Vales, praias e lutas sociais


Duas semanas numa parte do Chile esplêndida e pouco tocada por turismo, mas sujeita aos ataques da mineração e agronegócio predatório  

Por Elaine Santana, editora da coluna Outras Américas

“Uma nômade eu serei pela vida, apaixonada por lugares distantes e inexplorados.”

“Um assunto com o qual poucos intelectuais gastam algum tempo
é o direito a tornar-se um andarilho, a liberdade em vagar.
Ainda assim, ser um andarilho é uma salvação,
e viver a vida na estrada aberta é a essência da liberdade.
Ter a coragem de esmagar as correntes com as quais a vida moderna nos mede
(sob o pretexto de estar nos oferecendo mais liberdade),
pegar o bastão simbólico, amarrar nele uma trouxinha e ir embora.”

Isabelle Eberhardt, Notas de Viagem

Para conhecer um pouco o estilo de vida das pessoas que moram na região dos vales chilenos, decidimos ir para um lugar onde as vidas são diretamente influenciadas pelo curso de um rio: o Valle del Huasco. Havíamos passado quase duas semanas em outro vale — o do Elqui, que é mais turístico. E estávamos fugindo de experiências talhadas para nós, estrangeiros. Buscávamos autenticidade.

Para chegar ao Huasco, tomamos um ônibus noturno para Vallenar, a maior cidade da região. Chegamos cedo, sem ter conseguido reservar hotel no dia anterior: não há sites sobre eles, nem albergues na cidade. Esta cidade não recebe muitos turistas e as hospedagens – caras – destinam-se a quem passa por ali a trabalho.

Nely, nossa amiga de Santiago, havia nos aconselhado a alugar um carro em Vallenar. Relutávamos, considerando que a proposta da viagem estava mais para mochilão e transporte público. Mas pesou o argumento segundo o qual conseguiríamos, com transporte próprio, explorar melhor os pequenos povoados da região. Ficamos com um pequeno carro branco, por sete dias, num preço excelente. Da loja, fomos ao supermercado da cidade comprar comida para os dias de estrada: vegetais, frutas, queijos, cereais, pão e temperos. Estávamos prontos!

TEXTO-MEIO

Vista da represa Santa Juana

O caminho para o Huasco profundo passa pela represa local de Vallenar, Santa Juana. Chove muito pouco no vale — no máximo, dois meses por ano. Mas Santa Juana, quando cheia, é suficiente para garantir o abastecimento por três anos, sem reposição. Sente-se a secura no corpo. Depois de pouco tempo viajando, o cabelo estrala cheio de estática e embaraça, as narinas ressecam, a garganta arranha e a pele começa a rachar. Fechar a porta do carro sempre dá choque.

Vilarejo na região do Valle del Huasco

A estrada não segue tão próxima ao rio quando a do Valle de Elqui. Cada curva revela novos ângulos das grandes plantações de uva, para produção de pisco. Das curvas, e das diferentes horas do dia, surgem cores e formas, mudanças abruptas no relevo e nas montanhas que rodeiam o vale.

Protesto contra empresa Barrick Gold na estrada na região de Huasco

Seguimos pela estrada C-495, passando por povoados de poucas casas e alguns comércios. Nenhuma hospedagem. Mas na entrada e saída das cidadezinhas, começaram a surgir sinais de protesto, em favor da água e contra a extração de ouro. Pintadas nos muros de proteção da estrada e em muitas casas, liam-se frases como “Muerte a Barrick Gold”. Comecei a me interessar pelo assunto.

As temperaturas são extremas. Durante o dia faz mais de 30 graus. Mas, à noite, os termômetros batem facilmente em zero ou menos. Queríamos acampar, mas precisávamos encontrar um lugar protegido do vento, e madeira suficiente para uma fogueira. Primeiro, paramos em Quebrada de Pinte, onde há uma trilha de fósseis. Como não conseguimos encontrar o responsável pelo lugar, seguimos para Conay, outro povoado. Ali também encontramos um acampamento, desta vez totalmente desprotegido. O sol já tinha baixado e o frio se instalava implacável. Voltamos pela estrada, decididos a nos hospedar em algum hotel em Alto del Carmen. Maior cidade depois de Vallenar, tem hotéis para mineiros — mas não havia vagas. Resolvemos que, naquela noite, dormiríamos no carro.

