Colômbia: O “ano do caranguejo”

Após 12 meses de Iván Duque, vida dos colombianos piora: desemprego cresce e 400 lideranças sociais são assassinadas. Com baixa aprovação, presidente viaja para vender “terra das oportunidade” e dá palpites na Venezuela

Por Fernando Alexis Jiménez, em Rebelión | Tradução: Rôney Rodrigues

A poucos dias de cumprir seu primeiro ano na Presidência, o panorama para a celebração do dia 7 de agosto parece ofuscado e, no imaginário dos colombianos, o que estão vivendo é o “ano do caranguejo”. Em outras palavras, caminhando para trás. Essa é a percepção generalizada. A compartilham 67 de cada 100 colombianos.

Os escândalos de corrupção em várias instituições, entre elas o Exército; o aumento do número de assassinato de líderes sociais e defensores de direitos humanos (mais de 400 no último ano); uma inflação galopante apesar dos números serem maquiados pelo Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas (DANE) e o crescimento do desemprego, que hoje chega a 9,4%, são ingredientes para que milhares de pessoas fiquem desesperançadas. Por isso, ao ser inqueridos nas pesquisas, refletem sua percepção de que Duque perdeu o norte e que a Colômbia está de mal a pior.

Mas ele é hábil, ao menos ao gerir sua imagem pública. A custa do erário dos colombianos se converteu em um presidente-viajante. Vende a imagem de um paraíso no qual ele é o novo Messias. Realizou 19 viagens internacionais desde que assumiu o país. Há quem assegura, com grande razão, que ele supera o recorde de viagens do Papa Francisco.

Cresce a desaprovação

Poucos meses depois de assumir o poder, a empresa de pesquisas de opinião Invamer, revelou que somente 27,2% dos colombianos aprovavam Duque. O nível de pessimismo em relação ao futuro da Colômbia era de 73,8%. Isso foi em novembro de 2018.

Em março de 2019, o nível de aprovação não havia subido muito, ao menos não como ele e sua equipe de colaboradores esperavam. Estava em 32% e o nível de pessimismo frente ao estava por vir no país era de 81%. A auscultação cidadã foi realizada pela empresa Gallup Poll.

A de julho desse ano, parecia alentadora para seus seguidores: 37% dos colombianos aprovam de alguma forma a gestão de Iván Duque. Com a mão nas estatísticas, a pesquisa de opinião, realizada por Invamer, aponta que 68% dos colombianos consideram que as coisas estão indo por um mau caminho.

Sem o apoio majoritário do Congresso

Em um país polarizado como a Colômbia, também está o Congresso, que ainda conta com diversas nuances. É evidente que cada uma delas, a partir de sua bancada, defende seus próprios interesses. Em que pese essa realidade, que salta à vista, o mais provável é que em outubro se repita o ciclo: eleger as mesmas pessoas para as mesmas governações, prefeituras, assembleias de deputados e conselhos municipais. São as ironias de um país que permanece em estado letárgico pelos encantos promovidos pelos xamãs politiqueiros.  

As iniciativas que tramitam na Câmara dos Deputados e no Senado são irrelevantes em sua grande maioria. Muitas delas não têm impacto no país. Incluem condecorações a “homens ilustres” e exaltações à direita e à esquerda. O perigo que se corre, ao entrar no recinto dos congressistas, é que terminem te condecorando por qualquer coisa.

O país do bico

A taxa de desemprego em junho, de acordo com o DANE, é de 9,4%. Em termos locais, 2,3 milhões de colombianos vivem de fazer bicos. Fazem a “armadilha do centavo”, vendendo mercadorias nas ruas, rifas, doces nos ônibus do transporte urbano e intermunicipal e de mil e uma maneiras que possam inventar para não dormirem com fome.

Essa é a realidade que Iván Duque não mostra em suas viagens ao exterior, quando fala da Colômbia como a terra das oportunidades. O aumento da desocupação agrava o drama da pobreza. E nos campos o desestimulo subsiste, aprofundado pelas continuas pulverizações aéreas com glifosato, algo está provado que ter efeitos cancerígenos nas comunidades.

E a inconformidade persiste

Ficam, depois do dia 7 de agosto, mais três anos de governo. A inconformidade persiste. É expressada de muitas maneiras pelas organizações sociais. E não falta quem considera que restam ainda três anos de incertezas, com o “navio à deriva”, sem um norte claro para o qual dirigir-se.

Dias, semanas e meses em que prosseguirá propondo soluções aos problemas da Venezuela e encorajando o êxodo, ao mesmo tempo que os colombianos morrem de desnutrição em Chocó e La Guajira, e em comum ouvem os tiros que antecedem a morte de líderes sociais e defensores dos direitos humanos.

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