Conexão Curitiba: uma hipótese muito provável

Agora, todas as peças parecem se encaixar. Como a descoberta do pré-sal, em meio a uma guinada estratégica à direita, nos EUA, colocou o Brasil no centro da “guerra híbrida” e criou as condições para o atual cenário de horrores

É comum falar de “teoria da conspiração”, toda vez que alguém revela ou denuncia práticas ou articulações políticas “irregulares”, ocultas do grande público, e que só são conhecidas pelos insiders, ou pelas pessoas mais bem informadas. E quase sempre que se usa esta expressão, é com o objetivo de desqualificar a denúncia que foi feita, ou a própria pessoa que tornou público o que era para ficar escondido, na sombra ou no esquecimento da história. Mas de fato, em termos mais rigorosos, não existe nenhuma “teoria da conspiração”. O que existem são “teorias do poder”, e “conspiração” é apenas uma das práticas mais comuns e necessárias de quem participa da luta política diária pelo próprio poder. Esta distinção conceitual é muito importante para quem se proponha analisar a conjuntura política nacional ou internacional, sem receio de ser acusada de “conspiracionista”. E é um ponto de partida fundamental para a pesquisa que estamos nos propondo fazer sobre qual tenha sido o verdadeiro papel do governo norte-americano no golpe de Estado de 2015/2016, e na eleição do “capitão Bolsonaro”, em 2018. Neste caso, não há como não seguir a trilha da chamada “conspiração”, que culminou com a ruptura institucional e a mudança do governo brasileiro. E nossa hipótese preliminar é que a história desta conspiração começou na primeira década do século XXI, durante o “mandarinato” do vice-presidente americano, Dick Cheney, apesar de que ela tenha adquirido uma outra direção e velocidade a partir da posse de Donald Trump, e da formulação da sua nova “estratégia de segurança nacional”, em dezembro de 2017.

No início houve surpresa, mas hoje todos já entenderam que essa nova estratégia abandonou os antigos parâmetros ideológicos e morais da política externa dos Estados Unidos, de defesa da democracia, dos direitos humanos e do desenvolvimento econômico, e assumiu de forma explícita o projeto de construção de um império militar global, com a fragmentação e multiplicação dos conflitos, e a utilização de várias formas de intervenção externa, nos países que se transformam em alvos dos norte-americanos. Seja através da manipulação inconsciente dos eleitores e da vontade política dessas sociedades; seja através de novas formas “constitucionais” de golpes de Estado; seja através sanções econômicas cada vez mais extensas e letais, capazes de paralisar e destruir a economia nacional dos países atingidos; seja, finalmente, através das chamadas “guerras híbridas” que visam destruir a vontade política do adversário, utilizando-se da informação mais do que da força, das sanções mais do que dos bombardeios, e da desmoralização intelectual dos opositores mais do que da tortura.

Desse ponto de vista, é interessante acompanhar e evolução dessas propostas nos próprios documentos norte-americanos, nos quais são definidos os objetivos estratégicos do país e as suas principais formas de ação. Assim, por exemplo, no Manual de Treinamento das Forças Especiais Americanas Preparadas para Guerras Não-Convencionais, publicado pelo Pentágono em 2010, já está dito explicitamente que “o objetivo dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças internas de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos”. Com o reconhecimento de que “em um futuro não muito distante, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregulares”1. Uma orientação que foi explicitada, de maneira ainda mais clara, no documento no qual se define, pela primeira vez, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA do governo de Donald Trump, em dezembro de 2017. Ali se pode ler, com todas as letras, que o “combate à corrupção” deve ter lugar central na desestabilização dos governos dos países que sejam “competidores” ou “inimigos” dos Estados Unidos2. Uma proposta que foi detalhada no novo documento sobre a Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, publicado em 2018, em que se pode ler que “uma nova modalidade de conflito não armado tem tido presença cada vez mais intensa no cenário internacional, com o uso de práticas econômicas predatórias, rebeliões sociais, cyber-ataques, fake news, métodos anticorrupção3”.

