Marielle, Moa, Marley, Mineirinho

“Os tomados de terror lhes parecem todos mulherzinhas, ou bichas, ou ainda animais acuados. Diante dos gritos de guerra, não devem dar nenhum pio. Se vocês querem viver, prestem bem a atenção – vocês devem se fazer de mortos”

Por Priscila Figueiredo | Imagem: Pablo Picasso, Mulher brincando com cachorro

I-Em março deste ano, a um evento para lembrar o assassinato de Marielle Franco, organizado no saguão da Câmara Federal, um grupo de parlamentares de partidos vários como PSDB, PV, DEM, PSL, liderado por um congressista dessa última agremiação, achou conveniente justapor uma pequena manifestação a favor do direito dos animais e, além de fazer soar a gravação de latidos e outros sons de bichos, segurava um banner preto com o tema do protesto e o desenho de um cachorro[i]. Não houve dúvidas, para muitos de seu críticos, que se tratava de um boicote ao tributo que acontecia no mesmo local, tanto mais que quem o concebeu fora o mesmo deputado eleito que durante a campanha presidencial tinha partido ao meio uma placa de rua com o nome de Marielle. A opção, no entanto, de azucrinar um tributo com o referido protesto intrigava, por mais de uma razão, entre elas a justificativa que um dos ativistas dera a um repórter: os cachorros devem ser bem tratados; até porque, mesmo quando isso não acontece, acrescentam, logo abanam o rabo a um sinal de carinho. A defesa que então estariam fazendo dos animais em geral se especificaria, como já indicava a figura na faixa que levantavam, tornando-se especialmente defesa dos cachorros, explicada pelo fato de que afinal estes não guardam ressentimento.

Essas linhas cruzadas de manifestação constituíam um fato digno de análise. É inequívoco que a ideia era perturbar o andamento normal da homenagem ao lado, mas talvez não fosse exagerado pensar que se tratasse não apenas de desviar a atenção do evento, mas também de estabelecer uma comparação. Na verdade, ajuntavam com seu boicote a parte de um raciocínio ou quem sabe um silogismo que intencionavam construir. Quem, do outro lado, não esquece um malfeito que lhe fizeram, quem do outro lado se mostra ao contrário reativo e capaz de lembrá-lo a todo momento, com obstinação? Os manifestantes ou a própria Marielle? Ou serão ambos? Uma porque insistia em reparar os muitos assassinatos cometidos pelas milícias e lutar contra seu poder avassalador, ou os deputados solidários a ela por se obstinar em exigir o avanço das investigações? Enquanto uma linha do contraponto indagava “Quem matou Marielle?”, na outra elogiava-se a vulnerabilidade que se esquece de si, como no caso do animal que não guarda rancor mesmo se maltratado. Um bom animal é o que for capaz de anistia e amnésia. Como explicou o deputado Daniel Silveira: “Os cachorros às vezes incomodam, mas no segundo seguinte estão abanando o rabo, por isso não tem por que você maltratar um animal”. Lembremos especialmente do cachorro, aquele que mais vale honrar, pois este sempre faz tabula rasa do passado. A um sinal de seu dono, abana o rabo e esquece a pancada mais recente. O problema não é ser frágil, mas ruminar e se revoltar.

Outra hipótese ainda se impõe – estarão eles comparando os cachorros a Marielle? Mais vale defendê-los que a ela, e ela valeria menos que um cão, fazendo ressoar o juízo que a desembargadora Marília de Castro Neves manifestara numa rede social, como explicaria depois, na condição de mera cidadã: “(…) qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”[ii]. É preciso fazer terra arrasada de todo mimimi (“da esquerda” seria um pleonasmo), essa gíria que, como alguns já me lembraram, talvez tenha como antecedente o “nhenhenhém” de FHC. A onamatopeia reflete que toda reivindicação de justiça, em qualquer âmbito, é um grunhido ruidoso, a que não devemos mais dar ouvidos. O que reconheço como “valor” apenas se dá entre produção e consumo — é onde posso “agregá-lo” ou não, pois nada mais importa.

