Assim os rentistas dissolvem a democracia

Desigualdade abissal exposta em Davos serve-se também de um abismo técnico. Sociedades e Estados decidem em ritmo analógico, mas riqueza social é capturada em velocidade quântica. Luta por soberania tem dimensão político-digital decisiva

.

Por Ladislau Dowbor | Tradução: Antonio Martins

Quando Jack Welch transformou a General Electric de uma produtora de eletrodomésticos em uma “investidora” financeira, multiplicando lucros com uma base produtiva reduzida, ele influenciou uma profunda mudança na cultura empresarial norte-americana, generalizando o rentismo. No centro das empresas produtivas agora está o acionista .

No Brasil, temos imitadores bem-sucedidos como a 3G Capital, pertencente a Lemann, Sicupira e Telles, uma das maiores fortunas do país, com raízes no país, mas sede no paraíso fiscal de Luxemburgo. Vimos até onde eles podem chegar com o escândalo das Lojas Americanas. Michael Hudson ampliou a análise com o conceito de FIRE (Finanças, Seguros e Imóveis), resumindo as diversas formas atuais de extração de excedente social por meio das áreas de finanças, seguros e especulação imobiliária.

Brett Christophers é um dos principais contribuidores para a compreensão de como a extração de riqueza ocorre sem uma contribuição produtiva correspondente em sete setores: finanças, recursos naturais, propriedade intelectual, plataformas digitais, contratos de serviços, infraestrutura e renda fundiária. A própria inflação, ainda apresentada como um “mecanismo de mercado”, constitui hoje uma forma de rentismo, na medida em que a oligopolização simplesmente permite que os preços sejam aumentados para elevar os lucros. Em termos gerais, mais de 50% dos aumentos de preços resultam da inflação dos lucros. Lembremos mais uma vez que, com dinheiro imaterial — mera informação em um computador, um fluido volátil sem capacidade regulatória correspondente —, a perda de governança é generalizada. A colaboração entre o crime organizado e Faria Lima não é nada extraordinária quando o dinheiro é digital e as leis e os mecanismos regulatórios estão na era da moeda impressa[1].

Impotência da regulação e do controle

Embora existam contratempos nos processos de colaboração internacional em termos de bens materiais, sujeitos a tarifas dos EUA por exemplo, a maior parte dos fluxos de alto valor econômico relaciona-se a áreas financeiras, transferência de tecnologia, direitos de patentes, juros de dívidas internacionais e similares: o intangível domina amplamente e seu alcance é global: são sinais que viajam em ondas digitais. Carecemos de mecanismos regulatórios correspondentes.

Os acordos de Bretton Woods e os sistemas regulatórios correspondentes datam de outro mundo econômico (1944) e são simplesmente inócuos. As intermináveis negociações sobre o estabelecimento de um sistema tributário global (BEPS – Erosão da Base Tributária e Transferência de Lucros), o fato de a maior parte dos lucros das corporações transnacionais ser depositada em paraísos fiscais e a fragilidade da OMC – tudo isso aponta para uma má governança global. Temos leis nacionais confrontando um sistema transnacional, tarifas sobre transações materiais no universo predominantemente imaterial de controle e extração, incluindo as complexidades financeiras modernas que os reguladores não conseguem monitorar e, muitas vezes, nem sequer compreendem. A tentativa do Brasil de exigir informações sobre transferências de PIX em larga escala, buscando reduzir a ilegalidade, encontrou forte oposição de diversos políticos. A ilegalidade em larga escala veste terno e gravata: são nobres autoridades eleitas.

O fato de os fluxos serem globais enquanto as leis são nacionais, de os sistemas de controle pertencerem à era analógica enquanto os movimentos imateriais ocorrem na velocidade da luz (negociação de alta frequência), e o fato de os interesses rentistas terem se tornado dominantes na esfera política, distorcendo ou obstruindo leis, demonstram a incompatibilidade estrutural entre o mundo rentista real e o mundo político estruturado por regras do século passado. Trata-se de uma incompatibilidade estrutural entre a base tecnológica do sistema de geração e apropriação de riqueza e a superestrutura política e institucional, que pertence a outra era. A facilidade com que os bancos revogaram o Artigo 192 da Constituição brasileira, que criminalizava a agiotagem, é significativa. A facilidade com que destituíram a presidente Dilma Rousseff quando ela tentou combater a agiotagem em 2013 é ainda mais ilustrativa[2].

