Obedecer ou dissimular

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Cena de “Jacques e a Revolução” de Ronaldo Lima Lins, em cartaz no Rio

Em certas situações, será preciso dissimular obediência, não por ceticismo ou por desdém, mas para proteger uma – frágil que seja – verdade. Não é fácil

Por Ronaldo Lima Lins


Este é um capítulo do livro “Violência e Literatura”, do autor Ronaldo Lima Lins. Sérgio Nazar David, pesquisador e professor da UERJ, escreveu uma introdução ao texto. Clique aqui para acessá-la.

Leia o perfil de Ronaldo Lima Lins e a resenha de “Jacques e a Revolução”, sua obra em cartaz no Rio

 

TEXTO-MEIO

A mentira produzia verdade? A mentira produzia fartura?
A verdade tornava-se mentira?

Ewelson Soares Pinto, Crônica do valente Parintins

Um dos traços da sociedade em que vivemos foi, talvez, estar, ao longo de séculos, brigando de gato e rato consigo mesma. Sua forma de organização parte de tais premissas que onde parece dizer a verdade, descobre-se a mentira, e, em outras circunstâncias, é a mentira que insinua a verdade. Trata-se de uma característica proveniente, sem dúvida, de alicerces que se plantam nas trevas da nossa história. Daí a extensão em que o exercício de esconde-esconde se estabelece em amplitude internacional.

Países como o Brasil ou que vivem problemas análogos possuem a vantagem, para o analista, de trazerem à tona manifestações que lá fora se situam na latência do sistema ou se mostram apenas sob as lentes do microscópio. É o que faz com que o humor numa região se transfigure em deboche em outra; a tristeza, em melodrama; e assim por diante, em processos de revelação que expõem uma face expressiva nas nações periféricas do Terceiro Mundo.

O jogo de gato e rato se insere na essência da nossa estrutura de comportamento e se perde em camadas de um psiquismo que o Ocidente desenvolve há longa data. Vem dele a violenta guerra conceitual que se trava, ora sob o predomínio de uma verdade, ora de outra, com a massa humana assistindo e refletindo os combates em sua pele, sem possibilidades de lhes alterar o rumo. A luta pelo poder, que se verifica no quadro das idéias, gera uma divisão clara das partes e um dilema: ou mandar ou obedecer.

Mas não se pode mandar fingindo que se obedece e obedecer fingindo que se manda?…

Para examinar de perto o mecanismo desta complexa armadura de ofensiva e defensiva, retomemos, a título de ponto de partida, as palavras de Machiavel, agudo intérprete de uma ciência política que se conserva em dia, pela perspicácia de suas ponderações. Afirma ele, visando o melhor meio de se manter o governo sobre o povo:

“Como os homens marcham quase sempre sobre os caminhos trilhados por outros e procedem em suas ações por imitaçãoi, e como não é possível seguir inteiramente os outros ou igualar o gênio de quem imitamos, o indivíduo sábio deve se engajar no percurso dos grandes homens e imitar os melhores, de maneira que, se seu talento não chega a alcançá-los, guarde com eles, pelo menos, certo parentescoii.”

A “imitação” aparece como uma forma de se garantir o sucesso de um empreendimento e se justifica pela nobreza da causa defendida. É vista por Machiavel como uma inevitabilidade, fórmula que orienta os mais sábios e os menos sábios e, em conseqüência, tem de ser levada em linha de conta qualquer que consista a atitude adotada.

Garante-se uma vantagem imitando-se os grandes homens porque, não obstante falte talento para ombreá-los, o parentesco com eles ocasiona proveito.

A imitação, com efeito, não constitui uma escolha. A sociedade se estrutura sobre esse princípio supremo e o usa para nortear todas as coisasiii. É, portanto, o instrumento que transporta à liberdade e à opressão, perpetua a mediocridade e promove a criatividade, é a mola propulsora da indústria e da arte. Nenhuma reflexão rigorosa sobre o comportamento humano deixou de avaliar o papel que usufrui na definição dos acontecimentos. Quando os positivistas construíram propostas para o progresso social, ressaltaram a escola (a secundária, sobretudo) porque não ignoravam que o ensino organiza o meio ambiente, fortalecendo os alicerces do poder por via da imitação.

Trata-se, como se vê, de um fato não desprezível e de um modo como os homens salientam sua presença na Terra. Imita-se para mandar e se imita para obedecer.

