Por um Karl Marx devorado

Ciclo “Terças Insurgentes” atravessará junho, em SP. Ideia não é explicar o pensamento de Marx, mas experimentá-lo. Colocar o filósofo da desobediência criadora em diálogo com as lutas que desafiam, hoje, a necropolítica capitalista

Por Alana Moraes e Jean Tible

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O ano de 2018 marcou o bicentenário de Marx. Enquanto alguns ainda insistem em decretar o seu fim, outros o elegem como um inimigo perigosamente vivo. E se está vivo, e assim também o vemos, é porque Marx deixou-se contaminar pelas lutas e suas urgências. Diante de um novo cataclisma mundial (ou seria a queda do céu há tanto tempo advertida pelos yanomamis e outros povos que vivem o fim de seus mundos?) Marx volta a nos interpelar: O que é ser revolucionário nos dias de hoje?

Em 1865 Marx respondia à suas filhas no questionário proust que sua ideia de felicidade era “lutar”. Situava-se assim em um lugar muito distante dos paradigmas entristecidos das burocracias partidárias e de um comunismo da disciplina e do sacrifício, das bandeiras e palavras de ordem. A luta deve ser toda inteligência coletiva que se propõe a insistir na vida, diria Marx. O comunismo em Marx exige uma atenção permanente às revoltas cotidianas que podem desconcertar os fundamentos do poder. O verdadeiro partido comunista é onde o exercício da liberdade pode se realizar; onde o pensamento pode, enfim, desconcertar a estupidez autoritária.

Honrar a vitalidade de seu pensamento é, de alguma forma, devorá-lo com o apetite do presente. Por isso queremos propor a antropofagia como fio metodológico. A ideia é poder experimentar o pensamento de Marx e não explicá-lo. Pensar esse elemento do fogo – que é ao mesmo tempo tão importante para os ameríndios como marcador da origem da cultura (o começo do mundo indígena), mas também para as barricadas, para as fogueiras das bruxas que ainda se encontram para experimentar suas curas; para as ocupações de terrenos vazios que surgem no meio da noite; é o fogo das cozinhas de imigrantes, das mulheres das periferias do mundo, dos cafés da manhã oferecidos pelos Panteras Negras; o fogo que convoca e que inspira conspirações. Devorar também traz o sentido ameríndio mesmo da antropofagia, de comer e honrar o outro para tornar-se ainda mais potente, ainda mais presente e atento para a guerra em curso. Queremos desviar da pergunta (moderna e ocidental) sobre Marx estar morto ou não para nos perguntar como herdar esse Marx vivo e selvagem.

Marx é um pensador enorme e é possível chegar até ele por muitos caminhos. No ciclo Marx Devorado vamos seguir os fios condutores que nos levam ao Marx cartógrafo das lutas. Aquele que é ainda interpelado ainda por situações de luta e pelos corpos que estão implicadxs na fabricação de outros mundos, outras relações com o mundo – bloqueios, ocupações, mães em luta contra o extermínio de Estado, todos os corpos dissidentes, precários e ainda assim obstinados. Um Marx que recusou as fronteiras nacionais (internacionalista!); aquele que é contra a forma Estado e pela auto-organização da classe, uma classe, aliás, que está em permanente fazer-se; um Marx contra o capitalismo e sua democracia apodrecida. Queremos o Marx da desobediência criadora.

Por isso acreditamos ser possível pensar em um Marx crítico da modernidade e seus aparelhos conceituais. Por diversas vezes, Marx trata o capitalismo como um “mundo enfeitiçado”, abstrações e fetiches capitalistas atuando como feitiços do pensamento. O comunismo no manifesto aparece cindido entre delírios do progresso técnico da sociedade industrial burguesa e uma força imanente que enxerga no domínio das relações (forças de interdependência e cooperação contra as forças de concorrência) o terreno mais concreto da luta revolucionária. Não à toa o manifesto termina com uma convocação ao encontro – uni-vos em volta de uma fogueira, uni-vos com seus corpos, danças; com a alegria de uma teoria-celebração! Marx queria compreender o capitalismo em sua escala global, geopolítica, mas ao mesmo tempo estava interessado no mundo da vida, em como as pessoas se relacionam, nos modos pelos quais uma associação pode se fazer para lutar contra um inimigo comum, mas também para criar outras possibilidades de mundos.

Marx devorado nos convoca a um deslocamento imprescindível para pensarmos (e fazermos!) uma classe da diferença. Uma classe que se faz não pela unidade de uma identidade apenas (branca, operária, masculina, etc.), mas que é capaz de fazer operar (e aí sempre operária!) o princípio da diferença para habitarmos os muitos mundos em comum. Levar em conta as diferentes marcas que atravessam nossos diferentes corpos; pensar uma classe preta, trans, mulher, uma classe das florestas, anti-prisional, abolicionista, infoproletária, todos os movimentos que questionam e desobedecem pelo comum(nismo) os arranjos atuais capitalistas; os que criam a inteligência de infraestruturas autônomas, uma luta que é a insistência no encontro – no verdadeiro encontro! – que pode sempre deslocar, colocar em risco nossas bandeiras e os lugares confortáveis das vanguardas e direções partidárias. Marx está aonde existe ainda a insistência na vida, a liberdade e a alegria da luta.

“Mas as revoltas espontâneas são sempre derrotadas!”, ostentam algumas formas de ser esquerda. No entanto, a filosofia de Marx é feita por uma paixão pelas formas incertas. O triunfo de uma revolta, defende Marx, é acontecer, “liberar os elementos da nova sociedade da qual a colapsante sociedade burguesa é prenhe”. Pensar o mundo como prenhe de outros, o comunismo não mais como uma utopia fantasmagórica e governamental, nem tampouco um golpe de marketing, mas como uma composição viva de relações que já habitam nosso mundo, um urgente compromisso com a realidade. Um mundo feito pelo princípio da fertilidade, como nos conta Kopenawa, habitado pela herança das lutas ancestrais, pela força dos rios e florestas animando nossa existência contra a necropolítica do capital. Porque o mundo está perigosamente vivo, nos lembra os guayaki, assim como a filosofia dos corpos desobedientes atentos que estamos nessa renovada guerra de mundos.

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