Portugal, o novo alvo da extrema-direita

Num país governado por rara coalizão de esquerda, o protofascismo manipula redes sociais, estimula estranhíssima greve de caminhoneiros e difunde intrigas entre socialistas e comunistas. Mas é possível frear sua investida

Em 7/8, portugueses protestam contra reunião da extrema-direita internacional, em Lisboa

Por Boaventura de Sousa Santos

Vários acontecimentos recentes têm revelado sinais cada vez mais perturbadores de que o internacionalismo de extrema-direita está transformando Portugal num alvo estratégico. Entre eles, saliento a tentativa recente de alguns intelectuais de jogar a cartada do ódio racial para testar as divisões da direita e da esquerda e assim influenciar a agenda política; a reunião internacional de partidos de extrema-direita em Lisboa e a simultânea greve do recém-criado Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas.

Várias razões militam a esse respeito. Portugal é o único país da Europa com um governo de esquerda numa legislatura completa e em que se aproxima um processo eleitoral [as eleições ocorrerão em 6 de outubro], e é o único onde não tem presença parlamentar nenhum partido de extrema-direita. Será Portugal assim tão importante para merecer esta atenção estratégica? É importante, sim, porque, da perspectiva da extrema-direita internacional, Portugal representa o elo fraco por onde ela pode atacar a União Europeia. O objetivo central é, pois, destruir a UE e fazer com que a Europa regresse a um continente de Estados rivais onde os nacionalismos podem florescer e as exclusões sócio-raciais podem ser mais facilmente manipuláveis no plano político.

Para a extrema-direita internacional, a direita tradicional desempenha um papel muito limitado neste objetivo, até porque ela foi durante muito tempo a força motora da União Europeia. Daí que seja tratada com relativo desprezo, pelo menos até se aproximar, pelo seu próprio esvaziamento ideológico, da extrema-direita, tal como está acontecendo na Espanha. As forças de esquerda, ao contrário, são forças a neutralizar. Para a extrema-direita, as esquerdas terão se dado conta de que a UE, com todas as suas limitações, que durante muito tempo foram razão suficiente para algumas dessas esquerdas serem antieuropeístas, é hoje uma força de resistência contra a onda reacionária que avassala o mundo.

Não se pode esperar da UE muito mais do que a defesa da democracia liberal, mas esta corre mais riscos de morrer democraticamente sem a UE do que com a UE. E as esquerdas sabem por experiência que serão as primeiras vítimas de qualquer regime autoritário. Talvez se lembrem de que as diferenças entre elas sempre pareceram mais importantes quando vistas do interior das forças de esquerda do que quando vistas pelos seus adversários. Por mais que socialistas e comunistas se digladiassem no período pós Primeira Guerra, Hitler, quando chegou ao poder, não viu entre eles diferenças que merecessem diferente tratamento. Liquidou-os a todos.

Não é relevante saber se é isto o que as esquerdas pensam. É isto que a extrema-direita pensa sobre as esquerdas, e é nessa base que se move. Quem a move? Movem-na forças nacionais e internacionais. São várias e com objetivos que só parcialmente se sobrepõem. Para surpresa de alguns, a política internacional dos EUA é uma delas. Os EUA são hoje um defensar muito condicional da democracia, pois só a defendem na medida em que ela é funcional aos interesses das empresas multinacionais norte-americanas. A razão principal é a rivalidade dente os EUA e China, que está condicionando profundamente a política internacional. O confronto entre dois impérios, um decadente e outro ascendente, exige o alinhamento incondicional dos países aliados de cada um deles ou na sua zona de influência. A Europa fragmentada será um conjunto de países ou facilmente pressionáveis ou irrelevantes (a Alemanha é o único que exige atenção especial).

Mais do que nunca, são os interesses econômicos que dominam a diplomacia. Assim, segundo a BBC de 9 de agosto, os tweets em chinês do presidente Trump têm mais de 100 mil seguidores entre os dissidentes chineses que consideram o presidente norte-americano um defensor dos direitos humanos. E certamente o será no contexto da China e porque isso serve os interesses da guerra contra a China. Não é por acaso que a China está culpando os EUA pela onda de protestos em Hong Kong. Mas Trump já não é um defensor confiável dos direitos humanos antes os venezuelanos sujeitos a um embargo cruel e devastador que a própria ONU considera uma violação grosseira dos direitos humanos.

