Argentina: assim desaba o neoliberalismo

Ações das empresas perderam 80% do valor. Todos os setores econômicos estão destroçados — inclusive petroleiras e bancos. Crise social é dramática. Resta apenas uma dúvida: haverá bloqueio das contas bancárias, como em 2001?

Por Alfredo Zaiat, no Página 12 | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

São 97 as grandes empresas argentinas que lançam suas ações na bolsa de valores de Buenos Aires. Os preços dessas ações definem o valor de mercado de cada uma delas. Em janeiro de 2018 o montante desses valores alcançava 116 bilhões de dólares. O índice MerVal atingia então o recorde de 1.800 pontos. O dia seguinte ao das eleições “primarias, abertas, simultâneas e obrigatórias” (PASO), realizadas em 11 de agosto, foi quando se descobriu o tamanho da bolha especulativa criada pelo governo do presidente Mauricio Macri através da emissão descontrolada de títulos da dívida do governo e pela taxa de juros mais alta do planeta; mecanismo, ademais, alavancado pela lavagem de capitais e pela reclassificação do mercado local de fronteiriço para emergente. Espetou-se o balão amarelo e as cotações vieram abaixo. O capital em ações derreteu do pico de 116 bilhões para magros 24 bilhões de dólares.

Esse é um dos índices possíveis para medir o tamanho da catástrofe econômica do ciclo político macrista: o registro pelos investidores locais e estrangeiros da destruição de capital da ordem de 92 bilhões de dólares. A dimensão do estrago não deixa dúvidas: as empresas locais que cotizavam em bolsa perderam 80% do seu valor.

As quicadas das cotações nos últimos dias não mudam as perdas no mercado nem a aversão que neste momento os grandes investidores nutrem diante do mercado argentino. A corrida contra seus ativos segue adiante.

A economia macrista não poupou da destruição nenhum nicho. Ela atingiu igualmente as grandes empresas no país, como os bancos Galicia, BBVA, Macro e Supervielle, as empresas de energia Pampa, Edenor e Central Puerto, a petroleira YPF, a empresa de telecomunicações Telecom, a Aluar, única processadora de alumínio primário do país, a agroindustrial Cresud e a operadora de TV a cabo Cablevisión, entre outras.

O preço das empresas argentinas está na bacia das almas para tentar os grandes compradores internacionais. Resta ver se isso vai produzir mais um desembarque desses capitais, tal como ocorreu nos anos 90, depois da hiperinflação, e no começo do presente século, depois do “corralito”, da hiperdesvalorização do peso e da moratória da dívida. Por então, as vendas ou transferências de controle foram feitas com os valores das empresas marcadamente depreciados.

55 e 55

O Instituto Argentino de Mercado de Capitais elabora um relatório diário da capitalização da bolsa, tal como ela se expressa em pesos. Ao cotejar esses dados com o câmbio de fechamento diário se obtém o valor em dólares das empresas locais. A sequência do ritmo de evaporação desse capital é notável:

• Em janeiro de 2018 ele montava os já ditos 116 bilhões de dólares.

• Em 9 de agosto, a sexta-feira anterior às eleições PASO, era de 52,5 bilhões de dólares.

• Em 12 de agosto, a segunda-feira depois da votação, caiu para 35,4 bilhões de dólares.

• No último dia do mês de agosto, tinha caído para 23,7 bilhões de dólares, uma queda de 55% desde a sexta, 9 de agosto.

Esses números são bastante eloquentes para desmontar uma outra estratégia confusionista do discurso do governo sobre as PASO terem sido o disparador das turbulências no mercado financeiro. Como se pode observar, desde o pico das cotações acionárias até um dia antes das eleições primárias, a capitalização em bolsa também tinha baixado 55%. Esse é o período em que a economia macrista ficou sem financiamento voluntário externo, precipitando uma forte corrida cambiária e contra os ativos argentinos. O governo pôde estender a agonia lançando mão do imenso empréstimo concedido pelo Fundo Monetário Internacional.

