Esporte, imperialismo e a “neutralidade” seletiva
Se a Rússia foi banida de competições internacionais após invadir a Ucrânia, por que os EUA continuam impunes, desde o sequestro de Maduro? E como a FIFA homenageia Trump? Silêncio da entidade, e do Comitê Olímpico Internacional, não é mero lapso
Publicado 20/01/2026 às 18:19

Introdução
O banimento da Rússia das competições esportivas internacionais, promovido pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) após o início da guerra na Ucrânia, foi apresentado como uma medida ética, civilizatória e em defesa da paz mundial. Em nome da “neutralidade política” e da “proteção dos valores universais do esporte”, atletas, seleções e delegações russas passaram a ser impedidas de participar oficialmente de eventos esportivos globais. Contudo, quando se observa o comportamento dessas mesmas instituições diante de ações belicosas, intervencionistas e flagrantemente violadoras do direito internacional por parte dos Estados Unidos — incluindo golpes de Estado, invasões militares, bloqueios econômicos e, mais recentemente, o sequestro de um chefe de Estado estrangeiro — se expressa uma contradição estrutural: a neutralidade esportiva é, na prática, seletiva, ideológica e funcional à ordem imperial vigente, atendendo aos interesses do capital internacional.
Parto do entendimento de que o esporte constitui um aparelho ideológico fundamental da ordem capitalista global, não operando fora da política, mas como um aparelho ideológico do estado burguês que acentua e legitima o poder geopolítico hegemônico, no qual sanções são aplicadas não a partir de princípios universais, mas de alinhamentos ideopolíticos estratégicos.
O banimento da Rússia e a retórica moral do esporte
A decisão de excluir a Rússia de competições organizadas pela FIFA e pelo COI foi rapidamente justificada como uma resposta excepcional a uma agressão militar “inaceitável”. Essa retórica humanitária opera como ideologia, no sentido clássico do termo, ao converter interesses geopolíticos específicos em valores universalizados. Essa expressão da “falsa consciência”, ao longo dos anos, construiu a ideia de que o esporte, enquanto espaço de fraternidade entre os povos, não poderia compactuar com um Estado que viola a soberania de outro. Assim, o banimento foi apresentado como um gesto de responsabilidade ética, quase pedagógico, em defesa da paz.
No entanto, essa postura ignora deliberadamente um elemento fundamental: o esporte internacional jamais adotou critérios semelhantes de forma sistemática. A história recente está repleta de conflitos armados, intervenções militares e ações de guerra protagonizadas por potências ocidentais — especialmente pelos Estados Unidos — que jamais resultaram em qualquer tipo de sanção esportiva. Invasões como as do Iraque, Afeganistão, Líbia ou Síria, além de operações militares indiretas, assassinatos seletivos e golpes patrocinados, nunca suscitaram debates equivalentes sobre banimento, neutralidade ou valores universais do esporte.
Essa assimetria revela que o problema não é a guerra em si, mas quem a protagoniza.
Estados Unidos: violência estrutural sem punição esportiva
Os Estados Unidos, cujo presidente, no dia 5 de dezembro, recebeu do mandatário da Fifa, Gianni Infantino, o Prêmio da Paz, figuram como o principal agente militar global nas últimas décadas. Seu histórico inclui intervenções diretas, guerras preventivas baseadas em informações falsas, sanções econômicas que produzem crises humanitárias e práticas de sequestro, prisão arbitrária e extradições forçadas de lideranças políticas estrangeiras. Ainda assim, a delegação estadunidense segue participando normalmente de Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e demais eventos esportivos internacionais, sem qualquer questionamento institucional relevante.
O recente sequestro do presidente venezuelano — um ato que viola frontalmente princípios básicos do direito internacional, da soberania nacional e da autodeterminação dos povos — reforça esse padrão de exceção imperial. O silêncio da FIFA e do COI diante desse episódio não é um lapso, mas uma expressão coerente de sua inserção política no sistema internacional.
Se a defesa da paz fosse um princípio real e universal, os Estados Unidos deveriam figurar como os primeiros a sofrer sanções esportivas (mas, como observamos, seu presidente recebe prêmio em evento oficial de entidade esportiva). O fato de isso jamais ter ocorrido demonstra que tais instituições não atuam como árbitros morais globais, mas como atores políticos subordinados à hegemonia ocidental.
O mito da neutralidade esportiva
A contradição entre o tratamento dado à Rússia e aos Estados Unidos desmonta o mito da neutralidade esportiva que na essência cumpre função hegemônica, organizando o consenso em torno de uma ordem que se apresenta como natural e inevitável. A ideia de que o esporte pode se manter “acima da política” funciona como um discurso ideológico que oculta relações de poder. Na prática, o esporte internacional se articula com interesses econômicos, diplomáticos e estratégicos, operando como uma plataforma de soft power.
Diversos estudos no campo da educação física/ciências do esporte demonstram que a chamada neutralidade esportiva jamais foi um princípio efetivo, mas uma construção ideológica funcional aos conflitos geopolíticos, especialmente durante a Guerra Fria. As pesquisas evidenciam como eventos esportivos internacionais foram sistematicamente instrumentalizados tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Soviética como arenas de disputa simbólica, afirmação de modelos civilizatórios e demonstração de superioridade política, econômica e cultural.
Os Jogos Olímpicos, em particular, constituíram-se como espaços privilegiados dessa confrontação, seja pela contagem de medalhas como indicador de eficiência e eficácia do modelo econômico adotado, seja pelo uso do boicote, da propaganda e da exclusão seletiva como estratégias políticas. Nesse contexto, o discurso da neutralidade operou como uma mistificação: enquanto se proclamava o afastamento da política, o esporte cumpria uma função ativa na produção de consenso, na legitimação ideológica dos blocos – socialista e/ou capitalista – em disputa e na naturalização da ordem internacional bipolar.
É importante ressaltar que FIFA e COI dependem financeiramente de patrocinadores, direitos de transmissão, mercados consumidores e alianças com Estados centrais do capitalismo global. Nesse contexto, sancionar países periféricos ou rivais geopolíticos é viável; confrontar a potência hegemônica, não. Assim, o esporte torna-se um instrumento de punição simbólica seletiva, reforçando narrativas de “bem” e “mal” alinhadas à política externa das potências dominantes.
Considerações finais
O banimento da Rússia e a complacência diante das ações belicosas dos Estados Unidos não representam incoerências pontuais, mas revelam a lógica estrutural do esporte internacional sob o capitalismo global. FIFA e COI não são entidades neutras, nem guardiãs universais da ética esportiva. São instituições inseridas em uma ordem mundial desigual, que utilizam o discurso dos valores para legitimar decisões políticas assimétricas.
Reconhecer essa contradição é fundamental para desmistificar o esporte como espaço puro e apolítico. Ao contrário, ele constitui um campo privilegiado de disputa ideológica, no qual se reproduzem hierarquias globais, interesses imperialistas e estratégias de dominação simbólica. Questionar essa neutralidade seletiva não é politizar o esporte; é, antes, revelar a política que sempre esteve nele.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para [email protected] e fortaleça o jornalismo crítico.