O mesmo Machiavel, entretanto, indica outras regras para a sustentação no poder. Uma delas, afirma, é a dissimulação. Lembra, para tanto, Alexandre VI, pai de Cesar Borgia, papa e arquiteto de um forte estado pontifical. Ele enganava as pessoas com grande habilidade e sempre encontrava um meio de fazer com que lhe acreditassem nas profissões de fé.

“Jamais houve homem que empregasse mais energia em afirmar uma coisa e confirmá-la em seus sermões e que a observasse menosiv.”

Mentia, segundo Machiavel, dando a impressão de que empregava sinceridade – e isso porque conhecia as leis do planeta.

Junto com a imitação, a dissimulação ajuda a manter o controle com relação ao poder. É como ela, porém, um veículo ambíguo, capaz de atender aos apelos da direita e da esquerda, do opressor e do oprimido. Merece, por isso, uma atenção especial.

A dissimulação representa, como outras modalidades de expressão humana, um ardil. Sua utilização calcula superar, pela astúcia, uma corrente contrária que se antepõe aos nossos interesses ou nos ameaça. Os gregos a prezavam entre as qualidades individuais. Supunham que os deuses ou a natureza erguem-se diante dos mortais com uma superioridade desproporcional somente neutralizada pela capacidade que aperfeiçoamos de enganá-los. Num confronto direto, seríamos esmagados…

A aventura de Ulisses com os Ciclopes oferece substância à hipótese, com um saboroso colorido. Homero nos informa que o herói grego se metera numa situação sem saída, preso numa caverna, com o seu grupo, e pronto para virar pastagem para o gigante de um olho só. O ardil de Ulisses, como se recorda, constou de embebedar o Ciclope, cegá-lo e, atado embaixo de uma ovelha, escapar ao exame que, pelo tato, poderia perdê-lo. Há um detalhe significativo: ele diz ao gigante chamar-se Ninguém, razão pela qual, quando acorrem e perguntam ao companheiro se alguém o ameaça, o Ciclope responde: Ninguém! E eles se retiram achando que não há problemav.

O episódio intriga Theodor Adorno em seus estudos sobre a origem da barbárie. Naquele instante, presume, pela trapaça, os homens fundaram a sua posição antagônica frente ao mundo. Contornando os rituais de sacrifício, que os igualavam à natureza, começam o percurso solitário pelo qual chegam à Modernidade. A barbárie se instala quando a vida concentra o alvo da violência.

Cabe afirmar que, no perigo, agimos feito a lagarta que introduz mudanças em seu corpo para dissolver-se no ambiente. A lagarta aplica esta capacidade para proteger-se ou ameaçar. A diferença, observa Roger Cailloisvi, localiza-se na estabilidade do organismo humano. Para disfarçar-se, ele se acrescenta de elementos que não lhe pertencem; “inventa” esses elementos. Não desenvolve asas para voar: constrói o avião. Não lhe cobre um couro para proteger-se do frio: fabrica peles e roupas. E assim por diante. A dissimulação implica um uso extenso e intenso da inteligência. Cumpre notar que a lagarta, em sua metamorfose, assimila-se à natureza para destacar-se dela, garantindo o exercício da vida. As modificações que incorpora denotam um modo de fortalecer o seu próprio eu.

Caillois salienta o respeito demonstrado por várias sociedades ante insetos (cita, em particular, o louva-deus) dotados da misteriosa aptidão da metamorfose. Reconhecem, talvez, a riqueza e as finalidades práticas do recurso. Já os caçadores antigos se protegiam sob outra aparência para aumentar o seu poder de combate. Viam no estratagema um requisito de ordem mágica pelo qual, como as lagartas, destacavam-se da natureza dissolvendo-se nela.

É certo que a dissimulação se torna mais eficiente quanto mais cuidadosamente se fizer. Isto indica que, para enganar, é preciso saber enganar. Verifica-se, então, o verdadeiro jogo de gato e rato mencionado acima. Todos lhe reconhecem o valor desde que o equívoco se consuma do início até o fim. Mentir ostentando que se mente envolve cinismo – algo que a ordem social aceita com muito mais dificuldade. O cinismo pulveriza o manto mágico da sedução. É como se desmontasse a astúcia e desse lugar a um caráter eticamente inaceitável.

