O Irã que você não vê

Multidões tomam as ruas para apoiar governo que resiste à ameaça de Trump. Livro revela, em profundidade, riquezas, impasses e desafios de um país que se orgulha de cultura singular, da história que a constituiu e de sua autonomia preservada

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Por Natalia Maia Calfat

MAIS:
O texto que você lerá após a apresentação é o prefácio de
Por dentro do Irã, de Media Benjamin
Uma publicação da Autonomia Literária, parceira editorial de Outras Palavas

Evite a Amazon. “Por dentro do Irã” pode ser obtido diretamente no site da Editora Autonomia Literária

De súbito, fez-se o silêncio. Desde 28 de dezembro, os jornais do Ocidente reportavam, com entusiasmo e expectativa crescentes, a onda de protestos que ganhava corpo no Irã. A radicalização de alguns deles, que resultou em queima de mesquitas, cinemas e centros comerciais, foi vista como um prenúncio. Um regime que, apesar de suas contradições, desafiou por cinco décadas o supremacismo orgulhoso do Ocidente, aparentava estar nas cordas. Mas a partir desta segunda-feira (12/1) a crescente euforia deu lugar ao ocultamento.

O braço da viola pareceu mudar. O governo iraniano, visto até então como se estivesse nas cordas, recorreu ao apoio da multidão. A mídia ocidental ignorou, mas nas principais cidades centenas de milhares saíram às ruas em defesa da autonomia do país, vista agora sob ameaça dos Estados Unidos e Israel. A presença gigante não significava apoio integral ao regime – nem este o solicitou. Mas enviava uma mensagem: as maiorias resistem a ser governadas de fora. Ninguém quer um cenário em que Trump atreva-se a se apresentar como “acting presidente of Iran”.

Nas imagens das manifestações de 12/1 aparecem esquifes e se fazem homenagens a “mártires”. Segundo o governo, os protestos das últimas semanas foram infiltrados por provocadores que praticaram atos de violência extrema e a mortes. É impossível verificar, até o momento, a informação. As forças de segurança do regime iraniano já praticaram atos de repressão duríssimos. Mas episódios anteriores – os da Praça Maidan, em Kiev (em 2013-14) e os de Hong Kong (em 2019-2020) podem estar se repetindo. Na Ucrânia, grupos fortemente armados entrincheiraram-se em meio a manifestações e foram decisivos para uma “mudança de regime” patrocinada por Washington. Na China, a tática foi investir de forma muito violenta contra policiais e civis, num esforço (fracassado) de desencadear, como resposta, brutalidade deslegitimadora.

Uma análise do cientista político Vali Nasr, publicada no site Project Syndicate, e reproduzida no Valor, apresenta uma visão verossímil do que está de fato em curso no Irã. Segundo ela, os protestos, que eclodiram em 28/12, opunham-se em especial à alta do custo de vida, provocada por desvalorização da moeda nacional (que tem, como causa essencial, as sanções norte-americanas). O governo adotou, no primeiro momento, uma atitude de diálogo. Houve valorização dos programas de transferência de renda para os mais pobres. A medida, porém não teria sido capaz de aplacar a classe média, que empobreceu nos últimos anos e constituiria o núcleo das manifestações. Quando elas assumiram caráter político, voltando-se contra o regime (a partir de 8/1), houve intervenção policial. Os governantes, porém, estariam cientes de que a coesão nacional foi responsável por salvá-los em 2025, após ataques devastadores de Israel. Por isso, ao invés de confrontar abertamente os protestos, preferiram responder na mesma moeda – e tinham apoio popular para tanto: daí, as manifestações gigantescas pró-regime em 12/1.

Elas não foram, porém, capazes, de conter a arrogância de Donald Trump, nem sua propensão a criar factoides. Na manhã de 13/1, como se ignorasse a mudança de ares (ou talvez para tentar contrarrestá-la), o presidente dos EUA exortou os iranianos a “tomar as instituições” e prometeu que “ajuda está a caminho” – numa clara que referência à intervenção na Venezuela.

