Geopolítica: como escapar do cerco midiático?

Do assalto à Venezuela aos eventos no Irã, o jornalismo torna-se arma de guerra e isola os países em conflito com os EUA. O que a velha mídia não conta? Por onde se informar? Qual o desafio de contextualizar processos históricos? E o papel dos meios alternativos?

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A geopolítica, como outras pautas que durante anos permaneceram isoladas em editorias especializadas no jornalismo, tem atravessado grande parte das notícias diárias. Um exemplo recente é a cobertura do sequestro do presidente venezuelano, o chavista Nicolás Maduro, pelo governo estadunidense do republicano Donald Trump. Em meio a essa atenção intensificada, marcada tanto pela força dos veículos jornalísticos tradicionais quanto pela ascensão de perfis informais nas redes sociais e pelo avanço de deepfakes geradas por inteligência artificial, é cada vez mais urgente fornecer explicações suficientes para que o público tenha condições de escolher refletidamente de que modo prefere se informar.

Para isso, é preciso estourar a bolha dos leitores versados, geralmente restrita a intelectuais, e alcançar todos os trabalhadores – a maior parte da população –, diretamente afetados pelas decisões geopolíticas e raramente incluídos de forma adequada nesses debates.

No senso comum, pouco se questionam os modelos de financiamento que sustentam boa parte das redações mais conhecidas, o que afasta uma visão crítica sobre seus interesses, nacionais e internacionais. Por isso, antes de discutir a cobertura da pauta geopolítica, é fundamental distinguir o jornalismo tradicional do jornalismo independente.

O jornalismo tradicional corresponde a veículos consolidados há muitas décadas, marcados pelo poder econômico e editorial, além de iniciativas recentes que seguem o mesmo estilo. No Brasil, os principais grupos de mídia são administrados pelas mesmas famílias há mais de um século, em sistemas de sucessão familiar que concentram fortunas estimadas em dezenas de bilhões. Fora do país, a lógica se repete tanto em jornais com trajetórias que se estendem por quase dois séculos quanto em conglomerados de capital aberto, cujas fortunas podem alcançar centenas de bilhões.

Nesse modelo de jornalismo, a concentração de renda e de capital simbólico decorre da condução pela lógica da audiência, do lucro e da manutenção de patrocinadores. Nesse processo, o interesse é privado, voltado àquilo que gera consumo e sustenta o sistema que financia esses meios: o neoliberalismo. Em outras palavras, é um jornalismo que opera a serviço das elites.

O jornalismo independente é uma alternativa recente, que ganhou força sobretudo nas últimas quatro décadas, organizada pela recusa à dependência econômica e editorial de grandes empresas. Seu financiamento costuma vir das próprias equipes envolvidas ou de campanhas de financiamento coletivo (crowdfundings), o que confere à produção jornalística um retorno ao seu sentido público. No Brasil e em outros países, essas iniciativas costumam oferecer um jornalismo mais lento, aprofundado e especializado, cuja sobrevivência não depende do alcance massivo, mas da relação de confiança com um público fidelizado.

Algumas experiências de grande alcance, como veículos internacionais não tradicionais, em exceção, operam de outro modo: recebem financiamento direto de seus Estados, o que, embora gere desconfiança quanto à independência editorial, revela a estratégia, devido à garantia de renda e de popularidade, de disputar as grandes narrativas – algo que não é tão acessível a veículos de menor dimensão.

Vale dizer que a palavra independente ainda é discutida por jornalistas e pesquisadores, que argumentam que se trata apenas de um estilo ou de uma pretensão, uma vez que a independência verdadeira é impossível no capitalismo – cada trabalhador, mesmo quando freelancer, depende de seu salário. Ainda, o debate sobre a suposta neutralidade do jornalismo, embora permaneça truncado no senso comum brasileiro, já está vencido em muitos outros países, cujos jornais chegam a assumir um posicionamento até mesmo partidário em determinados cenários. Como se costuma dizer: não se posicionar diante de um fato já é, paradoxalmente, uma tomada de posição. Por último, cabe mencionar que nem todo jornalismo que se diz independente atua de forma não tradicional.

A compreensão desse contexto, quando somada ao entendimento do panorama geopolítico global, oferece algumas pistas a mais para a decisão sobre como se informar.

É recorrente ouvir, em redações tradicionais, que o modelo de jornalismo adotado no Brasil é inspirado no padrão estadunidense. Para além da influência formal no modo de produzir material jornalístico, os Estados Unidos afetam o tom da cobertura, uma vez que sua posição de potência hegemônica no sistema internacional orienta agendas noticiosas e se reflete na estrutura de financiamento do jornalismo em diversos países – por exemplo, ao sediar os principais patrocinadores.

Assim, muitas coberturas jornalísticas da pauta geopolítica operam a partir de vieses que reiteram as opções estratégicas e políticas dos EUA, atendendo mais aos seus interesses geopolíticos do que às necessidades ou aos desejos das nações envolvidas nos conflitos ou, até mesmo, daquelas que os noticiam. Reproduzindo posicionamentos históricos, o jornalismo tradicional global constrói um cerco midiático em relação aos países que confrontam os EUA, sobretudo aqueles que desafiam sua hegemonia – sustentada pelo neoliberalismo – ao manter governos de esquerda com intensa presença estatal e de forças armadas.

