Trump e Bolsonaro: em busca dos porquês

Em seu novo livro, filósofo italiano Franco Berardi analisa: ascensão da ultradireita expressa, mais que falência neoliberal, a ineficácia da esquerda em propor alternativas. Desamparada, população buscou saídas de desespero e ressentimento

Livros tem a capacidade de nos dizerem muito do passado e das coisas que foram pensadas como possíveis numa determinada época e momento específico. Nos surpreende que as realizações das perspectivas abertas em ensaios, estudos e ficções não se apresentem, por vezes, tal como apontadas. Passemos pela vasta literatura distópica do século passado, marcada por um avesso da emancipação, a vida usurpada da sua atividade criativa e desejante, para dar lugar a angústia da imobilidade, de uma subjetividade reativa, por vezes reacionária, ao dar passagem para a morte, para a violência e para o totalitarismo. Nela o futuro é matéria de uma possibilidade aterradora. Tomemos então como exemplo outra manifestação, dessa vez não distópica, mas da poesia enquanto afirmação da vida: Pasolini em seu poema sobre os vaga-lumes, durante a 2ª Guerra Mundial e o fascismo, enxerga nos animais luminosos que povoam a mata ao mesmo tempo em que ocorrem conflitos, a existência das possibilidades de superação e emancipação, aos jovens que em meio à destruição podem se recolocar no mundo e a partir dessa experiência, modificar a marcha destrutiva. A mesma representação dos vaga-lumes retorna na década de 70, quando o poeta e cineasta afirma categoricamente a impossibilidade de uma superação do mundo e afirmação da vida. Para ele a sociedade de consumo, ou o neocapitalismo, como denominavam os italianos, deu espaço a uma mutação antropológica da cultura popular e das tradições, exatamente naquilo que Pasolini via como matéria do presente que formava possibilidades reais de emancipação. Era o neofascismo, na Itália em que o processo contrarrevolucionário caminhava em direção a extrema violência e terrorismo de Estado. As reflexões de Pasolini são tema do livro “Sobrevivência dos vaga-lumes”, de Georges Didi-Huberman. Mudemos nosso ângulo histórico, de todo modo permaneceremos no seio do problema: Henri Bergson publica na revista sueca Nordisk Tidskrift o ensaio “O possível e o real”. Chama atenção ao texto a data de publicação: ano de 1930. Na Europa o nazismo caminhava em suas práticas tectônicas na sociedade alemã, através da violência e do desamparo causado pelo desemprego, fome, miséria. A vitória do Partido Social-Democrata neste ano não esconde a vitória do Partido Nazista em seu número de eleitos no Reichstag. Bergson discute a imprevisibilidade do possível e o diferencia do real, do que damos nome e vivemos no presente, daquilo que pode sempre ser a mudança, o futuro no e do presente. Em Bergson o possível é sempre porvir e não se localiza fora dos meandros do mundo e das sociedades, mas é sua matéria por excelência:

“[…] O possível é portanto a miragem do presente no passado; e, como sabemos que o porvir acabará por ser presente, como o efeito de miragem continua sem descanso a se produzir, dizemo-nos que, em nosso presente atual, que será o passado de amanhã, a imagem de amanhã já está contida ainda que não a consigamos apreender. […]” (BERGSON, p. 115)

Esse possível não é metafísico, não o encontramos na transcendência, mas é como se estivesse latente, implica-se na e a realidade, num movimento de adição à matéria presente, em que real e possível não coincidem em significado, mas de forma que o real só o é pela possibilidade, não o contrário, diz Bergson. Podemos agora nomear esse nosso “seio do problema”: o tempo. Daremos então um salto histórico para alcançarmos, ao final do texto, seu primeiro objetivo: ser uma resenha de um livro. Para isso estamos captando indícios de outros textos, assuntos descontínuos, claro, que não implicam numa única tradição de pensamento.

O salto? Nos encontramos então após Junho de 2013 e todo seu rescaldo político com interpretações das mais variadas para o estado de coisas do Brasil. Não concordamos aqui com as interpretações superficiais que localizam em Junho uma negatividade regressiva. Autores como Jessé de Souza e outros intelectuais insistem em apontar a negatividade daquele acontecimento, como se houvesse interrompido um ciclo progressivo de grandes conquistas sociais, humanas e políticas. Chegam a encontrar elementos de que Junho existiu por força imperialista, de que não passou somente da afirmação política de uma nova direita. Esse último sentido atribuído aos movimentos nos parecem meias-verdades, talvez não se trate de pensar 2013 como a essência da direita, mas observar como foi possível que a interrupção do tempo e espaço cotidianos pelo Acontecimento, pôde coincidir com uma afirmação da direita ainda mais violenta e destrutiva.