A extrema-direita conta com três instrumentos fundamentais: aproveitamento da contestação social contra medidas de governos considerados hostis, exploração de idiotas úteis e, no caso de governos mais à esquerda, maximização das dificuldades de governo decorrentes das coligações existentes. Do primeiro caso, talvez sirva de ilustração a greve do Sindicato de Motoristas de Matérias Perigosas. Este tipo de greve pode ter efeitos tão graves que desmoralizem qualquer governo. Tradicionalmente os sindicatos sabem disso, negociam forte e ao mesmo tempo sabem até onde podem ir para não por em causa interesses vitais dos cidadãos. Não é isso o que tem ocorrido com estes sindicato. É altamente suspeita a linguagem radicalizadora do vice-presidente do sindicato (“deixou de ser um direito laboral para ser uma questão de honra”), um personagem aparentemente arvorado em anjo protetor de sindicalistas descontentes. A história nunca se repete, mas nos obriga a pensar. O governo democrático socialista de Salvador Allende, hostilizados pelas elites chilenas e pelos EUA, sofreu a sua crise final depois das greves de sindicatos de motoristas de combustíveis, precisamente devido à paralisação do país e à imagem de ingovernabilidade que refletia. Soube-se anos depois que a CIA norte-americana tinha estado bastante ativa por detrás das greves.

Os idiotas úteis são aqueles que, com as melhores intenções, jogam o jogo da extrema-direita, embora nada tenham que ver com ela. Cito dois. Quando foi da primeira greve do sindicato referido, alguns ingênuos sociólogos apressaram-se a dissertar sobre o novo tipo de sindicalismo não ideológico, exclusivamente centrado nos interesses dos trabalhadores. O contraste implícito era com a Centra Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), esta sim considerada ideológica e ao serviço de obscuros interesses dos trabalhadores. Se lessem um pouco mais sobre os movimentos sindicais do passado, saberiam que, em muitos contextos, a proclamação de ausência de ideologia política foi a melhor arma para introduzir a ideologia política contrária. Mas os idiotas úteis podem sair de onde menos se espera. Um sindicalista que até há pouco tempo muito admirei, Mário Nogueira, comportou-se a certa altura como idiota útil ao transformar as reivindicações dos professores em motivo legítimo para fazer demitir o governo de esquerda apoiado pelo partido a que pertence. Este radicalismo, que confunde as árvores com a floresta, serve objetivamente os interesses desestabilizadores da extrema-direita.

Finalmente, a extrema-direita sabe aproveitar-se de todas as divisões entre as forças de esquerda, sabe ampliá-las e sabe usar as redes sociais para criar duas ilusões a partir de meias verdades. A primeira é que a maioria dos militantes e de anteriores dirigentes do Partido Socialista são de opinião que o PS sempre se deu melhor com alianças com a direita (o que é falso), não gosta do radicalismo de esquerda (que nunca definem) e que, de todo o modo, livre das esquerdas à sua esquerda, facilmente terá maioria absoluta (o que é improvável). A segunda é que recíprocas fraturas existem nos outros partidos de esquerda, ansiosos por regressar aos seus cantos de oposição e cansados de fazer concessões (o que em parte é verdade).

As forças de esquerda em Portugal têm dado testemunho de um notável bom senso que dificulta as manobras da extrema-direita. Se seguirão neste caminho, ou se se renderão às pressões internas e externas, é uma questão em aberto.

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6 comentários para "Portugal, o novo alvo da extrema-direita"

  1. Lady Morwen disse:

    No Brasil, uma greve de caminhoneiros foi um degrau essencial para a ascensão do atual governo neo-fascista. Tomara que tanto Portugal quanto a Espanha resistam a ascensão da extrema direita. Agora, se a França cair na mao da Le Pen em 22, Trump continuar no poder, Bolsonaro não ser derrubado (existem chances, o governo dele tem as bases tão podres, que basta um movimento não liderado pelo velho partido dos trabalhadores que fez de tudo para minar a confiança de todos os eleitores nos ultimos 15 anos, pode derruba-lo. Ja na Italia Salvini levou, e isso se deu pela aliança absurda do MS5.

