Coronavírus: por que a ameaça persiste

Morbidade é moderada; mas poder incomum de contaminação torna doença gravíssima. Quarentenas drásticas, como na China, podem ser inevitáveis. O que ocorreria no Brasil? E quais os possíveis impactos na economia mundial?


Por Antonio Martins

Repare no gráfico abaixo, publicado na manhã de terça-feira (11/2) pelo Le Monde, com base em dados da Organização Mundial de Saúde. Ele compara o poder de infeção da doença provocada pelo Coronavírus (agora oficialmente denominada Covid-19) com o da SARS, uma moléstia pulmonar semelhante que eclodiu na China em 2003. As curvas são impressionantes – e os números também. A SARS, que à sua época apavorou o mundo e atiçou o racismo antiasiático, chegando a ser comparada a uma “nova peste negra”, levou mais de seis meses para contagiar 7 mil pessoas. Em apenas duas semanas, o Coronavírus infectou quase 40 mil, dos quais mais de 1,1 mil morreram.

No gráfico está a resposta para uma questão intrigante, levantada pelo filósofo Slavoj Zizek. Ao lembrar que a gripe comum matou, só nos Estados Unidos, 8,2 mil pessoas neste inverno, Zizek perguntava o motivo do enorme alarde, na China e em todo o mundo, diante do Covid-19. Agora, sabemos: que o torna muito perigoso é seu enorme poder de propagação. É este, também, o fator que levou Pequim a decretar medidas extremas e inéditas de isolamento das populações afetadas. É ele, por fim, que faz temer pelo pior, caso o Coronavírus chegue a países como o Brasil; e sugere que, em breve, pode surgir uma nova vítima: a economia mundial.

Contaminação Incomparável

Número de casos confirmados de Covid-19 (curva vermelha), comparado ao número de casos relatados ou suspeitos de SARS-CoV, em 2002-2003

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Primeiro, os riscos à Saúde humana. Ao comentar, na terça, os perigos adiante, o secretário-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanon Ghebreyesus, usou uma imagen forte. Falou que podemos estar enxergando apenas “a ponta de um iceberg”. Mas o professor Gabriel Lehung, chefe do departamento de Saúde Pública da Universidade de Hong Kong e associado à Universidade de Oxford, foi mais específico. Disse ao Guardianque o ritmo de contaminação é muito alto: estima-se até agora que cada pessoa infectada contagie, em média, 2,5 outras. Outro fator muito preocupante é chamada “taxa de ataque” – o percentual de indivíduos que, tendo contato direto com o vírus, adquirem a doença: calcula-se que esteja entre 60% e 80%. Como o Coronavírus propaga-se muito facilmente, pelo ar, é fácil imaginar seu potencial devastador. Lehung calcula que, sem medidas especiais, até 60% da população do planeta pode ser contaminada.

Imagine agora o poder de destruição numa sociedade como a chinesa, de 1,4 bilhão de habitantes. Se 60% forem infectados, e a taxa de morbidade (o percentual dos que morrem, tendo adquirido a doença), se mantiver em torno dos 2% registrados até agora, poderão perecer 16,8 milhões de pessoas. E centenas de milhões, literalmente terão de ser hospitalizadas, por períodos que frequentemente chegam a duas semanas.

Foi provavelmente por terem se dado conta deste risco que as autoridades chinesas adotaram, há duas semanas, medidas extremas de contenção. A população de Wuhan, epicentro da epidemia, foi isolada – privada de todos os meios para deixar a cidade. A medida estendeu-se, em seguida, a toda a província de Hubei, de 86 milhões de habitantes (40% da população brasileira). O comércio está fechado; as ruas, desertas. Espera-se que as pessoas permaneçam em casa. Emily Jane O’Dell, uma acadêmica norte-americana apanhada pela epidemia, relata no Counterpunch que é possível apenas comprar comida em mercados vizinhos. Todos, ao entrar, têm a temperatura medida.

Todo o resto do país, embora não tão drasticamente isolado, entrou em alerta severo. Os feriados do Ano Novo Lunar foram prorrogados por três dias. Mesmo depois, a circulação nas principais cidades — como Pequim, Shangai e Shenzen – caiu drasticamente. O recesso escolar foi estendido. A maior parte das pessoas trabalha de casa, ou simplesmente não trabalha. Uma matéria publicada no New York Times em 10/2 relata que a produção em todas as grandes empresas foi interrompida – entre elas, corporações como Apple, GM e Volkswagen. A reabertura depende de aval das autoridades sanitárias, que exigem, entre outros itens, informações precisas sobre o estado de saúde de cada funcionário. Não se trata apenas da China. A constatação de um único caso, no navio de cruzeiros Diamond Princess, em águas japonesas, levou as autoridades deste país a confinar cada um dos mais de 3 mil passageirosem sua exígua cabine. Como nas prisões, só é permitido deixá-las, e tomar ar fresco no convés, por uma hora ao dia, em pequenos grupos. O isolamento deve durar duas semanas.

