A tentadora proposta da Economia de Francisco

Se preferir, pode chamá-la de pós-capitalismo. Começa hoje, e vai até sábado, encontro internacional convocado pelo Papa para debater alternativas à crise civilizatória. Na sexta, Leonardo Boff e Vilson Grob debatem com jovens brasileiros

Por Tatiana Machado, Claudia Andrade, Josimar Priori, Mariana Reis, Eduardo Brasileiro, Gabriela Consolaro, Lucas Feres, Maurizio Pitzolu e Klaus Raupp

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> Todos os diálogos são a distância e podem ser acompanhados ao vivo. Participam, entre outros, Vandana Shiva, Kate Raworth, Jeffrey Sachs, Muhammad Yunus e Mariana Mazzucato. A programação completa está aqui.
> O encontro com Leonardo Boff e Vilson Grob é na sexta (20/11), às 10h10 (de Brasília)

Muitas análises, leituras, discussões e ações conduziram ao grande encontro global que acontece virtualmente, a partir de Assis, nesta quinta, sexta e sábado, convocado pelo Papa Francisco. No esperado evento, adiando por conta da pandemia, será possível assistir a mesas com pensadores e atores da economia global, como Vandana Shiva, Juan Camilo Cardenas, Cecile Renouard, Kate Raworth e o Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus. No sábado, o próprio Papa transmitirá sua mensagem aos jovens do mundo todo. Todas as palestras serão abertas ao público através do Youtube.

Na sexta-feira, às 10h10 (horário de Brasília), uma mesa chama a atenção na programação. A única com título em idioma diferente do inglês, a única com pensadores brasileiros, a única apenas com jovens brasileiros. Será a conferência “Responsabilidade sócio-ecológica: olhar global, ações territoriais”, com o teólogo Leonardo Boff e o padre Vilson Groh, que há décadas atua junto às periferias de Florianópolis. O fato é resultado da mobilização de um grupo de brasileiros para levar vozes da América Latina ao centro do palco mundial da Economia de Francisco – a iniciativa estabelecida em torno do chamado do papa latino-americano para “dar nova alma à economia global”. A convocação do Papa, feita em 1º de maio de 2019 em memória de São José Operário, quer “promover juntos um processo de mudança global”, “inspirado por um ideal de fraternidade voltado sobretudo aos pobres e excluídos”.

Em sua análise da encíclica Fratelli Tutti para a coluna Rumo a Assis, do IHU Online, Boff afirma que “a proposta do Papa é uma atitude de confiança no ser humano e em suas potencialidades”. O teólogo aponta para o diagnóstico de uma crise de civilização, em um sistema econômico que devasta a natureza e condena parte da humanidade à exclusão. Mas a amizade social, a solidariedade, a fraternidade insistem em lembrar para o que foi feito o homem, e o cuidado uns com os outros e com a natureza podem dar centralidade a uma nova ecologia integral, que coloque a vida acima do dinheiro.

Sete jovens brasileiros estarão em diálogo com os dois conferencistas. No primeiro bloco, dedicado ao olhar global, entrará em questão a racionalidade neoliberal e seu desmantelamento do social. Após décadas de contestação a formas de organização social e ataques ao Estado de bem-estar social, será possível ainda pensar em reformar o sistema? “Penso numa política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las (…) Não se pode pedir isto à economia, nem aceitar que ela assuma o poder real do Estado” (FT, 177), diz Francisco. De que setores da sociedade podem partir essa política salutar? Qual é o papel dos jovens da Economia de Francisco?

No segundo bloco, os jovens falam “a partir do chão em que pisam”. Das ações territoriais, surgem temas como o direito à cidade, a violência social, as políticas de repressão e extermínio, a gestão urbana militarizada, as práticas agroecológicas, a mística da vida cotidiana. A pobreza real mostra sua cara através das palavras e quer saber o que esperar da Economia de Francisco. O padre Vilson Groh falará também sobre o projeto Casas de Francisco, espaço de educação para as economias que geram vida e diálogo inter-religioso.

Duas das maiores figuras do cristianismo no país encontram sete jovens de diferentes experiências, áreas de estudo e ações concretas, em busca de respostas para um mundo mais justo. É assim que se dará a presença brasileira nas conferências de Assis.

Serviço: Economia de Francisco – Responsabilidade sócio-ecológica: olhar global, ações territoriais, com Leonardo Boff e Pe. Vilson Groh

Data: 20 de novembro de 2020, 10h10 (horário de Brasília)

Transmissão: através do site oficial do evento (https://francescoeconomy.org/)

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7 comentários para "A tentadora proposta da Economia de Francisco"

  1. Francisco J. A. Severiano disse:

    Se Leonardo Boff, o Herege, está concorde com essa “nova economia”, então a coisa está feia !! O teólogo da deturpação, do engano, da mentira, não tem dito ou feito nada de bom nas últimas décadas, desde 1970, pelo menos.
    Que Jesus tenha Misericórdia de Sua Igreja e suscite Homens e Mulheres de verdadeira Fé e de muita Coragem, guiados pelo Espírito Santo para mostrarem a Verdade e combaterem os Desvios.

  2. CARLOS ANTONIO FRAGOSO GUIMARAES disse:

    Se Leonardo Boff, o intelectual e ativista lúcido, está neste encontro com outros luminiras, então existe sim uma chance de luz em emio ao Brasil tomado por Macedos, Soares, Malafaias… todos mercadores da fé… E bom ver que a Teologia da Libertação ressurge das cinzas do mundo dizimado pelo neoliberalismo

  3. José Mendonça disse:

    Ainda há esperança! Os Franciscos e Leonardos estão sendo levantados pelo Deus verdadeiro para combater os falsos cristãos que elegem demônios como Trump e Bolsonaro! Que Deus proteja esses homens do ódio daqueles que, se dizendo cristão, fazem apologia das armas para massacrar negros, pobres e indígenas! Louvado seja Deus!

  4. Nem tanto, nem tampouco: entre o papa Francisco e o Leonardo Boff, fico com Jesus Cristo.

  5. IZIDRO MORAES disse:

    Sem dúvidas, um grande alento. Parabéns ao nosso grande e admirável Papa Francisco; parabéns ao renomado Leonardo Boff e a todos os demais que participam deste memorável evento.

  6. Como afirma Boff, de forma bem explícita, “a proposta do Papa é uma atitude de confiança no ser humano e em suas potencialidades”.
    Sendo assim, está fadada ao fracasso. A história demonstrou que nem os governos socialistas, e nem os capitalistas conseguiram entregar as prometidas justiça e bem estar social. Embora todo o esforço intelectual e até coercitivo, não mudaram a essência do ser humano. Esta somente ocorre mediante o arrependimento da subversão ao Criador e sua Lei (instrução). Se o Papa não clamar por este arrependimento e apostar na humanidade, na ciência e na tecnologia, estará fazendo o papel do anti-cristo.

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