  2. JORGE disse:

    Gostei do ensaio/artigo. É lúcido, explica bem como a extrema direita “entra em campo”, e, sobretudo hoje, por quem: EUA/Trump.

    Qualquer semelhança (são MUITAS) com o brazil, BOÇALnaro e seus seguidores evanjegues e /ou olavetes, não é mera coincidência.

  3. Gabriel disse:

    Se a direita consegue se aproveitar de uma greve como essa, não é por causa de seus méritos, mas pelas políticas da “esquerda”, inclusive do PS em Portugal. Além das questões materiais que movem os motoristas (por maior que seja a confusão e a existência de direitistas entre seus líderes, inclusive), o PS enviou o exército contra os grevistas.

    E a mesma coisa vale pro Chile, em 72, com capitulações sucessivas de Allende aos generais, em um momento em que fábricas eram ocupadas por trabalhadores (e reprimidos por ele).

    No limite, Allende reprimiu o desenvolvimento da luta de classes no Chile, a única coisa que poderia ter salvado seu governo.

    Boaventura, agora, repete a mesma política de “frente ampla” (http://www.vermelho.org.br/noticia/316680-1), que levará inevitavelmente à ascensão da extrema direita em Portugal, como, de fato, aconteceu no Brasil, nos EUA e em muitos outros lugares do mundo.

  4. Nós nos preocupamos tanto com a inteligência das máquinas. Que descuidamos da inteligência e independência do Capital.
    O Capital assume sua face facista e resolve de vez assumir o controle do mundo. A guerra será intensa e a internet que poderia, segundo Milton Santos, ser uma ferramenta de levante dos menos favorecidos, converte-se justamente na maior ferramenta dos opressores.

  5. Renato M. Lazzari disse:

    Será difícil que os capitalistas queiram se livrar dessa extrema-direita que assola o mundo, principalmente porque com a ascensão dos extremistas, os capitalistas ganham mais poderes, econômico e político. A barbárie e o vandalismo, assim como o terror, sempre foram bons para os negócios. O que é insuportável para os concentradores de poderes é o cenário democrático de direito pois que este promove direitos e não privilégios. A bandeira dos direitos sempre foi dos socialistas: alguém teria o desplante de propor que se faça leis, numa constituição, que as desigualdades são parte do estado? Como disse nosso ex-presidente Lula, “para que se faça um país justo é só cumprir as leis”. Por outro lado vaticinou o banqueiro: “Deixem-me emitir e controlar o dinheiro de um país que não me importo com suas leis.”

    Porém Eric Li, empreendedor chinês e fundador da Chengwei Capital, tanto no TED dos EUA (https://www.ted.com/talks/eric_x_li_a_tale_of_two_political_systems?language=pt-br) quanto no documentário “Coming war on China” ensina a convivência entre capital privado e estado: “Não tem como um grupo de bilionários controlar a cúpula do partido.” (a partir dos 56 minutos desse documentário).

    Do Brasil torcemos para que os portugueses consigam se livrar desse capitalismo nefasto.

  6. Ezequiel Moreira Martins disse:

    Devo admitir que estou encantado com jeito que o PNR consegue elaborar o seu programa partidário. Com um ano de antecedência declararam apoio total ao Jair Bolsonaro, mesclam ideias nacionalistas do tempo de Salazar com ideias de livre mercado pragmático. Se houver ascensão da extrema-direita em Portugal ficaremos muito felizes com isto. Será um grande passo a adiante no aprofundamento das relações Brasil-Portugal e quem sabe ressuscitar o nosso velho Império através de uma comunidade lusitana de países de língua portuguesa. Para nós o Mercosul não e importante, o mais importante de facto é uma confederação de países portugueses.

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