Alguns resultados começaram a aparecer, na China. A epidemia parece relativamente circunscrita. Embora haja ocorrências em todas as 23 províncias do país, Hubei concentra 74% dos doentes e registrou 96% das mortes. Desde 4/2, surgiram sinais de que o número de novos casos registrados diariamente diminui. Foram 3156 naquela data e 2015 na terça-feira, 11/2.

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Surgem, então duas perguntas. E se a epidemia chegar a um país como o Brasil? Como promover, nas condições de ataque direto ao SUS, medidas de controle sanitário semelhantes? Como evitar uma propagação com poder de desorganizar por completo o sistema de Saúde? À falta destas medidas, de que forma lidar, em metrópoles abarrotadas e precárias, com uma doença que pode contaminar rapidamente 60% da população, exige internação de duas semanas e tem taxa de morbidade em torno de 2%?

A segunda questão ainda sem resposta é o que ocorrerá com a economia mundial. O PIB da China já corresponde a cerca de 15% do global. É o maior exportador e importador do mundo. Sua produção é parte essencial das principais cadeias produtivas do planeta. Os primeiros setores afetados foram, é claro, os das viagens aéreas e turismo. Mas rapidamente a paralisação chinesa propagou-se. Como mostra a matéria do NYTimes, nesta segunda-feira (10/2) empresas como a Nissan (Japão), Fiat (Itália) e Hyundai (Coreia do Sul) anunciaram a interrupção do trabalho em algumas de suas unidades, devido à falta de componentes chineses. Segundo o texto, o próximo setor a ser atingido, fora da China, é o de eletrônicos.

Mas ainda mais graves serão os desarranjos econômicos e sociais internos, caso outros países sejam atingidos severamente pela doença. Como proteger os setores mais intensamente atingidos (comércio e hotelaria, por exemplo), ou enfrentar a ausência prolongada de populações inteiras ao trabalho?

As respostas da China dificilmente seriam reproduzíveis em países de economia plena de mercado. A capacidade do Estado chinês para centralizar recursos permitiu, por exemplo façanhas como a construção de dois grandes hospitais de isolamento em dez dias, em Wuhan. Mas as medidas são mais vastas, mostra matéria da Agência Xinhua. Além de prolongar o feriado, o governo estabeleceu um amplo plano de administração da economia em crise. Os aumentos especulativos de preços (medicamentos ou máscaras respiratórias, por exemplo) foram vetados. Os bancos, públicos, foram autorizados a emprestar generosamente às pequenas e médias empresas atingidas. Adiou-se o recolhimento de impostos e de prêmios de seguros. Um outro texto do jornal francês Alternatives Economiquessugere que um próximo passo pode ser acelerar a reconstrução de um sistema de Saúde pública.

Na China, todos os serviços sanitários foram estatais entre a revolução de 1949 e 1978, quando os reformas econômicas de mercado abriram caminho vasta privatização. Hoje, os serviços médicos e hospitalares são cobertos principalmente por seguros de saúde – mas os usuários pagam parte da conta, muitas vezes altas. Uma reforma de sentido oposto foi iniciada em 2009, com o objetivo declarado de oferecer cobertura a toda a população. No combate atual ao Coronavírus, todos os tratamentos são gratuitos e oferecido pelo Estado. O jornal francês especula que, diante do risco de retração econômica desencadeado pela Covid-19, o Partido Comunista pode ser tentado a multiplicar os gastos em Saúde. A medida abriria caminho tanto para criar novas ocupações em massa quanto para evitar que as famílias poupem demais, obrigadas a se precaver contra despesas médicas.

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3 comentários para "Coronavírus: por que a ameaça persiste"

  1. Aqui é a Bianca Camargo, eu gostei muito do seu artigo seu conteúdo vem me ajudando bastante, muito obrigada.

  2. sarita disse:

    Como pode o mundo acreditar em coronavírus! Trump mandou assassinar o general iraniano ficou com medo de revanche, inventou o coronavírus para desviar a atenção (foco) do mundo, na intenção de acobertar as consequências que poderiam acontecer. “Ele” conseguiu enganar o mundo! Socorrrrrro meu DEUS ajude-nos!

  3. Luiz Montes disse:

    Tempos dificies estes de Coronas Virus para o turismo. Complemento um pouco mais com meu video no Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=k7AlG0UNrgo&t=3s

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