Resolvida a questão de hospedagem, paramos para cozinhar. Na pequena praça, mineiros, de volta do dia de trabalho, reuniam-se em grupos de cinco ou seis, tomando cerveja, fumando cigarros cujas bitucas eram prontamente atiradas na sarjeta. Separamos o que iríamos usar para cozinhar e levamos para um ponto da pracinha. Viramos atração local. Os homens mal podiam acreditar no que estavam vendo. A cada cinco minutos, um deles se destacava do grupo e vinha andando e nos encarando. Voltava para o grupo balançando a cabeça e dando risada. Fizemos um risoto de vegetais.

Depois, procuramos um canto para estacionar o carro e dormir.  Subimos um morro e encontramos uma área plana. Baixamos os bancos, sacamos nossos sacos de dormir e adormecemos olhando o céu estrelado, o silêncio noturno absoluto quebrado, de quando em quando, pela sinfonia repetitiva dos latidos dos cachorros. Quando acordamos, o sol nascia. Desembaçamos os vidros e seguimos explorando.

Rio Huasco no entardecer.

Passar pela estrada de terra que seguia paralela ao rio virou um passatempo. Homens a cavalo levantavam o chapéu quando passavam por nós. E, se estivéssemos de carro, homens de bicicleta tentavam, em vão, evitar a poeira levantada pelo carro.

Decidi que escreveria um artigo sobre a mineração, a Barrick Gold e a luta da população local e comecei a pesquisar.

Vista de San Félix, no Valle del Huasco onde fomos impedidos de entrar sem registro

A população do Valle del Huasco tira seu sustento principalmente da agricultura e depende do rio para sobrevivência. Quando o governo permitiu à Barrick Gold explorar as minas de ouro sob as geleiras que abastecem a região, começou uma guerra contra a empresa. Luta com muitos capítulos, muitos vai-e-vens jurídicos e, quase sempre, favorecimento irrestrito à empresa. As placas de protesto lembram que a população não se esqueceu e permanece contrária à autorização dada à para poluir as águas e contaminá-las com químicos usados para a extração do mineral. (Para saber mais, leia aqui o artigo que publiquei no blog de Outras Palavras).

No fim da viagem, chegamos até San Félix, o vilarejo onde a Barrick instalou seu escritório. Ficamos chocados quando fomos impedidos de entrar na pequena cidade por um segurança da empresa que disse que teríamos que ser devidamente registrados e escaneados. Demos ré e fomos embora. Cansados das securas do deserto, decidimos seguir para a costa, e nosso próximo destino era um vilarejo costeiro chamado Carrizal Bajo.

Carrizal Bajo e o road trip costeiro

Barco abandonado na saída de Carrizal Bajo.

Chegamos à noite, e rapidamente encontramos uma hospedagem barata no andar superior de um restaurante, onde homens comiam e conversavam tomando vinho barato. Para pagar menos, aceitamos um quarto com cama de solteiro, banheiro em um quarto coletivo desocupado e uma varanda com vista para o mar.

O dia seguinte amanheceu nublado. Saímos no vento frio para caminhar. A cidade misteriosa abria suas ruas para nós. Mas não suas casas; e muito menos sua gente. Vimos só uma criança. A calmaria imprimia uma atmosfera assustadora. Carros e ônibus enferrujados abandonados. Com fome e frio, voltamos ao quarto para cozinhar nosso almoço.

Ficamos mais uma noite. Eu queria fotografar.

Casas em Carrizal Bajo, costa norte do Chile

O próximo dia nos acordou ensolarado e o ar de mistério dissolveu-se com os raios do sol. Caminhamos pelos mesmos lugares do dia anterior, vendo a cidade com outros olhos. As casas permaneciam fechadas, mas atrás de uma cerca, alguém ouvia reggae e fumava maconha. Pescadores lidavam com seus barcos ao longe e alguém fotografava a fachada de uma loja. Já não estávamos sós.

Este pequeno vilarejo teve sua importância na luta contra o governo de Pinochet: era lá que o grupo guerrilheiro Frente Patriótico Manuel Rodriguez armazenava armas de calibre pesado enviadas pelo governo cubano. O povoado chegou a abrigar cerca de 80 toneladas de material bélico. O esconderijo foi descoberto em agosto de 1986, um mês antes de Pinochet sofrer, em Cajón del Maipo, um atentado que deixou 5 mortos e 11 feridos.