A extração rentista de riqueza

A revolução na própria capacidade de expandir o conhecimento, a ciência e a tecnologia, por meio do processamento de informações intangíveis — todo o sistema computacional, o armazenamento em nuvem, a busca inteligente e a conectividade planetária — apresenta novos desafios. Trata-se de um sistema diferente, baseado na informação e no conhecimento como principal fator de produção, controlado de maneira radicalmente mais centralizada pela conectividade planetária e gerando uma apropriação privada do excedente social em larga escala, por meio do rentismo generalizado. É uma transformação estrutural e sistêmica, que nos leva muito além do capitalismo industrial.

Quando Yanis Varoufakis descreve o que estamos vivenciando como tecnofeudalismo – ou seja, alta tecnologia, mas formas feudais de apropriação de riqueza sem uma contrapartida produtiva, ele pinta um quadro realista. A transformação torna-se muito clara quando percebemos que a maior parte da riqueza no topo da pirâmide social não resulta de iniciativa produtiva, mas sim de dividendos e fortunas herdadas. Estamos muito próximos da aristocracia que herdava feudos pelo “mérito” do sangue familiar. As análises de Sandel sobre o absurdo de considerar fortunas como “mérito” são perfeitamente realistas. Essa aristocracia rentista se beneficia igualmente do sistema de relações herdado das universidades de elite, da interação social e das várias formas de fratura social que nos afastam da simplificação de que nossa condição econômica depende de nossos esforços.

A exploração rentista é incomparavelmente mais intensa e ilegítima do que a exploração capitalista apoiada em baixos salários, embora também os utilize. Os CEOs das grandes corporações norte-americanas ganham salários cerca de 350 vezes maiores que o ordenado de seus trabalhadores, que se endividam frente aos acionistas e seus altos dividendos. É um sistema injusto, porém articulado, que precisa ser confrontado precisamente como um sistema. Seus líderes gostam de se autodenominar capitalistas, “investidores”, mas essa é uma legitimidade herdada. No sistema que atualmente domina, a indústria e a agricultura permanecem presentes, mas o controle está se deslocando. Não foram os trabalhadores que se apropriaram dos processos de produção de baixo para cima, mas sim os rentistas que tomaram o controle a partir do topo[3].

O deslocamento do conceito de nação e soberania

Acostumamo-nos a analisar as classes sociais dentro da estrutura das nações, acrescentando os drenos externos, rotulados como imperialismo. O imperialismo não é mais externo; está firmemente enraizado em nossas grandes corporações, nas seguradoras de saúde, em nossos bolsos por meio de cartões de crédito, em praticamente todas as transações que realizamos. Dinheiro imaterial, mera informação em computadores, permite transferências instantâneas e opacas. Alguns drenos são mais visíveis e registrados, como os juros que os países mais fracos pagam sobre a dívida externa (drenando, em média, 42% dos orçamentos das 140 nações menos desenvolvidas). Muito menos visíveis são os drenos para paraísos fiscais, onde o equivalente a cerca de 20 trilhões de dólares está escondido.

A drenagem por meio de dividendos afeta praticamente todos os grandes grupos econômicos do Brasil, como os bancos Itaú e Bradesco, grandes empresas de extração de recursos naturais como Vale e Petrobras, seguradoras de saúde como a Hapvida e inúmeras outras empresas. O processo de extração é gerenciado por algoritmos de gigantes da gestão de ativos, predominantemente americanos, como a BlackRock e empresas similares. O domínio das mídias sociais norte-americanas permite a drenagem que constitui as atividades ligadas à indústria da atenção que vimos anteriormente. O controle dos sistemas de informação em geral, não apenas de sinais em celulares ou computadores, também se tornou planetário. Não há como voltar atrás no fechamento das fronteiras dos sinais virtuais; a articulação planetária da revolução digital deve ser compreendida com seus novos desafios, neste planeta onde as fronteiras territoriais que organizamos ao redor do mundo não existem para satélites ou redes de cabos de fibra óptica, ou mesmo para as “nuvens” de informação intangível.

Redefinir a soberania, regular os fluxos que podem ser regulados e, em particular, organizar redes de solidariedade entre países para reforçar os controles, fazem parte da reconstrução da soberania possível. O conceito de nação está mudando; somos um pequeno planeta sujeito a fluxos globais intangíveis e a novos instrumentos de exercício de poder, com as cadeias de valor globais. E precisamos, claramente, atualizar todos os sistemas de governança global, como as Nações Unidas e muitas outras instituições, mas essa atualização envolve, antes de tudo, uma aliança entre países sujeitos a processos de exploração global. O conceito de espaço econômico está mudando[4].

