Até onde a vista não alcança

In Reportagens
Vulcão do Diago, nas ilhas Kerguelen. Crédito: Channer

Pesquisadores do Brasil e da França descobriram animais contaminados por metais pesados no arquipélago de Kerguelen, um dos locais mais isolados do planeta

Por Peter Moon, na Agência FAPESP

Bilhões de toneladas de metais pesados são emitidos anualmente por chaminés e esgotos das indústrias. Tais elementos são nocivos aos seres vivos e atingem a hidrosfera, poluindo rios, lagos e mares. É difícil encontrar nos oceanos um lugar livre dessa poluição, não importa o quão remoto ele esteja.

Um estudo feito por Caio Vinícius Cipro, pós-doutorando no Instituto Oceanográfico da USP com Bolsa da FAPESP, identificou traços de metais pesados em diversos tipos de invertebrados, peixes e aves habitantes das ilhas Kerguelen, pertencentes às Terras Austrais e Antárticas Francesas.

O trabalho, produzido em parceria com pesquisadores franceses, foi feito em um dos locais mais isolados do planeta. Kerguelen reúne 300 ilhas e ilhotas no sul do oceano Índico, a meio caminho entre a África e a Austrália, 4 mil quilômetros ao sul da Índia e 2 mil quilômetros ao norte da Antártica.

O arquipélago, de origem vulcânica, é coberto por geleiras, rochas e lava solidificada há muito despejada por um vulcão dormente, o monte Ross, ponto culminante do local. A vegetação é de tundra, açoitada por um vento frio constante. No local há uma estação de pesquisas que abriga 120 pessoas no verão e menos da metade no inverno.

Em Kerguelen, a desolação em terra contrasta com a riqueza da vida marinha. As águas são ricas em alimento para colônias de pinguins-reais, elefantes-marinhos, leões-marinhos, albatrozes, petréis, golfinhos e baleias. Águas à primeira vista isentas de qualquer tipo de poluição humana.

“Após meu doutorado, passei quase cinco anos na Universidade de La Rochelle financiado por organismos franceses, pela FAPESP e pelo programa Ciência sem Fronteiras. Em 2013, fui convidado pelo meu supervisor francês, Paco Bustamante, a trabalhar com uma coleção de amostras e de dados levantados anos antes nas ilhas Kerguelen. Em 1998, Bustamante constatou acúmulo de cádmio, cobre e zinco em polvos de Kerguelen, mas havia muito a investigar”, disse Cipro.

“No programa antártico francês, o estudo do material coletado não precisa necessariamente ser realizado pelo profissional que vai a campo. No nosso caso, analisamos amostras de aves, de peixes e de diversos invertebrados. A ideia era verificar as concentrações de base para organismos de nível trófico maior”, disse.

Em 2014, Cipro publicou na Polar Biology a primeira parte de sua pesquisa, na qual constatou a contaminação de petréis pardela-preta (Procellaria aequinoctialis) por cobre, selênio e zinco. A segunda parte, publicada agora na mesma revista, demonstra contaminação por metais em peixes e em invertebrados marinhos.

Além do cádmio e do mercúrio de fontes naturais, há os metais resultantes do despejo de poluentes por fábricas localizadas a mais de 10 mil quilômetros de distância. Micropartículas de metais pesados liberadas no meio ambiente chegam aos oceanos e, enquanto ficam em suspensão em águas superficiais, são absorvidas pelo zooplâncton, invertebrados microscópicos que formam o esteio da cadeia alimentar oceânica. O zooplâncton serve de alimento para os consumidores marinhos primários: moluscos, crustáceos, os menores peixes e também os maiores animais vivos, os cetáceos misticetos como a baleia-azul.

