Recessão, desesperança e a diáspora brasileira

Fuga de multinacionais é sintoma de um país deixou de apostar no futuro, em nome do receituário ultraliberal. Desde 2014, migração de trabalhadores qualificados a países ricos cresceu 81% – um retrato da ausência de projeto nacional

Imagem: Gustavo Magalhães/Superinteressante

O inédito desaparecimento do progresso econômico desde a segunda metade da década de 2010 impôs um conjunto de consequências desconhecidas ao Brasil, tradicionalmente constituído por ampla atração do capital externo e por massiva incorporação de imigrantes. Enquanto os investimentos diretos provenientes do exterior se encontram atualmente abaixo de 40% se comparados ao ano de 2014, o país aumentou em 81% a quantidade de brasileiros mais qualificados que imigraram para os países ricos pertencentes à OCDE.

De forma insustentável no Brasil, a volta da predominância do receituário neoliberal parece perseguir a ortodoxa tese do decrescimento econômico defendido desde a década de 1970 nos países de capitalismo avançado(1). Mas ao contrário do advogado pela controversa proposta de contenção econômica para estancar a degradação ambiental, os governos do pós-golpe de 2016 procuram levar ao limite o neoextrativismo destrutivo da natureza brasileira.

Em 2020, com a renda per capita 11% abaixo do que era em 2014, os brasileiros vivem uma situação inusual, jamais experimentada ao longo da trajetória do capitalismo desde a sua implantação dominante nos anos 1890. Em valores monetários, a renda nacional anual dividida pelos habitantes de 2020 (R$ 35,2 mil) foi 4,3 mil reais (ou R$ 358,58 mensal) inferior à do ano de 2014 (R$39,5 mil).

No caso do Produto Interno Bruto de 2020, por exemplo, o decréscimo econômico significou a soma de 466 bilhões a menos do foi contabilizado em termos reais do ano de 2014. Convergente com o decréscimo econômico, o país registrou o saldo negativo entre abertura e fechamento de empresas de 382,2 mil estabelecimentos entre 2014 e 2018, segundo o IBGE (Demografia Empresas).

Com 8% a menos no estoque total de empresas ativas no Brasil, o saldo na destruição no geral dos ocupados atingiu a 2,753 milhões de trabalhadores. Ou seja, 7,9% a menos no total das ocupações assalariadas em apenas quatro anos.

Além do fechamento de empresas no Brasil, constata-se também a fuga do capital externo e o abandono de importantes empresas multinacionais. No ano de 2020, por exemplo, o Brasil recepcionou o ingresso de 34,2 bilhões de dólares em investimento direto externo, o que equivaleu a 1,9% do PIB.

Ainda conforme o Banco Central, a soma dos investimentos externos do exterior no Brasil foram 87,7 bilhões de dólares em 2014, ou seja, 3,6% do PIB. Em seis anos, a queda na entrada de capital estrangeiro no país foi de 61%.

Se contabilizar a fuga das empresas multinacionais, a situação do desinvestimento externo no Brasil se torna muito mais grave. A partir da segunda metade da década passada, a economia nacional passou a registrar o ineditismo da saída de mais de três dezenas de filiais das corporações transnacionais nos mais diversos setores de atividades empresariais.

No ramo de veículos automotivos, por exemplo, o Brasil perdeu cinco empresas (Ford dos EUA, a Mercedes-Benz e a Audi da Alemanha, a Mahindra da Índia e Geely Motors da China), enquanto nos estabelecimentos empresariais de aplicativos foram três firmas que abandonaram o país (a estadunidense Lime e as espanholas Cabify e Glovo).

Na eletroeletrônica, o país assistiu a saída da japonesa Sony e da sul-coreana LG Electronics, ao passo que no setor farmacêutico foram embora a suíça Roche e a estadunidense Eli Lily. No setor atacadista e de restaurantes, a incúria governamental convive com a perda das estadunidenses Forever 21, Hooters, Wendy’s e Walmart e das francesas Kiabi e Fnac.

Também cabe mencionar a partida das empresas do ramo de cosméticos e bijuterias como a estadunidense Kiehl’s, a francesa L’Occitane e as britânicas Lush e Accessorize. No setor financeiro, a saída do estadunidense Citibank e do britânico HSBC, bem como da companhia britânica de aviação Virgin Atlantic, das japonesas Nintendo de jogos eletrônicos consoles e periféricos e Nikon, fabricante de câmeras fotográficas e microscópios, da irlandesa CRH de cimentos, da Duke Energy e da indústria gráfica RR Donnelley dos EUA, da franco-suíça Lafargeholcim de cimento, materiais e produtos de construção e das empresas do ramo da alimentação General Mills e Häagen-Dazs dos EUA e da Kirin do Japão.

Neste cenário demarcado pelo decrescimento econômico e da diáspora dos investimentos externos, aumentou também a pressão de parte da força de trabalho mais qualificada para procurar desesperadamente oportunidades melhores de vida e ocupação em outros países. Conforme o observatório das migrações da OCDE, o Brasil saltou de 68 mil imigrantes legais, em 2004, para 123 mil em 2018, ao passo que no ano de 2021, a quantidade de brasileiros que tentaram entrar ilegalmente nos EUA foi a maior de todos os tempos.


(1) The Entropy Law and the Economic Process de N. Georgescu-Roegen (1971); Decrescendo Cantabile: Petit Manuel pour une décroissance harmonique de J. Besson-Girad (2005); Décroissance ou barbárie de P. Aries (2005); Petit traité de la décroissance sereine de S. Latouche (2007).

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Um comentario para "Recessão, desesperança e a diáspora brasileira"

  1. José Mario Ferraz disse:

    Tendo as multinacionais por objetivo não só tosquiar, mas também esfolar os carneiros de deus, como mostrou a Lava Jato, um futuro que dependa destes monstros não pode ser desejável.

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