Para conhecer a obra de Donna Haraway

Manifesto das Espécies Companheiros ganha, enfim, uma edição brasileira. No livro, a autora, feminista e inspirada também por Marx, parece sugerir: as espécies que massacram outras estão fadadas a viver em desigualdade e segregação

Fernando Silva e Silva, tradutor do livro, entrevistado por Ricardo Machado, no IHU Online

Formada em Zoologia e Filosofia e doutora em Biologia pela Universidade de Yale com a dissertação intitulada “A Busca das Relações Organizadas: Um Paradigma Organismo na Biologia do Desenvolvimento do século XX” (1972), a pesquisadora Donna Haraway tem explorado a relação entre humanos e outras espécies. Essa investigação ganhou novos elementos em sua obra O manifesto das espécies companheiras. Cachorros, pessoas e alteridade significativa (Bazar do Tempo, 2021), traduzida recentemente por Pê Moreira e Fernando Silva e Silva e publicada em português.

Segundo Fernando Silva e Silva, ao defender a noção de “espécies companheiras”, nessa obra, Haraway “elabora um programa teórico e político para essa investigação” que reflete acerca do “devir conjunto entre humanos e outros viventes”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Silva situa o livro em contraposição a outras publicações da pesquisadora. “Falando a partir de O manifesto das espécies companheiras, se trata, em primeiro lugar, de reconhecer quais relações de companheirismo reproduzem as possibilidades da nossa existência. Quantas pessoas, animais, plantas, fungos, bactérias e outros seres (para falar naqueles apenas deste mundo) estão envolvidos na produção das condições mais básicas da minha existência no cotidiano”. A proposta, contudo, esclarece, “não é propagar uma mensagem vaga de que ‘tudo está conectado’, que frequentemente leva ao imobilismo ou a tornar equivalente quase qualquer tipo de ação política. Trata-se de uma colocação mais situada, tudo está conectado a algo, para parafrasear um texto mais recente de Haraway”.

Fernando Silva e Silva (Foto: Anelise De Carli)

Fernando Silva e Silva possui graduação em Licenciatura em Letras Francês pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e mestrado em Estudos da Linguagem pela mesma universidade. Atualmente é graduando (UFRGS) e doutorando (PUCRS) em Filosofia. Seus principais temas de pesquisa hoje são a filosofia ambiental, a história das ciências e da filosofia e as obras de Alfred N. Whitehead e Isabelle Stengers.

Em 03 de novembro, Fernando Silva e Silva participará do 2º Ciclo de Estudos: A (in)existência de um mundo comum. Pensamento vivo e mudanças possíveis à luz de Bruno Latour. Na palestra virtual, que será transmitida na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no canal do IHU no YouTube, ele comentará o livro Jamais fomos modernos (1991).

Confira a entrevista.

Antes de entrarmos propriamente no debate sobre o livro de Donna Haraway, comecemos por algo aparentemente singelo, mas profundo. Qual o sentido filosófico e a atualidade da noção de companheiro?

Essa é uma ótima pergunta para começarmos, pois além de chamar atenção a uma noção central no livro, invoca uma questão dos efeitos de sentido que a tradução acaba por produzir. Em inglês, o termo que traduzimos por espécie companheira no livro é companion species, construído por Haraway sobre o modelo de companion animal, um animal de companhia. Em diferentes textos, a filósofa também enfatiza a etimologia da palavra, que remete ao latim cum panis, aquele com quem divido a mesa, partilho o pão. Em português, porém, o aspecto político e existencial se torna ainda mais acentuado, devido à história política e afetiva do termo companheiro(a) que atravessa as lutas sociais e o amor. Por isso, no meu entendimento, a tradução torna o termo ainda mais forte para designar o que ele pretende: que qualquer indivíduo só vem ao mundo por meio de companheiros de sua espécie, de outras espécies e de outras naturezas.

Deixando de lado, mas só um pouco, por um segundo o sentido de Haraway, acredito que uma noção forte de companheiro(a) – ou ainda aliado(a), amigo(a) etc. – é de suma importância para uma ética e uma filosofia política que não desejem que aquilo que elas defendem seja entendido (apenas) como um chamado à ação individual ou por meio de grandes instituições. Igualmente, uma noção como essa permite pensar relações não apenas através dos polos do Mesmo e do Outro. Um companheiro introduz com facilidade uma rachadura nesse esquema, já que, retomando Haraway, não há Eu sem uma turba de companheiros, mas estes não podem ser facilmente reduzidos nem ao Mesmo nem ao Outro, a não ser por um individualismo radical que se imagina e dá primazia a um indivíduo ideal, autoproduzido, livre de todas as amarras – em suma, algo que não existe.