Lulas, mexilhões, crustáceos e peixes, por sua vez, são a fonte de alimento dos consumidores secundários. Cada partícula de metal pesado que penetra na base da cadeia alimentar oceânica acaba acumulada em tecidos dos grupos de animais que ocupam os seus degraus mais altos: peixes como atum e tubarões, aves e mamíferos como focas, leões-marinhos, golfinhos e orcas.

De acordo com Cipro, há poucos trabalhos que mostram a contaminação por metais pesados em organismos dos níveis tróficos mais baixos da cadeia alimentar em ecossistemas remotos.

“O objetivo de nossa nova pesquisa foi obter dados de acúmulo de metais pesados em organismos de invertebrados como mexilhões e lulas. Os dados que obtivemos podem apoiar estudos com níveis tróficos mais altos”, disse.

As espécies coletadas representam uma grande amostra dos grupos ecológicos de Kerguelen. O tamanho dos animais amostrados está dentro do alcance das presas dos predadores de topo daquela área e, mais especificamente, das diversas espécies de aves marinhas que habitam aquelas ilhas.

“Comparando os dados de contaminação em todos os ecossistemas, apareceram resultados interessantes. Em uma grande baía onde estão localizadas as maiores colônias de aves marinhas de Kerguelen, os mexilhões têm concentrações de cádmio maiores do que aquelas registradas entre os mexilhões de outras partes das ilhas. Tudo indica que a fonte de cádmio que contamina os mexilhões são as colônias de aves marinhas no golfo de Morbihan, onde fica Port-aux-Français, a maior comunidade daquelas ilhas, com uma população de 40 pessoas no inverno e 120 durante os meses de verão”, disse Cipro.

Os pesquisadores observaram uma correlação entre o tamanho dos mexilhões coletados na maré baixa e a quantidade de cádmio neles presente. “Nos mexilhões, a correlação positiva entre cádmio e o peso dos indivíduos sugere evidentemente a bioacumulação do metal pesado nos tecidos daqueles bivalves à medida que crescem”, disse.

Quando os metais pesados derivados de fontes naturais e da atividade industrial chegam às águas, são geralmente absorvidos por organismos marinhos. Alguns, como as lulas, absorvem muito metal pesado. Os cefalópodes, o grupo do qual fazem parte as lulas e os polvos, são notórios bioacumuladores de diversos elementos químicos.

“As concentrações do metal encontradas nas espécies de lula analisadas em Kerguelen estavam entre as mais altas para todas as espécies analisadas neste estudo”, disse Cipro.

Contaminações diferentes

No trabalho anterior, Cipro e colegas observaram elevadas concentrações de mercúrio (em média 58,4 microgramas por decigrama no fígado) e de cádmio (média de 65,7 microgramas por decigrama nos rins) em petréis.

“Uma possível explicação é que tais aves seguem barcos de pesca. Como os barcos descartam os tecidos indesejados do pescado, isso pode expor as aves a maiores níveis de contaminação”, disse.

Foi constatada também uma concentração muito elevada de metais pesados em algumas espécies de zooplâncton, o que é bastante incomum entre as espécies analisadas. “Um exemplo é um pequeno crustáceo do zooplâncton, Themisto gaudichaudii, que apresentou concentrações de cádmio muito superiores às concentrações de diversas espécies de peixes que, em tese, deveriam ser mais expostos a esse metal pesado”, disse Cipro.

Segundo ele, as concentrações de metais pesados nos crustáceos que vivem nas águas da plataforma continental são muito superiores àquelas dos que vivem nas águas costeiras de Kerguelen.

“O que se verifica ao longo do trabalho é que, em níveis tróficos mais baixos, cada nicho de invertebrados, moluscos ou crustáceos, apresenta contaminação em quantidades e perfis diferentes”, disse o pesquisador.

Na sequência do trabalho, Cipro e seus colegas franceses pretendem verificar quais aves estão mais expostas ao acúmulo de metais pesados. “Os resultados deverão ser publicados em breve, com análises de 26 espécies de aves marinhas”, disse.

O artigo está publicado aqui.

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