A vibração da cidade, após a queda de Moro

Em SP, panelaços ganham novas adesões: agora, nem só os “comunistas” vão às janelas. Bolsonaristas fracassam, ao tentar reagir. Carreata morna, em clima de 7×1, tenta afogar frustração apelando para discurso anti-Dória

10 de abril

Saí na sexta-feira de Páscoa. A notícia do dia era que o ministro da Saúde, o Mandetta, tinha sido demitido. Rolou que não era verdade, mas a novela de sua possível demissão saturou os noticiários por dias a fio.

Eram 16h30 quando desci até o centro da cidade e notei a presença policial constante. Na Sé, umas 300 ou 400 pessoas por lá, o que parece normal hoje em dia, mas tinha uma energia louca no ar: muita gente gritando e falando sozinha – e algumas brigas.

O Terminal Parque D. Pedro tinha pouco movimento, mas razoável atividade comercial ao pé da passarela.

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Imagem: Ronaldo Miranda

Subi até a Cracolândia, onde ontem tinha ocorrido uma ação de remoção, que acabou espalhando muitos usuários pelo centro, o que explicava a tensão na Praça da Sé. Na Craco, vi carros-pipa lavando a rua Cleveland, e depois a rua Helvétia. Bastante polícia em volta.

Um grupo de 4 PMs moços conversava com duas mulheres gari, que varram o asfalto em seus uniformes laranjas. Falavam de relacionamento, e um policial falou alto: “Então eu casei com a mulher errada!”. Não fiquei para ouvir.

Vi cinco mulheres de jaleco e prancheta na mão, eram assistentes sociais trabalhando.

Dei um giro e vi que o povo tinha mudado para a alameda Dino Bueno. Vi vapor e fumaça subindo de barracas, alguém preparava comida.

Voltei a pé pela Luz, que estava cheia, inclusive com muitas prostitutas que esperavam seus clientes. O ambiente não estava relaxado. Atravessei a Praça da República, passei pelo Estadão aberto para delivery e subi a rua Major Quedinho. No caminho vi dois grupos semelhantes e distintos: homens jovens se encontravam e bebiam na calçada.

Na avenida Liberdade vi um carro com alto-falante, como aqueles da pamonha, que irradiava mensagens encorajando o confinamento: “O coronavírus não é uma gripezinha não…” Entendi que era da prefeitura e que irradiava mensagem oficial.

Imagem: Ronaldo Miranda

13 de abril

Saí às 15h45 para ir à avenida Paulista checar a manifestação bolsonarista em frente a FIESP. Eles tinham estado lá ontem, no domingo. Quis checar se estariam presentes hoje.

A campanha bolsonarista nas redes continua forte contra o fechamento do comércio e interrupção do trabalho. Tinham anunciado um “dilúvio” de estabelecimentos abertos.

Na avenida, o movimento era bem intenso, tanto o tráfego de automóveis quanto o de pedestres. Achei que detectava mais trabalhadores jovens de escritório. Vi também gente com roupa de academia e suada passando por mim, o que parece sugerir que tem academia funcionando clandestinamente.

Vi a loja da Renner aberta com dois funcionários à porta, de máscara, ao lado de uma mesinha com álcool. Um cartaz anunciava “atendimento reduzido”, com horário restrito.

Imagem: Ronaldo Miranda

Na saída da estação Brigadeiro do metrô vi uma moça de jaleco onde se lia “Compro seu ticket refeição”.

Na FIESP, vi o grupo de bolsonaristas. Achei que eram os mesmos de ontem, mas hoje em menor número. O canhestro boneco do Dória enforcado continua lá, pendurado no totem preto, de camisa branca a cachecol rosa.

Lembrei do acampamento coxinha que esteve lá meses a partir de 2016. Começaram pequenos. Perto de lá, uma equipe da CNN gravava reportagem na calçada. Não enquadravam o grupo verde-amarelo. A polícia observava, com duas viaturas e 5 soldados.

Esperei um pouco e ligaram o som a partir de um dos dois carros de apoio estacionados ao lado. Um homem xingou muito o governador, afirmando que era “bicha e só quer sentar no colo do Alexandre Frota”.

Eram apenas 30 pessoas. Mas achei significativo que estejam a conseguir presença permanente na rua. Tem loja abrindo, tem gente voltando e elas estão encontrando essa gente que aparece muito. Duas semanas atrás teria sido fácil varrê-los das ruas, mas é possível que cresçam na pauta radical.

Fiquei um pouco mas cansei: estava deprimido e aquela energia me perturbava.

24 de abril – Panelaço nas ruas da Bela Vista

Hoje o dia ferveu com o noticiário que alucinou na demissão do ministro Sérgio Moro. O divórcio entre o bolsonarismo e o lavajatismo ganhou repercussão nacional e é o novo BBB.