A fuga de capitais já estava lançada, e esses dólares do FMI teriam por objetivo apenas garantir que o trânsito até as eleições de outubro deste ano não fosse traumático. No entanto, praticamente esgotados esses recursos, e com o cenário político-eleitoral emergente das PASO atiçando os grandes fundos de investimento ― sobretudo depois de terem sido enganados com as sondagens tendenciosas do governo ―, a fuga não fez outra coisa que se acelerar.

Um fator não mencionado, ademais, é que a queda foi mais violenta porque, nos meses prévios às PASO, o Banco Central tentou controlar a flutuação cambiária subindo a taxa de juros, estimulando o carry trade [N. do T.: investimento especulativo e extremamente volátil que consiste em tomar empréstimos a juros baratos em economias de moeda estável e aplicar o dinheiro em mercados de juros altos; no entanto, se a moeda local desse segundo mercado se desvaloriza, a manobra não compensa, podendo até produzir grandes perdas; assim esses capitais fogem ao menor sinal de desvalorização cambiária. Essa manobra, segundo analistas, é o que caracteriza boa parte dos 28 bilhões de dólares que ingressaram na economia brasileira nos últimos 12 meses]. Ao mesmo tempo, o vice-diretor do Banco Central, Gustavo Cañonero (ex Deutsche Bank e ex sócio argentino do fundo Templeton) e o secretário de Economia, Santiago Bausili (ex Deutsche Bank e JP Morgan), insistiram em estimular os fundos especulativos de Wall Street para que montassem nessa bicicleta, garantindo-lhes uma porta de escape com contratos em dólar futuro (que o Banco Central havia produzido em grande quantidade). Essa missão tinha se concretizado em fins de junho passado, com o aval do então ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne. Assim, eles tentaram alimentar de dólares o pulmão artificial da terapia intensiva da economia macrista, inflando ainda mais a bolha especulativa que, quando estourou, se mostrou ainda mais furiosa.

A segunda fase da derrapagem da bolsa começou quando o governo Macri levou uma surra das urnas e, com um presidente ainda mal desperto e avesso à realidade dos fatos, decide não interferir, e isso deixou o mercado de câmbio inteiramente descontrolado. O que a seguir veio abaixo ― e por consequência imediata ― foram as cotações das ações e títulos públicos.

Com a reentrada em cena da hiperdesvalorização da moeda, agora sob a égide de Macri, tornou-se visível para qualquer um que o modelo de valorização financeira inaugurado em dezembro de 2015 havia se esgotado. A corrida que tinha começado no final do primeiro trimestre do ano passado, quando Wall Street fechou a torneira de dólares para a economia argentina, precipitou-se então a uma velocidade fulminante. O saldo final foi de que em menos de um mês, a capitalização em dólares das ações recuou os outros 55% da conta.

A diferença entre um período e outro da fuga de ativos mercantis está apenas na velocidade, mas o saldo é o mesmo: em cada etapa, o valor de mercado das empresas argentinas caiu 55% em dólares, frente a cada um dos pontos de partida (janeiro de 2018, em um caso, e 9 de agosto de 2019, em outro). No total, a queda acumulada em 20 meses de crise é de 80%.

Recorde

A agência Bloomberg de notícias financeiras publicou um ranking das quedas mais violentas de bolsas no mundo. O registro cobre 94 bolsas desde 1950. Dos primeiros cinco lugares, a bolsa argentina ocupa dois. A quebra mais impressionante foi a do Sri Lanka, em 1989, quando começou uma guerra civil nesse país asiático: o recuo foi de 61,7%.

Nos dois lugares seguintes se instalam os desabamentos do índice MerVal de ações principais. O de 12 de agosto passado foi o segundo maior desse ranking, com uma queda de 48%, seguido pelo colapso de 2002, de 45,2%. Em quarto lugar vem a bolsa do Cazaquistão, que também em 2002 contabilizou uma soçobra de 38,6% em um dia. Fechando a lista vem a bolsa da Mongólia, que em 2004 recuou 35,4% num mesmo dia.

