Dermi Azevedo, que encarnou Prometeu e Sísifo

No ativista singular que perdemos ontem, a disposição de roubar dos poderosos o fogo da liberdade e a obsessão em levar a pedra ao topo – mesmo sabendo que não será possível conhecer os resultados


Por Flávio José Rocha

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Este texto foi escrito como prefácio do livro Nenhum direito a menos – direitos humanos: teoria e prática a convite do autor, Dermi Azevedo.

Prometeu e Sísifo. Desde o início da leitura do livro Nenhum direito a menos – direitos humanos: teoria e prática (Giramundo Editora, 2017), o qual me foi dada a honra de prefaciar pelo autor Dermi Azevedo, pululavam em minha mente estes dois mitos gregos e somente na continuação da leitura é que entendi porque eles se fizeram presentes já nas primeiras linhas. É que Dermi Azevedo encarna com este livro estas duas figuras emblemáticas da mitologia. Prometeu porque ele partilha da sua sabedoria com a humanidade, mesmo sabendo que pode ser castigado pelos poderosos contrários a esta partilha, assim como aconteceu com Prometeu ao partilhar o fogo. Sísifo (que segundo algumas versões da mitologia foi um dos primeiros gregos a dominar a escrita), porque ele não se cansa de repetir a tarefa de rolar a pedra ao topo da montanha. Com este livro, Azevedo possibilita que enxerguemos para além dos nossos limites fixando a pedra no topo, mesmo que seja uma árdua tarefa sem a garantia de ver os resultados. É o incessante esforço diário de contribuir para uma nova humanidade.

Em um momento político como este em que vivemos no Brasil com ameaças aos direitos, até mesmo os básicos, que foram conquistados com muitas lutas e mortes nas nas últimas décadas, Prometeus e Sísifos modernos com suas ações são mais do que necessários. Se depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial não havia dúvidas sobre a necessidade de uma mudança estrutural para afirmar a integralidade de cada ser da espécie humana e o reconhecimento da vida como valor supremo, hoje estas certezas são minadas diariamente por declarações de políticos com o apoio dos grandes grupos econômicos nacionais e internacionais e, infelizmente, aplaudidos por parcela da população. Há também o perigo da aceitação por parte desta mesma parcela de pensamentos simplistas bem ao gosto da busca por respostas fáceis para a mazelas provocadas pelos diferentes tipos de violências sofridas em um país que teima em negar até mesmo o que é essencial aos seus cidadãos e cidadãs. Frases repetidas a exaustão como “o pessoal dos Direitos Humanos só defende bandido” ditas por quem não conhece o trabalho dos grupos que defendem e protegem as mulheres vítimas de violência, as crianças abusadas sexualmente e a proteção às testemunhas, por exemplo, revelam o quanto estamos distantes de uma sociedade que entende e defende os seus próprios direitos, em parte por nunca os ter tido de fato. Nunca foi tão necessário o combate a este senso comum (que em dado momento do livro o autor debruça-se com iluminação para combatê-lo) do que neste momento em que falsos líderes aparecem, como outros apareceram no passado, com soluções imediatas (e violentas) para as crises. O resultado todos nós sabemos: a instalação do horror em nosso meio pelo medo, repressão, tortura, desaparecimento dos que se rebelam contra a opressão e o conluio com o mercado internacional para dilapidar as nossas riquezas.

Nenhum direito a menos – direitos humanos: teoria e prática não foi escrito por alguém que nos fala de direitos do lugar do jurista no púlpito, do ativista tentando convencer as agências internacionais da importância do financiamento para a sua Organização Não Governamental, do professor universitário apresentando uma pesquisa acadêmica sobre o tema ou do jornalista blogueiro que denuncia as agruras da sociedade brasileira. Não que estes personagens não sejam necessários em nossos tumultuados dias em várias partes do planeta. Eles o são por demais. Entretanto, o autor tem uma autor-idade que vem da vivência de quem teve sua humanidade negada nos sofrimentos sentidos no corpo que foi prisioneiro e torturado durante a Ditadura Civil-Militar brasileira iniciada em 1964 e sentida até os dias atuais nas reverberações dos que continuam a manipular o poder através da mídia e da economia. E é aí que Dermi Azevedo me parece ainda mais com um Prometeu e um Sísifo modernos. Ele carrega o fogo do primeiro e rola a pedra do segundo na luta pela consolidação da plenitude dos diretos humanos como compromissos de toda uma vida, começando ainda na sua juventude. E quando se escreve com o fogo da prática e a pedra das superações, a escrita transborda ensinamentos. Ele e outros homens e mulheres que não concordavam com o regime ditatorial mais recente sofreram em seus próprios corpos os castigos por parte dos que estavam no poder naquele triste momento de nossa história recente e que também foram aplaudidos por parte da população. Que a história não se repita!

