A Palestina esperançosa

Moustapha Barghouti analisa repercussões da revolta árabe nos territórios ocupados e aposta: “vivemos início de algo maior, cujo tempo chegou”

Por Moustapha Barghouti, no Counterpunch | Tradução: Antonio Martins | Foto: Filippo Minelli

Há, no vendaval egípcio, um fator que não deveria passar despercebido, e que se relaciona diretamente com a Palestina. A derrota dos árabes na guerra de 1958 e o escândalo das armas defeituosas, que expôs a corrupção da monarquia egípcia, jogaram papel destacado na revolução de 1952, dirigida por Nasser. Foi um levante contra a humilhação imposta ao exército egípcio. Mais tarde, nos anos 1980 e 1990 e na primeira década do novo século, a dignidade nacional de todas as nações árabes sofreu um turbilhão de ofensas, perpretadas principalmente por Israel.

O povo egípcio acostumou-se, de Saladino a Nasser, a ser a primeira linha da defesa nacional árabe. Assistiu em fúria, no período mais recente, às atrocidades cometidas contra os povos palestino e libanês. A invasão do Líbano em 1982. O cerco contra a Organização pela Libertação da Palestina, no mesmo ano. A supressão das Infitadas. As incursões brutais em territórios palestinos. O cerco contra Arafat. Os novos massacres no Líbano, em 2006.

O último capítulo da beligerância e brutalidade de Israel foi a invasão de Gaza – fraca, indefesa, já submetida a bloqueio econômico. O povo egípcio viu o crime desenrolar-se próximo a suas fronteiras, entre acusações lançadas a seu governo, suspeito de cumplicidade no bloqueio. Tais ultrajes ofendem a dignidade de cada cidadão árabe. Mas pesam ainda mais no Egito, cujo governo firmou com Israel um acordo inequânime, que impede o país de agir em solidariedade com os oprimidos.

A invasão, ocupação e destruição do Iraque, por uma coalizão liderada pelos EUA, ampliou o senso de fúria entre os árabes e alimentou sua sede de livrar-se da humilhação. Este fator não pode ficar de lado, em nenhuma tentativa de entender a força e amplitude da erupção egípcia. Muios perguntam-se como a onda revolucionária afetará a luta palestina. Cinco motivos me levam a crer que não estou praticando pensamento positivo, ao afirmar de antemão que haverá resultados muito favoráveis.

Primeiro, o mundo árabe não será mais um sujeito regional passivo, enquanto forças regionais e internacionais lutam em seu território. De agora em diante, os árabes serão agentes proativos nestes conflitos, o que é uma importante novidade.

Além disso, a vitória da revolução egípcia irá, se seguida pelo estabelecimento de um governo democrático e sólido, fortalecer o status e o papel do país. Isso ajudará a alterar o equilíbrio de poderes, em favor da causa palestina – já que um Egito democrático será, muito mais que mediador, um apoio à causa palestina.

Em terceiro lugar, a vitória da democracia no Egito, Tunísia e, esperamos, em outros países, abrirá portas à solidariedade popular com o povo palestino. As multidões que desejam há muito expressar seu apoio a nossa luta poderão fazê-lo de formas eficazes e potentes. Os árabes serão novamente capazes de liderar campanhas de boicote e em favor de sanções contra os crimes cometidos por Israel. Este é um elemento destacado da estratégia para alterar a correlação de forças.

Quarto: já é possível identificar os efeitos das vitórias egípcia e tunisiana no ânimo dos palestinos. Milhares de jovens estão emergindo dos pântanos da frustração, desespero e marginalização. Desejam de novo agir e participar. O efeito imediato pode ser visto nas manifestações de apoio à revolução egípcia, e na campanha pela encerrar as disputas internas entre correntes palestinas e exigir democracia e direitos civis. A médio e longo prazos, é possível esperar a retomada de movimento de resistência amplo, jovem e popular, contra a ocupação, o Muro e o apartheid.

Talvez a primeira Intifada tenha sido o prelúdio dos levantes árabes de hoje. Neste caso, as revoluções no Egito e Tunísia servem para chamar atenção dos palestinos para sua força latente e para o poder dos movimentos de resistência, quando envolvem multidões e não são sectários.

