As ligações (muito) perigosas de Ricardo Barros

Laços múltiplos com empresas que fraudaram Estado e tramam negócios suspeitos com vacinas Rede de cúmplices no ministério da Saúde. Homem-bomba de Bolsonaro parece prestes a colocar seu chefe em sinuca de bico

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MUITAS COINCIDÊNCIAS

Hoje deve ser analisado, na CPI da Covid, o requerimento de convocação do deputado Ricardo Barros (PP-PR). Diferentes veículos de imprensa apontam que enquanto a tática do líder do governo na Câmara seria depor o mais rápido possível, a ideia do G-7 é deixá-lo “sangrar” mais um pouco, enquanto surgem mais informações comprometedoras. 

E elas estão jorrando. Agora, as atenções se voltam para o advogado de Barros desde a época da delação da Galvão Engenharia na Lava-Jato, quando foi acusado de receber R$ 5 milhões em propinas. Flávio Pansieri, notou a Folha, assina a defesa do deputado na investigação que corre na Justiça Federal sobre a Covaxin. 

O advogado também tem seus próprios rolos com outra vacina, já que atuou até o último dia 10 junto à Anvisa para a liberação do imunizante da CanSino, que como destacamos ontem, deve se tornar foco na CPI. 

Ele participou no dia 30 de abril de uma reunião com a agência reguladora brasileira, em nome do Instituto Vital Brazil S.A, que aparecia junto com a empresa Belcher como representante da vacina no país.

Seis dias antes dessa reunião, Pansieri acompanhou Barros na solenidade de posse de João Roma, que ocorreu no Palácio do Planalto. Lá, o advogado não se fez de rogado: tirou uma foto com Bolsonaro. 

Tem mais: na fotografia, também estava o marido da filha de Ricardo Barros – que vem a ser ex-sócio de Pansieri. A sociedade acabou há pouco tempo, em 30 de abril. 

Para fechar a série de ligações perigosas, a Belcher é uma empresa de Maringá, que teria como um dos sócios um empresário próximo do líder do governo. Já foram prefeitos de Maringá o pai de Barros, o irmão de Barros e o próprio Barros.

Procurados pela Folha, tanto o deputado quanto seu advogado escolheram a mesma expressão – “não há impedimento” – para rebater as muitas coincidências.

NÃO FICA SÓ AÍ

Além de Regina Célia Silva Oliveira, nomeada para o Ministério da Saúde por Barros em 2017 e fiscal do contrato da Covaxin, também está na mira da CPI outro apadrinhado pelo deputado. Trata-se de Roberto Ferreira Dias, que teria pressionado o servidor Luís Ricardo Miranda durante o processo de compra da vacina. 

De 2019, quando passou a comandar o Departamento de Logística da pasta, até agora ele autorizou pagamentos que somam R$ 24,8 bilhões. Antes disso, teve cargo de confiança na gestão de Cida Borghetti, mulher de Barros, no governo do Paraná.

No ano passado, Ferreira Dias chegou a ser indicado por Bolsonaro para assumir uma diretoria na… Anvisa. Sim. A indicação foi retirada em novembro, depois que seu nome apareceu em outra história suspeita: um contrato de R$ 10 milhões para a compra de kits com insumos para testes de covid-19.

Finalmente, há mais um personagem nesse enredo: o servidor do Ministério da Saúde Thiago Fernandes da Costa – que é réu em ação de improbidade administrativa no fornecimento de medicamentos para doenças raras ao lado de Ricardo Barros e da Global. Ele também atuou na compra da vacina indiana Covaxin. Segundo a investigação de 2018 feita pelo Ministério Público Federal, Costa deixou de cumprir uma despacho do seu superior na pasta que levaria à desclassificação da Global no processo licitatório

Nunca é demais lembrar: a Global é sócia da Precisa, a empresa representante da Covaxin. O senador Humberto Costa (PT-PE) quer convocar o servidor para depor na CPI.

DIGO QUE FICO

Eu sei me defender. Não vou sair da liderança.” Esse foi o recado dado por Ricardo Barros ontem ao Planalto durante uma reunião de líderes do governo da qual participou a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda.

