A luta (e a criação) anti-racista vão ao cinema


“O nó do diabo” recria a escravidão e suas sequelas em diferentes momentos históricos. Em “Auto de Resistência”, cinco casos de matança de inocentes disfarçadas de confronto no Rio de Janeiro

Por José Geraldo Couto

Sob qualquer ponto de vista, o traço essencial de nossa formação como sociedade, nosso pecado original, nosso trauma não resolvido, é sem dúvida a escravidão, que imperou oficialmente entre nós por mais de trezentos anos e deixou marcas profundas. Dois filmes em cartaz, um de ficção e um documentário, investigam com brio e vigor essa infâmia histórica e seu legado de segregação e violência nos dias de hoje.

A ficção é O nó do diabo, filme realizado na Paraíba e dividido em cinco episódios dirigidos por quatro cineastas. (Ramon Porto Mota, que concebeu o projeto, assina o primeiro e o último segmentos.) O documentário é Auto de resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho, vencedor do festival É Tudo Verdade deste ano. São, de certo modo, obras complementares, entre as quais se percebe uma incômoda continuidade.

O longa paraibano tem uma construção engenhosa e fecunda. Tudo se passa numa velha casa grande de fazenda e em seu entorno, mas em cinco momentos históricos diferentes, apresentados de trás para frente nos episódios: 2018, 1987, 1921, 1871 e 1818. Gerações de escravos, capatazes e capitães do mato se sucedem ali, mas o dono da propriedade é sempre o mesmo, o autoritário patriarca Vieira (Fernando Teixeira).

O sentido dramático e político do filme está contido em potência no primeiro episódio, ambientado nos dias de hoje, quando todo um bairro pobre (não chega a ser uma favela) ocupa o morro do outro lado da cerca da fazenda, que está praticamente abandonada mas ainda é protegida por um truculento vigia armado (Tavinho Teixeira), a mando de Vieira. A direção ao mesmo tempo segura e sutil de Porto Mota cria uma atmosfera de crescente tensão entre a velha casa senhorial e essa comunidade pulsante, majoritariamente negra, com seus batuques, seus cultos evangélicos, seus meninos jogando futebol, seus jovens curtindo baladas. A violência explode em surtos, como num filme de Sam Peckinpah.

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As marcas no corpo

No segundo segmento, situado em 1987 e dirigido por Gabriel Martins, o drama, o suspense e a brutalidade se concentram nos corpos dos protagonistas. Um casal de jovens trabalhadores (Alexandre de Sena e Clebia Souza) chega à fazenda à procura de emprego. Morando num anexo da casa grande (provavelmente uma antiga senzala), eles literalmente desenterram vestígios do passado: instrumentos de tortura, um feto, ossos, fantasmas. O fantástico se mistura com o orgânico. Se o primeiro episódio nos lembrava Peckinpah, o segundo, talvez o mais forte de todos, nos remete a Cronenberg e David Lynch.

Não cabe descrever um a um os outros episódios. Basta dizer que o ambientado em 1921, com direção de Ian Abé, retrata uma das principais vilezas herdadas da escravidão: o uso de jovens negras como objeto sexual por seus patrões. No de 1871 (significativamente o ano da “lei do ventre livre”), assinado por Jhésus Tribuzi, um escravo foge em busca de um quilombo. É o único segmento que se afasta da fazenda, rumo a uma paisagem magnífica de rochas e cavernas com inscrições rupestres. Com seus planos abertos, majoritariamente diurnos e com luz ocasionalmente estourada, é quase um faroeste de fundo místico.

No episódio final, ambientado em 1818, escravos sobreviventes do massacre de um quilombo buscam refúgio na fazenda, então abandonada. Alojam-se num antigo cemitério de escravos e ficam à espera de seus algozes, numa resistência ao assédio que lembra Assalto à 13ª DP, de John Carpenter, por sua vez inspirado em Rio Bravo, de Howard Hawks. O épico, o místico e o alegórico se misturam no final, com mais uma referência incontornável: os filmes de mortos-vivos de George Romero.

Há aqui um fechamento de círculo e uma inversão: no primeiro episódio são os negros de hoje, descendentes dos escravos, que ameaçam invadir. No último, são os escravos rebelados que resistem à invasão.

O leitor perspicaz deve ter percebido a profusão de cineastas norte-americanos citados aqui como provável inspiração dos jovens diretores de O nó do diabo. Não foi casual: um dos méritos desse filme brilhante e desigual é o de transcender a mera denúncia, trabalhando de modo criativo e transgressor códigos do cinema de gênero. Desse modo, sem perder a contundência, pode potencialmente interessar e entreter todo tipo de espectador. Cabe esperar que encontre seu público nesta terra inóspita que se tornou o circuito exibidor nacional.