Um espaço que se fecha – eis o território fértil para a dissimulação. Quando a linha do círculo se completa, um ar rarefeito asfixia as pessoas com a sensação de que a morte intervém. A energia acumulada pelo estrangulamento rompe a pressão pelo choque das moléculas e escolhe o primeiro apoio ao alcance da mão para escapar. Se a ambição de poder se conserva por trás de tal impulso, o mesmo se pode aceitar em termos de liberdade e da ânsia de recuperá-la. O espaço se fecha no instante em que, uma por uma, vedam-se as saídas de uma aspiração totalizante. A limitação de uma só das qualidades humanas basta para conferir às condições em volta um sinal insuportável.

A transformação do mundo depende de projetos e propostas sérias que viabilizem o ímpeto revolucionário. No entanto, tão logo tais propostas impõem a seriedade em termos absolutos (lembremos Robespierre), desenha-se o círculo e se instala a asfixia. Rapidamente, sente-se que há um erro incompatível com a existência na fórmula em discussão. A seriedade em termos absolutos coincide com o fascismo. Só se difunde (e por pouco tempo) pelo império da força. Isto aconteceu com os aforismos teológicos. As correntes sectárias que encobrem a seriedade em termos absolutos, numa pregação descontraída e ao gosto da época, ampliam o número de prosélitos e fiéis. Trocam o sucesso temporário pela solidez das instituições que se estendem pelos tempos. O riso quebra o elo da seriedade com a dimensão correta da realidade. Fanáticos odeiam o riso e o perseguem porque não desconhecem o trabalho de desmitificação que exerce, comprometendo as bases da fraude na qual se amparam para conservar-se e crescer.

Nos conjuntos sociais, o riso preside o termômetro que nos aponta a saúde ou a doença do estado vigente. O senso comum não o ignora. O governo não subestima, também, o grau de riso com que dosa suas medidas mais ou menos séries, mais ou menos impopulares. Coloca-o, por conseguinte, como prioridade nos seus programas e como arma de conservação do poder. Desapropria do outro essa capacidade, transferindo-a para si. Não lhe assiste passivamente a irrupção. É o seu maestro e o seu condutor. É o Estado quem faz rir. A população explode em gargalhadas através de assaltos hilariantes com os quais festeja, aqui ou ali, eventos que a têm como destinatária. São festas que podem ou não respeitar um calendário preciso. Não importa. Na estratégia da dissimulação ocupam um lugar.

O século 20 se caracteriza, entretanto, pelo grande trânsito que demonstra em particularidades que, por isso, não se ancoram num só dono. O perfil de atitudes que consolidam o poder ressurge onde menos se espera, inclusive na vítima do poder. O fato ocorre porque as nossas sociedades aprenderam enormemente sobre a natureza humana e aplicam os conhecimentos obtidos desvinculando-os de suas funções.

O ardil não serviu apenas a Ulisses para escapar do Ciclope. Serviu, entre outras coisas, para que Homero nos legasse uma obra de substância ao nível da história cultural da humanidade. Não resta dúvida, por outro lado, que, se atende aos interesses do Estado, a dissimulação presta-se, igualmente, a funções mais dignas.

É possível indicar na Arte um reduto nobre do exercício da dissimulação. Mais de uma vez, um escritor passou às gerações futuras narrativas que ficaram graças a ela. Empregando-a com sutileza, escaparam ao crivo de censores ferozes e da opinião conservadora e retrógrada. O Brasil do século 19 fornece um exemplo brilhante em Machado de Assis. A nação, moldada de acordo com o modelo colonial, com uma população reduzida e amesquinhada pelo analfabetismo, alcançou de repente, pela pena do mestre, patamares de amplitude universal. E note-se que o fenômeno se deu (cito Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias póstumas de Brás Cubas como as que melhor explicitam o caso) justamente nas obras nas quais o entendimento oscila de um ponto a outro, incerto quanto ao local onde firmar-se.

Memórias Póstumas… nos traça um panorama de reduzidas proporções, quer pelos personagens, quer pelos dramas que vivem. Tudo parece anão, exatamente como se testemunhava na sociedade fluminense acondicionada no beco sem saída da produção cafeeira e da falta de perspectivas. Não havia o que se chama de Comércio ou de Indústria (em maiúsculas, ambos), de setores, enfim, que criassem uma gama aceitável de oportunidades. Quem quiser que ali residisse devia aceitar que os sonhos não viajassem e que os desejos se pautassem pela modéstia.