Hoje o povoado, iluminado por gerador e placas de energia solar, é ao mesmo tempo a segunda casa (como chamam no Chile as casas de veraneio) de moradores dos vales da região e uma vila de pescadores.

Água viva na Baía Inglesa, na costa norte do Chile.

De Carrizal, seguimos em estilo road trip pela estrada costeira, até chegarmos no Parque Nacional Pan de Azúcar, a cerca de 400 km do povoado onde tínhamos passado os dois últimos dias. Acampamos uma noite na maravilhosa Baía Inglesa, a praia com águas mais claras do Chile. As paisagens eram mesmo impressionantes. Nada do que havíamos lido ou pesquisado havia nos preparado para tanta beleza. Paramos infinitas vezes para admirar e fotografar o que víamos.

Vista da Baía Inglesa, na costa norte do Chile

Em nossa última noite na região, dormimos na cidade costeira de Chañaral e depois voltamos para Vallenar para devolver o carro.

A cidade de Huasco, Pipo e Calu

Barcos enfeitados para festa de San Pedro no porto de Huasco.

De Vallenar, fomos de van para a cidade costeira de Huasco. Esta parte da região vive da pesca e da produção de oliveiras para produção de azeite e azeitonas.

Colheita de azeitonas na estrada para Huasco

Íamos já com lugar organizado para ficar, uma raridade na viagem. Pipo, um arquiteto que trabalha para a prefeitura local e escreve poesias nas horas vagas, nos receberia. A estadia foi organizada através do CouchSurfing, pelo qual já hospedamos muitos viajantes em nossa casa em São Paulo, mas que até então, nunca tínhamos usado para nos hospedar. Ele aceitou nos receber por 2 dias (mas acabou nos convidando para ficar mais 5).

Pipo vive sozinho com a negra gata Picha, numa cabana alugada na zona rural da parte baixa de Huasco. Na primeira noite, nos recebeu com uma pequena festa, organizada em nossa homenagem: comida, vinho, amigos, conversas. Ficamos acordados até quase o amanhecer. Fomos dormir quando o cansaço, o álcool e o frio nos renderam. Durante a semana em que passamos na companhia de Pipo, dividimos as mais agradáveis conversas, aprendendo muito sobre a região. Conhecemos também os problemas relacionados a uma fábrica de criação de porcos na pequena cidade de Freirina, vizinha a Huasco. Escrevi também um artigo sobre a luta do povo desta cidade.

Pipo nos mostrou as praias, as belezas escondidas em cada cantinho e nos amou pelo tempo que estivemos em sua casa.

Cachorra perseguindo pássaros na Praia Grande, em Huasco.

Viajar pelo Valle del Huasco nos fez enxergar com mais consciência as ameaças reais e profundas à natureza e à população da região. Penso que partes do planeta vão sendo destruídas aos poucos. Longe dos olhos dos que vivem suas vidas nas cidades, grandes corporações conseguem pressionar governos, provocar a mudança de leis, ou corromper fiscais para que fechem os olhos para o que acontece embaixo de seus narizes.

Nossa viagem tornou-se um pouco mais política. Para além de nossas questões pessoais, ficamos mais próximos dos que lutam para sensibilizar as pessoas sobre o que acontece ao seu redor.


Elaine Santana é fotógrafa e documentarista. Participa desde 2010 da Escola Livre de Comunicação Compartilhada de Outras Palavras. Sua viagem está sendo relatada, desde maio, em posts e fotos publicadas em seu blog:http://blog.elainesantana.com.br. Escreve, especialmente para o siteuma coluna quinzenal em que reflete sobre estas andanças e seu sentido. Leia aqui todas as edições anteriores.

 

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Elaine Santana é fotógrafa e documentarista. Participa desde 2010 da Escola Livre de Comunicação Compartilhada de Outras Palavras. Sua viagem está sendo relatada, desde maio, em posts e fotos publicadas em seu blog:http://blog.elainesantana.com.br. Escreve, especialmente para o site, uma coluna quinzenal em que reflete sobre estas andanças e seu sentido. Leia aqui todas as edições anteriores.