E BOLSONARO?

À claque postada diante do Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro se fez de desentendido ontem: “São 22 ministérios, não tenho como saber o que acontece, vou na confiança em cima de ministros e nada fizemos de errado”. O presidente ainda não conseguiu coadunar uma explicação coerente para a acusação feita pelo deputado Luís Miranda (DEM-DF) de que não teria feito nada mesmo depois de alertado sobre a suposta roubalheira.

Tampouco negou que tenha afirmado que os possíveis “rolos” teriam a ver com Ricardo Barros. “Por que o presidente, ao invés de atacar membros da CPI, simplesmente não negou que tenha dito que o seu líder, era o responsável por operações suspeitas na compra da vacina Covaxin?”, questionou ontem o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM) em um tuíte. “Na verdade, por que ele não negou isso até agora?“, insistiu.

BOLA ESTÁ COM ARAS

A ministra Rosa Weber encaminhou à Procuradoria-Geral da República a notícia-crime protocolada por senadores da CPI que pedem abertura de inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro por prevaricação no caso envolvendo a compra da Covaxin. Agora, cabe a procurador-geral Augusto Aras decidir se abre inquérito… Aras quer ser indicado pelo presidente à vaga do ministro Marco Aurélio Mello no STF – ou, pelo menos, ter sua recondução à PGR garantida. 

MAIS 90 DIAS

Diante da nova frente de investigação da CPI, o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), apresentou requerimento para prorrogar os trabalhos por mais 90 dias. O pedido, já protocolado, precisa da assinatura de 27 senadores. Estão “garantidas”, segundo ele.

PROCESSO ENCERRADO

A diretoria colegiada da Anvisa decidiu, por unanimidade, encerrar o processo que pedia a autorização emergencial da Convidencia, vacina produzida pela CanSino.

Não ainda por problemas técnicos, mas porque a Cansino avisou, no último dia 17, que as empresas Belcher e Instituto Vital Brazil S.A. não estão mais autorizadas a representá-la – portanto não podem mais requerer a aprovação. Segundo a nota da Anvisa, nos dias que se seguiram a Belcher ainda tentou ganhar tempo para “buscar esclarecimentos junto à CanSino”, mas no dia 27 a farmacêutica chinesa entrou em contato com a Anvisa novamente, confirmando a ruptura. Para que um novo pedido seja aberto, deve haver uma nova representante comercial.

SEGURA PARA CRIANÇAS

Ensaios de fase 1 e 2 conduzidos na China (e com resultados publicados no periódico The Lancet) indicam que a CoronaVac é segura e produz resposta imunológica em crianças. O teste, feito na China, envolveu 552 crianças e adolescentes saudáveis de três a 17 anos; após duas doses aplicadas em um intervalo de 28 dias, mais de 96% dos participantes haviam produzido anticorpos.

Foram testadas duas dosagens distintas (1,5 µg e 3,0 µg), e ambas se mostraram seguras e bem toleradas. As reações adversas foram em geral leves ou moderadas, e as mais comuns foram dor no local da injeção (em 13% dos participantes) e febre (5%). O único evento adverso grave – uma pneumonia – não estava relacionado à vacinação. 

Limitações apontadas pelos autores: a pesquisa não avaliou a resposta das células T (que, como se sabe, têm papel importante na imunização); foram poucos voluntários de cada idade; todos eram da mesma etnia; e não há ainda informações sobre resposta imune e segurança no longo prazo. Agora é preciso seguir para a fase 3, que vai fornecer a taxa de eficácia e mais dados de segurança. 

Enquanto isso, o Instituto Butantan já submeteu esses dados iniciais à Anvisa para uma eventual aprovação.

E a Indonésia liberou o uso desse imunizante para pessoas com mais de 12 anos, o que, segundo o presidente, pode começar “imediatamente“. O país está na subida de uma onda de covid-19, mas ainda tem um percentual muito pequeno da população vacinado (10%, sendo menos de 5% com as duas doses).

