Pensavam, então, que esqueceríamos?

Um professor corre por uma rampa, tentando impedir a invasão da universidade. Os mortos atirados ao infinito do mar, no Brasil e Argentina. Como foi tolo o presidente, ao propor que celebrássemos a infâmia

Por Katya Braghini

Conta-se que Rui Barbosa, prócere da intelectualidade, passou a ordem para dar fim aos documentos brasileiros sobre a escravidão, por vergonha. Pediu para que fossem incinerados. Vergonha de pensar que o Brasil, almejando alcançar a civilização, pouco tempo antes, ainda mantinha a escravidão. Queimar documentos, esquecer o que somos e o que fizemos é uma opção? Segundo consta, era dele a boa vontade em dar fim a uma memória, pensando que o passado vergonhoso não nos valia, como brasileiros. Diante das condições históricas daquele tempo, tal problema é um questionamento sobre os significados de cultura, sobre hierarquia de documentos, sobre o sentido da história etc.


Mas e quando nos vemos diante da possibilidade de comemorar algo vergonhoso? A possibilidade de “celebrar” a última ditadura em nosso país, não é apenas uma clara evidência da falta de consciência histórica em nós mesmos, mas diz respeito a nossa inabilidade em lidar com os conhecimentos históricos armazenados, no sentido de distribuí-los. Seja por meio da difusão popularizada como conteúdo escolar, formação de professores ou roda de conversa, temos que fazer circular essa produção intelectual, acadêmica, variada e boa, de uma história construída pelos fatos.


E quando digo “em nós mesmos” é pensando que, diante de todo conhecimento acadêmico, ainda faltou o trabalho de manutenção e acolhimento social sobre o que é ser uma democracia. Há algo de má cidadania circulando em torno de todos nós que permitiu que o presidente da República desse ordem para celebração de um período vil de nossa história.


E, estando eu e alguns de meus leitores na contramão dessa resolução, sinto que é necessário atuar, porque a democracia é uma prática e, como expressão de relações sociais que exercem uma ética republicana, é inconcebível não pensar a revolta frente à celebração do autoritarismo.

Para este texto me amparo também em casos da Argentina, nossos vizinhos, que também percebem no ar um pedido para que haja uma refação da história do país em relação a sua própria ditadura.

A memória no plano interior

Sou filha típica daquilo que um dia foi chamado pela Legião Urbana de “Geração Coca-Cola”. O termo refere-se a uma geração de jovens que são filhos da ditadura civil-militar brasileira. A jovem, que nascida em uma casa de classe média empobrecida, que aprendeu a língua inglesa sem saber o significado das palavras, é testemunha de si mesma. Digo sobre um tipo de gente que, não tendo uma religião, ou melhor, não tendo uma crença de estabilidade de vida, cresceu, com a imagem de que tudo o que vinha dos Estados Unidos era melhor, mais bonito e mais puro. Crentes de que o futuro estava em nossas mãos, nós, os jovens, frente à abertura política, pensávamos em edificar um país. Porque esse país seria o resultado do nosso trabalho, de uma essência boa e daquilo que estávamos dispostos a entregar como a nossa parte de existência na pátria. Essa é uma dimensão da memória — a minha –, que, sentindo essa carga de comprometimento, não compreendia a insegurança desse tal futuro que não nos mostrou um caminho, a não ser pelo trabalho, estudos precarizados, por via da escola pública depauperada, mas que ainda assim nos ensinou a ser gente. Eram os caminhos dos ônibus lotados, porque entre estudar e trabalhar, havia o tempo do trânsito, da fome e do cansaço.


A geração Coca-Cola sentia a promessa do amanhã, mas não o alcançava, porque o nosso tempo estava preso ao subemprego, às lotações, ao pouco dinheiro e ao medo desse tal futuro. Olhando para trás, penso que a falta de perspectivas para um jovem é sinal de fracasso de um governo, porque não há justiça social quando um jovem não sabe ao certo o sentido da sua própria existência. Falando no plano da memória, de um eu particular que, não tendo as bênçãos de um berço familiar tranquilo, nunca conseguiu apagar da carne o passado que me fez sentir impotente e fraca, por ser jovem e sem dinheiro, sem posição, sem portas abertas, sem muitas perspectivas.