Pois, quando o leitor se inclina a rever o roteiro conhecido, eis que o capítulo das negativas o surpreende, insinuando que algo de grande permanece por trás do pequeno. Os sentidos passeiam por uma região de ambigüidade que nos leva a desconfiar do que lemos antes, quase como se nos houvéssemos enganado. A dissimulação se exerce na sua mais alta perspectiva. Torna o romance exequível, na época, e apanha o cidadão desavisado em categorias que o remetem para longe… Entre ser e não ser, Dom Casmurro empreende outra façanha. É assim que o romance machadiano é e não é um romance do Brasil do século 19, o único que pode romper as cadeias do território cerceador de um período de afirmação infantil. Foi a receita que recolheu o escritor dos nossos bairros mais pobres e o transformou numa figura nacional, acima dos preconceitos.

Se a literatura aperfeiçoa os mecanismos da forma, garante o respeito geral, mesmo daqueles dos quais se ri. A ânsia de defender um ponto de vista sério contra a maioria ou contra os limites que nos cercam, falha como o Quixote brandindo armas contra os moinhos de vento. Inúmeros autores nossos caíram em semelhante armadilha, inconformados com o espetáculo que assistiam desenrolar-se diante de seus olhos e impotentes para lhe mudar o ritmo e a velocidade. Alguns, num sucesso parcial, deixaram-nos um documento válido, documentos que, no entanto, fazem mais sociologia, história e economia do que literatura.

Sem lhes diminuir as flagrantes qualidades, entrariam no caso Euclides da Cunha e Lima Barreto, cuja estatura para nós não se sustenta junto a parâmetros universais. A década de 70 produziu lições idênticas. A ditadura não dissimulava ou dissimulava mal e a literatura (com raras exceções) repetiu o erro, tornando-se panfletária ou jornalística. Centrou sua atuação no momento vivido sem se preocupar em transcendê-lo. Hoje relemos com bocejos relatos que na ocasião acompanhávamos assustados e despertos.

É de se imaginar que, na área minada pela dissimulação, o que se lhe meta em campo se dissolva no caldeirão fervente da mentira mais ou menos hábil. Como, porém, se resolve o saber? A manipulação da verdade se sustenta até o instante em que se volta contra si mesma. Se o conhecimento se engana, não é conhecimento… Não se ignora que o poder atualmente se ampara no sabervii. Quanto mais houver saber, mais haverá poder. A perseguição ao saber monopoliza as preocupações nas sofisticadas nações industriais, mais do que o imperialismo territorial, antes praticado, e mais do que o imperialismo financeiro. Impedir que o outro saiba significa impedir que o outro tenha acesso, algum dia, ao poder.

O bloco do Hemisfério Norte deposita, por causa disso, imensos investimentos em instituições de pesquisa e centros de experiência: para desenvolver o que se denominou tecnologia de ponta; saber e poder. Apesar da crise de suas universidades, fruto do choque entre uma filosofia emancipatória (pela qual o conhecimento devia democratizar-se) e as tendências cada vez mais hegemônicas de uma elite fria e realista, entrou em prática um processo de reorganização e readaptação às circunstâncias, à revelia das pressões liberalizantes. Onde não se restabeleceu uma produção confiável ou desejada, esfriaram-se as instituições, mortas pela carência de verbas.

Em contrapartida, esquentaram-se com dinheiro núcleos e escolas isoladas consagradas a pesquisas bem escolhidas. Quem manda no mundo está consciente de que, com o saber, não convém dissimular. Protegê-lo e ocultá-lo, sim; não dissimular. Os cientistas perdem a paternidade do conhecimento na hora em que este entra nos cálculos políticos da tecnocracia dirigente. Aí sim, aconselha-se a mentira. Invenções que servem à guerra introduzem-se na propaganda oficial como conquistas úteis para o bem geral, não se excluindo nem aquelas que aspiram ao holocausto.

Não é, entende-se, pelas trilhas do saber, mas pelos interesses que o rodeiam, como constata Habermasviii, que a manipulação nos atinge.

O Brasil possui, quanto à atividade científica, uma relação de ambigüidade, herança do período colonial e do escravagismo, que a industrialização montada no capital estrangeiro não alterou substancialmente. Entre nós não beira o exagero dizer que o saber até irrita. A vizinhança do Policarpo Quaresma, que não compreendia por que colecionava tantos livros se não era Doutor, continua, em grande medida, sendo a nossa vizinhança. A universidade ocupa, deste modo, constrangida, o espaço que lhe cabe. Luta por um prestígio social que não se materializa, quer entre os funcionários do governo, quer entre a população desinformada e analfabeta, quer entre os setores próprios do cenário acadêmico, onde grassou a dissimulação ou o cinismo.

