Pochmann: três visões sobre o atraso nacional

Por séculos, elites difundiram ideia acrítica do país do futuro. Nos anos 1930, surgiu a consciência de que é preciso transformar estruturas arcaicas. Mas décadas depois, engolimos a fábula da modernização pelo mercado. Então, sucumbimos

Ilustração: Mihai Cauli

Com a Independência nacional em 1822, distintas gerações de brasileiros conviveram com duas dimensões explicativas principais para a manifestação do atraso no país, sobretudo quando contrastado com outras nações.

A primeira, prevalecente até o início do século 20, identificou o atraso como normalidade histórica, decorrente da distância temporal que separava os países do novo continente americano daqueles situados na velha e longeva Europa. Dessa forma, o Brasil teria garantido o seu próprio progresso, sendo o otimismo constitutivo do horizonte das expectativas nacionais. Na versão da classe dirigente agrarista da época, o passar do tempo conduziria naturalmente à contração do atraso material relacionado às nações europeias, em função da vasta e significativa disponibilidade de riqueza natural e do potencial que resultava da composição social (Zweig, S. Brasil: Um país do futuro, 1941).

A segunda dimensão do atraso nacional em relação a outros países assumiu maior expressão a partir da década de 1930. Com a ascensão de uma nova classe dirigente urbana e industrial, a percepção do subdesenvolvimento e de sua complexidade foi acompanhada de certo pessimismo relacionado à natural possibilidade de superação do atraso material e das fragilidades presentes nas instituições nacionais (Cândido, A. A educação pela noite & outros ensaios, 1989).

Por conta disso, a consciência que emergiria da inadequada inserção periférica no capitalismo mundial implicaria reposicionar o Brasil no interior da Divisão Internacional do Trabalho, deslocando o antigo modelo econômico primário exportador para o novo, produtor de manufaturas com tecnologias avançadas. Disso resultou a passagem da política de gestão do capitalismo nascente adotada na República Velha (1889-1930) para a política de modernização institucional e econômica a viabilizar o ciclo da industrialização e urbanização nacional entre as décadas de 1930 e 1980.

O ingresso na globalização desde 1990 rompeu com a dimensão do atraso entendido como problema decorrente do posicionamento nacional na Divisão Internacional do Trabalho. Pela perspectiva neoliberal que passou a dominar a política de gestão do capitalismo brasileiro a partir de então, ascendeu uma nova composição da classe dominante, apontando o Estado como determinante principal do atual atraso nacional.

Nesse sentido, a avalanche de ataques ao setor público justificaria a meta de libertar o Brasil do distanciamento do brasileiro relacionado às nações consideradas desenvolvidas. Ao atuar espontaneamente, o setor privado teria plenas condições de promover a superação do atraso material e institucional, sem ser contido pelas travas estatais.

Como evidência da concretização da modernidade almejada, transpareceu fundamentalmente o consumo liberado às importações de bens de maior conteúdo tecnológico, cuja expansão no tempo contribuiu para o travamento do avanço no sistema produtivo nacional. Em realidade, o processo de reprimarização da estrutura produtiva enfraqueceu decididamente a economia nacional, comprometendo o potencial gerador de emprego e renda, cada vez mais associado à perspectiva passada de retorno à condição de um fazendão.

Sobre isso, aliás, cabe breve comparação do recente desempenho brasileiro com o de outras nações. Tomando-se como referência de modernização produtiva a evolução no uso, produção e comércio de robôs no mundo, conforme monitorada pela Federação Internacional de Robôs, constata-se que o estoque de robôs no mundo saltou de 1,035 milhão de unidades, em 2008, para 2,722 milhões, em 2019.

A média mundial, em 2019, foi de 113 robôs a cada 10 mil ocupados, o que significou a multiplicação por 2,2 vezes a mesma relação verificada no ano de 2008. Para os mesmos anos, a relação de robôs a cada 10 mil ocupados subiu de cinco para 10 unidades (duas vezes) no Brasil, de 10 para 187 (18,7 vezes) na China, de 96 para 228 (2,4 vezes) nos Estados Unidos e de 221 para 868 (3,9 vezes) na Coreia do Sul.

Em contrapartida, a taxa de desemprego nacional registrou diferenças significativas entre as nações. No caso brasileiro, por exemplo, houve aumento de 61,8% (de 6,8% para 11%) na taxa de desemprego; na Coreia do Sul, o aumento foi de 5,9% (3,4% para 3,6%); enquanto que na China diminuiu em 16,2% (de 4,3% para 3,6); nos Estados Unidos em 36,2% (de 5,8% para 3,7%); e na Alemanha a diminuição foi de 54,2% (de 7,2% para 3,3%).

Em síntese, os países que conseguiram aumentar fortemente a presença de robôs no interior do setor produtivo, fortalecendo a competitividade e o avanço econômico, não elevaram as taxas de desemprego. O Brasil, pelo contrário, combinou a baixa capacidade de adensar maior quantidade de robôs na estrutura econômica manufatureira com o maior desemprego, indicando tanto a perda de importância relativa na produção mundial como o maior atraso nacional.

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