O ministro deu uma coletiva de imprensa depois de demitir-se, às 11h da manhã. Isso provocou um panelaço em partes da cidade, incluindo meu bairro, que apenas timidamente tem aderido aos barulhaços recentes. Às 17h o próprio presidente ia falar, e isso certamente provocaria novo panelaço.

Fui para a Bela Vista checar como seria o barulho – e levei uma frigideira e escumadeira comigo na mochila. Eram 16h30.

Imagem: Ronaldo Miranda

Notei que as ruas estão mais cheias. Muita criança pelas calçadas. O comércio ainda fechado no geral, e muita viatura policial nas ruas. Descendo a avenida Brigadeiro Luiz Antonio, vi uma viatura do BAEP, a antiga “Tropa do Braço”, enquadrar dois moços negros na calçada.

A cidade parecia viver uma estranha normalidade, hesitante na sua ocupação da rua. Vi poucos sinais públicos da fervura noticiosa que ardia nas redes, talvez só as telas de TV nos botecos e padarias.

Saí da avenida e entrei na rua Francisca Miquelina à esquerda, onde tem interessante bairro residencial. Muito homem nas ruas e calçadas: uma obra grande em plena atividade, pontos de táxi, entregadores em movimento ou em repouso, botecos e restaurantes parcialmente abertos, muitos moradores passeando com seus animais.

Logo deu 17h e começou o barulho. Na rua Genebra tem um maluco que toca trombone, e lá estava ele com seu instrumento, além de inúmeras panelas e vozes cortantes. Saquei a frigideira e percorri as ruas batendo muito. De baixo, o som estridente enchia a rua e irradiava para cima. As pessoas nas janelas que gritavam ou que batiam panela ficavam mito felizes de me ver.

Mas muitos homens das calçadas ficaram muito sério. Alguns me olhavam, mas a maioria baixava a cabeça e mirava o chão.

O divórcio de Moro e Bolsonaro deu um nó muito grande na cabeça de coxinha. Antes sinônimos, formavam uma unidade que blindava o apoiador contra ataques, que quase sempre era possível atribuir à “esquerda” ou “comunistas”. Agora, não, ter que escolher entre Bozo e Moro traz inafastável autoexame, significa ter que finalmente assumir as consequências de escolhas pessoais.

Assim, ouvir panelaço já era ruim, mas me ver na rua acintosamente torcendo a faca no delicado ventre do patriota traído era visivelmente doloroso. Não tive pena. Lembrava de todos os “Tchau, querida”, “Viva Ustra”, “Me chama de corrupto então”… Lembrei de Marielle e do Amarildo, e percorri as ruas Dona Maria Paula, Santo Amaro, Barros Aguiar, passando na frente de mercados abertos, botecos e garagens.

Recebi muitos olhares muito pesados, de um jeito que só vi no 7×1 daquela Copa infame. Mas caminhei sem medo: sabia que a paralisia moral os impedia de agir e me protegeria contra violência física. Fiz questão de fazer, do meu jeito pueril e pequeno, com que ninguém ali esquecesse do dia de hoje.

Depois de meia hora caminhei até a rua Xavier de Toledo e minha euforia murchou no Teatro Municipal. A gente continua acampada pelas calçadas, os homens e mulheres sem rumo zanzando melancolicamente. O dia ia terminando e a cidade estava mais cheia do que de costume. Achei que vi trabalhadores de escritório buscando o transporte público. O comércio fechado, exceto as lanchonetes e botecos – e as Lojas Americanas, que recebia clientes.

Na Praça da Sé, a mesma multidão de desesperançados, umas 300 pessoas. Os pregadores evangélicos estavam presentes. Notei de novo que parece haver numeroso contingente de trans muito pobres.

Segui até a Liberdade e tomei o caminho de casa.

25 de abril – Carreata até a Paulista

Saí de bicicleta em direção ao Ibirapuera para checar a primeira carreata do bolsonarismo pós-divórcio.

Cheguei às 13h30 e vi pouca gente. Dei um giro e achei um acampamento de intervencionistas militares na frente da entrada da ALESP, que também é oposto ao monumento do Comando Militar do Sudeste, local de atos passados. As faixas pedindo intervenção militar estavam lá, mas vi apenas 7 pessoas. No entorno, pouquíssimos carros engalanados de verde-amarelo: estava claro que ia ser pequeno, sem dúvida desidratado pelo noticiário do dia anterior.

Mais uma volta pela região revelou um acampamento Fora Dória na praça Túlio Fontoura, onde a rua Abílio Soares faz esquina com a avenida Pedro Álvares Cabral. Umas 7 barracas tinham sido erguidas entre as árvores. Duas grandes faixas informavam “Fora Dória. Impeatch\ Dilma iniciou assim”, e outra “Impeachment de Dória já. Dilma foi ass” e a tinta do spray deve ter acabado, pois a palavra ficou sem conclusão. Achei boa imagem para um movimento sem gás, esvaziado pela separação traumático do morismo.