As turbulências atuais podem ser uma oportunidade de examinar melhor um país que a mídia ocidental cerca de preconceitos. Em setembro de 2025, a Editora Autonomia Literária publicou Por dentro do Irã, de Medea Benjamin, uma ativista norte-americana de longa trajetória nas lutas anticoloniais, pacifistas e feministas. O livro foge ao maniqueísmo. A partir de ampla pesquisa histórica e política, descreve um país singular – culto, diverso e orgulhoso se sua constituição. Nela combinam-se o passado persa e a influência muçulmana (que não impôs o árabe como língua); a ala xiita do Islã, majoritária, com a filosofia sufi e as reminiscências presentes do zoroastrismo. O texto a seguir, da cientista política Natalia Maia Calfat, que preside o Instituto de Cultura Árabe, é o prefácio da obra, agora ainda mais indispensável. (A.M.)

Uma das ativistas feministas mais conhecidas do movimento antiguerra nos Estados Unidos, Medea Benjamin faz seu début ao público brasileiro com uma sofisticada obra sobre o Irã e sua Revolução. A tradução inédita desta publicação da Autonomia Literária aparece num cenário editorial em que as obras sobre o país e sua política contemporânea são escassas, razão pela qual chega ao público brasileiro com urgência indispensável.

Se em português o leitor se via sitiado, de um lado, por autores que condenam a proclamada brutalidade e atraso iranianos e, de outro lado, por outros poucos mais entusiastas da revolução enquanto revolta subalterna, a autora nos oferece uma espécie de meio-termo entre o orientalismo eurocêntrico e inferiorizante e o ocidentalismo purista.

Em linguagem simples, mas oferecendo um conteúdo nuançado e complexo, com habilidade e lucidez, Medea escapa do simplismo pró ou contra a Revolução Iraniana, raro mesmo entre estudiosos. Ao longo da obra, o leitor poderá ver por que o povo iraniano é culto e orgulhoso de seu passado, suas ciências e suas artes. A não binariedade talvez seja reflexo do próprio caráter iraniano, que convive com a dualidade persa de ter sido islamizado mas não arabizado, que mantém a tradição zoroastra ao lado da xiita, da filosofia sufi que convive com elementos

pré-islâmicos, de ser palco da efervescência cultural a despeito do autoritarismo, dos elementos republicanos e descentralizados paralelos ao governo islâmico – ou do forte antiamericanismo e antissionismo ao lado da admiração aos estadunidenses e judeus.

A riqueza histórica e cultural foi frequentemente rodeada por episódios de ingerência e manipulações estrangeiras, russas, britânicas, francesas e estadunidenses. Demonstrando resiliência única, o Irã foi capaz de manter a unidade territorial e a soberania mesmo tendo sido repetidamente invadido desde o Império Aquemênida. Ainda assim, foi justamente através das diferentes invasões mongóis, timúridas e árabes que puderam exportar ou fazer os diferentes povos incorporarem elementos da língua, literatura e arquitetura persas. Aliás, a Era de Ouro deve em boa medida aos persas que traduziram filósofos, cientistas e matemáticos gregos ao árabe. O leitor verá, ao longo da obra, como a autora se coloca em constante diálogo com essa dualidade constitutiva da identidade iraniana.

A era moderna, marcada por desconfiança e disputa por soberania autônoma, registrou sucessivas concessões econômicas de recursos naturais, industriais e de infraestrutura aos britânicos mesmo antes da dinastia Pahlavi. Uma das características marcantes de Por dentro do Irã é dar notoriedade à habilidade política dos clérigos desde muito antes da Revolução Islâmica.

Como demonstra Medea, o clero xiita era politicamente forte e ativo desde a estabilidade permitida pelo período safávida, quando o persa era a “língua da diplomacia e da literatura” – ou seja, desde o início da história persa moderna, período de forte florescimento cultural e comercial e que instalou o xiismo como religião oficial, com características marcadamente sufis.

A exemplo da Fatwa do Tabaco em 1890, do seu papel na Revolução Constitucional de 1906 e durante a guerra civil de 1908-1910, do apoio à Frente Nacional contra as concessões à Anglo–Iranian Oil Company e da oposição à imunidade diplomática total dos militares estadunidenses concedida na década de 1960, os clérigos xiitas se opuseram firmemente à corrupção e posição dos monarcas em favor de interesses estrangeiros, limitando seu poder e demandando que os tribunais equilibrassem as leis parlamentares com as religiosas. Ao lado dos comerciantes dos bazares1, o clero demandava reformas tributárias, combatia

concessões econômicas e demandava mais descentralização administrativa e poder ao parlamento.

