Esquerda e direita, conceitos superados? (final)

Atuação subterrânea foi decisiva para a vitória de Bolsonaro, mas é inegável que a “nova direita” colocou a política “dentro de casa”, unindo “atualizados” e “obsoletos”. Sem projeto de futuro, esquerda assiste inerte

LEIA AS PARTES ANTERIORES DO ENSAIO:
Esquerda e direita, conceitos superados? (1)
O projeto da transformação social está sendo pressionado pelo “atualismo” — a noção de que todas as mudanças se fazem dentro do sistema e o mundo se divide em “atualizados” e “obsoletos”. Por que a esquerda está perdendo este debate?
Esquerda e direita, conceitos superados? (2)
Sob o “atualismo”, acaba a disputa de projetos e sociedade divide-se entre “atualizados” e “obsoletos”. Um conjunto de entrevistas ajuda a compreender por que a direita está se saindo melhor, neste novo cenário

Por Mateus H. F. Pereira e Valdei L. Araujo | Imagem: Winslow Homer, Direita e Esquerda (1909)

Palavras finais e provisórias

Em janeiro, entre uma atualização e outra, via “zap”, recebemos, de uma amiga, que conversou com um bolsonarista, em Macapá, a foto a seguir. A imagem talvez seja emblemática das atuais mudanças no mundo do trabalho e sintetiza o perfil de vários eleitores de Bolsonaro com os quais conversamos:

Foi ela, também, quem nos enviou uma foto feita em Manaus, onde a eleição de Bolsonaro era comemorada em dezenas de outdoors:

No fim do mês, em grupos bolsonaristas e evangélicos, circulava uma mensagem de “zap”, que defendia Flávio Bolsonaro do “escândalo Queiroz”. Como podemos observar, nesses grupos a corrente também é forte. E, ainda que o lema não seja explícito, a meta é “ninguém solta a mão de ninguém”.

De fato, é inegável que a governamentalidade algorítmica, que tratamos no livro e também aqui, foi e é fundamental para compreender a eleição de Bolsonaro. Mas podemos ver, seja nas reportagens aqui apresentadas, da revista da Gol, como nas conversas com as mulheres e homens de direita, que um sólido trabalho de base foi feito. A esse respeito, muito pouco se fala, por exemplo, da atuante presença de Bolsonaro em diversas feiras do agronegócio e em festas do peão boiadeiro, pelo Brasil, desde 2013, ou do trabalho de porta em porta realizado por diversos núcleos da direita que reforça a ideia de que a política deve ser decidida dentro de casa, reforçando e atualizando o sentido conservador da família – também ativo nos grupos de whatsapp. Outro grande desafio para a esquerda, que sempre entendeu a rua como o espaço privilegiado da política.

É sintomático que nas vozes da esquerda sobressaiam a necessidade de saírem das bolhas. A derrota é um fato. Mas, é interessante destacar que nossos entrevistados de direita não tem essa preocupação em “furar a bolha”. Talvez, por acharem que o campo comum de atualizados e obsoletos de direita conseguiu, no momento, virar o jogo. A questão agora parece ser consolidar a hegemonia e seus projetos de futuro. A esquerda, por sua vez, não tem um projeto de futuro claro. A maioria está perdida e, de certa forma, parecem esperar que essa nova liderança popular caia sozinha. Ou, que a própria direita faça o serviço quando for a hora? Ao mesmo tempo, é angustiante perceber que os obsoletos de esquerda possam sentar mais facilmente à mesa com os obsoletos de direita do que com os atualizados de esquerda.

