rend malade [“Trabalhar na limpeza adoece”, em tradução livre], que envolveu mais de 400 pacientes nossos que trabalham na indústria da limpeza. Eles têm muitas dores musculoesqueléticas, especialmente nas suas mãos e costas. Como destacou nossa médica Elisa Muñoz Gómez, “8 a cada 10 trabalhadores relataram ter sentido dores nos últimos 7 dias, e 9 a cada 10 deles o relataram nos últimos 12 meses”. Junto de organizações sindicais, nós reunimos todos esses casos e entramos com um pedido no Instituto Nacional de Auxílio-Doença e Invalidez para que eles fossem reconhecidos como doenças profissionais e doenças relacionadas aos trabalho. Nós também levamos esse dossiê ao Ministério da Saúde e chamamos a imprensa para fazer a denúncia.
[Por conta desses estudos,] costumamos dizer que somos rouges et experts, isto é, vermelhos e especialistas.
Segundo seus materiais, o MPLP também está bastante envolvido na luta por remédios mais baratos. Vocês idealizaram, inclusive, a proposta de um Instituto Salk da Europa. Conte um pouco sobre as ações da organização em defesa do acesso a medicamentos.
Nós temos uma longa história com a luta pelo acesso a medicamentos, que começa em 2004. Naquela época, tínhamos alguns pacientes do MPLP que tomavam remédios para o colesterol. Um deles era um homem de meia-idade que teve um ataque cardíaco, e o ressarcimento dos seus gastos com medicamentos foi negado. Ele era um caso clássico de pessoa que se beneficiaria de ações de prevenção secundária.
Pensamos: o que está acontecendo aqui? Fomos estudar o assunto, fazer o que chamamos de “usar o estetoscópio social”.
Nesse processo de começar a entender o problema dos medicamentos em 2004, aprendemos muito sobre o enorme lobby da indústria farmacêutica. Descobrimos que eles é que seguram a caneta do ministro da Saúde, para dizer quem é que vai ser ressarcido pela compra de remédios ou não. É uma grande corrupção, então decidimos trabalhar essa questão. Escrevemos textos para os jornais e ajudamos a criar um grande debate público. Fizemos novas conexões e nos abrimos para trabalhar com outras organizações – e isso foi algo novo para o nosso partido também. Somos firmes nos nossos princípios, mas temos flexibilidade tática. Isso era algo novo, antes éramos bastante fechados, e essa experiência nos ajudou a mudar o nosso trabalho.
Também descobrimos que na Nova Zelândia os medicamentos são adquiridos por meio de compras governamentais, públicas e transparentes. Isto é, em vez de você adquirir paracetamol, amoxicilina ou anlodipina, o governo vai comprá-los por meio de uma chamada pública que vai priorizar a melhor opção, com o melhor preço e o tratamento mais eficaz, e depois distribuir esses medicamentos. Esse é o chamado “modelo kiwi”, que ganhou esse apelido por sua origem neozelandesa.
Nós calculamos que, com os 10 milhões de habitantes que a Bélgica possui, poderíamos economizar 1 bilhão de euros por ano. Por isso, fizemos uma grande campanha pela adoção do modelo Kiwi. Reunimos 100 mil assinaturas, o que é muito para a Bélgica, e conseguimos a implementação parcial dessa proposta por alguns anos.
Depois, descobrimos que muitos pacientes dos Estados Unidos vão de ônibus até o Canadá comprar medicamentos, porque lá eles são mais baratos. Então, decidimos organizar viagens parecidas até a Holanda. Lá, você pode comprar 7 caixas de paracetamol pelo preço que se paga por uma caixa na Bélgica. Nossa primeira “viagem de compras médicas” foi em 2006. Lotamos seis ônibus com pacientes de doenças crônicas e fomos acompanhados por câmeras de sete canais de TV.

Devido ao fato de que a nossa capital também é a sede da União Europeia, o lobby das empresas em Bruxelas é extremamente forte. Por isso, nós só conseguimos pequenas vitórias, como na compra de uma vacina para o HPV. E encontramos muita resistência, porque os outros partidos não querem mudar e adotar o “modelo kiwi”.
Depois, fizemos uma segunda viagem à Holanda em 2016. Na época, o Ministério da Saúde havia aumentado o preço do omeprazol e diversos outros remédios, e queríamos mostrar que eles podem ser muito mais baratos se as coisas forem organizadas de um jeito diferente.
Porém, ao longo desses 20 anos, as coisas mudaram um pouco. Antes, os medicamentos que mais consumiam a verba da Previdência Social eram os mais comuns como a sinvastatina. Já hoje, o que mais pesa sobre o orçamento são drogas de nicho para o tratamento de doenças raras. Ficou muito famoso na Bélgica o caso da bebê Pia, que têm atrofia muscular espinhal (AME). Uma injeção de zolgensma, o medicamento de que ela necessita, custa quase 2 milhões de euros. Os pais de Pia criaram uma campanha de financiamento coletivo, e a Novartis [farmacêutica que fabrica o remédio] foi obrigada a dar uma resposta. Mas eles propuseram algo inacreditável: fazer uma “loteria” para decidir quais bebês com AME poderiam receber gratuitamente o medicamento.
Nessa nova fase do trabalho, nós queremos mostrar que o capitalismo é que está mantendo essas pessoas doentes. Assim, chegamos à proposta do Instituto Salk da Europa. Nos inspiramos em Jonas Salk, que quando perguntaram se ele gostaria de patentear a vacina da pólio, ele respondeu: “Ela não terá patente. Você patentearia o sol?”. Nós defendemos que a pesquisa e o desenvolvimento de fármacos deve ser feita por farmacêuticas públicas, já que as grandes empresas privadas da área só visam o lucro. Você pode ler mais sobre o que pensamos sobre isso no capítulo 3 do nosso texto de visão.
Depois, nós também apresentamos essa ideia ao Movimento pela Saúde dos Povos (MSP), com quem recentemente organizamos uma conferência chamada Public Pharma for Europe.

