O espetáculo de Bolsonaro: vazio, tosco e violento

Ele compreendeu que, mais que capital e ideias, era preciso acumular escândalos. Semeou a imagem de um Brasil em ruínas, no qual seria o xamã a curá-lo. Em Lévi-Strauss e Guy Debord, chaves para compreender o bolsonarismo

Por Lucas do Amaral Afonso | Imagem: Cristiano Siqueira

Para analisar a sociedade na qual reina o modo de produção capitalista, Karl Marx inicia o primeiro volume de sua magnun opus afirmando que essa sociedade se apresenta como uma “imensa acumulação de mercadorias”. Há exatos 100 anos da publicação de O Capital, o filósofo francês, Guy Debord, sugere que essa mesma sociedade, no século XX, se apresenta como uma “imensa acumulação de espetáculos”, na medida em que aquilo que era vivido se dissipa na “fumaça da representação”. Mas tanto as mercadorias em si, quanto os espetáculos, só são possíveis no conjunto das relações sociais. Uma diferença evidente entra as abordagens de Karl Marx e a de Guy Derbord é o objeto de pesquisa mobilizado por esses dois grandes teóricos que, no primeiro, o modo de produção capitalista é o cerne da investigação e, no segundo, a centralidade repousa na aparência de uma organização social sobre o modo de produção capitalista, uma espécie de apparence de représentation da realidade concreta.

Neste sentido, Guy Debord deixa evidente que a sua pergunta não tem a imagem como um fim, como interpretam algumas teorias pós-modernas (nas quais Guy Debord é tão bem-vindo quando mal entendido), mas tem a imagem como um meio, uma mediação, no sentido hegeliano do termo. Na fenomenologia do espírito, Hegel deixa ilustrado que a mediação é o “tornar-se outro”, ou de modo mais contundente, é o vir-a-ser de si mesmo. Isto é: uma potência humana em sociedade, o contínuo e ininterrupto processo de tornar-se outro. Portanto, é dessa mediação da imagem que trata Guy Debord, a imagem é este objeto capaz de mediar o vir-a-ser de si mesmo e, neste sentido, o espetáculo não é a imagem ou sua coleção, mas sim “uma relação social entre pessoas mediada por imagens” (DEBORD, A sociedade do espetáculo).

Embora a crítica de Guy Debord esteja diretamente relacionada à crítica de uma sociedade na qual rege o modo capitalista de produção, sua principal questão é problematizar o processo de emancipação da consciência em uma sociedade da representação imagética. Neste sentido, podemos utilizar a teoria do fato social, do sociólogo francês Emile Durkheim, para pensar o potencial efetivo da imagem como modo de ver, agir e pensar no mundo. Sabe-se que o fato social é geral, exterior e coercitivo, ou seja, ele é para todo mundo, se reproduz fora do indivíduo particular e provoca ações coercitivas. Como a situação uma imensa acumulação de espetáculos é efetiva como um modo de ver, agir e pensar o mundo?

Uma das maneiras de responder a essa pergunta é recorrer aquilo que Claude Lévi-Strauss, o fundador da antropologia estrutural, denominou como eficácia simbólica. Um feiticeiro é muito mais que seu poder oculto e místico da feitiçaria, ou melhor, o poder oculto e místico da feitiçaria é muito mais do que a sua realização na ação do feiticeiro. A estrutura social que produz um feiticeiro e sua feitiçaria é constituída por um conjunto de relações sociais que atribui a um indivíduo e seu grupo um esquema de símbolos que, somente em compartilhamento com seus signos e significados é que este esquema pode ser eficaz, por isso o termo eficácia simbólica. No caso do feiticeiro e sua magia três elementos são articulados para que que seja possível essa estrutura, são eles o xamã, o doente e o público.

A preocupação de Lévi-Strauss não era com a sociedade em que rege o modo capitalista de produção, pelo menos não diretamente, como um objeto de pesquisa, mas muito de sua produção teórica pode produzir perguntas sobre essa sociedade. Agora trata-se de entender o Marx, Guy Debord, Hegel, Durkheim e Lévi-Strauss estão fazendo na mesma discussão. Sugere-se aqui pensar com esses autores, tratando-se de política brasileira, como algumas imagens serviram de mediação de um vir-a-ser de si mesmo de um movimento conhecido como bolsonarismo. O personagem caricato, escolhido para representar um projeto mal definido, serviu de referência para a produção de imagens capazes de mediar um conjunto significativo de relações sociais: a arena política brasileira.

Nessa arena, ao invés de um xamã, tem-se um personagem caricato, que representa aquilo que Jessé de Souza chamou de Elite do Atraso, este personagem encena a expressão burlesca de zombar do real, atacar as diferenças e, ao fazê-lo, reforçá-la no imaginário popular. No entanto, essa caricatura é só uma caricatura, cuja eficácia simbólica só se realiza mediante um esquema de símbolos solidariamente compartilhados. Neste sentido, para entender o poder místico da feitiçaria ela precisa ser concebida como algo superior às ações do feiticeiro, comparativamente, para compreender o fenômeno do bolsonarismo (e a aqui eu peço desculpa aos feiticeiros) ele precisa ser entendido como algo superior ao que seu principal personagem representa.