A dimensão dos desafios

O caminho é claro: precisamos de uma sociedade economicamente viável, mas também socialmente justa e ambientalmente sustentável. Nada disso é impossível. Em termos econômicos, o PIB global deverá atingir US$ 115 trilhões em 2025, o que representa quase 5 mil dólares por mês para uma família de quatro pessoas. Se corrigirmos a diferença no poder de compra do dólar em diferentes países, o PIB global em Paridade do Poder de Compra (PPC) equivale a US$ 180 trilhões, ou 7 mil dólares por mês por família de quatro pessoas. Pela primeira vez na história da humanidade, o que produzimos é mais do que suficiente para garantir uma vida digna e confortável para todos. Isso é essencialmente resultado de avanços científicos e tecnológicos, não de “mercados”.

A dimensão das tragédias que enfrentamos, portanto, não é estritamente uma questão econômica, uma falta de recursos, mas sim uma questão de organização política e social. Sabemos também o que precisa ser feito. Com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), temos inúmeros estudos e pesquisas, e todas as tecnologias necessárias para enfrentar os desafios: a desigualdade explosiva, com tantas riquezas inúteis, e a destruição ambiental, que tem sido corretamente apresentada como uma catástrofe em câmera lenta. O agravamento das tragédias nessas condições torna-se compreensível precisamente por causa do mecanismo que vimos acima: um processo decisório que prioriza a maximização do rentismo no topo da pirâmide, independentemente dos impactos sobre a desigualdade e o meio ambiente.

A redução dos impostos sobre a riqueza, a paralisação das negociações sobre impostos sobre transações internacionais, o estrangulamento de tantos países com dívidas externas, a reorientação de governos e grandes bancos para o financiamento crescente de combustíveis fósseis, a perda planetária de biodiversidade, a poluição generalizada da água, a invasão do plástico e tantos outros absurdos fazem parte de uma lógica em que a maximização dos lucros rentistas de curto prazo nos impede de tomar as medidas necessárias para enfrentar a catástrofe crescente. É uma era de impotência. É importante entender que os que têm poder de tomar decisão em escala mundial estão cientes dos desafios, tanto que proclamam em todos os lugares sua adesão aos critérios ESG (Ambiental, Social e de Governança). Mas estão presos ao sistema, justamente por ser um sistema, um desafio muito maior do que a estupidez individual. O problema não é Trump, mas as forças que lhe permitem exercer o poder, com tendências semelhantes em muitas partes do mundo[5] .

Esses desafios representam uma armadilha estrutural poderosa. Fortunas financeiras, baseadas em um rentismo essencialmente improdutivo, estão drenando recursos necessários para os principais desafios do aprofundamento da desigualdade e do agravamento dos problemas ambientais. Compreender essa armadilha implica reconhecer que os principais atores são impotentes para enfrentá-la, presos a algoritmos de maximização de renda. E a desigualdade é muito mais do que uma questão de pobreza e sofrimento, pois significa que o poder no topo se materializa em controle político. Nos EUA, vemos isso com o controle corporativo da política, mas também com o alinhamento da Suprema Corte. O equilíbrio fundamental de poder mudou, não apenas gerando os problemas, mas também dificultando a capacidade de enfrentá-los. Estamos diante do grande desafio de reconstruir a governança.


[1]David Gelles, O Homem que Quebrou o Capitalismo ; Michael Hudson, Matando o Hospedeiro ; Brett Christophers, Capitalismo Rentista ; Yanis Varoufakis, Tecnofeudalismo .

[2] L. Dowbor, A Era do Capital Improdutivo ; J. Stiglitz, O Caminho para a Liberdade ; Thomas Piketty, Capital e Ideologia ; Peter Phillips, Titãs do Capital ; Hermes Zaneti, O Complô .

[3] Yanis Varoufakis, Tecnofeudalismo ; L. Dowbor, Revolução Digital ; Joel Kotkin, Neofeudalismo ; Nicholas Shaxson, A Maldição das Finanças .

[4] Noam Chomsky, Quem Manda no Mundo ?; Zucman e Saez, O Triunfo da Injustiça ; Thomas Piketty, Uma Breve História da Igualdade ; L. Dowbor, Revolução Digital .

[5]Oxfam, Lucrando com a dor ; Marcelo Medeiros, Os ricos e os pobres ; UBS, Relatório Global de Riqueza 2025 ; WID, Banco de Dados Mundial da Desigualdade ; David Wallace-Wells, A Terra Inabitável ; Jeffrey Sachs, A Era do Desenvolvimento Sustentável ; Lester Brown, Mundo à Beira do Abismo .

Sem publicidade ou patrocínio, dependemos de você. Faça parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: apoia.se/outraspalavras

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *