A ameaça Duterte e a chance do segundo turno

Situação apavorante das Filipinas, onde milhares foram mortos após eleição de presidente fascista, precisa servir de alerta e estímulo para enfrentar os riscos que corremos

Por Alberto Sartorelli

Vou contar uma história verídica. Rodrigo Duterte foi eleito democraticamente presidente das Filipinas em 2016, com a promessa de exterminar todos os usuários de drogas do país, dando carta branca inclusive para a população assassinar os narcodependentes. Nos primeiros 80 dias de governo, foram contabilizados oficialmente 3.500 usuários de drogas mortos pelas forças do governo e pela própria população. As Filipinas são hoje o cenário de uma Guerra Civil extremamente violenta e irracional. Do lado de cá, Bolsonaro propõe armar a população e não punir excessos e abusos de poder policial, tratando usuários de drogas como doentes e criminosos.

A guerra às drogas é irracional, pois é insano alguém realmente acreditar que vai resolver o problema da criminalidade executando todos os usuários de drogas. Para resolver esse problema é preciso, pelo contrário, legalizar as drogas. A guerra às drogas não faz sentido. Quer dizer, como o dinheiro do tráfico não paga imposto, muitos poderosos continuam lucrando com a proibição das drogas. Por ser “sujo”, o dinheiro do tráfico é “fácil”, e muitos jovens, no atual contexto de desemprego em massa, sentem-se seduzidos pela associação de bom grado ao tráfico. Além disso, nossas prisões não recuperam os prisioneiros, pois são dominadas por facções criminosas, e estas, para proteger os presos comuns de estupros e motins, cobram em troca a lealdade à facção, gerando assim uma cadeia infinita de favores, que em verdade mantém funcionando e crescente a organização criminosa. A legalização das drogas diminuiria o número de pessoas presas (e passíveis de adentrar à lógica do favor prisional), respeitaria a liberdade individual do sujeito em escolher quais substâncias põe para dentro de seu corpo, e o mais importante: minguaria consideravelmente o número de pessoas, inclusive policiais e inocentes, mortos todos os dias nessa guerra sem noção. Cabe a cada família educar o seu filho no caminho do que acredita ser bom para ele, não cerceando a sua liberdade de escolha e interferindo na liberdade dos outros.

Falando em liberdade, é preciso respeitar a liberdade do corpo. A educação sexual não existe para sexualizar precocemente a criança: pelo contrário, ela existe para que a criança perceba em quais momentos está sendo assediada ou abusada. Já a educação de gênero ensina à criança que o diferente não é errado, e que ela pode apresentar-se à sociedade como bem lhe aprouver. Com o falso argumento de que a educação sexual e de gênero sexualizam as crianças antes da hora, efetivamente o resultado é outro: sem educação sexual, as crianças ficam passíveis de estupro e não sabem como relatar o abuso – isso quer dizer que ser contra a educação sexual, efetivamente, é ser conivente com o estupro. Sem educação de gênero, as crianças ficam presas aos padrões sociais estabelecidos, sem refletir se o modo como se apresentam em sociedade faz jus ao seu Eu, ou é mera máscara social artificial utilizada para sobreviver numa sociedade que lhe é hostil.

Não podemos votar em um candidato que diz que as nossas avós, irmãs e mães, aquelas das quais saímos do ventre, são “fraquejadas”. Que mulheres devem receber menos do que homens porque engravidam. Que negros e quilombolas são medidos em arrobas. Que faz apologia à tortura e aos torturadores que estupravam suas vítimas. Que discrimina homossexuais. E que acha que o PT é comunista.

No governo do PT, vimos o Brasil se tornar a 6ª maior economia do mundo. Vimos o fim da miséria extrema, através de programas sociais. Vimos a expansão das universidades públicas.

O PT não é ruim porque é comunista. Acreditem: comunismo não tem nada a ver com fazer alianças com a burguesia, como fez o PT. O PT é ruim porque fez somente algumas coisas boas, mas ainda é muito pouco. Eu queria um salário mínimo muito mais alto, queria mais emprego ainda, queria uma educação muito melhor, queria que as drogas fossem legalizadas, queria muito mais universidades e investimento em pesquisa, e queria a diminuição dos juros.

O governo que Bolsonaro propõe é um desastre. Indicado como seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes propôs que o imposto de renda de todo brasileiro seja de 20%. Hoje em dia, quem ganha até R$ 1.900 está isento desse imposto; quem ganha mais de R$ 4.700 paga 27,5%. A mudança proposta por Paulo Guedes quer dizer que: quem ganha R$ 10.000 pagará 20% de imposto (2 mil reais), e quem ganha R$ 1.000, também pagará 20% de imposto (200 reais). Faz mais diferença 2 mil reais para quem ganha 10 mil, ou 200 reais para quem ganha mil? Além disso, o candidato a vice nessa mesma chapa, o general Mourão, disse que o 13º salário e as férias remuneradas prejudicam a economia. Prejudica a economia de quem, Mourão? Do rico que o senhor quer continuar beneficiando, ou do pobre miserável que o senhor quer ver morto de fome? Já o próprio presidenciável Bolsonaro teve a oportunidade de votar pelo fim dos 14º e 15º salários dos parlamentares, além de muitos outros privilégios, e foi contra. O candidato quer ver o povo sem 13º salário, e os deputados com mais de 15 rendimentos anuais. Ninguém dessa chapa desastrosa falou em taxar helicópteros e iates, veículos isentos de impostos atualmente, para aliviar o orçamento dos mais pobres e investir em políticas sociais. Afinal, o deputado votou a favor do congelamento dos gastos públicos por 20 anos. Bolsonaro e sua turma querem ver o povo na miséria.

É por esse motivo que a chapa de Bolsonaro evita falar em público. Eles têm medo de dizer o que pensam, pois suas intenções são impopulares. Quem está com o povo, fala para o povo. Ter receio de falar em público quer dizer que o candidato só se sustenta através do “mito” criado sobre ele, pois suas aparições públicas – e de seus aliados – destroem sua popularidade, criada através de notícias falsas.

É preciso falar também do indicado de Bolsonaro para o Ministério da Cultura, o ex-ator pornô Alexandre Frota. É inevitável a comparação com o ministro da Cultura de Lula, nosso gênio da música Gilberto Gil. Alexandre Frota jamais demonstrou qualquer aptidão intelectual nem apreço pela cultura brasileira. Um despreparado inculto, assim como Paulo Guedes, general Mourão e o próprio Bolsonaro e sua família.

A proposta de militarizar as escolas também é um retrocesso terrível. É preciso criar outro tipo de escola pública, na qual os alunos sejam incentivados a desenvolver todas as suas potencialidades, que podem ser artísticas, científicas, esportivas, literárias, etc. Uma escola na qual o aluno saiba criticar os problemas de seu país e seja incentivado a desenvolver soluções para ajudar o Brasil, e não forçado a aceitar uma ideia falsa de nação, resignado com uma sociabilidade restrita e uma vida miserável.

A novidade da campanha do ex-militar Bolsonaro (expulso do Exército por promover a desordem) é o apoio do bispo evangélico Edir Macedo. O bispo e o ex-militar, todavia, nada possuem de verdadeiros cristãos. Lembremos da palavra de Jesus: “É mais fácil o camelo entrar pelo buraco da agulha do que o rico entrar no Reino de Deus“. (Mateus 19,24) Quem não se preocupa com o povo e está do lado dos ricos não é cristão, está mais para Judas.

Depois dessas palavras, um desabafo. Eu, um intelectual, alguém que pensa o mundo de maneira livre, também corro risco de vida num eventual governo de Bolsonaro. Pois Bolsonaro e sua gangue não se preocupam com ciência, tecnologia e inovação; não se preocupam com a universidade pública. E o pior: desprezam a inteligência e a ameaçam, afinal, a inteligência destrói mitos. Não são somente mulheres, negros, gays, nordestinos, indígenas e imigrantes que correm risco de vida. Num governo Bolsonaro, é possível que esse texto fosse proibido; eu, preso.

É por tudo isso que, num eventual segundo turno, voto em Haddad sem titubear. Não pelo fato do PT ter feito um bom governo: foi ruim, poderia ter sido muito melhor. Mas entre quem já fez desse país uma potência mundial e quem conjura uma gama de desqualificados para um governo que tem tudo para ser desastroso em inúmeros aspectos, fico com a primeira opção. Vou votar 13 porque, apesar de tudo, o Bolsonaro consegue ser muito pior: moralmente, economicamente, politicamente. Se todos fossem mais inteligentes, poderíamos tirar o PT e colocar coisa melhor no lugar. Já que aparentemente rumamos para a escolha entre o ruim e o terrível, a inteligência e o bom senso sempre pendem para o menos desastroso. Infelizmente meu voto é 13 no segundo turno, e a culpa é de quem vota no Bolsonaro.

P.S. Aceito de coração críticas e correções ao meu texto. Já em relação a ameaças e qualquer tipo de coação, sempre feitas por gente que mais se aparenta a hominídeos pré-históricos do que a um ser humano racional, serão tomadas as medidas legais.

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Um comentario para "A ameaça Duterte e a chance do segundo turno"

  1. Oriom disse:

    Faltou dizer q o bôzo diz q Meio Ambiente
    fica atrelado e submisso a Agricultura-
    leia-se Agro…😞

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