II- Los perros ladran, pero la caravana avanza

Quando alcançou a casa de seu dono o animal já caía morto, ferido pelos mesmos homens que havia pouco tinham simbolicamente rasgado uma placa com o nome de Marielle, seguindo o exemplo do que já tinham feito no Rio de Janeiro os deputados Daniel Silveira e Fred Costa. O fato ocorreu em Muniz Ferreira, cidadezinha de 7000 habitantes no Recôncavo Baiano, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018. No mesmo dia, os organizadores da carreata publicaram uma nota de desagravo no WhatsApp: “O Movimento Direita Nazaré vem, por meio desta, esclarecer que o fato que culminou na morte de um cachorro da raça pitbull foi antes de tudo um fato típico de autodefesa e autopreservação do autor. Não informaremos o nome do mesmo, mas podemos dizer que é policial militar, inclusive de ótima reputação e pessoa que prima pelo respeito à vida, inclusive dos animais”. A delegada replicou a versão do acusado: “Ele bateu o pé duas vezes no chão para afastar o animal. Na terceira, com receio de ser mordido, deu o tiro”. Por fim, emitiu sua opinião pessoal: “A família alega que o cachorro era dócil, como toda família sempre diz”[iii].

Marley deve ter lhes parecido atrevido ao latir enquanto passavam. Quiseram com isso lembrar: latiu para nós, está morto, seja latir uma metáfora ou não, venha, portanto, de homem ou de cão. É preciso deixar estirado na calçada aquele que mostrou petulância em sua forma fraca de existir ou e não exultou enquanto a caravana passava, mas pôde antes parecer um pouco ranzinza, pois Marley, como a polícia — e o próprio autor dos disparos, que seria policial também, à paisana na ocasião — se apressou em explicar, era pitbull, a raça sanguinária, o búfalo-cão[iv]. Mas a dona do cachorro dissera antes dele que era “uma mistura com pitbull”. De fato, as fotos do cãozinho mostram um inequívoco vira-latas, como o Manchinha, morto a golpes de barra de ferro por um segurança do supermercado Carrefour e de cujos olhos parecia escorrer um fio de tinta nanquim, lhe dando a feição de um pierrô triste. Quanto a Marley, só um olhar mais experimentado discriminaria umas das raças de sua mistura, que devia ao pai, Rex, um espécime puro da raça meliante, embora o espírito desse qualificativo estivesse antes o nome da mãe, a vira-latas Bandida. Ora, essa origem ambivalente vinha a favor do que o criminoso alegara, dizendo que o cachorro tinha avançado sobre ele. E assim foi morto em legítima defesa — muito bem, tudo se resumiu a um “auto de resistência”. Ou, tomado de surpresa ou violenta emoção, investira contra o bicho suspeito, que numa das fotos vemos que era malhado, de perna curta e orelhas dobráveis.

Um latido de cão pode arrebentar os nervos daquele que não suporta nenhuma dissonância em meio a sua celebração mortífera, e a potência de que se sentiam investidos aqueles homens é tão melindrável como o poder real que aparentam. Eles só querem ouvir o silêncio que podem preencher com suas risadas ou a música insuportável de sua caixa de som. O tiro numa pata não basta – era necessário assustar, atirando em outra, e se regalar com o bicho correndo. A imagem que homens também podem ter quando submetidos por uma pistola, são, como dizem os justiceiros, a imagem de ratos. Quer-se contemplar a vítima rastejar, pedindo clemência a seu carrasco ou se retorcendo de dor porque ainda têm um pouco de vida. Talvez ainda possam escutar: Isso é para aprender a não me contrariar! E quem o profere solta uma risada, pois evidentemente o assim corrigido não terá tempo de aplicar a lição. A morte o espera ao lado e ri baixinho apoiada em sua foice, pois sabe que não haverá nada a aprender. É preciso dar o castigo, mostrar quem é mais forte, mas, uma vez assim lembrado, o fraco é extinto, sem jamais voltar a ter a chance de reincidir ou mostrar que assimilou o corretivo. A sentença humana, que também podem dirigir aos cães, é uma paródia sinistra: eu trato você como se fosse um homem que humilhei e virou um cão, mas você não pode articular uma palavra; os sinais de seu sofrimento poderiam ser os mesmos de um homem que torturei. Eu tenho uma pistola, e o que você tem? Você tem o cu na mão, pois em vez de me enfrentar corre para a mamãe socorrê-lo dos homens fortes. O que é desprezível atrai a sola do meu sapato como um verme que ainda ousa se mexer.

Os tomados de terror lhes parecem todos mulherzinhas, ou bichas, ou ainda animais acuados, que saem guinchando. Estão resumidos sob a categoria de cagões: dos paralisados pelo medo e pela incontinência fisiológica. Diante dos gritos de guerra, não devem dar nenhum pio, nenhum latido, não devem avançar. Se vocês querem viver, prestem bem a atenção – vocês devem se fazer de mortos.

III–Moa do Catendê não tinha crimes nas costas; era um homem manso e querido na sua terra, mestre de capoeira e idealizador do bloco carnavalesco Afoxé Badauê. Foi punido com 12 facadas e apenas por manifestar uma preferência política naquela tarde de sufrágio nacional. Também não foi morto pela polícia e em nome da lei – mas decerto em nome de alguma justiça, mais abstrata ainda, ou de alguma missão talvez, posta em prática quando ele, confessando seu voto no candidato do PT, também se revelou subitamente um inimigo a ser assassinado. Terá havido mais alguma razão? Terá sido também por racismo? Não é possível saber, mas o acaso das 12 facadas (por que tantas?) desferidas nele me lembraram a ênfase nos números (ou melhor, o esforço em torná-los irrelevantes) que Bolsonaro dera ano passado ao defender a exclusão de ilicitude para o policial que matar em legítima defesa: “Ele entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado”. Também me acudiram os 13 tiros de metralhadora no célebre Mineirinho, assaltante morto pela polícia em 1962, no Rio de Janeiro, e os quais Clarice Lispector assim escandiu numa crônica famosa, publicada em A legião estrangeira, livro de 1964[v]: “Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro”. Por que preferiu contar os tiros de que ele foi vítima a contar os seus crimes? Na desmesura dos treze estampidos se revelava uma falsa justiça, que tornava coniventes e dissimulados todos os cidadãos de bem, cujo sono era velado pelo policial que Bolsonaro condecoraria. “O décimo-terceiro tiro me assassina, porque eu sou o outro. Eu quero ser o outro”, diz Clarice depois de propriamente ter passado pelos 12 passos da paixão. Nas fases ou estampidos intermediários, mais precisamente no quinto e no sexto disparo (“me cobrem de vergonha”), ganhava evidência o quanto a ação policial pode revelar um substrato mais arcaico de impulso para linchar e sadismo. Só fora possível dizer “somos todos perigosos” porque em algum momento ela se reconheceu como perigosa e apta ao assassinato –  isso ela também podia ser antes de vir a ser Mineirinho ( “Não sei de crime de que não seja capaz”, ela poderia também ter dito, como a bela personagem de um romance alemão herdeiro do Iluminismo). Findo o itinerário das 12 explosões, a narradora se distinguia qualitativamente do ser inicial, complacente e sonso, que dera à Justiça carta branca para velar o seu sono de classe média. Fulgurava agora a compreensão, a um só tempo cognitiva e moral, de que a justiça não era justiça, pois a verdadeira seria aquela “que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. (…) Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente”.