A geração Coca-Cola foi uma herança da ditadura civil-militar brasileira. Cada jovem pobre que se cuidasse, entre ser pressionado pela ideologia e sentir no corpo o peso da realidade.

O plano material e sua aura simbólica

Na PUC São Paulo, todos os dias centenas de jovens descem a histórica rampa de acesso à universidade, carregando os livros, com planos, com horários. Mas ali, no fim daquela rampa, há uma placa. A pequena placa coberta por ramos do jardim aponta para um fato heroico e histórico. Em 22 de setembro de 1977, ocorria o 3º Encontro Nacional dos Estudantes no recinto. Os jovens estavam ocupados com o ressurgimento da União Nacional dos Estudantes (UNE), impedida de funcionar após o fechamento do regime em 1968. Pois foi por naquela rampa, pela tal “Curva do Rio” que adentrou a tropa de choque. Eram investigadores, a Polícia Militar, soldados armados sob o comando do Coronel Erasmo Dias, então secretário de Segurança Pública de São Paulo, que invadiram o campus da universidade. Há uma foto desse momento, quando professores e a própria reitora, a professora Nadir Kfouri, se apertaram em um cordão de isolamento para tentar impedir a entrada da tropa às rampas que levam às salas.


Existe naquele ponto essa pequena placa. E quantos são os membros da comunidade universitária que já olharam aquela pequena placa e refletiram sobre o evento? Naquele ponto, homens armados, em tropa, desceram por aquela rampa, porque supunham algo absolutamente perigoso na cena: estudantes reunidos, pensando os destinos do país, dentro de salas de aula, em uma universidade, naquele preciso momento, eram perigosos. E os professores tentaram protegê-los. Foi um ataque à universidade.


Uma pequena placa marca o momento da invasão. Mas o mais simbólico, o item que o marca como local de memória é que o trivial, alunos deliberando sobre o futuro em um ambiente universitário, foi tornado um perigo. A prisão de 900 alunos foi o resultado dessa investida. E aqui estamos nós lutando pelo esforço do não esquecimento, de que houve um tempo em que professores e estudantes foram transformados em grandes perigos para o país.


Sim, às vezes na história, é possível que sejam perigosos, haja vista a juventude hitlerista. Mas cabe perguntar: quem tem um profundo conhecimento sobre a história da ditadura brasileira, para afirmar que alunos em sala de aula eram de fato perigosos, ao ponto de receberam a tropa de choque, armada, no recinto da escola? Um local de memória mexe com o nosso conhecimento e com a nossa ética.

Locais de memória e a teimosia pelo não esquecimento

Fui à Argentina várias vezes. Já vi um local de tortura e morte ser transformado em acervo e patrimônio em nome da memória, verdade e justiça. Trata-se da Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA). Um local dentre centenas de centros clandestinos de detenção naquele país. Neste lugar, vi e ouvi, li e constatei, a história de centenas de jovens, mulheres, homens, velhos, crianças, que de uma forma ou de outra foram tornados “inimigos do Estado” de modo que valia a prisão indiscriminada, sem acusação; valia o enclausuramento sem crime, nem investigação, nem processo. Valia a morte por aniquilação.

Na Argentina eu vi o Parque da Memória, local construído para que recordemos sobre as vítimas do terrorismo de Estado. Neste lugar, vemos um muro contendo todos os nomes, de todos os desaparecidos, das mulheres grávidas, dos pais e mães, trabalhadores, todos desaparecidos, mortos. Somente os documentos, os vivos e a luta social não permitem que eles se transformassem em poeira, pela determinação do Estado.


Ao andar em Buenos Aires, distraída, olhando o chão, sempre me deparo com pequenas placas, indicando: aqui, meu filho, minha filha, a bela, o menino, o estudante, a jovem, o amigo, desapareceram; aqui foram vistos pela última vez, vivos. São pequenas placas, são marcos, insígnias da “última vez”, quando estavam plenos, pensando na vida, no namoro, nas tarefas, no trabalho, no jantar… levados naquele instante para o terror e depois, para o infinito.


