Era Trump: exceção ou normalidade?

Ele combinou a crença em uma nação excepcional, a “América para americanos” e o populismo estadunidense do fim do século XIX. O resultado deste amálgama é visto como aberração política. Mas talvez seja mais banal do que parece

Imagem: Sebastien Thibault

I.

Em uma cena de “No tempo das diligências” (Stagecoach), clássico faroeste de 1939 que alçou John Wayne ao estrelato, o banqueiro Gatewood se lamenta aos companheiros da aventurosa viagem: “Eu realmente não sei para que serve o governo. Em vez de proteger os empresários, mete o nariz em seus negócios. Agora estão planejando criar auditores de banco. Como se nós, banqueiros, não conhecêssemos nosso ofício!”. Depois, à maneira pedante das pessoas que acreditam que suas soluções são sempre originais, dispara: “Eu tenho um lema que deveria ser divulgado em todos os jornais: a América para os americanos!” E conclui: “O que esta nação precisa é de um presidente que seja um homem de negócios!”

Imaginemos por um momento que Gatewood tivesse realmente existido. Ou melhor, tomemos o discurso do personagem como uma fala verossímil de um banqueiro de 1880, ano em que se passa a história do filme. Qual teria sido a reação desse banqueiro se, visitado por uma visão profética, viesse a saber que 136 anos mais tarde, em 2016, seu desejo finalmente se tornaria realidade com a eleição de Donald Trump? Possivelmente exultaria de alegria, ou talvez ficasse desconsolado ao saber quanto tempo demoraria até isso acontecer.

A esta altura, muitos leitores e leitoras poderiam argumentar que de forma alguma uma tal visão se tornaria realidade apenas com Trump. Primeiro, porque quase todos os presidentes dos Estados Unidos foram, em certa medida, homens de negócios. Segundo, porque a ideia da não-interferência do governo nos negócios privados teve ampla aceitação entre muitos deles. Bastaria citar dois dos mais emblemáticos: Herbert Hoover, que assumiu a presidência no fatídico ano de 1929 com uma clara agenda de não-interferência, e Ronald Reagan, que expressou seu credo neoliberal já no discurso de posse em 20 de janeiro de 1981, com a frase: “o governo não é a solução do nosso problema, o governo é o problema”. Além disso, Reagan despontou como figura pública inicialmente como ator de Hollywood – era, portanto, um rosto conhecido no ramo do entretenimento televisivo – e desde a sua campanha eleitoral, revolucionou a estratégia de marketing político, propondo-se como homem “novo” e próximo das pessoas, que sabia falar a linguagem comum das pessoas comuns. Até o lema “America first” de Trump seria uma espécie de revisitação (ainda que em chave claramente diferente) do “America for the americans”, frase que passou a resumir a Doutrina Monroe de 1823, e que o banqueiro do filme alardeava como sua.

Trump não inventou nenhuma dessas coisas, diria a leitora ou leitor. Não há nele, portanto,nenhuma exceção. Está aqui o problema. Porque se Trump não foi exceção em nenhum desses pontos, a sensação amplamente compartilhada (e não completamente sem razão) é de que ele representou, sim, uma ruptura na ordem “normal” das coisas como tinham sido até então. De acordo com esse ponto de vista, Trump não representa os Estados Unidos – ou a America, como os estadunidenses normalmente se referem ao seu país. O hiato representado pelos seus quatro anos de presidência teriam culminado no deplorável episódio do assalto ao Capitólio, há mais de um mês. Episódio ao qual o presidente eleito Joe Biden se referiu com as textuais palavras: “Esta não é a América”. Ao governo de Biden, caberia então fazer o país voltar à normalidade, tarefa que transparecia claramente nos discursos da sua posse, no último dia 20 de janeiro.

II.

Na realidade, Trump é o mais recente símbolo de um debate que há quase cem anos é fonte de discussão entre políticos e estudiosos da história dos EUA: o alegado “excepcionalismo” americano, que é a crença de que os Estados Unidos são um país inerentemente distinto das outras nações da Terra. Sempre houve quem criticasse seriamente essa crença, não só fora, mas dentro do próprio país, principalmente a partir da Guerra do Vietnã. Muitos argumentam que a história dos Estados Unidos não difere radicalmente da europeia, ambas sendo marcadas pela desigualdade de classes e raças e pela disposição à guerra. Além do mais, seria ingênuo acreditar que a própria ideia de “excepcionalismo” de um povo ou nação tenha surgido com os Estados Unidos.

No entanto, muitos analistas admitem a dificuldade de negá-la por completo. Os Estados Unidos são, afinal, a primeira grande democracia moderna, cujo caráter de novidade e exceção não escapou aos olhos atentos do francês Alexis de Tocqueville, autor do clássico “A Democracia na América”. Teria sido ele o primeiro a usar o termo “excepcional” para se referir ao país em 1840, no segundo volume da obra. A crítica necessária, para aqueles analistas, diz respeito ao fato de ter-se deduzido uma natureza excepcional da mera observação de uma situação excepcional feita por Tocqueville. Nesse sentido, um termo que inicialmente tentava explicar passou a justificar. Por exemplo, passou a justificar a conduta intervencionista da política externa americana, porque ao caráter excepcional dos EUA corresponderia uma missão especial, a de ser farol para as outras nações do mundo. É essa transformação (ou, se preferirmos, corrupção) do termo que tem de ser criticada. Mas então a pergunta continua válida: exceção ou não exceção?

Talvez a melhor saída seja trabalhar com o uso das duas categorias. Os Estados Unidos seriam um país não-excepcional na forma, mas, de alguma forma, excepcional. O mesmo vale para Trump e para alguns conceitos comuns no vocabulário político cotidiano, quando aplicados ao seu governo.