É importante destacar que nenhum desses documentos deixa a menor dúvida de que todas estas novas formas de “guerra não convencional” devem ser utilizadas – prioritariamente – contra os Estados e as empresas que desafiem ou ameacem os objetivos estratégicos dos EUA.

Agora bem, neste ponto da nossa pesquisa, cabe formular a pergunta fundamental: quando foi – na história recente – que o Brasil entrou no radar dessas novas normas de segurança e defesa dos EUA? E aqui não há dúvida de que cabem muitos fatos e decisões que foram tomadas pelo Brasil, sobretudo depois de 2003, como foi o caso da sua política externa soberana, da sua liderança autônoma do processo de integração sul-americano, ou mesmo, da participação no bloco econômico do BRICS, liderado pela China. Mas não há a menor dúvida de que a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, em 2006, foi o momento decisivo em que o Brasil mudou de posição na agenda geopolítica dos Estados Unidos. Basta ler o Blueprint for a Secure Energy Future, publicado em 2011, pelo governo de Barack Obama, para ver que naquele momento o Brasil já ocupava posição de destaque em 3 das 7 prioridades estratégicas da política energética norte-americana: (i) como uma fonte de experiência para a produção de biocombustíveis; (ii) como um parceiro fundamental para a exploração e produção de petróleo em águas profundas; (iii) como um território estratégico para a prospecção do Atlântico Sul4.

A partir daí, não é difícil rastrear e conectar alguns acontecimentos, sobretudo a partir do momento em que o governo brasileiro promulgou – em 2003 – sua nova política de proteção dos produtores nacionais de equipamentos, com relação aos antigos fornecedores estrangeiros da Petrobras, como era o caso, por exemplo, da empresa norte-americana Halliburton, a maior empresa mundial em serviços em campos de petróleo, e uma das principais fornecedoras internacionais das sondas e plataformas marítimas, e que havia sido dirigida, até o anos 2000, pelo mesmo Dick Cheney que viria a ser o vice-presidente mais poderoso da história dos Estados Unidos, entre 2001 e 2009. A Odebrecht, a OAS e outras grandes empresas brasileiras entram nessa história, a partir de 2003, exatamente no lugar dessas grandes fornecedoras internacionais que perderam seu lugar no mercado brasileiro. Cabendo lembrar aqui que a complexa negociação entre a Halliburton e a Petrobrás5, em torno à compra e entrega das plataformas P43 e P48, envolvendo 2,5 bilhões de dólares6, começou na gestão de Dick Cheney e se estendeu até 2003/4, com a participação do Gerente de Serviços da Petrobrás na época, Pedro José Barusco, que se transformaria depois no primeiro delator conhecido da Operação Lava-Jato7.

Nesse ponto, aliás, seria sempre muito bom lembrar a famosa tese de Fernand Braudel, o maior historiador econômico do século XX, de que “o capitalismo é o antimercado”, ou seja, um sistema econômico que acumula riqueza através da conquista e preservação de monopólios, utilizando-se de todo e qualquer meio que esteja ao seu alcance. Ou ainda, traduzindo em miúdos o argumento de Braudel: o capitalismo não é uma organização ética nem religiosa, e não tem nenhum compromisso com qualquer tipo de moral privada ou pública que não seja a da multiplicação dos lucros e a da expansão contínua dos seus mercados. E isto é que se pode observar, mais do que em qualquer outro lugar, no mundo selvagem da indústria mundial do petróleo, desde o início de sua exploração comercial do petróleo, desde a descoberta do seu primeiro poço pelo “coronel” E. L. Drake, na Pensilvânia, em 1859.

Agora bem, voltando ao eixo central da nossa pesquisa e do nosso argumento, é bom lembrar que este mesmo Dick Cheney que vinha do mundo do petróleo, e teve papel decisivo como vice-presidente de George W. Bush, foi quem concebeu e iniciou a chamada “guerra ao terrorismo”, conseguindo o consentimento do Congresso norte-americano para iniciar novas guerras, mesmo sem aprovação prévia do parlamento; e o que é mais importante, para nossos efeitos, conseguiu aprovar o direito de acesso a todas as operações financeiras do sistema bancário mundial, praticamente sem restrições, incluindo o velho segredo bancário suíço, e o sistema e pagamento europeus, o SWIFT.