O demônio da democracia é por excelência do conflito representado pela instituição de outro tempo em meio ao consenso das oligarquias políticas. É a experiência que recoloca em cena o litígio entre povo e essa oligarquia. Não é à toa que à esquerda e à direita momentos como aquele, em que o povo se insurge e não cabe mais nas categorizações que os políticos e intelectuais da ordem os inserem, é interpretado como perigoso, como ameaça à própria democracia, como passeata dos que “não sabem bem o que querem”. É colocada em marcha as tentativas de reenquadrar os sujeitos para o estado de coisas anterior e surgem interpretações das mais variadas: como a manipulação midiática e a existência de um perigo.

Trata-se de nos perguntar de qual democracia falam os políticos. Nos parece que falam da gestão, afinal, do mundo, uma espécie de tecnocracia. É o governo em sua proeminência: controlar a população, criar dispositivos de controle e vigilância e fabricar de forma fictícia e contraditória um lugar em que todos cabem. Momentos como aquele podem ser entendidos como mudança da partilha do sensível, como nos aponta Jacques Rancière, pois modifica a forma como experimentamos o que nos é comum e o que nos exclui e separa. 2013 colocou em questionamento, por um curto momento, a repartição da cidade e do que é e não visível, dos problemas do transporte público a tomada das ruas durante semanas por trabalhadores, desempregados, estudantes e etc. Entre o governo e a população, há o que nos exclui e nos atravessa, cabe ao governo gerir essa partilha, entretanto existem momentos em que escapa de sua prática esse controle, são esses os momentos marcantes em nossa história e que modificam de forma abrupta a maneira de sentirmos e vivermos, em suma, a política, pois ela diz respeito ao tempo e ao espaço, ou seja, a nossa vida e ao sensível.

Não nos alonguemos demais na interpretação de Junho, mas o que desejamos deixar como questionamento é da ordem da perspectiva: o que em Junho modificou nossa partilha do sensível e de que forma a expressão política encontrou meios de solidificação numa nova direita, que ocupa ruas e praças, e forja novos estatutos de governo: controlar os corpos, inseri-los numa disciplina religiosa e de autocensura, recolocar a família como ponto fundamental da vida e dos desamparados e elevar a categoria de líder e político uma afirmação da destruição, como é o caso de Jair Bolsonaro? Não entenderemos esse processo enquanto nosso único ângulo for o da restauração, nesse caso, do ciclo lulo-petista, enquanto não vermos que naquele descontentamento uma energia foi captada pelas formas regressivas, sim, mas por ausência da esquerda, em seu sentido de projeto emancipatório e de afirmação da vida ativa. Estávamos preocupados em governar o sensível, em negociar e praticar o consenso. Possibilidades inúmeras se abriram naquele momento, a escolha de uma única é parte do poder, que freia a potência de imaginar outros mundos. Bolsonaro é hoje resultado de uma mudança de nossa partilha que se firmou numa mudança de como o poder é praticado no país: a possibilidade da afirmação da vida foi ao encontro de sua negação.

Ainda falamos do tempo? Na sequência de Junho de 2013 o filósofo Paulo Arantes publicou um livro intitulado “O novo tempo do mundo”. Paulo se preocupa, dentre ensaios primorosos, em encontrar indícios de uma mudança da ordem da filosofia da história, de como experimentamos o tempo, que não é mais da espera pela grande modificação, mas da espera da destruição, do fim. São as expectativas decrescentes e essa nova maneira de se experimentar o tempo engendra suas manifestações políticas do governo mas também dos movimentos da sociedade, da violência de Estado nas cidades até as tentativas de insurgências, como foi o caso de 2013, nossa última grande movimentação, que não se cansa de ser apedrejada por intelectuais da restauração. Infelizmente o livro não circulou como poderia ter circulado nos debates sobre o mundo atual, talvez existam razões para isso, que vão desde as explicações rápidas e superficiais fornecidas por intelectuais homologados da imprensa, das redes sociais e dos best-sellers da ciência política atual até a decadência que se encontram as figuras dos intelectuais públicos no país, principalmente na esquerda, ainda agarrada na retomada de um ciclo ou projeto que ela mesma não foi capaz de compreender.