Fazer parte desse ranking não deixa em muito boa posição os protagonistas do mercado local, nem seus reguladores, que permitiram e facilitaram o inchaço de uma fenomenal bolha especulativa. O atual estouro, a partir da euforia inicial, do pânico que lhe seguiu e, finalmente, o crack, guarda as mesmas características do que ocorreu na Bolsa de Buenos Aires em outros ciclos neoliberais.

A era de José Alfredo Martínez de Hoz [ministro ultraliberal da Economia, alçado ao posto pelo golpe militar de 1976] teve um começo festivo para a bolsa, com altas impressionantes nas cotações. De 1976 a 1980, a bolsa passou pelos melhores quatro anos de sua historia, com centenas de empresas lançando ações e com o índice geral em dólares subindo de 342 para 11.252 pontos. Vale lembrar, no entanto, a fabulosa defasagem cambial que, com elevadas altas de preço, inflou artificialmente o valor das empresas. Nesses mencionados quatro anos, alguns valores iniciais chegaram a ser incrementados em 31 vezes. As quebras estrepitosas do Banco de los Andes e do Banco de Intercambio Regional, com o posterior rompimento da tabela cambiária, provocaram a quebra da bolsa [e a crise econômica de 1981, que também deixou uma gigantesca dívida externa, assumida por meios fraudulentos]. De 1980 a 1985 a bolsa recuou ao índice de 536 pontos em dólares, ou seja, uma queda de 95% a partir do pico da ditadura militar.

Dois anos

Com dois anos de governo, Fernando de la Rúa renunciou por conta do extravasamento de um modelo social e financeiramente insustentável. Não teve auxílio internacional que o permitisse continuar na Casa Rosada.

Com dois anos de mandato, Mauricio Macri também esteve na beira do precipício do default, mas a mão salvadora do Fundo Monetário Internacional, em uma operação ordenada pelos Estados Unidos de Donald Trump, o resgatou de um final como o de De la Rúa.

Esses dólares que permitiram evitar a quebra fizeram Macri se iludir com a ideia de que seria um candidato competitivo para a reeleição, manifestando nisso a incapacidade de registrar os sinais de deterioração generalizada que vinham se acumulando na frente financeira, na econômica e sociolaboral e na política.

Macri teria terminado como De la Rúa se não aparecessem os dólares do FMI. Só não vai acontecer agora a mesma coisa, em termos institucionais, apenas pela proximidade da eleição presidencial, e porque a oposição triunfante está manobrando a situação com extrema prudência. Mas o desastre econômico que deixará, sim, será igual ou pior.

O colapso do mundo financeiro local, com a destruição recorde de capital “fictício”, tem sua origem no frenesi especulativo iniciado pelo governo Macri com o novo ciclo de endividamento, o mais vertiginoso da historia argentina, e com a fabulosa pedalada do carry trade. Essa é a causa remota para entender o crack financeiro. A causa imediata foi o resultado eleitoral das PASO, que funcionou como um banho de realidade sobre as consequências de um modelo de valorização financeira que já tinha implodido.

Devastação

O estouro da bolha especulativa macrista foi devastador para o capital financeiro. Ele provocou uma perda monumental na carteira de investidores públicos e privados, ao mesmo tempo que castigou duramente os instrumentos financeiros do mercado. Nos detalhes, a coisa é estonteante:

• Como mencionado, a capitalização em bolsa despencou 80%. A perda de valor das empresas locais líderes foi de 92 bilhões de dólares.

• O patrimônio dos Fundos de Investimento encolheu de perto de 250 para 155 bilhões em pesos entre os dias 27 e 30 de agosto, com alguns deles encolhendo até 62%.

• A dívida pública de curto prazo, em pesos e em dólares, recebeu um calote. O deslizamento das paridades de todos os títulos provocou perdas imensas para bancos, investidores e fundos internacionais.

• O novo “corralito” das Letes [Letras do Tesouro] gerou uma crise de liquidez em empresas e províncias [Estados], que perderam acesso a recursos previstos para o pagamento de salários e para as contas dos fornecedores.