Ainda que seu conservadorismo tenha, ao longo do século xx, sido alvo da oposição liberal e das classes mais abastadas pró-monarquia, o que a obra demonstra é que, apesar de ter ocorrido sem precedentes e tendo verdadeiramente alterado as estruturas sociopolíticas e econômicas do Irã, a Revolução de 1979 não se tratou de um fenômeno excepcional ex machina. Em outras palavras, foi possível porque as bases já estavam postas décadas antes, ou seja, não aparece num vácuo, sendo reflexo dos vários ensaios constitucionalistas e em oposição ao Ocidente realizados anteriormente.

Assim, a obra nos convida a perceber que a Revolução Islâmica ocorre não porque o Irã seja uma sociedade intratavelmente religiosa, ou pela suposta radicalidade intrínseca aos xiitas, mas pelo poder reunido ao longo de décadas pelo seu clero, por sua capacidade de mobilização popular, por sua narrativa político-ideológica e pelos setores da sociedade que foi capaz de reunir em torno de si. Foi, igualmente, resultado da própria repressão conduzida pela dinastia Pahlavi, que baniu organizações políticas e partidos seculares – restando somente ao clero xiita a autoridade moral e robustez institucional enquanto oposição ao status quo.

Ademais, a modernização cultural autoritária do xá forjou o caráter moderno iraniano, estabelecendo administração de infraestrutura, defesa e identidade nacional, mas afastou-a da persa e gerou forte clientelismo, esvaziou o poder do parlamento e promoveu severa repressão política – além de reprimir manifestações culturais e linguísticas tradicionais, inclusive religiosas. A liberalização dos costumes foi acompanhada de uma apropriação por parte do regime da direção religiosa e espiritual, de forma que o revivalismo xiita responde precisamente a esta insatisfação. Nesse cenário, além dos estudantes e da intelectualidade, da classe trabalhadora urbana e do jovem clero, o carismático Khomeini unificou em torno de si também as demandas dos comerciantes da classe média conservadora dos bazares, as insatisfações dos liberais seculares e dos grandes proprietários.

Medea demonstra como a Revolução Islâmica refletia a latente disputa social sobre as formas que o bom governo deveria assumir no Irã. Fruto do engajamento das elites clericais de forma crescente nas arenas político-sociais, o revivalismo e o ressurgimento do ativismo político xiita no Irã e no Levante se deu desde antes da década de 1970, cujo ethos concentra-se na luta contra a opressão e a injustiça das quais o segmento se percebe como sendo alvo. Dentro dessa cosmovisão, a resistência contra a opressão, marginalização e sub-representação, o chamado à ação contra a tirania e o despotismo (ingerência externa, doméstica e regional pró-Ocidente) apresentam-se como dever. Deste modo, dentro da doutrina do jurisconsulto ou do wilayat al-faqih (tutela bem guiada na ausência do Mahdi), autossuficiência e soberania autônoma, boa governança, equidade, moralidade e justiça estão mutuamente imbricadas. Ao longo da obra é possível identificar como os debates em torno desses elementos estão presentes e vão se modificando no decorrer do tempo depois da Revolução de 1979.

Com igual desembaraço ao dedicado aos inúmeros episódios de deslealdade e ingerência ocidental – da coordenação da cia no golpe de 1953 ao prolongamento da guerra Irã-Iraque e do continuado apoio ao obscuro Mojahedin-e-Khalq (mek) –, a autora não se furta de abordar as contradições internas geradas como consequências indesejadas do novo regime. Tratando a revolução enquanto processo e dando destaque aos seus matizes, o leitor não deixará de entrar em contato com as novas formas de clientelismo e monopólio econômico, com a hierarquia clerical produzida, a repressão aos direitos políticos e civis e o aumento da pobreza rural e desigualdade econômica.

Volume significativo da obra de Medea é apresentado como que em formato de manual para leigos, debruçando-se sobre todas as questões que seguramente o público brasileiro gostará de saber acerca do Irã: indo de como é o trabalho dos ativistas e o panorama geral dos direitos humanos no país até como o regime lida com o álcool, o sexo, o aborto e as drogas, além da liberdade de culto e representação legislativa de minorias religiosas como zoroastras, povos do livro e outras denominações. Medea tampouco se omite de analisar o já conhecido fetiche pela mulher iraniana e pelo uso do véu, reforçando a atuação das iranianas como agentes de mudança antes e depois da Revolução.