Donna Haraway tornou-se mundialmente conhecida com seu texto Manifesto ciborgue, ainda na década de 1980. Como podemos compreender, antes e depois desse texto, a trajetória teórica de Haraway?

Nos anos 1970, Haraway obtém seu doutorado em biologia com uma tese dedicada ao estudo das teorias embriológicas da primeira metade do século XX. Seu objetivo é compreender as diferentes metáforas que atravessam essas teorias e como esses usos da linguagem dão forma, ao mesmo tempo, aos embriões e às teorias biológicas.

Nos anos seguintes, Haraway segue suas investigações situadas entre a biologia, a filosofia, o feminismo e os estudos de ciência e tecnologia, engajando-se cada vez mais com aspectos políticos e sociotécnicos de seus interesses de estudo. Um manifesto ciborgue, publicado em 1985 na Socialist review, representa o ápice do programa investigativo e político de Haraway nesta época, reunindo filosofia e estudos feministas da ciência e da tecnologia com o projeto de um tecnobiossocialismo pós-gênero.

Inspirado no Manifesto comunista, o manifesto de Haraway pretende reunir análise de conjuntura – disseminação mundial de um capitalismo do Vale do Silício e da agressão estadunidense por meio de uma guerra tecnológica – com um chamado à ação: a ocupação, deturpação e profanação da figura ciborgue criada pelo complexo industrial-militar para promover, por meio de uma apropriação irônica dessa figura, uma resistência mundial distribuída pós-raça, pós-gênero, pós-espécie, pós-orgânica.

Haraway continuará nesse programa político e investigativo ainda por uma década e meia, com a publicação de Primate visions [Visões primatas] (1989) e [email protected]_millenium [[email protected]_milênio] (1997) e uma série de artigos, mas no início do milênio sua atenção se voltará a outras direções.

A partir de O manifesto das espécies companheiras, a autora passa a se preocupar cada vez mais com problemas de espécie: definição, história, inter-relação de espécies etc. Isso não se trata de uma novidade completa, esse é um tema de seu trabalho desde os anos 1970. Mas o manifesto ressitua essas preocupações em um mundo bastante diferente daquele das décadas anteriores. Essa virada, se podemos chamar assim, vai dar o tom das obras que Haraway vem publicando até hoje.

Neste contexto, como podemos situar O manifesto das espécies companheiras. Cachorros, pessoas e alteridade significativa na trajetória da autora e como ela marca uma reorganização de suas preocupações?

O manifesto das espécies companheiras ocupa uma posição muito interessante na trajetória da autora. Ele foi publicado 18 anos depois de Um manifesto ciborgue e 13 anos antes de seu livro mais recente, Staying with the trouble [Seguir com o incômodo] – que também podemos ler como uma espécie de manifesto –, ficando, de certa forma, no meio de uma carreira de já quase 50 anos. Como eu disse antes, não é uma novidade na obra de Haraway o interesse por histórias interespecíficas, o devir conjunto entre humanos e outros viventes, o amor multiespécie, mas O manifesto das espécies companheiras elabora um programa teórico, e político (ainda que desta vez mais implícito do que em Um manifesto ciborgue), para essa investigação, trazendo para o primeiro plano termos como: alteridade significativa, co-histórias, espécie companheira, amor, as preensões de Whitehead etc.

Muito do que é apenas sugerido aqui retornará de maneira muito mais detalhada em When species meet [Quando as espécies se encontram] ou Staying with the trouble. Se pensarmos na ideia de Haraway de saberes situados, ela está de fato ressituando suas condições de produção de saber, quem são seus e suas colegas de pesquisa (inclusive com assistentes de pesquisa não humanos), quais os problemas em relação ao qual seu pensamento busca elaborar uma posição etc. Isso está bastante marcado na troca de slogans dos manifestos: antes ela usava Cyborgs for earthly survival! [ciborgues para a sobrevivência terrestre], e no novo manifesto ela adota Run fast, bite hard [Corra ligeiro, morda com força]. A figura ciborgue vai para o segundo plano como um espaço de luta possível, suponho que devido à militarização generalizada dos Estados Unidos e do Norte após os atentados do 11 de setembro de 2001, e, em diferentes textos desse período, a figura muito mais mundana do cão, do gato, da ovelha, mas também do rato e do chimpanzé de laboratório, aparecem como esses novos espaços de disputa política, linguística e conceitual.