• O risco país disparou para acima dos 2.500 pontos, o que significa que os grandes operadores de mercado projetam que o default [descumprimento de obrigações de dívida] será ainda mais pronunciado.

• A situação da dívida em dólares das províncias [Estados] é crítica, uma vez que a hiperdesvalorização tem por resultado a necessidade de um incremento substancial de recursos em pesos para fazer frente ao pagamento de juros e capital (o caminho do refinanciamento, no momento, está fechado). Um caso crítico é o da administração portenha de María Eugenia Vidal [do partido de Macri], que contabilizava uma dívida de 12 bilhões de dólares no primeiro trimestre deste ano.

• O controle de câmbio que precisou ser imposto deprimiu a atividade do mercado de futuros Rofex [mercado futuro de commodities de Rosario, o maior da Argentina].

• Um quarto dos depósitos em dólares saiu do sistema bancário. De 9 de agosto a 4 de setembro, por exemplo, debitaram-se 8,33 bilhões. E não há qualquer sinal no momento de que essa sangria vá se deter.

• Os depósitos em pesos, por sua vez, estão sendo liquidados pela desvalorização e pelo choque inflacionário. Os débitos em prazos fixos em pesos do setor privado somaram 82,22 bilhões ao baixar 6,8% nesse mesmo período.

• As reservas do Banco Central continuam caindo para níveis críticos, com escassas possibilidades de receber o esperado anabolizante do crédito de cerca de 5,4 bilhões de dólares do FMI. O estoque bruto na sexta-feira, 06 de setembro, era de 50,55 bilhões de dólares. Havia baixado 15,76 bilhões, ou 23,8% do total contabilizado em 9 de agosto.

Imperícia

Com um presidente grogue com a surra que tomou nas PASO, desferindo socos sem acertar nenhum, a administração da crise se torna mais complexa. Melhor dizendo, ela se acelera e se agudiza. Na segunda-feira, 12 de agosto, teve inicio uma sequência de medidas desesperadas. A primeira foi não intervir no mercado de câmbio na tentativa de aplacar os saltos da desvalorização cambial. Foi uma decisão política que Macri expôs na conferencia de imprensa dessa tarde, acompanhado de seu companheiro de chapa, Miguel Ángel Pichetto. O slogan de campanha que então lançou foi o de que a bagunça desse dia nos mercados foi culpa do triunfo eleitoral da opositora Frente de Todos.

Provocado outro turno de hiperdesvalorização, a corrida contra o peso se intensificou e, como consequência, o Banco Central começou a perder reservas em grande quantidade. Com o FMI pivoteando-se para cada vez mais longe, a opção que se fez para ter mais dólares no Banco Central foi descumprir os compromissos de dívida em pesos e em dólares no curto prazo. Essa medida, que dinamitou os fundos de investimento que não foram capazes de dar uma resposta imediata aos resgates, instalou o pânico nos mercados e a corrida cambiária se mudou em direção aos bancos. Só então é que se implementou o controle do câmbio.

Para driblar tamanho caos no sistema, a sequência deveria ter sido outra. Primeiro era preciso instalar o controle do câmbio, para zelar pelas reservas, garantir o pagamento das dívidas e proteger os depósitos dos poupadores no sistema bancário. Desse modo, se teria evitado a corrida fulminante em direção aos depósitos em dólares.

Macri, aconselhado pelo ex-ministro de finanças e ex-presidente do Banco Central, Luis Caputo, resistiu à imposição de restrições cambiárias e ordenou o default. Essa foi outra contribuição mais de Caputo para o desastre financeiro do macrismo. O caos que provocou essa decisão levou Macri a finalmente impor limites para a compra de dólares, mas de uma forma que não impede a sangria das reservas, porque garante o canal de fuga com a possibilidade de compra de até 10 mil dólares mensais.

Com tal nível de imperícia técnica, dogmatismo político e, em especial, de vontade de continuar facilitando a fuga de capitais, Macri acelerou uma corrida que já tem dinâmica própria e um desenlace dramático.

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