Tomemos, por exemplo, o populismo. Já no final do século XIX, o Partido Popular, fundado em 1892 e extinto em 1909, havia se identificado com um movimento de mobilização literalmente popular e regional. Exerceu um grande papel na luta anti-oligárquica e contra as multinacionais que começaram a ser implementadas no país após o fim da guerra civil. Muito associado a um tipo de agrarianismo, o populismo de que se fazia porta-voz (que, aliás, recebeu a alcunha de “populismo das pradarias”) juntou-se à antiga ideia meritocrática amplamente difundida no país e difundiu a imagem do pequeno empresário de si mesmo, que se insinuou na mentalidade coletiva. Como era natural que fosse, essa imagem era carregada de um sentimento anti-establishment, afinal havia sido contra o establishment que as mobilizações populares tinham ocorrido. Em parte devido a esse contexto, populism, nos EUA, nunca havia sido um termo tão carregado de polêmica no meio intelectual progressista como o fora na América Latina ao longo do século XX. Em geral, era um termo bem acolhido, visto como antídoto contra a fossilização de um sistema de democracia representativa no qual o presidente da vez vivesse dentro da bolha da Casa Branca e perdesse contato com a realidade do povo.

Entretanto, Trump mostrou, talvez não pela primeira vez, mas certamente pela primeira vez de dentro da Casa Branca, que existe também um populismo tóxico. Que certas coisas que em si não são necessariamente negativas, como a identificação do povo com uma certa ideia de nação – nóssomos os Estados Unidos da América, nós que trabalhamos diariamente, que nos sacrificamos para mandar nossos filhos à universidade, que pagamos altos impostos, etc. – podem ser a alavanca para um ataque às instituições. Ataque que, antes de se concretizar num ato como o que vimos mês passado, é um ataque no sentido figurado. Ou seja, a ideia de que as instituições são parte de um sistema perverso, que se sustenta às nossas custas, que suga nossa energia para dar força a uma oligarquia. Este foi o discurso de Trump durante todo o seu mandato. Esse discurso, como sabemos,conquistou a muitos, por diversos motivos. Um deles foi a identificação que se criou entre a figura do Trump homem de negócios bem-sucedido e com pouco respeito pelas regras que limitam a vontade empresarial (o ídolo do banqueiro Gatewood) e aquilo que existe de profundo na alma americana – a própria imagem de nação excepcional. É claro que ajudou o fato de ele ser um homem da TV, conhecido do público estadunidense há décadas, admirado enquanto entertainer até por quem passou a repudiá-lo politicamente. E sabemos também do papel que as mídias sociais e as fake news tiveram na alçada da sua popularidade. Mas isso não invalida o fato de que há muita America por trás do Trump. Há, portanto, um normalismo, um não-excepcionalismo, na sua figura de presidente. Resta ver qual é o excepcionalismo presente nele e no tipo de populismo que representa.

III.

Se o caráter anti-establishment do populismo de Trump, por um lado, não é exceção na história da política estadunidense, por outro, é portador de uma contradição… excepcional. De fato, é muito interessante que ele, oriundo de uma família de oligarcas e que é um oligarca em todos os sentidos, tenha conseguido se apresentar como o paladino do povo, dos mais necessitados e das faixas inferiores (no sentido econômico) da população americana. Mas atenção, não está aqui a novidade. A bem da verdade, isto não é lá algo de excepcionalmente estadunidense. Sem sequer incomodar os outros países do continente, já na Grécia antiga vê-se algo muito similar na história da democracia ateniense. Mas, como dissemos, não é esse o ponto.

O ponto é que o sentimento anti-establishment do populismo norte-americano do passado era ligado ao campo, aos interesses do pequeno produtor e do pequeno proprietário. Ora, a população do midwest e em geral as zonas rurais do país votaram em larga maioria no candidato republicano em 2016: um oligarca que pretendia encarnar a luta anti-oligárquica, transformando, talvez deforma irreparável, a interpretação que comumente se fazia de populismo no país.

Para se compreender qual a relevância de marcarmos a diferença entre os dois populismos, aquele do Partido Popular e o de Trump dentro do Partido Republicano, é interessante usarmos, mais uma vez, as duas categorias – não-excepcional/excepcional. O não-excepcional, em qualquer democracia séria, é a desconfiança da população no confronto de quem ocupa cargos públicos. Essa desconfiança, em termos simples, é um elemento-chave do funcionamento da própria democracia. É o que permite que haja diferentes instituições que controlam o trabalho e o peso umas das outras, e que seja a população a decidir, em última instância, quem as ocupa. Não ser “confiável” não significa ser negativo, pelo contrário. Esse é um dispositivo positivo, porque permite estarmos atentos e sabermos, ao menos em teoria, do que se passa no interior dos palácios.

Era este tipo de desconfiança que movia o projeto populista dos movimentos do final do século XIX e início do século XX. A desconfiança, nesta chave, não é uma falha, mas um instrumento que permite expandir a democracia, ou para usar um termo mais apropriado, que trabalha em prol da qualidade da democracia. É um instrumento de prestação de contas, de transparência. Mas deve ser,de fato, um instrumento de atenção, não uma ideologia fideísta, como faz o populismo de Trump. Este, em vez de ser lenha que permite aumentar o fogo da lareira pra que ele produza mais luz e calor pra todos que estão na sala, é gasolina que serve para atear fogo na casa. Este, quando existen uma democracia, deve ser exceção. Esperamos que o tenha sido.

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