Por isso, aliás, não é absurdo pensar que tenha sido por esse caminho que o Departamento de Justiça norte-americano tenha tido acesso às informações financeiras que depois foram repassadas às autoridades locais dos países que os Estados Unidos se propuseram a desestabilizar com campanhas seletivas “contra a corrupção”. No caso brasileiro, pelo menos, foi depois desses acontecimentos que ocorreu o assalto e o furto de informações geológicas sigilosas e estratégicas da Petrobras, no ano de 2008, exatamente dois anos depois da descoberta das reservas petrolíferas do pré-sal brasileiro, no mesmo ano em que os EUA reativaram sua IV Frota Naval de monitoramento do Atlântico Sul. E foi no ano seguinte, em 2009, que começou o intercâmbio entre o Departamento de Justiça dos EUA e integrantes do Judiciário, do MP e da PF brasileira para tratar de temas ligados à lavagem de dinheiro e “combate à corrupção”, num encontro que resultou na iniciativa de cooperação denominada Bridge Project, da qual participou o então juiz Sérgio Moro.

Mais à frente, em 2010, a Chevron negociou sigilosamente, com um dos candidatos à eleição presidencial brasileira, mudanças no marco regulatório do pré-sal, numa “conspiração” que veio à tona com os vazamentos da Wikileaks, e que acabou se transformando num projeto apresentado e aprovado pelo Senado brasileiro. E três anos depois, em 2013, soube-se que a presidência da República, ministros de Estado e dirigentes da Petrobras vinham sendo alvo, havia muito tempo, de grampo e espionagem, como revelaram as denúncias de Edward Snowden. No mesmo ano em que a embaixadora dos EUA que acompanhou o golpe de Estado do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo foi deslocada para a embaixada do Brasil. E foi exatamente depois desta mudança diplomática, no ano de 2014, que começou a Operação Lava Jato, que tomou a instigante decisão de investigar as propinas pagas aos diretores da Petrobrás, exatamente a partir de 2003, deixando fora portanto os antigos fornecedores internacionais, no momento exato em que concluíam as negociações da empresa com a Halliburton, em torno da entrega das plataformas P 43 e P48.

Se todos estes dados estiverem corretamente conectados, e nossa hipótese for verossímil, não é de estranhar que depois de cinco anos do início desta “Operação Lava-Jato”, os vazamentos divulgados pelo site The Intercept Brasil, dando notícias da parcialidade dos procuradores, e do principal juiz envolvido nessa operação, tenham provocado uma reação repentina e extemporânea dos principais acusados desta história que se homiziaram, praticamente, nos Estados Unidos. Provavelmente, em busca das instruções e informações que lhe permitissem sair das cordas, e voltar a fazer com seus novos acusadores o que sempre fizeram no passado, utilizando-se de informações repassadas para destruir seus adversários políticos. Entretanto, o pânico do ex-juiz e seu despreparo para enfrentar a nova situação fizeram-no comportar-se de forma atabalhoada, pedindo licença ministerial e viajando uma segunda vez para os Estados Unidos, e com isto tornou público o seu lugar na cadeia de comando de uma operação que tudo indica que possa ter sido a única operação de intervenção internacional bem-sucedida – até agora – da dupla John Bolton e Mike Pompeu, os dois “homens-bomba” que comandam a política externa do governo de Donald Trump. Uma operação tutelada pelos norte-americanos e avalizada pelos militares brasileiros.

Por isso, se nossa hipótese estiver correta, não há a menor possibilidade de que as pessoas envolvidas neste escândalo sejam denunciadas e julgadas com imparcialidade, porque todos os envolvidos sempre tiveram pleno conhecimento e sempre aprovaram as práticas ilegais do ex-juiz e de seu “procurador-assistente”, práticas que foram decisivas para a instalação do capitão Bolsonaro na Presidência da República. O único que lhes incomoda neste momento é o fato de que sua “conspiração” tenha se tornado pública, e que todos tenham entendido quem é o verdadeiro poder que está por trás dos chamados “Beatos de Curitiba”.