A parte mais intrigante de escrever este texto é porque antes de ele existir o Brasil vivia sob uma miscelânea política, mas que um herói, um capital da reserva, se ocupou em “limpar” a política brasileira da corrupção, ou, nas palavras rebuscadas deste personagem: acabou, porra! O repetido ataque às minorias como estratégia política de mobilização das massas foi efetivo, pois dialogou com uma parte significativa da população, que pode não somente verbalizar afrontas como expressá-la por meio do voto. Contudo, seguiu-se a isso a perseguição de partidos de esquerda, de especialistas de diversas áreas, de migrantes, a negação da escravidão e dentre outras afirmações grotescas que atingiram no público uma determinada eficácia.

É como se pudesse falar de um “tornar-se outro” negativo. Como aquele integrante da família que, embora apresentasse alguma dificuldade de diálogo, se encontrava no ritual pacífico do almoço em família e servia-se à mesa com os demais. Este mesmo integrante, agora com o celular nas mãos, apresenta ofegante imagens de um Brasil em ruínas antes da salvação messiânica da política. Ele tem habilidades incomparáveis em concentrar o mesmo ódio a populações significativamente distintas. Ele opera uma estrutura simbólica quase que inconcebível, mas ele opera e, diante dos demais integrantes da família, o doente apresenta seu xamã ao público.

Aquele contínuo e ininterrupto processo de tornar-se outro, presente no sentido de mediação ao qual se referia Hegel, demanda uma certa percepção das relações sociais, caso contrário, este movimento de tornar-se outro atinge sua mais puro imediato, a não mediação, ou seja, pode caminhar por um movimento contra própria sociedade, contra formas de preservação do tecido social que a sociedade criou. Os direitos trabalhistas, os direitos humanos, os serviços públicos e dentre outras conquistas que grupos sociais construíram historicamente estão em xeque. As relações sociais mediadas pelas imagens atingem aqui sua expressão mais negativa: a de ser contrária ao próprio bem estar social e coletivo.

Assim, é possível pensar de que modo esse acúmulo de espetáculos se interioriza em esquemas simbólicos eficazes? Como ele opera no potencial da emancipação da consciência? São questões que Guy Debord, juntamente com outros autores aqui citados, pode ajudar a compreender. Por fim, é importante chamar atenção ao fato de que o fenômeno do bolsonarismo tem sido largamente visto desde uma perspectiva simbólica e discursiva, no entanto, a ênfase da análise de uma situação sobre uma sociedade na qual rege o modo de produção capitalista é fundamental, é curioso pensar isso com Guy Debord, mas o que está em jogo são os espetáculos, que operam modos de ver, agir e pensar o mundo.

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7 comentários para "O espetáculo de Bolsonaro: vazio, tosco e violento"

  1. Ricardo Cavalcanti-Schiel disse:

    Esse exercício de decalque mecânico de teorias enciclopédicas — ou de pretenso enciclopedismo teórico (por ser não muito mais que um buquê de agenciamentos) — sobre objetos, para ver se o os objetos se encaixam, ainda não está nem um pouco convincente.
    Se nosso autor quer partir do primado estruturalista (estruturalismo lato sensu) da precedência lógica das relações sobre os termos, então melhor que leve a sério o mundo das relações, para refletir a partir dele, sem se render ao encantamento dos termos reificados (elite, minorias, populações, grupos sociais, o (grande) público… e até “escravidão” (como coisa negável… logo após ter se constituído como mercadoria fetichizada. Rsrsrsrs). Pelo jeito, sob as brumas da ditadura fenomenológica pós-moderna, ainda está difícil pensar a partir de relações.

  2. Lucas Afonso disse:

    Professor Ricardo, confesso que não entendi se seu comentário é sobre consistência da coisidade (e, portanto, de um objeto não mediado) hegeliana ou se é sobre a insistência de Marx com as categorias sem determinações presentes na “economia burguesa” – agradecendo aqui seu comentário.

  3. Joma disse:

    Se não existir entendimento entre a esquerda e a centro-esquerda, a direita continuará com os seus maus timoneiros.
    Se a esquerda e a centro-esquerda não apresentarem projetos concretos e inegáveis, a direita continuará com os seus maus timoneiros. Há que abandonar o populismo!
    Se a esquerda e a centro-esquerda não se afastarem totalmente da corrupção, a direita continuará com os seus maus timoneiros.
    Neste país a riqueza existe… mas ela esfuma-se nos bolsos dos rentistas e dos corruptos.

  4. Fernando Moura Antunes disse:

    Sensacional!! Parabéns pela precisa leitura companheiro!!

  5. Cássio de Almeida Pires disse:

    Muito bom, meu caro!
    Mas confesso q fiquei com dúvidas se o feiticeiro pega essa trampolim na feitiçaria a partir de uma cobiça de poder, uma vez q o fenômeno bolsonarista utiliza de toda essa máquina de ódio para esse fim.

    Há bruxos e bruxos, não é mesmo?! Rs
    Grande abraço.

  6. Ricardo Cavalcanti-Schiel disse:

    Lucas, meu comentário não é sobre nada disso que você falou. Não viaja!

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