Como pensar um trabalho teórico que é, também, um manifesto? O que significa escrever um “manifesto”? Quais são suas peculiaridades neste caso?

Para Haraway, há uma genealogia direta de seus manifestos ao Manifesto comunista, no sentido de pensar um texto que articula avanços teóricos com uma análise da situação corrente, dos meios de ação política disponíveis e dos principais atores (ou vítimas) desse contexto. Penso que para Haraway é importante a cada mais ou menos 15 anos divulgar uma reorganização de seu pensamento na forma de um manifesto, pois para ela não existe uma teoria filosófica ou biológica que seja apolítica. Não no sentido de que uma teoria científica ou filosófica possuiria essa ou aquela inclinação política, e por isso deveríamos defendê-la ou rechaçá-la, mas no sentido de que jamais podemos esquecer a materialidade da linguagem e do pensamento, e que qualquer teoria que encontre em que se agarrar possui consequências mundanas às quais devemos estar sempre atentos.

Haraway é totalmente contra a ideia de que os fatos devem nos silenciar, pelo contrário, cada fato adiciona coisas ao mundo (ou adiciona mundos ao mundo), e quando novas coisas vêm ao mundo, precisamos pensar como nos organizar, como distribuir sua abundância. Para um chamado à organização, nada melhor que um manifesto.

De que forma Haraway pensa o conceito de “outro”, especialmente nos termos que ela postula de “alteridade significativa”? Quais são suas especificidades?

Como na primeira pergunta, aqui também temos algo atravessado por uma questão tradutória do livro. Para criar o que traduzimos como alteridade significativa, significant otherness, Haraway joga com um termo comum na língua inglesa, significant other, que optamos por traduzir por outro significativo, ainda que esse não seja um termo corrente em português. Significant other se refere geralmente a um parceiro ou parceira em uma relação íntima, sem revelar informações tais como gênero, estado civil etc., mas também pode significar apenas uma pessoa com a qual se tem uma relação próxima. Para o uso que Haraway faz do termo, é essencial que ele se refira a um outro e que esse outro signifique, isto é, faça semiose. Assim, se torna mais fácil de visualizar a forma da alteridade que ela apresenta em seu manifesto: relações materiais-semióticas recíprocas, mas não necessariamente simétricas, entre seres que constituem um ao outro.

As primeiras linhas do texto já nos dão o melhor exemplo. Haraway recebe avidamente as lambidas de Cayenne, elas são outras que significam uma para a outra, não uma humana qualquer, não uma cadela qualquer, e, nesse beijo, trocam código genético por meio de bactérias e outros micro-organismos. Sua relação é material, semiótica e historicamente única, ainda que remeta a infinitos outros amores entre humanos e cachorros ao longo de milhares de anos.

Como o debate sobre natureza e cultura, ou melhor dizendo natureza-cultura, aparece no livro?

Essa é uma pergunta bastante ampla, mas vou sublinhar um aspecto específico do livro em relação a esse tema. O manifesto das espécies companheiras é o primeiro livro a empregar o termo natureza(s)-cultura(s), ou nature(s)culture(s) em inglês. Haraway já havia escrito muitas vezes natureza/cultura em seus textos, em referência a essa cisão ontológica tradicional da metafísica moderna. Seu objetivo na época era analisar de que maneira ela era insuficiente para dar conta dos emaranhados materiais-semióticos que ela estudava. N’O manifesto, essa barra desaparece ou, na edição brasileira, se torna um hífen – um traço de união, como dizemos em francês.

O termo natureza(s)-cultura(s), portanto, sublinha a inseparabilidade das coisas que os modernos se habituaram a dividir. Ele enfatiza mesmo a indecidibilidade a nível teórico, e que dirá pragmático, se algo é cultura ou é natureza. Naturezas-culturas antecedem e sucedem qualquer tentativa de purificação definitiva desses polos. Isto é, pode-se afirmar que algo é natureza ou é cultura apenas temporária e tentativamente em uma rede material-semiótica muito específica, na medida em que se separa o que estava junto e se coloca muito trabalho em mantê-los separados. As naturezas-culturas se tornam então um lugar de encontro: de carne e linguagem, história e mundo.

Em que sentido seu postulado “as espécies companheiras” é uma tentativa de se afastar do “pós-humanismo”? Por que ela busca essa dissociação?