1 U.S. Department of the Army. U.S.Army Special Forces Unconventional Warfare Training Manual. Headquarters, Washington D.C., 2010. Disponível em: https://publicintelligence.net/u-s-army-special-forces-unconventional-warfare-training-manual-november-2010. Acessado em 22/07/2019.

2 U.S. Department of Defense. National Security Strategy, Washington D.C., 2017. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf. Acessado em 22/07/2019.

3 U.S. Department of Defense. National Defense Strategy, Washington D.C., 2018. Disponível em: https://dod.defense.gov/Portals/1/Documents/pubs/2018-National-Defense-Strategy-Summary.pdf Acessado em 22/07/2019.

4 U.S. Department of Energy. Blueprint for a Secure Energy Future, Washington D.C., 2011. Disponível em: https://obamawhitehouse.archives.gov/issues/blueprint-secure-energy-future. Acessado em 22/07/019.

5 “Petrobrás fecha negócio bilionário com Halliburton, www.dci.com.br, 20/04/04.

6 “Os laços Petrobrás Halliburton”, 25/02/2004, www.istoedinheiro.com.br.

7 “Veja na íntegra a delação premiada de Pedro Barusco”, https://poliitca.estadao.com.br, 05/02/2015

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9 comentários para "Conexão Curitiba: uma hipótese muito provável"

  1. estevo disse:

    Excelente texto do Fiori e Nozaki. Como leitor acrescento que salta os olhos o número de viagens que os dois “beatos” fizeram aos EUA durante este período. Palestras e premiações estranhas… regadas a “boquinha livre” dos corações rompidos.

  2. Wilson M. Figueiró disse:

    Prezadoas:
    Algumas Questões:
    1) Por que as elites brasileiras aceitam, de modo colaborativo, a dominação política do Brasil pelos EUA?
    2) Até que ponto outras potências mundiais (China, Rússia, Índia, União Européia, Mundo Islâmico, …) aceitam a tomada do poder no Brasil pelos EUA?
    3) Quais são as possibilidades de reação do Brasil, contra a dominação dos EUA, hoje e no futuro?
    Saudações,
    Wilson M. Figueiró.

  3. Paulo Roberto Riscado disse:

    Vejam só, os jor alistar fazem um trabalho bem feito com dados fatos, inclusive de domínio público. E vem dois idiotas “Sandro Castro e Axel” dizer que é mentira.
    Não resta dúvida infelismente todo bolsonarista é apagado.

  4. Ailton disse:

    Agora além da roubalheira temos censura, demissões daqueles que pensam contrário ao governo, matança indiscriminada de indígenas, privatizações, ou seja, o país trabalhar para produzir riquezas para grupos em sua maioria estrangeira , temos MP e Juiz ladrão metidos até o tutano em total desrrespeito a constituição e a lei, ou seja, criminosos…realmente o melhor foi tirar o PT e transformar o país em um governo de MÁFIA.

  5. Zilda disse:

    A revelação de todo o processo das fakenews e seu amplo conluio internacional demonstram com clareza que o atual governo e o ministério das injustiças se tornaram na máquina de transladar para o coração do sistema mundial todas as regulações das transferências do produto
    Bruto das riquezas do país a dois blocos: os controles e a expropriação realizadas por tio San e seus agentes e os aliados da família mafiosa que ocupa o planalto central com seu time de pensadores da destruição nacional! O que fazer? Ocupar as ruas, criar resistentes radicais e depor os aliados subservientes ao Pentágono. Defenestrar Moro e curiola e limpar o Supremo da presença de traidores da Pátria. Tarefa nada fácil sem as ruas incendiadas. Ao combate enquanto há tempo e riquezas nao transferidas!

