Chomsky quer ação para levar ultradireita a Haia

Jair Bolsonaro é exemplo mundial da inépcia e insensibilidade no trato da pandemia. Está ao lado de tipos como Trump, Boris Johnson e Narendra Modi. Ligados à aristocracia financeira, devem ser criminalizados pelas mortes que causaram

Por Noam Chomsky e Vijay Prashad, no CounterPunch | Tradução: Gabriela Leite

Os governos federal, estadual e municipal foram comunicados que as reservas de oxigênio estavam chegando ao fim, na cidade de Manaus, uma semana antes da calamidade que levou a dezenas de mortes por asfixia de pacientes com covid-19. Nenhum Estado moderno — como o Brasil — deveria ter de admitir que, após receber um alerta dessa importância, não fez nada e simplesmente permitiu que seus próprios cidadãos morressem.

Um juiz do STF e o procurador geral exigiram que o governo brasileiro aja, mas isso não fez com que Jair Bolsonaro se movimentasse. Todos os detalhes dessa história — esmiuçados no relatório do Advogado-Geral da União José Levi Mello do Amaral Júnior — revelam a bagunça causada pela privatização e incompetência. Funcionários da Saúde sabiam desde o início de janeiro que havia uma escassez de oxigênio iminente, mas seu aviso não teve influência nenhuma. A empresa privada que fornece o oxigênio informou ao governo seis dias antes de a cidade esgotar os estoques de um suprimento crucial na luta contra a covid-19. Mesmo com essa informação, o governo não fez nada; e disse mais tarde — contra todas as evidências científicas — que o “tratamento precoce” não foi usado. A insensibilidade e incompetência do governo Bolsonaro levou ao PGR Augusto Aras a determinar a abertura de um inquérito. Enquanto Bolsonaro hesitava, o governo da Venezuela, em um ato de solidariedade, enviou uma carga de oxigênio para Manaus.

Esses últimos acontecimentos causados por um governo formado por uma  combinação tóxica de privatização, inépcia e indiferença deveriam fortalecer a acusação feita pelos sindicatos de Saúde brasileiros contra Jair Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional (TPI), em julho. Mas a culpa não é apenas de Bolsonaro e o problema não é só do Brasil. O problema são os governos neoliberais, nos EUA, no Reino Unido, na Índia e em outras partes. Governos comprometidos com corporações lucrativas e bilionários, que passam longe do compromisso com seus próprios cidadãos e sua constituição. O que estamos assistindo em países como o Brasil é um crime contra a humanidade.

É chegada a hora de construir um tribunal cidadão para investigar o fracasso total de governos como o de Boris Johnson, Donald Trump, Jair Bolsonaro, Narendra Modi e outros na contenção das infecções por covid-19. Um tribunal que recolhesse informações factuais para assegurar que não seja permitido a esses Estados adulterar a cena do crime; um tribunal que desse ao TPI uma base sólida para fazer uma investigação forense desses crimes contra a humanidade, quando sua própria asfixia política for aliviada.

Deveríamos estar todos ultrajados. Mas ultraje não é uma palavra forte o suficiente.

Esse artigo foi produzido pelo Globetrotter.

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2 comentários para "Chomsky quer ação para levar ultradireita a Haia"

  1. José Mário Ferraz disse:

    “Ninguém pode nos fazer infelizes, apenas nós mesmos”. Este pensamento de São João Crisóstomo, citado na página 149 do livro A Morte É Um Dia Que Vale A Pena Viver, da doutora Ana Cláudia Quintana Arantes, se encaixa como luva na democracia. São as pessoas infelicitadas por estes monstros que deram a eles o poder de infelicitá-las.

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