Passados 45 anos, o Irã permanece se apresentando como uma ideologia emancipadora e de resistência terceiro-mundista, que, ao se opor tanto à esquerda marxista quanto ao secularismo pan-arabista, tanto ao liberalismo quanto ao wahabismo, se propõe como um paradigma alternativo antiocidental não marxista. O caráter marcadamente transnacional dessa terceira via lhe permite não somente promover seus interesses políticos e securitários na região, cooperando financeira, logística e tecnicamente com seus aliados, como oferecer um eixo moral e narrativo-ideológico enquanto vanguardista do chamado Eixo da Resistência, composto também pelo Hezbollah no Líbano, Ansar Allah no Iêmen, Hashd al-Shaabi no Iraque e pelo Hamas na Palestina. Essa posição permite ao Irã desempenhar um papel fundamental na região e no universo islâmico como plataforma que se propõe unificadora por ser pró-Palestina e antissectária. Essa atuação, contraditoriamente, se dá em reação ao isolamento imposto sobre os iranianos e a recusa a sua participação nos arranjos securitários pós-guerra na região.

Sendo o Oriente Médio um palco de mudanças constantes, a obra de Medea é anterior ao prolongamento da guerra israelense contra Gaza desde outubro de 2023 e à abertura de novos fronts regionais, como no Líbano. É também anterior tanto à queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, em dezembro de 2024, meses após a morte do presidente iraniano Ebrahim Raisi e seu ministro das Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, quanto ao assassinato de Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah. Esses eventos, agora sob o segundo mandato do presidente estadunidense Donald Trump – que se retirara unilateralmente do acordo nuclear histórico com o Irã alcançado em 2018 – podem significar o desenho de uma nova arquitetura de segurança para o Oriente Médio. A nova conjuntura deve considerar, particularmente, a restauração dos laços diplomáticos entre Irã e Arábia Saudita, esforço mediado pela China em 2023, e os Acordos de Abrão normalizando as relações entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein em 2020.

Se por um lado a evolução dos eventos conjunturais recentes aponta para cenários potencialmente distintos, por outro reflete a própria complexidade desta esfera e a ausência de linearidade da política externa iraniana. Oscilando de forma pendular entre o rompimento do isolacionismo internacional conduzido por presidentes mais pragmáticos e reformistas e as reações conservadoras retroagindo a abertura quando suas expectativas se provaram frustradas, a autora demonstra como nas últimas décadas o país vem sofrendo o forte impacto das sanções e demandas internas por reforma. Paradoxalmente, não somente as sanções geram efeitos-rebote no que diz respeito à legitimidade do regime, como elas os levam a desenvolver estratégias criativas de autossuficiência, como uso de engenharia reversa, diversificação da indústria nacional e desenvolvimento da cultura tradicional.

Por dentro do Irã, além de se propor a um resgate honesto da história política recente iraniana, se apresenta como um grande convite para que o leitor, após tomar posse desse instrumental, possa refletir sobre sua legitimidade, seus avanços e retrocessos.

A obra, ademais, nos convida a pensar como tradição e modernidade devem se inter-relacionar, como política e religião podem ser combinadas através de um sistema sofisticado de pesos e contrapesos e como agentes transnacionais disruptivos respondem à crise da democracia e do multilateralismo.

O convite que nos faz a Autonomia Literária é principalmente para refletirmos de que modo a população iraniana pode ser a protagonista formuladora de uma modalidade de governo soberano e independente que esteja acompanhado do seu sistema jurídico equivalente. E que esse resultado ressignifique a tradição e reformule seu nacionalismo a partir desta e em concerto com os anseios e contradições domésticas – oriundas das demandas morais, (a)religiosas, econômicas e políticas da sociedade iraniana – mas sem que esse resultado de governança signifique, necessariamente, entrar no registro do sistema ocidental. Afastando-se ao mesmo tempo de um paroquialismo essencializante que tudo culturaliza e de um orientalismo estranhado que tudo exotiza, o leitor verá que a obra reforça a multiplicidade da identidade iraniana, abandonando uma visão estática e linear sobre seu presente mas também sobre seu futuro.

1Apesar do português ter diferentes significados para a expressão “bazar”, aqui é usado sempre o sentido original, do persa: mercados públicos abertos com diferentes tipos de lojas e comércios, como uma espécie de “feira” sob um teto. [n.t.]

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