Três destaques finais: o ótimo elenco negro de várias gerações (incluindo uma majestosa Zezé Motta no último episódio); a excelente direção de fotografia, que erige com a luz boa parte do suspense e do drama; e o trabalho minucioso de som (ruídos e música), que cria o tempo todo uma ambientação inquietante.

Auto de resistência

Forçando um pouco a barra, poderíamos considerar Auto de resistência uma espécie de continuação, ou de ampliação de escala, do primeiro episódio de O nó do diabo, como se o bairro pobre que cerca a velha casa-grande tivesse crescido até se transformar no arquipélago de favelas que sitiam as “áreas nobres” do Rio de Janeiro.

O vigia da fazenda tem sua continuação, ou seu avatar, no policial militar que vai à favela e, diante de jovens negros, atira primeiro e pergunta depois. Quando constata que o morto não era bandido, forja uma cena de confronto, “planta” uma arma na sua mão e diz que se tratou de legítima defesa. Lavra-se então um “auto de resistência” para justificar o homicídio.

O resumo acima, que evidentemente não contempla as exceções, pode parecer brutal e simplista, mas não está longe da verdade. Auto de resistência, o documentário, mostra isso. Sem locução explicativa, sem entrevistas para a câmera, sem textões, apenas com material “bruto” filmado em manifestações, audiências, julgamentos, velórios, sessões parlamentares e reuniões dos parentes das vítimas, além de imagens de arquivo e de câmeras de vigilância, o filme documenta e contextualiza cinco casos de matanças de inocentes disfarçadas de confrontos.

São episódios estarrecedores, como o da chamada “chacina de Costa Barros”, em que cinco jovens tiveram seu carro alvejado por cento e onze tiros quando voltavam do Parque de Madureira para a sua comunidade. Ou o dos amigos Alan e Chauan, baleados por policiais quando corriam um atrás do outro numa brincadeira de moleques. Alan, de 15 anos, morreu na hora, e Chauan, de 19, vive com uma bala alojada no peito.

Imagens vazadas

Este último caso é emblemático: o que inocentou os garotos e revelou o crime dos policiais foram imagens da câmera da própria viatura em que estavam e do celular dos rapazes atingidos. Em outras duas ocorrências, imagens incômodas foram essenciais para a condenação dos responsáveis. Numa delas, uma moradora filmou com seu celular, escondida, toda a armação de uma cena pelos policiais para forjar um confronto que não houve com um motoqueiro morto a sangue frio.

Mas talvez as cenas mais eloquentes de todo o documentário sejam as filmadas por um policial que participou de uma operação com helicóptero numa favela. O que interessou para o julgamento foi a remoção e disposição dos corpos pelos policiais, mas o que mais impressiona é o ataque aéreo em si. Com um fuzil-metralhadora, dispara-se praticamente a esmo sobre ruas da comunidade, como se se tratasse realmente de uma guerra. Parece uma cena ensandecida de Apocalypse Now ou de Nascido para matar.

Sem essas imagens vazadas por um motivo ou por outro, é praticamente impossível esclarecer as condições dessas mortes: 98% dos inquéritos são arquivados sem solução.

Os dados finais apresentados pelo filme assustam: em 2017 houve no Rio 1.124 “mortos em confronto”. Nos últimos vinte anos foram mais de 16.000 “autos de resistência”.

Mas o documentário não se resume à denúncia. Com extrema habilidade e atenção ao detalhe (a mão da mãe de uma vítima que treme ao tomar um copo d’água, um rapaz sobrevivente de chacina que reza e chora na antessala do tribunal onde prestará depoimento, outra mão de mãe alisando a foto do filho morto impressa na camiseta), alternam-se o quadro geral e o drama singular, o imediato e o permanente. Não se trata de números, papéis, registros, estatísticas, mas de seres humanos únicos, insubstituíveis.

Em torno desses corpos trucidados, dessas mães devastadas, desses processos morosos e complexos, desenha-se uma realidade clara de discriminação e violência social e racial. Como diz uma das mães em uma manifestação: “Esse estado é racista. A Polícia Militar é racista, por mais que a maioria dos policiais sejam negros”. Diante das histórias e dos números, é difícil discordar dela. O mais assustador é ouvir uma advogada de defesa de policiais acusados dizer, textualmente: “O direitos humanos (sic) só se preocupa com o pobre preto da favela, mas quer meter o pau na polícia”. É esse tipo de indigência intelectual e moral que conquistou, lamentavelmente, boa parte da população brasileira, em todas as classes.

Mas ao lado do horror, o filme mostra também o surgimento de movimentos de solidariedade, de mobilização e tomada de consciência. Numa de suas primeiras imagens, entre mulheres que fazem uma manifestação contra a violência da polícia, aparece Marielle Franco, portando um cartaz, animada e combativa no papel de coadjuvante. Ela não está mais entre nós, mas seus assassinos continuam livres e impunes. Sei lá, não custa lembrar.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.

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