QUANDO CHOVE NA CIDADE
Acende a vela, Mané
Publicado 23/01/2026 às 16:01 - Atualizado 23/01/2026 às 16:03

O vento sopra abafado, o joanete da vó dói, móveis estalam e o céu fecha-se, sisudo. Gotinhas cutucam janelas. Vai cair um toró, alguém sempre diz – e aí acende a luz. Trouxe guarda-chuva? Lá fora, dia como breu, árvores vergam pra lá e pra cá, prometendo arrastar fios e postes. O cachorro uiva c´a trovoada. Corre lá pra tirar a roupa do varal… Passa outro café… Pega o moletom… BRRR BUUUMMM. Nú, arrepiou até a espinha. E vem o pé d’água. É um carpir de tempo. Hmmm, só queria meu edredom. Uma sopa. Uma série na Netflix. Abrir um Concha y Toro… Já chove na cidade
Lá fora, canaletas, bueiros e gárgulas vomitam água suja, límpida, impotável. Ih, aquela rua já alagou. O mau tempo rege a sinfonia de buzinas. O ambulante se pergunta se o dia tá perdido. Sob os toldos, é se espremer ou molhar. O carroceiro corre pra baixo do viaduto. A marquise tá disputadíssima. E o preço das capas de chuva, inflacionado, 2 por 30, quem vai querer…
Na plataforma abarrotada, o trem tarda, demora, será que num vem, meu deus, quando vou chegar em casa… O uber sente-se 5 estrelas. É pedido que não acaba mais na pizzaria. O motoboy encapa-se pro asfalto veludoso; benze-se pra não ir parar na Santa Casa com o corpo estropiado. E o Samu passa, sirene ligada, e dá um friozinho… na barriga.
Chove na cidade.
E quando chove na cidade o vento destelha lajes. O cimento fresco do pedreiro vira sopa cinzenta. Eita, a energia se foi de novo. . Quanto pernilongo! E logo o córrego transborda, vira riacho, engole ruas, entra sem licença no barraco. Pega o balde, o rodo, bota o pano na porta, meu deus não deixe que a água leve tudo que a gente conquistou com tanto suor. Nanã, bote a mão na ribanceira, pra que tudo não acabe em pedra, barro e escombro.
O sol volta. A Marginal cospe o lixo de volta pro córrego. A cidade engole o susto e finge que secou. Uns filosofam se é melhor calor ou friozinho. Outros, ensopados, só querem banho e cama. O Brasil Urgente sai pra contabilizar desgraças, como a senhora se sente?… E a senhora, desespero só, responde que é difícil, muito difícil, moço…
Não há tanta poesia quando chove na cidade
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