O cimento familiar que faz A vida invisível

No filme, de Karim Aïnouz, Guida, grávida, é expulsa de casa; Eurídice, apesar de complô masculino, busca a irmã. Um questionamento da honra — valor que, em nome da família, continua anulando mulheres, gays, trans e lésbicas…

As famílias têm segredos. E o que faz do segredo, segredo? Por que algo não pode ser dito? Medo de perder a honra. O que é honra? O cimento simbólico mais importante da família. Aprendemos que a honra é relacional. Ser um homem honrado depende do comportamento da mulher. Daí a fragilidade deste cimento. Dependo do comportamento do outro para ser o que sou. E quando o vínculo é rompido, os ossos são expostos. Guida, personagem do filme A vida invisível, de Karim Aïnouz (baseado no livro de Martha Batalha) será o personagem responsável pela (quase) fratura exposta da sua família. Após um tempo fora de casa, Guida volta grávida. Seu pai sabe que teria que carregar o peso desta vergonha insuportável. Expulsa-a. O pai da criança nega a paternidade. O pai de Guida, nega-lhe tudo: casa, comida e o encontro com a irmã Eurídice. Produziu-se um segredo.

Eurídice assume o lugar de Orfeu, e movida pela música de seu piano, busca à Guida, sua irmã. Guida também tenta encontrar Eurídice escrevendo-lhes, inutilmente, cartas. O fiel guardador do segredo da família e das cartas torna-se o marido de Eurídice. Os anos passos. Guida, a mãe solteira, inventa outra família, estratégia recorrente daqueles expulsos de suas famílias consanguíneas.

Segredo e sofrimento parecem ser irmãos gêmeos nestas estruturas familiares que operam o controle da vida dos seus membros pela heteronormatividade. Guida transforma-se no fantasma, aquele exterior constitutivo da vida organizada daquela família suburbana. É na díade presença-ausência de Guida que a família vê seu lastro moral ser preservado. Na casa dos homens, o pai de Guida conta o segredo para o marido de Eurídice. Guida estava no Rio e era mãe de um pequeno bastardo. O marido transmite a responsabilidade pela manutenção do segredo para o filho.

Logo após o surto de Eurídice, um buraco temporal se abre na narrativa fílmica. Vamos reencontrá-la velha, viúva e amparada por seus dois filhos. Eurídice, a pianista, que magicamente ficava invisível quando era feliz (ao tocar seu piano), Eurídice que, ao buscar a irmã buscava-se, também morre quando soube da suposta morte da irmã. Eurídice torna-se visível socialmente, cumprindo com os mandamentos: torna-se esposa e mãe.

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Se não há nenhum personagem masculino no filme que nos permita relativizar a miséria do significante “homem”, a obra apresenta, como uma estrada marginal, uma terceira alternativa ao binário Eurídice (a mulher que tentava fugir, mas sempre era captura pelas normas) e Guida (e seu proto-feminismo). O terceiro termo desestabilizador está em Filomena. A mulher que acolhe Guida e seu filho e que ri, um sorriso cansado, diante da busca inútil de Guida por um homem. A solidão da mulher negra transforma-se em sabedoria e generosidade.

Será que a história de Guida e Eurídice é testemunho de um passado que não nos assusta mais? Será que a noção de honra que sustenta a família e faz com que o indivíduo desapareça e dê lugar aos desejos de reprodução das normas, pode ser lido como algo superado? Tenho como hipótese que a honra familiar, mesmo em contextos urbanos e individualistas, continua operando como força regulatória da vida. Mas agora não são apenas as mulheres que podem manchar o lar, o bom nome da família, mas (e principalmente), os filhos gays, trans, lésbicas. Como explicar a interjeição: “Prefiro um filho morte ao um filho gay”?

A honra vive ainda seu momento de glória.

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Um comentario para "O cimento familiar que faz A vida invisível"

  1. Mônica disse:

    O texto carece de revisão. Tem vários errinhos de grafia.

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