São pequenas placas no chão. São muros com nomes. São registros no acervo. São vozes de testemunho. Têm patrimônio genético, para que não nos esqueçamos que, no fim último da verdade da célula, crianças foram retiradas de seus pais, bebês foram entregues a apropriadores. Julgando-os sem história, sem verdade, sem justiça, sem memória, retiram-lhes a identidade.

Pergunta-se: Já pensou que um Banco Nacional de Dados Genéticos é um local de memória? Guardadas, as moléculas que têm as instruções genéticas de uma vida acoplada a outras vidas a perder no tempo? O que é a verdade quando se entende que a memória está marcada em DNA? Porque há pessoas na Argentina que pensam, supõem, imaginam, se enganam, sobre a sua verdadeira história familiar. Porque o Estado se colocou na posição e em poder de interferir sobre a vida e a morte da história de gerações de pais e filhos.


Quando não se quer esquecer, a própria síntese da vida é o registro de que há terror na força das armas e medo pela composição social sincrônica do poder a todo custo. Este é um ponto da memória muito elaborado. Edificar marcos para que não se esqueça sobre o que um poder maior é capaz de fazer com a gente comum. Até podemos sentir quando na porta da escola um dos alunos é posto em um carro e que hoje a sua juventude foi imortalizada nas páginas de jornal, porque seguem te procurando. Era gente comum, revoltada com o uso da força como ferramenta de quietude, harmonia forçada, esquecimento pelo ferro, com capuzes, com o calor da cela, pela bala, pelos voos no escuro da noite.


O mar infinito é o túmulo. É local de memória ou esquecimento?

Já vi textos que falam do mar como vetor da quietude e da paz. Como elemento que nos lembra Deus. Há histórias sobre o mar que nos faz questionar a existência de Deus. O mar é metáfora de conquista. De sobressalto da história do mundo, orgulho de nações. Local de seres mitológicos. Símbolo dos diferentes tempos da história.


Pois o que dizer dos planos de extermínio que pensavam na gente como objeto descartável, lançado ao abismo? Jogados ao mar, dopados? Voaram à noite, sem saber o preciso momento em que foram transformados em esquecimento, no fundo do oceano. O oceano, local de infinitude, equivalente ao universo, desterro de corpos jogados à amnésia. O mar é um local de memória.


Na madrugada de 12 de maio de 1977, Pablo Míguez, então com 14 anos, foi detido por um grupo de operação do exército argentino que procurava sua mãe e o companheiro, membros do Exercito Revolucionário do Povo (ERP). Foram todos a um centro clandestino e de detenção denominado “El Vesubio”. Pablo sumiu na escuridão do cárcere, dos processos, da burocracia, do centro de detenção… Não se sabe do seu último momento, se fechou os olhos e chorou. Hoje, sua estátua mira o Rio da Prata como marco de rudeza, melancolia, pois ele mira o rio, o mar.


Aqui no Brasil, eu mesma ouvi dizer que Rubens Paiva, deputado federal, talvez tenha sido lançado ao mar. Isso porque, consta, para que todos possam saber, que foi preso, passou por interrogatório, foi torturado e morto no quartel da Polícia do Exército da Tijuca. Foi enterrado no Alto da Boa Vista, desenterrado e novamente enterrado no Recreio dos Bandeirantes. Foi mais uma vez desenterrado e novamente enterrado no mesmo local. Depois, o corpo foi levado ao Iate Clube da Urca; mais tarde, jogado ao mar, na costa do Rio de Janeiro. Escolheram o mar, como cova certa para a impunidade.


Pergunto: quem há de comemorar o corpo ao mar por assassinato? Feito a mando de governantes em nosso país? Na calada da noite? Poderia falar da terra, das escolas, das universidades, das ruas, dos escritórios.


Mas o mar, à noite, é infinito.