[i]Há divergência entre uma reportagem em outra sobre o aúdio, ora apenas com latidos de cachorros, ora com outras vozes de animais. Cf. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/03/deputados-irrompem-ato-por-marielle-na-camara-com-latidos-de-cachorro.shtml, https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/03/14/interna-brasil,742930/grupo-de-deputados-reproduz-latidos-durante-homenagem-a-marielle.shtml, https://revistaforum.com.br/blogs/blogdogeorge/deputado-que-quebrou-placa-de-marielle-fracassa-ao-tentar-atrapalhar-homenagem/

[ii] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/08/07/interna_politica,775955/stj-aceita-queixa-crime-contra-desembargadora-no-caso-de-marielle.shtml

[iii] Cf. a detalhada reportagem de Roberto Kaz, “Direitos caninos para caninos direitos” (https://piaui.folha.uol.com.br/materia/marley-e-nos/)

[iv] “Segundo a polícia, o cachorro era da raça pitbull e estava preso em uma coleira. O animal conseguiu se soltar quando algumas pessoas que participavam de uma carreata se aproximavam” (https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/10/02/cachorro-e-morto-a-tiros-em-passeata-homem-alega-que-agiu-em-legitima-defesa-e-e-liberado.ghtml)

[v]“No dia 1º de maio de 1962, sugestivamente a data comemorativa do ‘dia do trabalho’, os jornais cariocas noticiavam a morte do assaltante Mineirinho, apelido pelo qual era conhecido o fugitivo José Miranda Rosa. Há dias procurado por mais de trezentos policiais, Mineirinho havia escapado do Manicômio Judiciário e jurado nunca mais voltar ao cárcere para cumprir sua pena de 104 anos. Acuado pela polícia, acabou crivado de balas e seu corpo foi encontrado à margem da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, no Rio de Janeiro” in Yudith Rosenbaum, “A ética da literatura: leitura de ‘Mineirinho’, de Clarice Lispector”, Revista Estudos Avançados, Universidade de São Paulo, vol.24, no. 69, 2010. O que direi muito brevemente a respeito da crônica não acrescenta nada em relação ao que já se disse nesse estudo.

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3 comentários para "Marielle, Moa, Marley, Mineirinho"

  1. Adriano Picarelli disse:

    Que belo trabalho com o texto de Clarice Lispector, vou procurar o texto de Yudith Rosenbaum…

    Ao ler, me veio imagem de um trabalho com as mãos… num texto terra solo que se revolve… mãos que afundam, trazem… plantam…

    Talvez precisemos trazer mais Clarice Lispector, Ana Cristina César…

  2. Adriano Picarelli disse:

    Priscila Figueiredo, seu texto me fez lembrar…

    Palestra de José Miguel Wisnik | Hora de Clarice 2011, canal YouTube imoreirasalles, 16 de novembro de 2016

    https://www.youtube.com/watch?v=AJvBOJXscLQ

  3. Adriano Picarelli disse:

    “Leia o discurso de posse de Ernesto Araújo no Itamaraty”, Transcrição de Cristian Derosa, Estudos Nacionais, 03 de janeiro de 2019

    http://estudosnacionais.com/politica/leia-o-discurso-de-posse-de-ernesto-araujo-no-itamaraty/

    Uma vez que se fala de textos e ética… e da política que vivemos…

    Esse discurso me causou grande impacto…

    Ele cita Proust, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Renato Russo, Raul Seixas…

    Qual desses autores concordaria com ao menos uma ideia de Ernesto Araújo, de Olavo de Carvalho, do catolicismo que eles reproduzem…?

    Por que Ernesto Araújo constrói desse modo seu texto?

    Qual a ética de seu texto?

    E Proust, Clarice Lispector… são autores de frases? Frases soltas, abertas (não vou trazer Eco aqui, ele não tem nada com isso)?

    Grande parte da violência que vivemos (e ações das igrejas, a meu ver, foram das mais terríveis que já vi) se dá por palavras…

    Com palavras atacaram a escola pública, a Queermuseu (aqui, Eco me ajudou a entender que a coisa era muito maior do que esta ou aquela imagem), o medo foi produzido por palavras, textos…

    Como se vê, também, no discurso de Ernesto Araújo…

    Além do mais evidente… uma Ave-Maria em tupi-guarani… em 2019… com tudo o que já se discutiu em Antropologia, História…

    Qual a ética desse texto?

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