O pesquisador bem intencionado engrossa as fileiras de um partido político minoritário e fraco, vítima da insensibilidade da burocracia em seus burôs de poder. Para proceder à pesquisa, deve, em primeiro lugar, transformar-se num administrador das normas burocráticas e aprender a contorná-las. Isto lhe custa tempo e energia – e não desemboca, é evidente, na almejada produção. A neurose fiscalizatória da conexão da qual depende simula eficiência despejando-lhe critérios e obrigações que, se mostram serviço, em nada contribuem para a agilidade real do conhecimento. Mede-se a inteligência e sua capacidade criativa pela quantidade e não pela qualidade, o que em si desmascararia a falta de inteligência não fosse o propósito por demais transparente de camuflar a paródia.

E nem vale a pena mencionar o desamparo em que se debatem as ciências humanas, atacadas pela prevenção autoritária que as vê como um foco de irreverência a evitar. Mediam o saber, como se constata, instâncias que o protegem e impedem o seu desdobramento. São instâncias que custam o preço dos sonhos de emancipação nacional e muito dinheiro para sustentá-las.

Vemos que o jogo de gato e rato penetrou na rede circulatória da existência e bombeia o sangue nela contido na direção desejada. É um circo do qual todos participam. Em alguns momentos, sobressai a farsa; em outros, demora-se a percebê-la. O “jeito”, tradicional componente do nosso temperamento, espécie de lado picaresco do brasileiro, estudado por antropólogos e sociólogos, nada mais é do que a dissimulação democraticamente usada pelos vários segmentos da população, porém levada adiante, com criteriosa competência, como um meio de mandar. Configura-se, também, como a única maneira de desobedecer sem incorrer em iras repressivas do aparato policial ou ilegal.

Feito o balanço, para onde se inclina o prato?

Há atos falhos reveladores do dispositivo mental e moral sempre em ação. Um deles salta à memória. Havia em foco o plano econômico posto em vigor em 1986 e já mais do que o fracassado em 87, quando se desmascarou como manobra apenas eleitoral. O Presidente da República, embalado pela retórica da veemência, numa inauguração de interior, transmitida pelos noticiários de TV, ergue o braço e proclama, em tom de ameaça: “O cruzado não morreu! Ele ressuscitará!” Pela primeira vez na história, diante de um público perplexo, um vivo ressuscitaria…

O dilema que passa pelo conflito obedecer ou dissimular possui seus beneficiários e seus feitos às vezes relevantes. Gira em torno da crise. E se mantém como dilema pelo menos enquanto não eclodem impasses mais profundos…

* O artigo “Obedecer ou dissimular” integra o livro Violência e Literatura, de Ronaldo Lima Lins, resultado de sua pesquisa em torno do tema. Foi editado pela Tempo Brasileiro, em 1990.

i O grifo é nosso.

ii MACHIAVEL. Le Prince, Paris, Flamarion, 1984. A tradução é nossa.

iii Vide, a esse respeito, o ensaio anterior, intitulado “A imitação e o sentido da vida”, onde se desenvolve o tema.

iv Novamente nos valemos de uma tradução nossa do texto acima referido de Machiavel.

v Cf. HOMERO, Odisséia, trad. de Antonio Pinto de Carvalho, São Pulo, Difel, 1960.

vi Cf. CAILLOIS, Roger. Méduse et Cie., Paris, Gallimard, 1960.

vii Cf. LYOTARD, Jean-François. O pós-modernismo, Rio, José Olympio Editora, 1986.

viii Cf. HABERMAS, Jürgen. Theory and practice, Boston, Beacon Press, 1974.

TEXTO-FIM
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Ronaldo Lima Lins

Professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ, da qual foi diretor por duas vezes. Poeta, ficcionista e autor de livros filosóficos nos quais elabora reflexões envolvendo cultura, literatura e sociedade. Seus últimos trabalhos no gênero são "Crítica da moral cansada" (2011) e "A Construção e a destruição do conhecimento" (2008), pela Editora UFRJ). Escreveu os romances "A Lâmina do espelho"; "As Perguntas de Gauguin"; "Jardim Brasil: Conto e João, o microscópio e a vida selvagem", este lançado recentemente pela 7 Letras

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