Seria fascista a “nova” ultradireita?

Reacionários e brutais, Trump, Bolsonaro e outros são vistos às vezes como sinais do fascimo. Talvez sejam menos que isso — porque lhes falta apoio popular orgânico. Para desmistificá-los, é preciso examinar as condições que os criaram

A QUESTÃO FASCISTA

Nesta série de artigos, os autores NoahBassil, Karim Pourhamzavi e Gabriel Bayarri refletem sobre a extrema direita contemporânea. Eles questionam o conceito de fascismo e fazem uma análise a partir dos conceitos de cesarismo e bonapartismo para entender o fenômeno global.

Você pode ver o trabalho dos autores em inglês através de seu blog no Grupo de Pesquisa Poder Global, Desigualdade e Conflito (RGPIC) , da Universidade Macquarie, em Sydney, Austrália. A série também está sendo publicada em espanhol na revista anticapitalista Viento Sur: https://vientosur.info/

Para entrar em contato com os autores, escreva para: [email protected]

Título original do texto a seguir: “O bonapartismpo e a crise contemporânea da hegemonia liberal”

A erupção do Covid-19 provocou uma série de novos debates sobre a natureza da crise do capitalismo e sobre o que ela poderia levar. Os níveis de desemprego e a escalada da recessão econômica são até agora apenas comparáveis com a Grande Depressão dos anos 30. Isto levou muitos meios de comunicação e revistas ocidentais influentes, como The Economist e ForeignAffairs, a prever o declínio da hegemonia dos EUA e, portanto, o fim da ordem mundial neoliberal que surgiu na época da crise global nos anos 70. Tal prognóstico levanta a questão sobre se o declínio da ordem mundial neoliberal surgiu durante a pandemia, ou se a “crise de hegemonia” se iniciou muito antes da atual propagação da Covid-19.

A noção de crise de hegemonia ou bonapartismo pode ser entendida inicialmente a partir dos escritos de Karl Marx no 18 Brumario de Luis Bonaparte1. Segundo Marx, o bonapartismo é um fenômeno político que põe fim a uma era progressista específica, como a Revolução Francesa de 1789. Marx constrói inicialmente a idéia do bonapartismo no final de uma fase Jacobina da Revolução Francesa, no fortalecimento do Estado que representava o interesse da elite burguesa e na ascensão de Napoleão Bonaparte I em 1805-1814.  O sobrinho de Napoleão, Luís Bonaparte, em 1848-1852 pôs um fim à revolução de 1848 reeditando a “tragédia” original com a repetição da história na forma de uma “farsa”. Outro aspecto deste texto que julgamos central é que Marx identifica a crise de liderança das classes dirigentes como condição crucial na qual se baseou a ascensão de Luís Bonaparte. Neste vácuo, Napoleão pôde se apresentar como vitorioso para grandes setores da população, especialmente aos trabalhadores rurais, que sentiam que o sistema político não refletia seus interesses.

Os dois exemplos de Marx destacam a forma como um líder bonapartista se coloca acima de classes e conflitos de classe em uma situação em que nem a burguesia nem o proletariado podem impor, um ao outro, uma derrota aplastante. É nesta situação, e onde há uma ausência de equilíbrio de poder entre as forças em conflito, que se abre o caminho para o surgimento de um “homem forte” como líder bonapartista que eventualmente voltará a dominar a burguesia.

Os exemplos mencionados acima foram centrais para outro pensador marxista, Antonio Gramsci. Para Gramsci, uma elite dominante é hegemônica ou não hegemônica. Hegemonia para Gramsci envolveu a construção de um sistema material, institucional e ideológico, que é do interesse da classe dominante, mas apoiado por uma seção transversal de outras classes por meio de consenso. Um sistema capitalista hegemônico é aquele no qual todo um sistema social é construído com base em como melhor beneficiar a burguesia, especialmente a fração do capital que controla os setores dominantes da economia, enquanto apresenta os lucros dos capitalistas como o interesse de todos. Quando a fachada deste sistema é erodida numa época em que o sistema não pode mais oferecer um mínimo de prosperidade ou segurança para as massas, uma crise de hegemonia pode surgir como nos anos 1930, 1970 e mais recentemente, como argumentamos, desde a atual crise financeira mundial desde 2008.

Uma crise de hegemonia ocorre quando as forças em conflito não conseguem estabelecer um estrangulamento sobre seus rivais2. A “crise”, como explica Antonio Gramsci, é

“…o que é chamado de crise de autoridade. Se a classe dominante perdeu seu consenso, ou seja, não está mais “liderando”, mas apenas “dominando”, exercendo apenas força coerciva, isso significa precisamente que as grandes massas se desligaram das ideologias tradicionais, e não acreditam mais no que acreditavam, etc.”3

A perspectiva de Gramsci sobre hegemonia e a crise de hegemonia foi incorporada em vários campos para explicar as ordens nacionais e globais, e as lutas que permeiam a política nacional e global.4 Nossa sugestão aqui é que uma combinação de bonapartismo e cesarismo fornece uma ferramenta teórica útil para entender a atual crise de hegemonia e o surgimento dos líderes neo-Bonapartistas, como são notadamente Donald Trump nos EUA ou Jair Bolsanaro no Brasil.

Em uma série de artigos, começando com este, refletimos usando como base contextual a crise de hegemonia neoliberal. O próximo artigo desenvolverá as idéias levantadas neste artigo inicial. Os artigos seguintes examinarão a crise de hegemonia neoliberal a nível global, nos EUA, no Brasil e no Oriente Médio.

1Marx, K and Engels, F. (1982). The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte. Moscow: Progress Publishers, pp 96-179.

2Gramsci, A. (1971). Selections from the Prison Notebooks. Hoare, Q and Smith, G. N. (ed). London: Lawrence and Wishart, p 219.

3 Gramsci, p. 275-276.

4Cox, R. (1982). Gramsci, Hegemony and International Relations: An Essay in Method. Millennium – Journal of International Studies. Vol. 12. No. 2, pp 162-175.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

3 comentários para "Seria fascista a “nova” ultradireita?"

  1. Joma disse:

    O fascismo deveria ser mais apropriadamente chamado de corporativismo porque é uma fusão do estado com o poder corporativo – e essa situação de autoritarismo e autocracia existe tanto em políticos que se dizem de extrema-direita como em políticos que se dizem de extrema-esquerda.
    É evidente que tanto Bolsonaro como Trump são populistas e fascistas de extrema-direita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *