Para evitar uma derrota histórica
O recado de Trump está dado há muito: sua política imperialista e neocolonial não tem limites, sua intenção é roubar riquezas naturais e subjugar povos. Mas a trajetória de revoltas da Venezuela, e seu embrião de poder comunal, sugerem que nada está escrito
Publicado 04/01/2026 às 18:42 - Atualizado 05/01/2026 às 09:53

Por Tiaraju Pablo D’Andrea
A exploração e exportação do petróleo durante todo o século XX transformou a Venezuela em um dos países com maior PIB da região. No entanto, a riqueza oriunda do petróleo nunca foi distribuída no país. Os recursos ficavam nas mãos da burguesia venezuelana, muito rica, que ia de jatinho passar os finais de semana em Miami.
Essa desigualdade provocou muita pobreza, com miséria no campo e surgimento de favelas nas grandes cidades. No plano político, dois partidos da burguesia dividiram o poder durante todo o século XX.
Em 1989 ocorreu o Caracazo, uma revolta popular que muda os rumos da história. A revolta começou a partir de protestos espontâneos contra o aumento da passagem de ônibus. Logo se transformou em levante popular contra a fome e a miséria.
O então presidente, Carlos Andrés Perez, reprimiu violentamente a população. Foi um banho de sangue nas ruas e favelas de Caracas. Até hoje não se sabe o número real de mortos. Algumas fontes dizem ser 300. Outras 1.500.
No entanto, a repressão ao Caracazo causou uma divisão dentro do exército. Muitos soldados afirmaram que não era papel das forças armadas atirar contra o próprio povo. O saldo de mortes, somado à pobreza da maioria da população, fez o descontentamento virar um movimento político dentro do próprio exército, organizado por Hugo Chávez, então militar. Chávez passa a ser uma figura política cada vez mais conhecida. Oriundo dos extratos populares, sabia falar com a população e entendia seus desejos.
Em 1998, ganhou a eleição presidencial por primeira vez, assumindo no começo de 1999. Foi presidente da Venezuela até o dia da sua morte, em 5 de março de 2013. Várias vezes reeleito, Hugo Chávez foi um dos presidentes mais populares da história da América Latina. Já em 2002 sofreu uma tentativa de golpe de Estado. O povo foi às ruas exigindo sua libertação. Chávez voltou aclamado e ainda mais forte.
Seus anos no governo foram muito importantes para a América Latina e o mundo. No plano interno, com total apoio popular, seu governo redistribuiu a renda do petróleo. Ao invés de financiar a ostentação da burguesia, esse recurso foi utilizado para uma série de políticas sociais. A educação melhorou. A saúde melhorou. Ampliaram-se as políticas habitacionais. A produção de alimentos aumentou e foi diversificada.
Outro avanço importante deu-se no âmbito cultural. O governo da Venezuela criou formas midiáticas e artísticas que valorizaram a cultura nacional e os povos originários, além de politizar sua população. A burguesia venezuelana nunca aceitou ter perdido o poder para o povo. Os Estados Unidos nunca aceitaram um país verdadeiramente livre na América Latina, ainda mais com reservas de petróleo.
Tendo Simón Bolívar como grande exemplo, Chávez foi também o maior impulsionador da unidade latinoamericana nas últimas décadas, liderando um processo que uniu experiências de vários países: a Bolívia de Evo, a Argentina dos Kirchner, o Uruguai de Pepe Mujica, o Paraguai de Lugo, o Brasil de Lula.
Infelizmente, muitos governos da América Latina não souberam aproveitar as oportunidades que a chamada “onda rosa” propiciou. Era necessário avançar muito mais em organização popular do que o que foi de fato realizado. A história cobra seu preço.
Após a morte de Chavez, em 2013, Nicolas Maduro, então vice, assumiu o cargo de presidente. De maneira evidente, com o passar do tempo, a experiência bolivariana cometeu equívocos, dividiu-se internamente, sofreu desgastes. Contudo, há que se lembrar que os mandatos de Maduro tiveram que lidar com o aprofundamento das campanhas de desestabilização organizadas pelos EUA com apoio da burguesia venezuelana.
Nos últimos anos, intensificaram-se diversos bloqueios econômicos contra a Venezuela, dificultando as condições de vida no país. No âmbito político, diversas campanhas de desestabilização dentro e fora do país instituíram uma narrativa falsa de que o país estava sob uma ditadura e que a miséria reinava.
Algumas figuras da direita venezuelana foram cruciais nesse plano diabólico de destruição do próprio país, dentre os quais Capriles, Guaidó e Corina Machado. A burguesia venezuelana preferiu aliar-se a uma potência estrangeira contra o próprio povo, tendo como objetivo retomar o poder que deteve durante todo o século XX (a direita brasileira faz a mesma coisa).
Há também que se ressaltar o papel vergonhoso da mídia corporativa do Brasil, que amplificou as diversas mentiras que se contou sobre a Venezuela. A mídia corporativa brasileira (e de outras partes do mundo) serviu como uma correia de transmissão dos interesses do imperialismo estadunidense. Bajulação pura!
Mesmo com tantas dificuldades, a experiência bolivariana perdura no tempo. Nesse âmbito, as comunas são o grande pilar do poder popular na Venezuela. É no bairro que as decisões são tomadas. É uma democracia direta que funciona de baixo pra cima. Essa força popular será crucial no decorrer dos acontecimentos, e toda periferia e favela no Brasil tem muito a aprender com a experiência territorial das comunas venezuelanas.
O segundo mandato de Donald Trump é marcado pelo terrorismo de Estado. De olho nas reservas de petróleo e no ouro da Venezuela, cercou e atacou militarmente o país, violando tratados internacionais e a própria Constituição dos EUA.
O recado de Trump vem sendo dado há um tempo: sua política imperialista e neocolonial não tem limites, e sua intenção é roubar riquezas naturais e subjugar povos.
Faz-se necessária uma reação potente dos BRICS e do que resta dos organismos internacionais. O povo dos Estados Unidos também precisa pressionar internamente. A Europa deve abandonar a vergonhosa posição que assumiu, de subserviência total aos EUA.
Mais do que nunca, os povos da América Latina devem se unir. A Venezuela é a experiência mais avançada de soberania e verdadeira independência. Sua derrota é também uma derrota histórica para a América Latina.
Sem publicidade ou patrocínio, dependemos de você. Faça parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: apoia.se/outraspalavras

