Pequenas empresas: a busca por um modelo coletivo

Sistema está chegando ao seu limite, por basear-se no individualismo neoliberal, na competição e no desperdício. É urgente transformá-lo para criar novas formas de produção e consumo – mas principalmente de relacionar-se em sociedade

Um dos maiores desafios da contemporaneidade é a mudança do modelo socioeconômico dominante. Modelo este baseado em uma cultura de consumo desenfreado, desperdício, competição e valorização do individualismo.

Estão colocadas, e nos desafiam, diversas crises concomitantes, a sanitária, a social, a política, a econômica e ambiental. Terão elas a força necessária para nos fazer repensar este modelo e, quem sabe, superá-lo e substitui-lo por um modelo sustentável, equitativo, solidário?

O cenário atual inclui instabilidade política, persistência de uma pandemia que vitimou mais de meio milhão de pessoas, fechou indústrias, comércios e serviços agravando ainda mais o desemprego e a volta da inflação fazendo os preços de insumos básicos e dos alimentos dispararem. Aliam-se a este contexto preocupante as crise ambiental, hídrica e climática.

São tempos de urgência pois não é impossível que o país entre num estado de caos, onde os problemas se retroalimentem e se reforcem chegando a dimensões incontroláveis.

Para os micro e pequenos empresários a instabilidade que a somatória de crises produz significa fragilizar a possibilidade de recuperação de seus negócios após mais de um ano de dificuldades extremas.

A crise climática global em curso, agravada pelo desmatamento da Amazônia, vem se manifestando no Brasil sob a forma de escassez de chuvas afetando nossa matriz energética majoritariamente hídrica e causando aumento severo nas tarifas da energia elétrica.

São muitos os micro e pequenos empresários que já não conseguem arcar com o custo deste insumo essencial para suas atividades. O compartilhamento de espaços de produção e/ou de armazenamento e serviços pode significar um alívio neste tipo de despesa.

Não está descartada a possibilidade de termos novamente um rodízio no fornecimento de água, o que também afetaria drasticamente micro e pequenos negócios como bares, restaurantes, tinturarias, pequenas fábricas de alimentos etc.

As consequências da instabilidade política se materializam em subidas de preço de alimentos, matéria prima, gás e combustível regulados pelo valor do dólar americano que flutua conforme os humores e temores do mercado financeiro e na alta de juros bancários, afetando a vida de empresários de todo porte, mas especialmente daqueles que tem menor capital de giro e, muitas vezes, dívidas contratadas para enfrentar a pandemia.

O modelo econômico atual é perverso e adverso para 95% das empresas brasileiras, que são micro e pequenas, e enfrentam dificuldades de toda ordem para se manter funcionando, ainda mais em um cenário de diminuição do poder aquisitivo da população, cada vez mais empobrecida.

Precisamos, pois, repensar nosso modo de ser, estar, produzir, descartar e, acima de tudo, de nos relacionar em um mundo de mudanças tão profundas. Ter coragem de buscar novas formas de atuação, superando a cultura do individualismo e da competição.

Empreender de forma coletiva, em uma das múltiplas formas de associativismo, pode contribuir eficazmente para superar os obstáculos.

Trabalhar em grupo significa ter vantagens como comprar materiais e insumos em quantidade maior e, portanto, conseguir melhores preços; ter volume de produção para poder participar de licitações públicas e fornecimento a grandes redes de distribuição; compartilhar espaços físicos, maquinário, meios de transporte; contratar em conjunto serviços de contabilidade e de assessoria jurídica; elaboração de sites para vendas pela internet e assim por diante.

Para além destes benefícios concretos, acontece o fortalecimento dos empreendedores enquanto classe, permitindo que tenham mais força junto às instâncias de poder, ampliando sua voz e aumentando a possibilidade de terem seus pleitos atendidos.

Em todo o mundo os pequenos se unem para criar uma economia, associativa, solidária, colaborativa em que os empreendedores se vejam como parte de uma rede robusta que possa suportar as intempéries e gerar soluções criativas e inovadoras.

Aprender uns com os outros, caminhar juntos, desenvolver habilidades complementares, ter empatia, solidariedade, saber ouvir, desenvolver a capacidade de formular novos conceitos, adotar hábitos saudáveis e ambientalmente corretos são práticas que precisamos adotar para construir uma outra realidade para nós, nossas empresas, nosso bairro, nossa cidade, nosso país e nossa Mãe-Terra.

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