A discussão teórica do pós-humanismo, sobretudo a feminista, rapidamente se aproximou e absorveu o Um manifesto ciborgue, incluindo-o em seu recente cânone e Haraway, de fato, empregou o termo pós-humano ou pós-humanismo em algumas (raras) ocasiões. Algumas pesquisadoras centrais do pós-humanismo, como Katherine Hayles e Rosi Braidotti, são referências importantes no pensamento da filósofa. Mesmo assim, Haraway vê a necessidade de se afastar do campo do pós-humanismo. Ela o faz porque identifica, sobretudo na corrente que depois viria a ser chamada de transumanismo, uma forte tendência à negação do corpo e da materialidade como um todo. Ela vê ideias de tecnoutopias de libertação do espírito da “prisão de carne” por meio da tecnologia, promovida sobretudo por homens brancos do Vale do Silício, que lhe causam arrepios e a fazem correr para o outro lado. Certamente, em parte, a mudança de foco representada pelo Manifesto das espécies companheiras leva em conta essa rejeição de certas posições pós-humanistas.

De que maneira podemos situar o debate proposto por Donna Haraway no contexto global atual, sobretudo diante de novo regime climático?

Falando a partir de O manifesto das espécies companheiras, se trata, em primeiro lugar, de reconhecer quais relações de companheirismo reproduzem as possibilidades da nossa existência. Quantas pessoas, animais, plantas, fungos, bactérias e outros seres (para falar naqueles apenas deste mundo) estão envolvidos na produção das condições mais básicas da minha existência no cotidiano: minha alimentação, digestão, o que eu visto, a qualidade do ar que eu respiro, as condições climáticas do meu entorno. Rapidamente, se nota que o eu é material e semioticamente imbricado com tantas outras existências, que suas fronteiras não são claras; a individualidade é uma ilusão cuidadosamente cultivada.

A ideia não é propagar uma mensagem vaga de que “tudo está conectado”, que frequentemente leva ao imobilismo ou a tornar equivalente quase qualquer tipo de ação política. Trata-se de uma colocação mais situada, tudo está conectado a algo, para parafrasear um texto mais recente de Haraway. É por meio das muitas conexões que nos produzem que somos afetados por escalas maiores, e também é uma maneira como podemos afetá-las. Em todo ambiente há muitas camadas de locais e globais, uma expressão que aparece algumas vezes no Manifesto. Isso é importante de manter em mente porque a ciência climática, em especial a amplamente divulgada, é feita sobretudo a partir de modelos que veem a Terra como se estivessem fora dela; isso não é um defeito, é o seu poder. Mas aqueles que têm o pé na terra de modo irremediável, não podem pensar apenas ao nível dos modelos globais; há um cuidado que precisa ser direcionado a seu entorno, àqueles companheiros e companheiras que tornam este ambiente vivível.

Qual a importância de conectar viventes para tornar o futuro vivível neste planeta?

Seguindo o que eu vinha dizendo, um futuro vivível passa por inventar maneiras de viver e morrer bem juntos, ainda que sob condições cada vez mais adversas. Mesmo para os humanos, que têm a pretensão de ter se estabelecido como a maior força deste planeta – simplesmente porque podem destruir a Terra, seja num piscar de olhos ou em uma lenta morte agoniante –, viver uma vida plena e morrer de maneira digna são enormes privilégios. Para as outras espécies sob nosso jugo, a situação também é terrível: algumas poucas são multiplicadas infinitamente para produzir valor, enquanto outras desaparecem para sempre. Por isso, é claro, não existe futuro vivível em que há capitalismo. Os manifestos de Haraway, apesar de suas transformações, nunca abandonaram seu ferrenho anticapitalismo, em favor de um programa de libertação generalizada e responsabilidade mútua. O projeto de habitar o mundo com atenção e cuidado a seus companheiros e companheiras em múltiplas escalas é um convite a cultivar outros modos de vida e a aprender com aqueles que já aprimoraram essas tecnologias.

Deseja acrescentar algo?

Apenas que recomendo a leitura de Donna Haraway para todas aquelas e aqueles interessados em um pensamento ao mesmo tempo delicado e feroz. Imaginar outras formas de viver as nossas vidas, de habitar a Terra, é uma tarefa urgente que se impõe a nós independente de nossa vontade. Nossas companheiras e companheiros, nossos outros significativos, se os olhamos com cuidado, nos dão a oportunidade, e o privilégio, de pensar com eles.

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