Uns cartazes foram amarrados no poste, de modo que os motoristas que paravam ao semáforo podiam ler: “#Fora Dória”, “Venha nos visitar” e “Somos pessoas do bem lutando pelo Brasil. Fazemos parte da história. Você fará também. Plateia ou protagonista??????”.

Persegui um eco distante da cançoneta “Eu te amo, meu Brasil” e cheguei na concentração da carreata. O mesmo carro de som de domingo (“Trovão Azul”) estava lá, irradiando aquela e outras canções militares. Os manifestantes pareciam ser os mesmos bolsonaristas hardcore da semana passada: famílias de militares, jovens militantes de uns 30 anos, bikers. Vi só um entregador no cortejo, e o recorte social no geral era classe média alta.

Os discursos e mensagens escritas eram estritamente anti-Dória e anti-Maia, nenhuma menção a intervenção militar ou ao AI-5, que tinham sido hegemônicas na semana passada – salvo um adesivo “Intervenção militar com Bolsonaro no poder”.

Vi o tal do Paulo Kogos, que foi fotografado com um caixão com a suástica nazista e depois gravou vídeo de desculpas. Ele empunhava uma longa espada de plástico e tinha um moletom de Templário, de capuz, com cruz vermelha no peito e tudo. A bandeira do Brasil às costas completava a bizarra figura.

A presença militar era muito grande, umas 50 motocicletas, 5 viaturas e um trio de filmadores registrava tudo com sua câmera de vídeo – usando toucas para esconder o rosto.

A carreata saiu às 14h30. Saí na frente com os motociclistas (uns 40), o que foi um erro: seguimos pela avenida Brasil até a Rebouças, que tomamos à direita, enquanto a carreata com o carro de som, mais lenta, seguiu pela Brigadeiro. Aguentei subir até a metade, quando desmontei e fiquei para trás.

Mas deu para sentir que no percurso NINGUÉM fez festa na rua. Até ouvi gente gritando “Fora Bolsonaro” a partir das janelas dos prédios.

Vi um casal de moradores locais, nos Jardins, que passeavam com seus cachorros. Era visivelmente de classe média alta, e ficaram mudos. A minha fantasia deu a legenda a cena: “Querida, quem é essa gente? Não são aqueles que o Moro disse ser criminosos? Será que nós colocamos um miliciano no poder? Será que são eles que hoje têm muita arma e munição?”.

Alcancei a carreata já na frente da FIESP, com carro de som e comitiva de automóveis. O discurso era anti-Dória, e o orador falava em nome da periferia, preterida pela quarentena.

Contei 70 automóveis, o que é bem pouco.

Eram 15h e não fiquei muito. É evidente que o episódio da demissão do ministro calou fundo. Concentrar no improvável impeachment de Dória ajuda a manter a quarentena na pauta, mas nada mais. A possibilidade de inflamar as ruas e agregar o precariado parece menos provável.

Mas se tiver carreta amanhã será um termômetro mais preciso.

Pedalei até minha casa.

26 de abril

Fui checar a manifestação bolsonarista na avenida Paulista. Eram 16h e fui direto à FIESP, sem passar no Ibirapuera. Prometia ser pequeno e não e dei ao trabalho.

Dito e feito. Havia uma fila de automóveis estacionada na avenida, na pista da esquerda no sentido Consolação. Contei 90 veículos. Vi umas 150 pessoas no canteiro central da avenida, com muita bandeira do Brasil.

A pauta era Fora Dória e Fora Maia. Nenhuma palavra sobre o ex-ministro Sérgio Moro.

Vi só dois ou três cartazes, feitos à mão, curiosamente feitos com aquela letra característica de supermercado: “Todo poder emana do povo”.

Estava lá o templário do moletom de capuz, com sua espada de plástico.

Achei tudo desanimado e só fiquei meia hora. A batalha principal parece ter passado para as redes. Ataques a Moro nas redes explodiram, e o Gabinete do Ódio vai realizar seu trabalho destruidor.

Já pedalava de volta quando passou um ciclista que gritou “Fora Bolsonaro” a um trio de mulheres verde-amarelas no canteiro central. Elas retorquiram “Comunista!”. Não resisti e disse a elas: “Mas comunista é o Sérgio Moro, não é?”. Elas nem piscaram e já responderam “Ele é traíra!”.

Sem mandato ou cargo, o ex-ministro pode se ver enfraquecido. É fraco de mídia, e pode ser mesmo que ele, como Lula, tenha passado. Moro não é a superação dialética do lulismo, ele é como um Gandalfo, que, ao derrotar e matar seu inimigo, encontra a morte também.

Fui para casa.

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