Municípios “ambientais” em extinção

A devastação começou também pelos nomes. Referências a preservação de águas, árvores e animais, principalmente no Norte e Centro-Oeste, foram apagadas. Nesse ritmo, até as aves-símbolo dos estados precisarão ser repensadas…

Símbolo de Piracicaba (SP), o peixe dourado vive pichado por estar fora
d´água

Se municípios assumissem o compromisso oficial de preservar a essência do seu nome de origem, o Brasil seria bem mais ambiental. A implantação desse equilíbrio ecológico não permitiria os recentes 378 focos de incêndio em Tangará da Serra (MT), em nome da preservação de pássaros. Para não compactuar com mais de meio bilhão de abelhas mortas, Colmeia (TO), Guaxupé (MG) e Irati (SC) não usariam agrotóxicos à base de Sulfoxaflor e outros venenos. 

Grande parte das denominações municipais brasileiras tem origem indígena e sugerem preservação de águas, plantas, árvores e animais. Há cidades que apresentam uma associação direta, como Recanto das Emas e Guará, no Distrito Federal. No entanto, denominações dessa natureza são simbólicas e sem vinculação com o meio ambiente.

Dos 5.570 municípios brasileiros, 343 têm nome animal, termos indígenas e ou expressões alusivas, como Formigueiro (RS), Pacatuba (CE), Pescaria Brava (SC) e Tartarugalzinho (AP).

Os cinco estados que lideram a nomenclatura animal estão nas regiões Sudoeste, Nordeste e Sul: SP (56 cidades), PR (31), MG (29), CE (26), SC (23). A maior parte dos municípios com grandes áreas verdes e biodiversidade, no Norte e Centro-Oeste, evita associação ambiental. No Acre, nenhuma cidade tem nome de bicho. O AM, AP, RR, RO e MS tem uma única denominação municipal cada um. Dos 92 municípios do RJ, três têm referência ambiental. O PA tem quinze. 

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A redução de municipalidades associadas à natureza ganhou força depois da Constituição de 1988, quando a descentralização federal deu autonomia para a criação, incorporação, junção e desmembramento de administrações municipais. Nas décadas de 1990 e 2010 foram fundados 1.079 novos municípios. Destes, 43 tiveram referência animal. Alguns nomes remetem ao agronegócio: Rio dos Bois (TO, 1993) e Gado Bravo (PB, 1994). Sooretama (ES, 1994) é, por definição, a terra e refúgio dos animais da mata.

São João do Tigre (PB) enjaulou o selvagem, que não é nativo brasileiro

A dissociação de municípios com denominação ambiental acontece desde que o Brasil ganhou nome de árvore. “A toponímia da língua tupi define nomes pelo som do lugar”, informa Marta Catunda, doutora em Educação e autora do livro O Canto de Céu e de MataFechada. “Na pré-história brasileira, centenas de municípios já nasceram exterminando nomes indígenas. O interesse pela exploração econômica sempre esteve à frente. Apagar essas denominações consistia em exterminar a cultura para dominar. Nos anos 1970, o desmembramento do maior município do mundo, Chapada dos Guimarães, desfez um imenso território Bororo, Umutina e Kayapó”.

Por outros motivos, nos anos 1960 foram criados e logo desfeitos 252 municípios no Amazonas e 154 no Ceará. Um recente projeto de lei (137/2015) tramita na Câmara e visa a criação de mais 400 municípios. É certo que as novas denominações vão se distanciar da perda de patrimônios ambientais brasileiros, da dizimação de indígenas e da grandiosa extinção de animais no país. A bancada da Bíblia ainda poderá criar obstáculos para novas cidades com nome de santos católicos.

Mudança de nome e ambiguidades

Uma denominação municipal revela dados históricos, socioculturais e políticos, até mesmo quando muda de nome. Há registros de mudança em vários estados.

-No AP, Satuba ficou melhor do que Carrapato.

BA. A cidade Correntina já se chamou Rio das Éguas. Gandu substituiu Corujão. Licínio de Almeida se chamava Gado Bravo. Tanhaçu era Porcos. Ficou elas por elas a substituição de Fazenda do Gato por Andorinha.

 –MG. Lima Duarte substituiu Nossa Senhora das Dores do Rio do Peixe. O arraial de Nossa Senhora das Mercês do Cágado é hoje Mar de Espanha. Paraisópolis era São José das Formigas.

 –PE. Frei Miguelino já foi Olho d´Água da Onça. Carpina era Floresta dos Leões.

PI. Caracol é ex-Formiga.

 –PR. Francisco Beltrão substituiu Marrecas.

RN. Equador era Periquito. Gavião antecedeu Umarizal.

 –SC, Peritiba substituiu Arroio dos Veados e Alto Veado. Piratuba se chamou Rio do Peixe. Rio Oeste era Barra das Pombas. Distrito de Ilhas das Flores foi Ilha dos Bois. Graccho Cardoso é ex-Tamanduá.

 –SP. Aguaí já foi Cascavel. De Vila das Borboletas a Bady Bassit.

Alguns municípios têm sentido inverso à preservação: Piratininga (SP) é peixe seco / frito; Sem-Peixe (MG), Sirinhaém (PE) é prato de siri; Upanema (RN), rio sem peixe.

No brasão de Macuco (RJ) leão, cavalo e boi disputam atenção com a ave-símbolo

 No RS, Capão do Leão e Boqueirão do Leão podem ser originários do nome de pessoas como também de histórias populares, como um leão que fugiu do circo. Na região, onças eram chamadas de leões.

Touros (RN) foi fundado em 1501, quando nem havia bovinos no país, mas antecipou que a pecuária extensiva seria uma das causas nacionais de devastação do meio ambiente.

Os quase 10 mil distritos brasileiros não foram analisados, mas pouco diferem do histórico municipal de extinção. Como exemplo, das 1.728 unidades distritais de Minas Gerais, Biguatinga, em São Pedro da União, deixou de ter o biguá branco há mais de 60 anos. Foram tantas mudanças climáticas que até a ave-símbolo de cada estado precisa ser repensada e atualizada.

Em Jacaré dos Homens (AL), o réptil pertence à natureza ou aos homens?

Das 343 municipalidades selecionadas, cerca de 25% têm nome de pássaros, que nem sempre são vistos nas localidades que os representam. Por enquanto, o único animal mítico, Fênix (PR), ainda não revelou a capacidade de renascer das cinzas, diante das constantes devastações ambientais no Brasil.

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