Cristalizar o pior de nós mesmos

Há repúdio em cristalizar o que há de pior em nós mesmos? A celebração categórica à perseguição ao cidadão não é uma vergonha? Pois até aqui estamos falando do aluno, do vendedor, do professor, de pais, mães, filhos… E vamos perpetuar a memória pelos nossos erros e ignorâncias e fazer do desconhecimento, do esquecimento, o nosso caminho? É mais do que isso, não se trata mais de esquecer. Trata-se de perder essa lembrança, sobre as práticas sociais de um tempo passado, e de se desprender, abandonar os fatos, e optar pela construção de mentiras.


Esse é um problema nosso. De todos nós. Não é um problema dos eleitores de Bolsonaro, nem tão somente dele, o nosso supliciador eleito. Agora trata-se de “comemorar” o golpe militar de 1964!


A Comissão Nacional da Verdade fala de 8.350 indígenas mortos, de diversas etnias. A mesma comissão identificou 434 mortes e desaparecimentos de estudantes, alunos, gente que carrega caderno e livro. O relatório “Brasil Nunca Mais” aponta para 1.918 presos políticos com registro de 283 diferentes formas de tortura, dentro do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). A antiga Comissão de Anistia do Ministério da Justiça mostrou a perseguição de trabalhadores de todas as categorias, funcionários públicos, metalúrgicos, professores, bancários, trabalhadores rurais.


E “terrorista” é Carlos Marighella?

Pela força nos pedem que celebremos os não locais e os momentos escolhidos de nossa falta de memória. A falta de placas e a opção por apagar um evento traumático e maledicente; a ausência de memoriais e a opção por não mostrar a dura realidade dos fatos, como se eles fossem o mero acaso dos dias; a queima de museus, a apologia ao novo e o apagamento da nossa ancestralidade opressora e violenta; a supressão de palavras certas pela alternância forçada dos significados flexíveis; o aprisionamento de narrativas comprovadas sobre o passado em prol da opinião esdrúxula, sem estudo, da incivilidade anti-intelectual. Trata-se de celebrar a morte ao mar, a perversidade na educação dos jovens, o abandono do futuro, o desterro das ideias, a perseguição de gente comum que estava na escola ou indo trabalhar, o silenciamento de professores, os voos ao infinito de todos os opositores. É momento de fazer cerimonial para essas atrocidades. Perpetuar o desconhecimento.

Às vezes penso na pequena placa na rampa da PUC-SP. Olho para ela vez por outra. Imagino que ela mereça uma história mais digna que ficar escondida entre as heras. Talvez ser celebrada entre todos nós. Sempre penso que um professor como eu desceu de seu pequeno gabinete e, correndo as rampas, fez cordão para impedir a invasão da tropa. Uma invasão que carrega com ela a ideia de força das armas. Se cada um, naquela universidade, soubesse o simbolismo daquela placa, não acreditariam que os professores sejam os seus inimigos.

Comemorar o dia em quem o nosso país foi golpeado, jogado à miséria da opressão, é o sintoma de um povo inteiro no presente momento. Ficamos nos debatendo diante do que não sentimos como memória.

É nossa pena por tentar ocultar o que a violência de nossa história pouco democrática fez de nós mesmos.

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2 comentários para "Pensavam, então, que esqueceríamos?"

  1. Marcus Taborda disse:

    Perfeito! Comovente! Elaborar o passado é condição de construção do futuro.

  2. Paulo Jesuito Moises disse:

    Se estamos na merda de hoje é graças as idiotices do ontem,tanto da direita quanto da esquerda.Se ambas as correntes politicas que dizem defender nosso povo não fossem tao individualistas,não se preocupassem apenas consigo própios doutrinando crianças,jovens e adolescentes para servirem de cobaias e defenderem os interesses do funcionalismo publico criando assim esse cancro na sociedade brasileira eu até poderia concordar que a esquerda tem razão. O problema e que os jovens daquela época e os de hoje foram manipulados por um ideal que nunca existiu.Bando de idiotas são a nação brasileira que acredita em ideais políticos.

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