Então voltemos ao livro. Este enriquecerá o leitor e a leitora por vários motivos como o resgate histórico do conceito Direitos Humanos e a exposição de teorias como embasamento para a defesa da integridade do ser humano como a Teoria do Reconhecimento. Há também um glossário de termos tantas vezes utilizados em publicações relacionadas aos Direitos Humanos e tão pouco entendidos em sua essência. Não espere do autor a afirmativa e a defesa de que os Direitos Humanos sobrevivem de um conceito estático ou são panaceia para todos os males como uma ideia encapsulada contra qualquer mudança. Ele não é simplista e sabe que as sociedades são dinâmicas e estas produzem e reivindicam novos meios para serem entendidas, respeitadas e sentidas através dos seus indivíduos que se revelam cada vez mais complexos no mundo atual. Basta ver o que aconteceu com a luta pelos direitos individuais (que não são individuais, posto que se alguém tem um direito negado, todos também o tem) que protagonizam tantos grupos de afrodescendentes, mulheres, LGBTQIA+, imigrantes, vítimas de injustiça ambiental, comunidades indígenas e tradicionais, crianças e outros. Para estes, é o se sentirem incluídos com o respeito às suas diferenciações e abraçados pelo que de fato são que os motiva. Lutas que somente são possíveis depois que aquela primeira Declaração dos Direitos Humanos foi elaborada no pós-guerra. Estes novos embates são como galhos que podem gritar suas reivindicações porque se apoiam em uma raiz firme. Sem a firmeza daquele documento, os galhos não se sustentariam no ar. Quando o Estado, que deveria ser o guardião dos que tem os seus direitos negados, passa a ser apropriado por grupos econômicos contrários a estes direitos, o Estado é, também ele, um violador destes direitos seja por não proteger as minorias ou até mesmo por colaborar com a sua exclusão. Atualmente, no Brasil já não temos dúvidas de que lado estão os que detém o poder e por isso publicações como esta podem chacoalhar grupos adormecidos para a retomada organizada da luta. Não por acaso o autor elaborou uma lista de pessoas que se insurgiram contra a opressão vinda de grupos políticos, sociais e econômicos. Dela constam pessoas como a travesti Brenda Lee que acolheu soropositivos e os levou para a sua própria casa e ainda é desconhecida para grande parte dos brasileiros, ou Elsa Monnerat que “Foi a última presa política a ficar confinada na “casa do terror”, uma chácara na região serrana de Petrópolis, alugada pela ditadura militar para confinar e submeter às piores torturas os presos políticos do eixo Rio-Brasília-São Paulo.” Outros são mais conhecidos como Paulo Freire ou Dom Helder Câmara. Sendo mais ou menos conhecidos não importa, todos e todas tiveram grande relevância para as conquistas que temos hoje e que estão ameaçadas.

Se antes afirmei que as sociedades estão em constantes transformações e que as lutas relacionadas aos Direitos Humanos as acompanham, isso não significa que estas sociedades estão melhores. Podemos ter avançado, mas avanço nem sempre significa ruptura. Alguns avanços até interrompem o seu fluxo a depender do caso dado as suas falsas promessas. Se assim não fosse não estaríamos vivenciando tantas crises no Brasil e no mundo como o genocídio dos indígenas, crise dos refugiados, assassinatos de travestis e transexuais, a volta da fome crônica ao Brasil, etc. Estes que sofrem sabem da importância da defesa dos diretos humanos como princípio norteador de uma sociedade. Se não foi somente para eles que Azevedo escreveu este livro, certamente para eles tem um valor muito maior.

Um outro ganho com a leitura de Nenhum direito a menos – direitos humanos: teoria e prática é descobrir que as raízes pelo respeito à dignidade humana para todas as pessoas são muito mais profundas e muito mais antigas dos que muitosdos seus opositores imaginam. E estas raízes estão fixadas, em grande parte, nos pensamentos teológicos de várias épocas e lugares. Azevedo ressalta esta característica que tantas vezes a Academia não consegue destacar. Filósofos da antiguidade e até mesmo de tempos recentes defendiam as suas afirmações alicerçando-as em nome de diferentes divindades, no caso dos antigos, ou de Deus para os mais modernos. E não poderia deixar de ser diferente se compreendermos os contextos histórico e social em que viveram. Não é necessário afirmar que este fato é muito mais forte em figuras que ficaram conhecidas pelo seu comprometimento com a causa da dignidade humana e destacadas por Azevedo como Gandhi, Dom Helder, Martin Luther King, Madre Maurina e tantas outras pessoas. E se hoje podemos afirmar a defesa dos direitos humanos como imperativo para uma sociedade justa, é por causa de pessoas como estas. Pessoas que perceberam que não basta mudar os atores no poder se não eliminarmos o sistema que os impede de fazer as transformações que foram proibidas de acontecer por golpes explícitos ou camuflados.

A fé em um porvir onde a aurora irrompa mesmo quando a escuridão da madrugada parece invencível é qualidade para poucos, como já afirmava Brecht em seu famoso poema “Os que Lutam”. A resistência contra todas as forças que oprimem é qualidade de quem carrega “a primavera nos dentes.” Que Dermi Azevedocarrega esta primavera não há dúvida alguma.

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