São poucas as pesquisas que abordam a noção de cerco midiático, termo que circula mais frequentemente na esfera pública. O cientista político João Feres Júnior¹ define cerco como uma metáfora espacial que sugere a ideia de limite ou barreira, separando o dentro do fora, útil para compreender as dinâmicas de exclusão e inclusão na mídia, especialmente em relação à esquerda política. Para o autor, a expressão ilustra tanto a exclusão simples de determinadas vozes e assuntos da cobertura midiática quanto a exclusão velada, na qual sujeitos e temas são inseridos, mas de maneira desfavorável, como objetos de detração. O cerco midiático, assim, envolve estratégias de agendamento e enquadramento, nas quais certos temas são destacados enquanto outros são ignorados, influenciando a percepção pública de maneira seletiva e, muitas vezes, negativa em relação a determinados grupos políticos.

Podemos pensar na emblemática oposição dos EUA a Cuba, Venezuela e Nicarágua. Cuba adotou um modelo socialista após a Revolução Cubana de 1959. A Venezuela se distingue pelo socialismo resultante da Revolução Bolivariana de 1999. Já a Nicarágua resgatou o marxismo com a Revolução Sandinista de 1961, liderada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que retornou ao poder em 2006 com a presidência de Daniel Ortega. Há mais de 60 anos, Cuba atravessa diversos tipos de isolamento, ainda que seja referência em alfabetização, educação e saúde. A Venezuela detém soberania – ou detinha, até a invasão recente em 2026. Ambos os países enfrentam duras sanções internacionais impostas pelos Estados Unidos, que, vale lembrar, não se limitam a negociações diretas com eles, mas também com outros países afetados pelo poder extraterritorial dessas medidas. A Nicarágua, também dedicada a avanços sociais populares, tem sido alvo de pressões análogas, principalmente após a recente reeleição de Ortega.

Outros exemplos incluem a Rússia, que, há pouco mais de trinta anos, era a principal nação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, resultado da Revolução Russa de 1917; a China, que há quase oitenta anos mantém o Partido Comunista Chinês no poder, desde a Revolução Chinesa de 1949; e a Coreia do Norte, que adotou um Estado socialista autossuficiente desde sua independência, com a formação da República Popular Democrática da Coreia, em 1948. Atualmente, a guerra entre Rússia e sua vizinha Ucrânia é frequentemente retratada de maneira a minimizar as responsabilidades da Ucrânia, dado seu alinhamento com os Estados Unidos. A China, com avanços políticos que tiraram milhões da extrema pobreza, e a Coreia do Norte, com sistemas universais de saúde e educação, são frequentemente detratadas na mídia ocidental, uma vez que a primeira rivaliza com os Estados Unidos pela hegemonia global, enquanto a segunda é adversária dos EUA há quase um século. Também se pode mencionar o Vietnã, que venceu os Estados Unidos na guerra de 1955-1975, e o Laos, que resiste a intervenções e mantém sua soberania.

Territórios como Palestina, Irã, Afeganistão e Líbano possuem relevância estratégica para os Estados Unidos, tanto para consolidar Israel como aliado na região quanto para competir com potências de oposição como Rússia e China. Como resultado, esses países são constantemente pressionados e prejudicados nos conflitos que enfrentam. Essa dinâmica persiste mesmo diante de eventos brutais, como o genocídio em curso na Palestina.

Em todos esses casos, a estratégia de cerco midiático dos Estados Unidos e de seus aliados visa deslegitimar os governos desses países, omitindo progressos, enfatizando deficiências internas e ignorando as pressões externas que os tornam alvos de sanções e intervenções econômicas que afetam suas estruturas. É indiscutível que esses territórios apresentam problemas e contradições, mas é igualmente sabido que a mídia, quando não os invisibiliza, tende a enfatizar apenas esses aspectos. A cobertura é, muitas vezes, utilizada como ferramenta de guerra, criando um ambiente que interfere nesses países. Além de midiático, o cerco é simbólico e econômico, visando enfraquecer alternativas políticas ao neoliberalismo, como o socialismo, evitando a queda da hegemonia estadunidense.

Esse quadro jornalístico e geopolítico – que se deve admitir envolver muito mais aspectos do que é possível detalhar em uma coluna de jornal – oferece pistas sobre como se informar e por que não pelos jornais tradicionais.

Por fim, vale se perguntar: o que sei sobre os Estados Unidos? Por qual meio essa informação chegou até mim? Conheço algum veículo oficial dessa região? Em sequência: o que sei sobre Cuba, Venezuela, Nicarágua, Rússia, China, Coreia do Norte, Vietnã, Laos, Palestina, Irã, Afeganistão e Líbano? Por qual meio essa informação chegou até mim? Conheço algum veículo oficial dessas regiões? Há opções disponíveis online e com tradução. Já os meios protegidos pelos próprios Estados, têm, como foi exposto, razões concretas para temer interferências estrangeiras.

Referências


¹ FERES JÚNIOR, João. Cerco midiático: O lugar da esquerda na esfera “publicada”. São Paulo: Friedrich-Ebert-Stiftung, 2020. Disponível em: https://brasil.fes.de/detalhe/cerco-midiatico-o-lugar-da-esquerda-na-esfera-publicada.html. Acesso em: 23 nov. 2024.

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