INTERVALO IMENSO

O que acontece se o intervalo entre as duas doses da vacina de AstraZeneca for aumentado para 45 semanas – nada menos que dez meses? Segundo esta pesquisa da Universidade de Oxford (ainda não revistada por pares), o resultado é ótimo: os níveis de anticorpos produzidos são até quatro vezes mais elevados do que no esquema de 12 semanas. O problema é deixar as pessoas apenas parcialmente protegidas por tanto tempo, num cenário de novas variantes em que completar o esquema rapidamente parece cada vez mais necessário.

O estudo também observou que receber uma terceira dose do imunizante pelo menos seis meses depois aumentaria os anticorpos seis vezes e melhoraria a proteção contra as variantes Alfa, Beta e Delta (identificadas primeiro no Reino Unido, África do Sul e Índia).

Quanto a esse ponto, os autores mesmo reconhecem que ainda não se sabe se um reforço é necessário. Até aqui, os estudos têm indicado que as vacinas disponíveis têm conferido boa proteção contra as variantes, e cogitar uma terceira dose antes que todos países tenham alcançado uma cobertura mínima não parece fazer sentido. 

MAIS EVIDÊNCIAS

E este outro preprint, também da Universidade de Oxford, reforça os possíveis benefícios de um esquema misto de vacinação, que já vêm sendo apontados em outras pesquisas. Nesse caso, foram avaliadas quatro combinações com os imunizantes da Pfizer e da AstraZeneca em 830 voluntários, sempre com um intervalo de quatro semanas entre as doses.

Todas as combinações geraram altos níveis de produção de anticorpos, mas houve diferenças. O melhor resultado foi obtido com duas doses da Pfizer, quando esse nível foi dez vezes maior do que com duas doses da AstraZeneca. Uma primeira dose de Pfizer com a segunda da AstraZeneca melhorou o desempenho desta última, gerando um nível de anticorpos cinco vezes maior. Por fim, quem tomou primeiro a AstraZeneca e depois a Pfizer atingiu níveis de anticorpos quase tão altos quanto os que tinham recebido duas doses da Pfizer.

Resumindo, a ordem das combinações, da pior para a melhor resposta, foi a seguinte: AstraZeneca + AstraZeneca; Pfizer + AstraZeneca; AstraZeneca + Pfizer; e Pfizer + Pfizer, sendo que as duas últimas foram quase equivalentes.

Como já foi verificado que a resposta à AstraZeneca melhora com intervalos maiores entre as doses, os cientistas estão fazendo um novo teste com um intervalo de 12 semanas também. Eles acreditam que, nesse caso, as diferenças entre a AstraZeneca e a Pfizer devem ser mais achatadas.

O mesmo grupo de cientistas está trabalhando em outra pesquisa semelhante, incluindo os imunizantes da Moderna e da Novavax no cardápio. Por ora, eles defendem que as vacinas continuem sendo usadas sem mistura, como os grandes ensaios clínicos foram conduzidos. Afinal, o estudo em questão trata apenas da produção de anticorpos, e não da eficácia. Mas, ao mesmo tempo, eles dizem que as evidências são tranquilizadoras para países que, por necessidade, estão começando a promover esse tipo de regime. 

Já comentamos aqui, mas vale a pena repetir que essa soa cada vez mais como uma boa opção para melhorar o impacto da vacinação com as doses que temos, e que um estudo desse tipo com a CoronaVac seria bem-vindo.

NOVA QUEDA

A média móvel de mortes diárias no Brasil voltou a cair e, ontem (com 658 novos registros), chegou a 1.626. Apesar de ser um número ainda muito alto, é o menor desde o dia 9 de março e representa uma queda de 18% em relação a duas semanas atrás. 

Segundo o consórcio de veículos da imprensa, nenhum estado apresenta tendência de alta nas mortes; 10 estão em estabilidade, enquanto 16 e o Distrito Federal apontam queda. 

Em compensação, foi confirmada a segunda morte pela variante Delta – o tripulante de um navio atracado no Maranhão. E um estudo feito com a participação da Fiocruz sugere que essa cepa pode aumentar o risco de reinfecções

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