Foi numa entrevista sobre a emergência dos noveaux philosophes na França após 1968 que Deleuze aponta neles o surgimento dos intelectuais midiáticos, em que teorias nulas e combinações excêntricas de conceitos se apresentam em figuras do marketing intelectual. Não nos espanta, sem fazer analogias diretas e estranhas, que 2014 tenha sido o ano em que as redes sociais, as televisões e dispositivos como YouTube deram espaço para pensadores que sempre tinham algo a dizer, numa espécie de auto-ajuda, sobre o mundo que se desmorona: Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal, Luis Felipe Pondé, Olavo de Carvalho, apesar de sua diferença para com os anteriores, entre outros. A nova experiência de mundo aberta pelo Acontecimento do ano anterior, engendrou nossos novos filósofos, que pouco tinham a dizer, a não ser nos apresentar explicações truncadas e fáceis para o estado de coisas:

“[…] Os entrelaços de força entre jornalistas e intelectuais mudaram completamente. Tudo começou com a tevê e os números de adestramento por que passaram os intelectuais condescendentes na mão dos entrevistadores. O jornal não precisa mais do livro. Não estou dizendo que esse reviramento, essa domesticação do intelectual, essa jornalização seja uma catástrofe. É mais ou menos assim: no mesmo momento em que a escrita e o pensamento tendiam a abandonar a função-autor, no momento em que as criações já não passavam pela função-autor, esta foi recuperada pela rádio, pela tevê e pelo jornalismo. Os jornalistas devinham os novos autores, e os escritores que ainda ansiavam por serem autores deviam passar pelos jornalistas ou devirem seus próprios jornalistas. Uma função caída num certo descrédito encontrava uma modernidade e um novo conformismo, ao mudar de lugar e de objeto. É isso que tornou possível as empresas de marketing intelectual. Será que existem outros usos atuais para a tevê, a rádio ou jornal? Evidentemente, mas essa não é mais a questão dos novos filósofos. […]” (DELEUZE, p. 143-151)

Chegamos, nessa espécie de descontinuidade das pegadas interpretativas do mundo e do tempo, a Franco Berardi. Franco é um filósofo italiano, vindo dos movimentos da década de 60 de seu país, com forte tradição autonomista e do operaísmo italiano. Há pouco meses seu primeiro livro traduzido no Brasil foi publicado: “Depois do futuro”. Trata-se de um ensaio muito interessante a respeito da modificação do estatuto do futuro e do tempo assumidos pelo mundo após as derrotas de projetos modernos, de grande esperar e expectativas. Franco inicia seu livro falando dos futuristas, da velocidade e aceleração do mundo, fala dos poetas modernistas, das mutações psíquicas relacionadas à tecnologia, a competição no neoliberalismo, da ausência da solidariedade, e como ela é necessária para a subjetivação política, o que parece uma exigência absurda no mundo em que a solidariedade perdeu sua força junto a ideia da sociedade, como queria Margareth Thatcher:

“[…] And, you know, there’s no such thing as society. There are individual men and women and there are families. And no government can do anything except through people, and people must look after themselves first. It is our duty to look after ourselves and then, also, to look after our neighbours.” (E, você sabe, não existe sociedade. Existem homens e mulheres individuais e há famílias. E nenhum governo pode fazer nada, exceto através das pessoas, e as pessoas devem cuidar de si mesmas primeiro. É nosso dever cuidar de nós mesmos e depois cuidar também de nossos vizinhos.) (THE GUARDIAN, in an interview in Women’s Own in 1987)

Mas é em seu livro mais recente: Futurability: The age of impotence and the horizon of possibility (“Futurabilidade: A era da impotência e o horizonte de possibilidade”), ainda sem tradução no Brasil, que Franco nos apresenta de forma mais clara seu pensamento. Trata-se de compreender o significado da potência, entendida como energia do sujeito que abre espaço para as possibilidades, que são sempre várias, segundo ele, seguindo as pistas de Bergson. Dividido em três partes: Potency, Power e Possibility, ele tenta compreender como Trump e Orbán se tornaram figuras capazes de nos conduzir à destruição do mundo, e por quais motivos recebem apoio popular. Termino aqui deixando a interpretação dele acerca da vitória de Trump, ligada ao desamparo das classes trabalhadoras, desempregadas e empobrecidas, que se viram engendradas pelo poder, isto é, pela colocação de uma possibilidade única, na eleição de Donald Trump. Seu entendimento pode nos servir e alertar para a interpretação que a esquerda tradicional tem dado a eleição de Bolsonaro, seccionando a sociedade brasileira em burros e esclarecidos, quando na verdade existiram razões objetivas e imediatas, e que precisamos compreender, para que desempregados e empobrecidos o elegessem. Se continuarmos a cair nessas armadilhas interpretativas e a nos distanciar de boa parte do país, sem tentar construir alternativas e projetos de emancipação comuns, não tardaremos em nos surpreender novamente com processos mais violentos e dessocializantes. A questão é: por que após um ciclo de governos progressistas a direita encontrou sua proeminência num candidato como Jair Bolsonaro e quais as razões para a sociedade depositar como alternativa essa figura? Talvez a esquerda restauradora tenha medo e receio de se tomar esse questionamento à fundo, e encontrar nela mesma as razões que nos trouxeram a isto, como comenta o mesmo Paulo Arantes em entrevista recente, ou os estudos da antropóloga Rosana Pinheiro Machado, que em suas etnografias pelas periferias de Porto Alegre vê na inserção pelo mercado e o fechamento deste às classes populares razões que aproximam muito mais o petismo do bolsonarismo, o contrário da ideia de “polarização” amplamente falada durante a última eleição, mas fiquemos com Franco Berardi:

“Depois do Tratado de Versalhes, a sociedade alemã foi rapidamente empobrecida e sujeitada a uma longa humilhação. Nessa situação, Hitler encontrou a oportunidade e sua jogada vitoriosa consistiu em instigar os alemães a se identificarem como uma raça superior e não como uma classe de trabalhadores explorados. Essa reivindicação funcionou e está funcionando novamente, mas agora numa escala muito maior: Donald Trump e Vladimir Putin, Jaroslaw Kaczynski e Viktor Orbán, Marine Le Pen e Boris Johnson, e muitos outros pequenos políticos medíocres que sentem a oportunidade de ganharem poder incorporando a vontade de poder da raça branca em verdadeiro declínio. A inflexão racial está ganhando força, tanto que Boris Johnson chamou Obama de ‘queniano’, mas também pelo medo racial que motiva as políticas anti-imigração da União Europeia. Por mais assustadora que seja, a tendência que eu detecto no presente é o surgimento de uma frente heterogênea de forças anti-globalistas, é o ressurgimento do nacional-socialismo e o espalhamento no mundo da reação contra o declínio da raça branca sentida como um efeito da globalização. Como a referência social da frente reacionária que está ganhando em boa parte do mundo é a defesa da classe trabalhadora branca, eu prefiro falar em national-workerism. Mario Tronti denominou os trabalhadores industriais que lutavam por interesses materiais e não por ideais de ‘classe pagã rude’. Por interesses materiais, as classes rudes do trabalhadores industriais estão agora se tornando nacionalistas e racistas, como aconteceu em 1933. Trump venceu porque representa uma arma nas mãos dos trabalhadores empobrecidos, e porque a esquerda os entregou nas mãos do mercado financeiro, mas nesse caso, sem armas. Infelizmente, essa arma se voltará contra os mesmo trabalhadores, e os conduzirá em direção a uma guerra racial. Esta frente antiglobalista e racista Euro-Americana é certamente fruto de 30 anos de governança neoliberal. Mas até ontem, na Europa e nos Estados Unidos, os conservadores eram globalistas e neoliberais. Agora não mais. A iminente guerra já está sendo definida como uma luta em três diferentes frentes. A primeira frente é o poder neoliberal que está estreitando seu controle sobre o governo e seguindo a agenda da austeridade e privatização. A segunda frente é o anti-globalismo Trumpista baseado no ressentimento branco e da classe trabalhadora desesperada. A terceira frente, ocorrendo em grande parte dos bastidores, é o crescimento do necro-impire do terrorismo, em suas diferentes formas de intolerância religiosa, da raiva nacionalista e da estratégia econômica, é isto o que eu denomino como necro-capital. Penso que a Guerra ao Terror, cujo principal alvo é o jihadismo, cedo ou tarde cederá espaço para a guerra entre o capitalismo globalista e o antiglobalismo fascista que toma conta do mundo (que pode ser chamado de ‘Putin-Trumpismo’).” (BERARDI, p.40-41)

Bibliografia

BERARDI, Franco. Futurability: The age of impotence and the horizon of possibility. New York: Verso Books, 2019.

BERGSON, Henri. O possível e o real. Em: O Pensamento e o Movente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DELEUZE, Gilles; LAPOUJADE, David (org.). Dois Regimes de Loucos: Textos e Entrevistas (1975–1995). São Paulo: Editora 34, 2016.

THE GUARDIAN: Margaret Thatcher: a life in quotes, 2013.

<<https://www.theguardian.com/politics/2013/apr/08/margaret-thatcher-quotes>>

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