O Mercado, os economistas e outros seres transcendentais

No Brasil, há seis indivíduos que concentram a mesma riqueza de 104 milhões. Para Guedes, é mérito deles: capitalizaram o bastante. Há um Deus de certa religião que acredita em merecimento, um tal Deus que dá carros a quem reza o suficiente…

Crônica de Rafael Azzi

“Rico capitaliza recursos, pobre consome tudo.” Que frase linda. Linda porque põe à mostra aquilo que estava escondido. Revela algo. Pôr a frente algo que estava por trás. Desnuda.

A frase foi produzida pelo principal economista da nação. E é a base, o mais importante, o principal. O principal para se entender a economia é saber por que algumas pessoas são pobres e outras são ricas. Por quê? Porque o pobre gasta, e rico economiza. O pobre é pobre por culpa dele, se economizasse seria rico.

Essa é lente pela qual se enxerga a realidade. Essa é a ideia que fundamenta todo discurso.

Ideologia que chama, né?

“Suas ideias não correspondem aos fatos”, dizia um poeta que embalou a minha geração.

A frase fatídica é dita num pais em metade da população, quase 104 milhões de almas, vive com 413 reais por mês.

Do outro lado, seis brasileiros, um, dois, três, quatro, cinco, seis, concentram a mesma riqueza dessas 104 milhões de pessoas.

Por quê? Você pergunta.

Porque uns capitalizam, outros gastam.

Os que gastam carecem de alguma coisa. Carecem de responsabilidade, segundo o ministro. “Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar”, disse ele. E a função do governo é ensinar as pessoas a serem responsáveis. Ensinar como?, você pergunta. Ensinar da maneira dura: tirando os direitos trabalhistas, a aposentadoria, a saúde, a educação. Não é maldade, é pedagogia (do opressor talvez?). Só assim o menino vai aprender a se virar, a poupar, a capitalizar. E a não exigir nada do Estado. Se o Estado der alguma coisa, ele vai ficar preguiçoso.

A responsabilidade é toda individual. São indivíduos iguais, um filho de um dos seis mais ricos e um da metade mais pobre. Não existe responsabilidade do Estado. Não existem condições sociais. Não existe social. Só existem indivíduos. Uns que capitalizam, outros que gastam.

Não precisa ter doutorado em economia para ver que existe algo muito errado aí. Na verdade, o que ajuda a perceber o erro é não ter nenhum estudo na área de economia.

Suas ideias não correspondem aos fatos.

Por que somos cegos pra perceber isso?

Ideologia que chama, né?

A ideia é que todos podem vencer, é só se esforçar, é só poupar, é só capitalizar. Tanto faz se seus pais ganham 413 reais ou alguns bilhões por mês. A ideia é linda. Muitas vezes as ideias são. Elas são tão bonitas que nos cegam para realidade que não é tão bela.

Essa ideia é mais bela ainda pra quem está no topo. Olha que mito lindo pra eles: “não foram as condições sociais que me favoreceram. Não foi por que eu estava (ou nasci) no lugar certo, na hora certa, na cor certa, no sexo certo. Nada disso importa. Se sou rico é por que mereci.”

Mérito. Que palavra linda.

Como se mede o mérito, o valor de uma pessoa? Fácil, pelo dinheiro que ela ganha.

Cada um dos seis mais ricos vale por 18 milhões de Brasileiros. Um pouco menos que a população inteira do estado de Minas Gerais.

E quem mede o mérito individual?

O Mercado.

O Mercado é essa força maior que paira sobre os indivíduos, julgando-os. O Mercado com sua inteligência divina vai direcionando suas bênçãos, selecionados aqueles poucos escolhidos. Aqueles que capitalizaram mais.

Os economistas servem para fazer a ponte entre nós, indivíduos comuns, e essa força transcendental. Eles estão lá no jornal para decifrar os sinais do Mercado. Se o Mercado estiver de mau humor, eles recomendarão os sacrifícios que poderão alegrá-lo.

Olha que interessante. Estamos chegando no que une as crenças do capital e a religião.

Mas não é qualquer religião que casa direitinho com o capital. Não é uma religião que pregue fraternidade, caridade, perdão, que não julgue, que dê a outra face e que ame o próximo. É uma religião que parece ter feita sob medida para o capital. Ela ama a Deus por que Ele dá carros para que estes sejam devidamente adesivados. O amor de Deus é expressado assim, materialmente. Essa religião também acredita no individualismo, no mérito, e também nega o social. Se alguém tem mais, vamos dizer, mais que outros 18 milhões de pessoas, é que Deus deu pra ele. E se você não tem, reza que melhora. Não melhorou? Não rezou o suficiente.

Se está ruim pra você, o ministro já deu a solução: capitaliza que melhora.

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3 comentários para "O Mercado, os economistas e outros seres transcendentais"

  1. Débora disse:

    Puxa! Adoro Outras Palavras, mas este texto é muito fraquinho e cheio de erros de português.

  2. Hudson disse:

    Que leitura !
    Eu so queria ver um Brasil onde não esbarrasse em tanta miséria pelas ruas, onde fossem valorizado escolas e o conhecimento, onde não morressem tantas pessoas nos hospitais, onde a justiça fosse imparcial e não funcionasse apenas pra quem paga por ela…. historicamente ainda somos colonia, país totalmente dependente de grandes centros, porque nunca aconteceu uma politica social solida o suficiente para quebrar com o ciclo da colonia e da falta de acesso. Ainda estamos a mercê de outros países, não temos uma economia original, nem base pra se manter enquanto nação. Me assusta ver medidas radicais e extremas, que não vão solucionar esses problemas estruturais. Queria muito acreditar nesse governo, mas tudo indica que vamos colher frutos bem amargos daqui a alguns anos, não esta sendo feito nada solido, alem do entreguismo e arrocho aos pobres e trabalhadores, essas medidas não deram certo em lugar nenhum do planeta….

  3. Afonso Ricardo de Souza disse:

    Você tá certo. Tem é que gastar mesmo. É gastando que se faz riqueza. Aliás, vou gastar tudo que eu tenho, depois vou no banco pegar dinheiro que não é meu e gastar também. Aí quando me cobrarem vou dizer que banqueiro é ganancioso, reclamar dos juros e não pagar.
    Depois disso tudo tenho certeza que vou estar muito rico! Obrigado pelos conselhos!

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