Por fim, os palestinos certamente acolhem a esperança de que uma das primeiras ações de um Egito democrático será acabar com o bloqueio contra a Faixa de Gaza e, com este gesto, neutralizar o estrangulamento criminoso que Israel tenta impor a 1,5 milhão de pessoas. Elas vivem no que só pode ser chamado de a maior prisão da História moderna.

Israel permanecerá como uma enorme fonte de problemas e preocupações, sejam quais forem os próximos desdobramentos. Sua arrogância, racismo e agressividade nunca foram questionados pelos regimes vizinhos – cuja fraqueza foi sempre explorada para dar asas aos sonhos israelenses de hegemonia política, militar e econômica na região. Chegou finalmente, no entanto, o momento em que o povo egípcio lembrou a Israel as palavras de Mahmoud Darwish, um poeta palestino imortal: “Nenhuma águia nasce de ovos de serpente”. Há limites para o poder, e eles são definidos pelas forças da história, civilização e experiência humana. A força da tirania deve retroceder, para que a era do desespero abra espaço à retomada da vontade humana.

Entramos numa nova era, em todos os sentidos da palavra. Alguns de nós tivemos a sorte de viver a revolução mundial dos jovens, nos anos 1960 e 70 e de testemunhar, agora, esta nova revolução jovem. Que alívio, após o longo intervalo de estagnação e decadência, quando os valores humanitários declinaram, o desespero e a frustração prevaleceram e muntos dos velhos revolucionários e pioneiros converteram-se em estátuas inúteis: os intelectuais reduzidos a sicofantas nas cortes reais e as consciências reduzidas a mercadorias a comprar e vender. Agora, uma era nova e promissora está surgindo no mundo árabe. Por enquanto, dá seus primeiros passos inseguros. Pode tropeçar, como criança. Mas crescerá e se tornará mais forte.

Nossa tarefa crucial agora é cuidar desta criança, dar-lhe as mãos e orientá-la rumo a um sistema democrático robusto e abrangente, em que a autoridade baseie-se na vontade do povo. Nada é mais importante que proteger este recém-nascido das tentativas que Israel ou o império lançarão para apequená-la, visando perpetuar a hegemonia israelense e os interesses que ela abriga. Nada é mais importante que manter portas abertas, para que os ventos de mudança ganhem velocidade, espalhem-se e quebrem novas barreiras.

É possível que as mudanças no mundo árabe marquem o início de algo maior, cujo tempo chegou. As contradições que minam sistema de hegemonia global em vigor, e a globalização do poder, só poderão ser resolvidas por transformações revolucionárias de alcance global. Neste mundo turbulento, nós – os palestinos – estamos do lado certo: o das lutas pela liberdade e dignidade humana. Nossos aliados são as forças árabes e internacionais do progresso e da mudança. Os que apostam no contrário não colherão nada, exceto desencanto.

Mustafa Barghouth (verbete em inglês, na Wikipedia) é um destacado ativista pela liberdade da Palestina. Em 2005, disputou a presidência da Autoridade Palestina e obteve 19,8% dos votos. Três anos antes, criou (com Edward Said) o movimento Iniciativa Nacional Palestina – que pretende ser uma alternativa tanto à burocratização do movimento Al Fatah quanto ao fundamentalismo islâmico do Hamas. É, atualmente, seu secretário-geral. Fundou, em 1979, a União Palestina dos Comitês de Ajuda Médica, uma entidade que atualmente preside.

O trecho traduzido por Outras Palavras é a parte final de um longo artigo, que pode ser lido, na íntegra (em inglês) aqui.

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Um comentario para "A Palestina esperançosa"

  1. Jane Angélica Gulielmitti disse:

    Agradeço ao “Outras Palavras” pelo importante artigo de Mustafa Barghouth, fundamental para amarrar os acontecimentos recentes nos países árabes dentro da óptica da luta dos povos por governos mais justos, por sistemas que, de fato, os representem. É hora de torcer também pelo povo palestino, pelos jovens palestinos, para que se libertem de tantos anos de opressão em seu próprio território!

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