Esse aspecto nos leva a pensar na justificativa do voto nulo de um obsoleto de esquerda. Ele é professor da educação básica, negro e tem 29 anos. Achava o Bolsonaro o fim do mundo: “Onde já se viu o cara achar que pobre não tem que ter curso superior. Que alegria é ter um primeiro filho na Universidade”. Ele foi o primeiro da família. Destaca que violência não leva a lugar nenhum. “Agora, não quis votar em Haddad, porque achei a Manuela feminista demais. Isso não ia dar certo. Tem que pensar no vice. Se fosse a Gleise, presidenta do PT, de vice, eu teria ido com o Haddad. Mas não gostei da Manuela. Nunca nem tinha ouvido falar nela”. A pesquisa mostrou que as direitas são mais capazes de articular passado-presente-futuro e estratificá-lo entre seus aderentes do que a esquerda no contexto atual. E sabemos que muitos destes estratos temporais são passados-futuros ou, simplesmente, a destruição, seja da previdência, das conquistas dos direitos, dos povos tradicionais, das mulheres, das minorias, dos negros, dos vulneráveis, de vidas, do meio ambiente, dentre outros. A esquerda parece presa no passado-passado ou, simplesmente, na agenda da conservação e não da mudança. Muitas vezes parece navegar de forma improvisada nas ondas da atualização.

Ainda que a luta contra os canudos de plástico seja legitima, ela é um índice importante para percebemos os desafios desse campo, em especial, na necessária articulação e diálogo entre atualizados e obsoletos. Essa luta parece um surf de marola frente às ondas do atualismo em que a direita vem surfando. O discurso teórico da intersecionalidade de raça, gênero e classe precisa ser vivido na experiência e com urgência. Talvez possa ajudar na construção de articulações temporais complexas que coloquem na mesma mesa, em negociação, obsoletos e atualizados de esquerda.

Portanto, a partir dessa pequena-multiplicidade de vozes que trazemos nesse texto, reforçamos a nossa sensação e impressão teórica inicial de que a direita e extrema-direita atual, representada, por exemplo, nos episódios do Brexit, da eleição de Trump e no Brasil, pelo fenômeno Bolsonaro, foi mais bem-sucedida em promover alianças estratégicas entre obsoletos e atualizados. Ao unir (1) a agenda do liberalismo econômico com (2) as promessas de progresso automatizado do atualismo e (3) a nostalgia fantasiosa de uma restauração, a “nova direita” conseguiu estratificar o tempo histórico.

*Agradecimentos: Veronica Pereira, Guiomar de Grammont, Mauro Franco, Luiz Prazeres, Luana Melo, Fernando Nicolazzi e Marta Maia.

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Um comentario para "Esquerda e direita, conceitos superados? (final)"

  1. Joma Bastos disse:

    Mesclar a esquerda liberal com a extrema-esquerda, foi o que fez o Bolsonaro vencer as eleições.
    Existe no Brasil uma grande indefinição para o que significa e representa a esquerda politica.
    Não se deve embaralhar esquerda liberal com extrema-esquerda.
    Um eleitor de esquerda liberal, pode eventualmente votar na direita, mas muito dificilmente votará na extrema-esquerda.

    A esquerda liberal, não o PT e seus partidos associados de extrema-esquerda, na primeira volta não apresentou um candidato credível, nem um projeto aceitativo para o Brasil.
    O Bolsonaro, na 2ª volta das eleições, não era um candidato credível mas aceitável, porque o seu adversário Haddad era um comunista do PT.
    Assim, eleitores como eu, que são de esquerda liberal mas não são comunistas, votaram no Bolsonaro, não porque tivessem apreço inestimável por este politico ou pelas suas promessas eleitorais, mas sim, porque o seu adversário Haddad era comunista.
    A verdadeira força politica do Bolsonaro pode ser visualizada no partido de extrema-direita(?) PSL.

    A extrema-esquerda, conduzida pelo partido comunista PT, estava e está vencida pelo desastre em que a Dilma deixou o pais. E o Lula também foi um mau exemplo ao ser condenado por corrupção.
    O Comunismo não é politica que sirva e se queira para o Brasil, acima de tudo, porque tem na América Latina os paupérrimos exemplos de Venezuela, Cuba e no mundo o mau exemplo da Rússia de Putin. E a extrema-esquerda politica brasileira sempre apoiou claramente o comunismo desastroso de Cuba e Venezuela.

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