Oswald de Andrade, 60

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Outras Palavras lança série de textos para celebrar escritor cuja obra parece cada vez mais atual, na Cultura e Política

Por Theotonio de Paiva | Imagem: Anita Malfatti, “Oswald de Andrade”, 1925

(Publicado em 28/3/2014)

Num mês de março, há exatos 90 anos (em 18/3), Oswald de Andrade publicou o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, no antigo jornal Correio da Manhã. Em 22 de outubro, completa-se outro aniversário redondo: 60 anos da morte do próprio Oswald. Ao publicar, hoje, o manifesto de 1924, Outras Palavras lança um espaço de discussão sobre a experiência modernista, em seus diálogos profundos e tensos com a modernidade e o que dela se esperava.

Sabemos que o Modernismo continua a suscitar uma vasta pesquisa e reflexões do mais alto nível, na academia e fora dela. Acreditamos que esse material precisa ganhar um espaço ainda maior de reconhecimento e celebração, sobretudo junto às novas gerações. Nesse sentido, gostaríamos de ver alguns dos seus grandes temas – arte moderna, antropofagia cultural, projeto de nação, liberdade de criação artística – chegando até às ruas, às escolas.

E que esses mesmos temas, como dizia Oswald de Andrade, fossem até a ágora – a praça do poeta – a fim de servirem como inspirações para saudáveis debates e novas utopias. E, nesse movimento, se prestassem de algum modo a nos ajudar a repensar a arte e a cultura realizadas no Brasil.

TEXTO-MEIO

Sem cultos de personalidades e mitos intocáveis.

Utopia? Provavelmente, mas ela nos move e ilumina alguns profundos desejos de mudança.

Além disso, interessa-nos repensar as influências que as vanguardas européias exerceram (e ainda exercem) na nossa cultura. E especialmente como isso foi tratado pelos principais atores daqueles tempos distantes da Semana de Arte Moderna de 22.

Estamos atentos a verificar o nosso lugar enquanto latinoamericanos. Daí, o ensejo de olharmos também para alguns movimentos empreendidos, nas primeiras décadas do século XX, que aparecem na Argentina, Chile, Cuba, México etc.

E, por último, gostaríamos de inundar as vossas retinas com muitas imagens, fotos, ilustrações, vídeos e filmes sobre o tema.

* * *

Com o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald inaugurou o primitivismo nativo. Nele, enfatizava a necessidade de se criar uma arte a partir das características do povo brasileiro, ao mesmo tempo em que apontava para a assimilação crítica da modernidade europeia.

Esse documento básico do nosso modernismo já figurava, em forma reduzida, no livro de poesias Pau-Brasil (“Falação”). Conforme observou Benedito Nunes, o escritor realiza, a partir dessa experiência, uma ousada “apreciação da realidade sociocultural brasileira”.1

Por conseguinte, o manifesto iria provocar grandes discussões sobre o surgimento da consciência nacional, ao conseguir atualizá-la, colocando-a sempre em novos termos.

O Manifesto da Poesia Pau-Brasil passará ainda a rediscutir a realidade com uma linguagem novíssima.

E sua importância poderá ser medida por dois grandes fatores.

Primeiramente, pelo fato de que servirá para avançar no terreno da poesia modernista, ao se impor em sua linguagem telegráfica e realizada na forma de aforismas.

O Manifesto da Poesia Pau-Brasil reivindicava uma linguagem natural. E se distinguia por ser avesso ao bacharelismo e ao pedantismo, conclamando por uma originalidade nativa.

Desse modo, observamos o primitivismo como imaginação e liberdade de espírito. Não é difícil ainda perceber, nesse contexto, a junção do moderno e do arcaico brasileiro, culminando com uma revolução artística, de forte inspiração nacionalista2, tendo por base suas raízes primitivas.

Mas não foi só isso.

Igualmente nesse documento já se apresentavam os germes que inspirariam o antropofagismo cultural.

Avançando um pouco mais, é importante registrar que “as metáforas do pau-brasil e da antropofagia são alegorias”.

E que alegorias serão essas?

Seguindo de perto o que analisa Lucia Helena, em Totens e tabus da modernidade brasileira, iremos encontrar o seguinte: são alegorias de uma “relação histórica entre um passado remoto, em ruínas” – o tempo pré-colonial – e um outro presente possível, ‘a utopia de Pindorama’, aquela mesma que o antropófago ‘bárbaro e nosso’ quer construir”.3

E esse discurso aparece em uma outra relação, de natureza paródica, “entre o passado próximo […] e o presente existente”, que Oswald questiona, quer saber mais, por que entende como uma permanência, entre nós, do “discurso cultural, artístico, político e econômico do colonizador”.4

E é exatamente com esse texto, Manifesto da Poesia Pau-Brasil, que começamos essa nossa jornada.

Em breve, esperamos trazer para você, leitor, outros manifestos, artigos, reflexões, trechos de romance, peças de teatro e poesia.

Até!

1 Nunes, Benedito. “Antropofagia ao alcance de todos”. In: Andrade, Oswald. Do Pau-Brasil à antropofagia e às utopias: manifestos, teses de concursos e ensaios. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. xiv.

2 Tome nota para não confundir nacionalismo com patriotada, já nos provocava um outro modernista, Mário de Andrade.

3 Helena, Lucia. Totens e tabus na modernidade brasileira: símbolo e alegoria na obra de Oswald de Andrade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro / Universidade Federal Fluminense, 1985, p. 37.

4 Idem, ibidem.

TEXTO-FIM
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Theotonio de Paiva

Theotonio de Paiva, dramaturgo e diretor de teatro, é doutor em Teoria Literária pela UFRJ.