  6. JORGE disse:

    Nunca tive nenhuma dúvida disso! Mas, o que resta, é mostrar para muitos dos BOÇAIS que apoiaram o GOLPE que vão perder MUITO.
    Ex.:
    – Militares do posto de Coronel pra baixo;
    – PM e bombeiros militares do posto de Capitão pra baixo;
    – A bancada ruralista vai levar uma ferrada histórica porquê os norte americanos vão vender com prazer para China e Oriente Médio;
    – o pior e mais caro judiciário do mundo, proporcionalmente ao PIB, não terá mais como sustentar o salário de nababo que possuem;
    – Advogados e profissionais liberais em geral, sifu…
    – A classe mérdia do brazil é outra que não vai mais ter chance nenhuma, nem aqui nem ir pro exterior;
    – A classe política em geral, também perde bastante. NINGUÉM gosta de lacaios, janotas e vassalos, muito menos quem domina e é de fora!!!

  7. Luís Henrique disse:

    “essa nova estratégia abandonou os antigos parâmetros ideológicos e morais da política externa dos Estados Unidos, de defesa da democracia, dos direitos humanos e do desenvolvimento econômico”

    Quando a política externa dos Estados Unidos teve a defesa da democracia, dos direitos humanos e – faz-me rir – do desenvolvimento econômico como parâmetro?

    Se houve uma mudança na primeira década deste século, ela foi exatamente no sentido contrário. Antes, apoiavam-se abertamente golpes militares que resultavam em ditaduras escancaradas e sanguinárias (em toda a América Latina, exceto o México e Costa Rica) e ocasionalmente longas e sangrentas guerras civis (Guatemala, El Salvador, Nicarágua). Agora apoiam-se golpes parlamentares-midiáticos-judiciais que resultam em regimes que preservam as formas abstratas dos regimes democráticos, embora não tenham nenhum compromisso com qualquer conteúdo democrático.

  8. Luís Henrique disse:

    Isso não me parece ser verdade. A Petrobrás sempre contratou empreiteiras brasileiras, até por falta de opção – não havia, e ainda não há, empreiteiras estrangeiras operando no Brasil. Eu era criança na década de 70, e me lembro do meu pai, engenheiro da Petrobrás, discutindo as tecnicalidades das obras de engenharia da empresa com a Odebrecht ou a Camargo Correia.

    Aparentemente o texto confunde duas áreas distintas. Odebrecht et caterva são, ou eram, empresas de construção civil, e sempre foram as responsáveis pelas grandes obras de engenharia contratadas pela Petrobrás. Não sei se a Petrobrás já conseguiu substituto para elas, aliás, mas a estatal está tão debilitada que provavelmente não pode contratar grandes obras no momento. Halliburton e outros fornecedores estrangeiros atuavam em outras áreas, e, tirando a indústria naval, não sei se os governos populares conseguiram de fato substitui-las por fornecedores nacionais (ou mesmo “nacionais”, isto é, baseados no Brasil, mas direta ou indiretamente de propriedade americana ou europeia).

  9. Luís Henrique disse:

    “A Odebrecht, a OAS e outras grandes empresas brasileiras entram nessa história, a partir de 2003, exatamente no lugar dessas grandes fornecedoras internacionais que perderam seu lugar no mercado brasileiro.”

    Não tenho certeza de que isso é verdade. O texto parece confundir duas áreas de atuação diferente. Odebrecht et caterva eram empresas de construção civil e sempre executaram as grandes obras de engenharia da Petrobrás e outras estatais brasileiras. Cresceram fazendo isso, aliás – e muito antes dos governos petistas. Operando, diga-se de passagem, em áreas ainda mais sensíveis do que o petróleo, como as usinas nucleares, sem que isso resultasse em queda de governos.

    Não sei se a Petrobrás já encontrou substitutos, nacionais, estrangeiros, ou “nacionais” (isto é, sediados no Brasil, mas de propriedade direta ou indireta de capitais estrangeiros), e talvez a questão não esteja colocada porque a estatal não está em condições de contratar grandes obras de engenharia.

    Halliburton e outros fornecedores atuam em outras áreas, não se interessam por construção civil, e não tenho certeza de que, tirando a indústria naval, tenham sido substituídas por empresas nacionais, ou mesmo estrangeiras não-americanas. Que empresas nacionais têm ou tiveram capacidade técnica para isso, na pátria amada da mais-valia absoluta?

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