No Brasil, o SUS foi conquistado em um contexto de mobilização social generalizada, não só em defesa de uma reforma sanitária, mas também contra a ditadura militar que governava o país na época. No trabalho do MPLP, como a luta pela saúde se conecta com as lutas políticas mais amplas, inclusive antissistêmicas?
Você pode ler mais sobre isso em nosso texto de visão. Lá, dizemos que a saúde não é uma mercadoria – é um direito básico.
Temos médicos do MPLP que foram eleitos para as câmaras municipais e também para o parlamento belga. Cooperamos com eles, para apoiar seu trabalho. Lise Vandecasteele, que está no Parlamento de Flandres [uma das duas regiões autônomas da Bélgica], é um exemplo. Ela tem se dedicado muito a atuar na questão da crise da saúde. Recentemente, Lise lançou o livro Wassen, plassen, slapen, klaar – De crisis in de zorg en hoe eruit te raken [Em tradução livre: “Lavar, urinar, dormir e só – A crise na saúde e como sair dela”], que fala sobre as condições de trabalho nessa área.
O trabalho se resume a isso, é como se você trabalhasse em uma fábrica. Não é mais humano. As razões são várias: há uma falta de mão de obra, porque eles privatizaram muitos desses serviços e o único objetivo das empresas que assumiram é ganhar mais dinheiro. No livro, há vários exemplos terríveis do que está acontecendo nos asilos de idosos. Lise está lutando contra isso no parlamento, e escreveu o livro a partir desse trabalho. Ela está sendo convidada para viajar todo o país e falar sobre a obra. Essa é uma forma de conectar todos os trabalhadores do setor da saúde que são afetados por essa situação. Também é uma forma de descobrirmos juntos como vamos lutar por trabalho decente e por melhores condições de vida para os pacientes.
Há alguns anos, nós do MPLP também participamos de uma grande luta contra a poluição em Antuérpia. Fizemos um grande movimento na cidade contra os planos do governo de criar um anel viário e pontes que passariam por cima de bairros operários. As pessoas estavam preocupadas, porque esse plano poluiria ainda mais a cidade com partículas ultrafinas e barulho. Nos somamos a outros grupos de ação, fizemos “noites de informação” com nossos vizinhos e lutamos todos juntos. A construção da ponte foi cancelada e a prefeitura mudou de planos. Foi uma grande vitória, mas seguimos vigilantes.
Acho que isso é o que caracteriza os Médicos para o Povo. Oferecemos bons cuidados, com um “estetoscópio social”. Estamos atentos aos determinantes sociais da saúde. Lutamos junto de nossos pacientes pelo direito a uma vida saudável, por trabalho, pelo direito à saúde, pelo direito de ter acesso a cuidados, medicamentos, prevenção. Esse trabalho coletivo, lado a lado com os pacientes, é construir poder.
Em uma entrevista, nossa presidente Janneke Ronse disse: “O poder é parte de tudo. É parte de como falamos com os pacientes, de como os envolvemos nas decisões sobre sua saúde, de como engajamos as comunidades na construção dos nossos centros de saúde. Sem construir poder, as pessoas vão continuar achando que ficam doentes por culpa delas mesmas, e isso não é verdade! Construímos poder com nossos pacientes reunindo-os em grupos de pessoas que compartilham de problemas de saúde similares, e também convidando-os a se somar às campanhas. Por exemplo, convidamos nossos pacientes a participar de uma grande manifestação sindical contra os planos de austeridade do governo. Queremos que as pessoas se levantem contra o aumento do custo de vida e o congelamento de salários que estamos vivendo”.
Trabalhamos lado a lado com o PTB nessas atividades, pois compartilhamos uma visão de mundo. Trabalhar com o partido nos ajuda a enfrentar a narrativa de que a saúde não é política. A saúde é muito política. E é importante assegurar que haja uma ligação firme entre os trabalhadores da saúde e os parlamentares de esquerda. Chamamos isso de uma abordagem “rua-parlamento-rua”.

(P. S.: Da parte do entrevistador, esta matéria é dedicada a Manoel Lisboa (1944-1973), estudante de Medicina alagoano, assassinado por lutar contra a ditadura militar no Brasil. Também se dedica a Ludo Martens, falecido em 2011. Kris Merckx, fundador do MPLP, afirmou em sua autobiografia que “Ludo deu a mim e a Michel Leyers um impulso decisivo para criar os Médicos para o Povo”.)
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