Em SP, o notável (e desconhecido) cinema das mulheres

Zezé Motta, homenageada pelo Festival, como Dandara em “Quilombo”, direção de Cacá Diegues [1984]

Festival traz saboroso cardápio de produções e expõe desigualdade de gênero no audiovisual. Vale acompanhar a mostra paralela “Lute como uma Mulher”

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Não é só no cinema brasileiro que as mulheres são minoria. Embora tenha havido realizadoras importantes desde a era muda, no mundo todo a direção de filmes ainda é exercida majoritariamente, para não dizer esmagadoramente, por homens. Mas nas últimas décadas, e sobretudo nos últimos anos, uma forte reação feminina tem levado essa situação a mudar. Um sinal animador disso é o FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema, que acontece em São Paulo até o próximo dia 11.

Competição e homenagem

O evento tem uma parte competitiva, com seis longas-metragens concorrentes na seção nacional e outros seis na internacional. Alguns são inéditos, outros foram exibidos recentemente no circuito ou em festivais. Entre os brasileiros na disputa estão, por exemplo, os vigorosos documentários O desmonte do monte, de Sinai Sganzerla, e Baronesa, de Juliana Antunes. O primeiro trata das transformações da paisagem social e geográfica do Rio de Janeiro em torno da destruição do Morro do Castelo; o segundo retrata o dia a dia de mulheres que vivem na periferia de Belo Horizonte e nas bordas das guerras do tráfico.

Na competição internacional, títulos fortes já exibidos por aqui, como Colo, da portuguesa Teresa Villaverde, e Esplendor, da japonesa Naomi Kawase, disputarão, entre outros, com Jovem mulher, da francesa Léonor Serraille, que ganhou a Câmera de Ouro de estreante em Cannes, e Tesoros, da mexicana María Novaro, bem recebido no festival de Berlim do ano passado.

Há ainda duas robustas mostras paralelas. Numa delas, chamada “Lute como uma mulher”, destacam-se obras militantes como Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, e Meu corpo é político, de Alice Riff. Na outra, “O fogo que não se apaga”, brilha o cinema de invenção de realizadoras como Helena Ignez (A moça do calendário) e Paula Gaitán (Exilados do vulcão). A homenageada do evento, Zezé Motta, suscita a exibição do clássico Xica da Silva, de Cacá Diegues.

Ao todo serão exibidos vinte e oito filmes de várias gerações de diretoras brasileiras e estrangeiras, abordando os temas mais variados, dos sem-teto à violência policial, da degradação urbana à crise da família tradicional, da afirmação de gênero aos percalços da política, do desemprego aos desatinos da adolescência. Vê-los em conjunto é uma maneira de constatar que não existe um único “olhar feminino”, mas muitos, tão numerosos quanto são as próprias mulheres. A golpes de coragem e imaginação, elas vão abrindo caminho nessa selva que é o mercado audiovisual. O FIM é só o começo.

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Cachorros

E casualmente uma das estreias mais interessantes da semana é dirigida por uma mulher, a chilena Marcela Said. Seu Cachorros, premiado em Munique e em San Sebastián, é uma abordagem pessoal e original do trauma da ditadura de Pinochet e das cicatrizes que deixou até hoje na sociedade chilena.

Uma sinopse possível: Mariana (Antonia Zegers), uma burguesa de 42 anos, mimada e opiniosa filha de um grande industrial, descobre que seu professor de equitação, um ex-coronel (Alfredo Castro), tem um passado obscuro ligado à repressão política. Ao investigar esse passado, ela coloca em crise suas ambíguas relações afetivas com o marido argentino (Rafael Spregelburd, de O homem ao lado), com o pai magnata (Alejandro Sieveking) e com o próprio professor.

Servindo-se de uma condução narrativa precisa e de um elenco de primeiro nível, a diretora consegue, sem se afastar em nenhum momento do ponto de vista de Mariana (presente em todas as cenas), traçar um quadro complexo das relações sociais e políticas no Chile durante e após o regime militar. Sua proeza maior é manter o tempo todo a opacidade da protagonista, de tal modo que nunca sabemos qual será o seu próximo movimento, nem entendemos plenamente suas motivações.

Os cães que pontuam a narrativa, seja como coadjuvantes domésticos ou como objetos de criação artística (mutilados e empalhados numa exposição macabra ou retratados por Guillermo Lorca no quadro realista “Laura y los perros”), podem ser vistos como símbolos óbvios da voracidade dos opressores civis e militares, mas também como signos mais insondáveis e ambivalentes do desejo, com um arco de conotações que vai do afeto fiel à loucura do instinto. Esse núcleo indecifrável impede Cachorros de cair tanto no drama moral como no panfleto político.

Em tempo: o filme chega a nós poucos dias depois de a justiça chilena determinar a prisão dos responsáveis pelo assassinato do cantor e compositor Victor Jara, ocorrido em 1973, logo após o golpe de Pinochet. Praticamente no mesmo dia, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos “pela falta de investigação, julgamento e punição” dos responsáveis pela morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975, durante a ditadura militar. Dois casos, dois países.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.

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